Descobri Manu Chao na voz delicada de Adriana Calcanhotto, que regravou lindamente a música Clandestino. E, ao ouvir aquela canção, fiquei fascinado. Logo procurei conhecer o artista e seu repertório. Quando o ouvi, senti que havia ali um artista inquietante, livre e curiosamente íntimo. Era como se sua voz, poesia e musicalidade viessem das esquinas de todo o mundo, mas ao mesmo tempo ecoavam familiares, como se gestadas nas calçadas quentes do meu Ceará. Senti uma identificação imediata. Manu Chao soava-me com toda a vibração latina, também como o sertanejo do Cariri e a gente do litoral de Aracati, embalada pelos mesmos ventos que sopram na Jamaica. Sim, Manu Chao é a cara de Canoa Quebrada.
Sua rapsódia de ritmos lembra-me, de algum modo, a cadência do xote e o forró de Luiz Gonzaga, o eterno Rei do Baião. Tem, ainda, na poesia de suas letras, algo da nossa cultura popular: alegorias parecidas ao nosso folclore, as rimas fáceis dos cordéis declamados, a dolência das cantigas de penitentes e o olhar, enfim, de quem já andou pelas feiras de um mundo árido, gelado, tropical, exuberante e plural.
Foi ouvindo Manu Chao que imaginei jangadas cortando o azul-turquesa do mar de Jericoacoara, as fitas coloridas tremulando no Horto do Padre Cícero, as feiras animadas de Brejo Santo, um voo rasante sobre a Chapada do Araripe. Sua música também é estrada, fé, poeira levantada no sertão, cheiro de café coado no amanhecer e de chuva batendo nas telhas.
Se não nasceu no Ceará, Manu Chao, talvez por vontade do destino, teve um filho cearense, Kirá, reafirmando esse laço invisível, essa irmandade cultural com nossa terra e nossa gente. Como o fruto não cai longe do pé, ou filho de peixe, peixinho é, Kirá demonstra ter herdado o talento musical paterno, apresentando-se ao seu lado, confirmando a bonita herança.
Por tudo isso, Manu Chao há de ser considerado cearense e eu o abraço, como a seu filho, nesta crônica de amigo conterrâneo.
Hérlon Fernandes Gomes
Com a alma em Brejo Santo-CE, 08 de Janeiro de 2025.