A Munganga Promoção Cultural

A MUNGANGA PROMOÇÃO CULTURAL: O Brejo é Isso!

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O último retrato de Dona Balbina


Naquela manhã de setembro, o cheiro das flores do cajueiro entrou primeiro casarão adentro. Veio do quintal, atravessou as portas altas e espalhou-se pelos cômodos antes mesmo que chegassem todas as crianças para mais um dia de aula.

Dona Balbina gostava de manhãs como aquela, temperadas por chuvas extemporâneas. Conhecia também os ruídos: o arrastar dos bancos; o ranger das portas; a algazarra subitamente interrompida quando ela assumia o birô da sala.

Era a bússola e a ordem. A mestra conduzia o som das tabuadas repetidas em coro e dos lápis riscando o papel. Olhava gentilmente para a hesitação da criança diante da primeira palavra lida e, ainda, aquela pequena maravilha que nunca deixava de emocioná-la: o instante em que os sinais escritos deixavam de ser desenhos incompreensíveis e se transformavam em linguagem.

Naquela manhã, entretanto, tudo parecia soar diferente. Era 16 de setembro de 1919.Dona Balbina ia se aposentar.

Vestira o costumeiro preto. Ainda carregava consigo a ausência do irmão, o padre Casemiro Viana, homem culto cuja morte precoce deixara na família um desses vazios que o tempo aprende a contornar, mas nunca consegue preencher inteiramente. Só abria exceção ao luto no 13 de maio, pela Virgem Santíssima, por quem vestia branco.

Aos 56 anos, seus cabelos já estavam completamente embranquecidos e repartidos ao meio. Por trás dos óculos de grossas lentes, os olhos azuis percorriam demoradamente as salas. Não olhava apenas paredes, portas, móveis. Olhava o tempo.

Quantas crianças haviam passado diante daqueles olhos? Quantas mãos pequenas aprenderam a desenhar letras sob sua orientação? Uma palavra aprendida nunca era apenas uma palavra. Era uma porta. E Balbina passara a vida abrindo portas. Talvez por isso aquele casarão tivesse tantas.

O prédio conservava a aparência das construções novas. O sol do sertão batia sobre as cores da fachada e fazia sobressair os verdes, os amarelos claros e o branco. Cinco grandes portas verdes voltavam-se para a rua, encimadas pelos arcos trabalhados e pela delicadeza dos relevos. Acima deles, a fachada clara subia até os ornamentos e a balaustrada.

Pelas portas entravam crianças diferentes umas das outras. E isso agradava a Balbina.

Havia filhos de famílias conhecidas e crianças de famílias pobres. Meninos e meninas. Crianças brancas, negras, mestiças. Algumas chegavam cuidadosamente vestidas; outras traziam na roupa a simplicidade de suas casas. Havia pés calçados e pés acostumados diretamente à terra. Mas, diante das letras, pensava Balbina, não deveria existir nascimento mais importante que outro. A escola precisava ser assim: uma casa onde as diferenças entrassem pela porta, mas não determinassem quem teria direito ao conhecimento.

Naquele dia, porém, as lições não seguiram inteiramente a rotina. Havia uma inquietação no ar. Correra entre os alunos a notícia de que seria feito um retrato de todo mundo.

A chegada do fotógrafo Basílio Neto alterou imediatamente a ordem da casa-escola. As crianças queriam ver o equipamento. Os menores se aproximavam até que algum adulto os mandasse recuar. Os maiores fingiam indiferença, embora observassem cada movimento. Para muitos deles, aquela máquina era quase um objeto fantástico.

O retratista escolheu o lugar. A fachada inteira deveria aparecer. Começou então uma pequena batalha contra a desordem infantil. Os mais altos para trás. Os menores na frente. As meninas ajeitavam os vestidos umas das outras. Uma professora alisava com a palma da mão o cabelo de uma criança. Um menino era chamado novamente porque saíra do lugar. Outro olhava fixamente para o aparelho fotográfico, tentando compreender de que maneira uma caixa poderia aprisionar pessoas dentro de uma imagem.

Balbina observava tudo. Talvez tenha sorrido. Talvez não. As fotografias daquele tempo exigiam solenidade, e a própria vida lhe ensinara certa austeridade. Mas havia ternura naquele olhar. Entre aquelas crianças estavam anos de sua existência.

Quando finalmente pediram que ocupasse seu lugar, Balbina caminhou para o centro. Apoiava-se na bengala. O vestido negro descia severamente até os pés. O luto por Casemiro fazia com que sua figura se destacasse entre as roupas claras das crianças.

Abriram espaço para ela. Balbina ficou entre os alunos. Não à frente deles, como quem deseja ser homenageada. Entre eles. Ali era o seu lugar. Balbina estava certa de que ninguém ensina sozinho. Um professor continua existindo naquilo que os alunos fazem com o que aprenderam.

Basílio pediu que as crianças ficassem imóveis. Foi um pedido quase impossível. Um último cochicho percorreu a fileira. Uma criança riu. Balbina olhou para a máquina e pensou no futuro.

Não sabia como seria Brejo dos Santos dali a cinquenta anos. Muito menos dali a cem. Não poderia imaginar suas ruas crescendo, as casas avançando, as distâncias diminuindo, novas escolas surgindo, gerações inteiras caminhando sobre aquela mesma terra. Mas sabia uma coisa: Nenhuma sociedade cresce verdadeiramente se não fizer da educação um compromisso. 

Balbina olhou novamente para aquelas crianças e orou para que Brejo Santo não se esquecesse disso: Que cresça! Que prospere! E que, sempre que tenha de escolher onde colocar suas esperanças, escolha uma escola. Porque um lugar que investe em educação não constrói apenas o presente, constrói pessoas capazes de imaginar um futuro que ainda não existe.

Basílio Neto desapareceu atrás da máquina.  Pediu mais uma vez: Ninguém se mexa!

O sertão ficou imóvel. O casarão ficou imóvel. Dona Balbina ficou imóvel. E o tempo abriu os olhos. Então, finalmente, o casarão silenciou diante da pequena explosão do flash de pólvora.

Mais de um século se passou. Brejo Santo cresceu. A vila tornou-se cidade. As ruas se alargaram. Novas escolas abriram suas portas. Gerações chegaram e partiram. Muitos daqueles meninos e meninas aprenderam, ensinaram, constituíram famílias e ajudaram a construir a cidade que viria depois deles.

De alguma maneira, portanto, a esperança de Balbina não foi em vão.

Brejo Santo caminhou. E continua caminhando. Mas todo caminho cobra, de quem avança, o cuidado de não perder de vista o lugar de onde partiu.

Os meninos e meninas daquele retrato envelheceram. Tiveram filhos. Alguns partiram para longe. Outros permaneceram. Um a um, desapareceram. Também Dona Balbina partiu assim como o velho casarão tombou, engolido pela especulação imobiliária.

Em 2026, quem passa por aquela rua já não encontra as cinco portas verdes, os arcos trabalhados nem a balaustrada recortando o céu. A rua está tomada de funerárias, que se aproveitam da proximidade da Matriz para exercer seu agourento e necessário ofício. Incongruências do progresso...

Onde existiu a escola há, agora, um chão vazio. Mas vazio é uma palavra perigosa, pois há lugares que permanecem habitados mesmo depois que suas paredes desaparecem. Continuam ocupados pelas vozes que ali ressoaram, pelos passos que atravessaram suas salas, pelas crianças que aprenderam suas primeiras letras e pelos sonhos daqueles que acreditaram que ensinar era uma forma de construir o futuro.

Talvez seja essa a última lição de Dona Balbina: Uma cidade não é feita somente daquilo que constrói. É feita também daquilo que decide não esquecer.

Brejo Santo avançou. Há muitas escolas, professores, estudantes, livros, homens e mulheres que, de tantas maneiras, continuam repetindo o gesto daquela velha mestra diante de uma criança: abrir uma porta para o conhecimento.

Estamos no caminho. Que não nos esqueçamos de que nenhum progresso estará completo se, na pressa de chegar ao futuro, apagarmos as pegadas daqueles que primeiro caminharam em sua direção.

Honrar D. Balbina não significa apenas conservar seu nome. Significa compreender o que sua vida representou e continuar acreditando numa escola capaz de reunir diferentes, enfrentar desigualdades e oferecer a todos, independentemente da origem, a possibilidade de aprender. 

Porque memória também se ensina. E uma sociedade só se torna verdadeiramente grande quando aprende a reconhecer aqueles sobre cujos ombros conseguiu enxergar mais longe.

O futuro que Balbina talvez tenha imaginado diante da máquina de Basílio Neto finalmente chegou. Somos nós.

E, diante daquela fotografia centenária, já não cabe perguntar apenas o que fizemos com a escola de Dona Balbina. Talvez seja preciso perguntar também: O que faremos com a memória que ela nos deixou?

A resposta ainda está sendo escrita. Nas escolas. Nos livros. Na memória dos mais velhos. Nas crianças que hoje aprendem suas primeiras palavras. Em cada pessoa que se recusa a permitir que o tempo transforme em esquecimento aquilo que foi fundamento.

Enquanto Brejo Santo souber de onde veio, aquelas cinco portas continuarão abertas. E, do outro lado delas, uma velha professora de olhos azuis ainda nos observa, cercada de crianças, enquanto Basílio Neto se prepara para fazer o retrato.

É 16 de setembro de 1919. Ninguém se mexe. Por um breve instante, passado e futuro olham um para o outro. E Brejo Santo inteiro cabe dentro de uma escola.

Hérlon Fernandes Gomes.

Brejo Santo-CE. 25 de Agosto de 2026.


A imagem foi construída com IA a partir de uma fotografia original de uma das turmas de alunos e alunas da Escola de Balbina.



segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Sinhá Martins, Senhora da Cachoeirinha e a butija perdida

SINHÁ MARTINS E MAJOR FIRMINO 


A história do sertão é também a história de mulheres que souberam se impor num mundo áspero, onde a força nem sempre vinha dos braços, mas da firmeza do caráter. Mulheres que ganharam fama pela perseverança, pelo tino político, pela resistência silenciosa e, muitas vezes, pela dureza necessária à sobrevivência. Nomes como dona Fideralina Augusto, de Lavras da Mangabeira, e Marica do Tipi, de Aurora, atravessaram o tempo não por estarem à sombra de homens, mas por construírem, com autonomia e coragem, o próprio protagonismo.

Em Brejo Santo, mais precisamente nas terras da Cachoeirinha, um nome se ergue com igual força e singularidade: Maria Martins Cardoso, conhecida por todos como Sinhá Martins. Herdeira de vastas posses, de terras sem fim e de numeroso gado, Sinhá trazia no sangue uma linhagem antiga, transmitida desde seu tetravô, o capitão Bartolomeu Martins de Morais, português nascido em 1729, no Concelho e Distrito do Porto, em Portugal. Era desse passado remoto, feito de heranças e decisões, que nascia a mulher cuja história o sertão jamais esqueceria.

O sertão não nasce manso. Brejo Santo era chão de espinhos, mas também de promessas, e Sinhá Martins aprendeu cedo que a terra só obedece a quem sabe mandar.

Filha do Cariri, nascida em 31.07.1900, criada entre rezas e contas feitas de cabeça, Sinhá tinha o olhar firme das mulheres que não pedem licença. Não era alta nem frágil, mas trazia nos gestos uma economia de movimentos que denunciava mando. Falava pouco, decidia rápido. Desde moça, entendia de gado, de roça, de gente. E gente, no sertão, é o mais difícil de lidar.

Aos dezoito anos decidiu que precisava se casar, porque assim era o destino de toda mulher. Queria ter filhos, uma casa só sua. Em 1918, na vizinha cidade de Milagres, durante a missa solene da festa de Nossa Senhora dos Milagres conheceu seu pretendente. A igreja estava cheia, abafada, o cheiro de vela misturado aos incensos. Os olhos azuis do Major Firmino Inácio encontraram os dela. Sinhá não desviou. Gostou. Não do homem apenas, que era belo, mas do que ele representava: filho do Major Zé Inácio, de Barro, nome pesado, dono de terras, padrinho de cangaceiros, senhor de silêncios, de favores e muito poder.

O casamento não tardou. Em janeiro de 1919, uniram-se na Capela de Senhora Santana, na Cachoerinha, em Brejo Santo, num enlace grandioso, com festa de três dias. 

Após o matrimônio, o casal passou a viver no Sítio Angico, em terras pertencentes ao pai de Sinhá, o senhor Antônio Martins. Pouco depois, Sinhá decidiu adquirir as terras do Sítio Cachoeirinha, compradas de um tio da própria Sinhá, Dezinho Cardoso. Foi ali que fincaram a raiz. A Fazenda Cachoeirinha tornou-se morada e centro de vida comunitária, lugar de trabalho, fé e acolhimento. Para o novo lar, Firmino levou o sobrenome e a patente - nem uma agulha; Sinhá levou dinheiro, tino e futuro. 

A propriedade era uma fazenda grande, espraiada entre Brejo Santo e o Pajeú pernambucano, onde o Riacho dos Porcos corria preguiçoso no inverno e se escondia no verão, como tudo no sertão.

Em 29 de novembro de 1919 nasceu o primeiro e único filho biológico do casal, Antônio Martins de Sousa. Mais tarde pegou Indé para criar, como se filho fosse.

A geografia ali ensinava resistência. A terra era pedregosa nas beiradas, mas fértil nos baixios. Crescia milho grosso, feijão de arranca, mandioca boa de farinha. O pasto sustentava boi e esperança. Ao redor, a Serra da Canabravinha se levantava áspera, vestida de xique-xique, jurema, macambira, guardando segredos antigos que nem o sol arrancava. Nos tempos coloniais, ali foi esconderijo de cangaceiros, a exemplo do temido João Calangro.

Sinhá governava sem precisar do aval do marido. Firmino aceitava. Não era Sinhá do major Fimino, mas o major de Sinhá. Todos sabiam que ali a ordem vinha dela. Era Sinhá quem decidia a plantação, quem distribuía tarefa, quem cobrava dívida. Produziam queijo, cereais, hortaliças. Um exército de moradores trabalhava aquelas terras, gente que devia mais à palavra de Sinhá do que a qualquer contrato escrito.

Sinhá fez da Festa de Nossa Senhora de Santana um marco anual. Gente vinha de longe. Havia missa, comida farta, promessa paga, sanfona, parque de diversões e silêncio respeitoso. Fé, para Sinhá, não era enfeite. Era estrutura.

Gostava de ouro, sim, mas não de ostentação. Usava pouco. Guardava muito. Ao longo da vida, especialmente pelos presentes da prima rica, Maria Pia, foi juntando cordões, anéis, brincos, pedras que brilhavam como olho de cobra no escuro. Ouro não era vaidade. Era garantia. Ouro não apodrece, não foge, não trai.

Em 1925, quando Lampião passou pela região e procurou o major Firmino pedindo ajuda para compra de armas, o sertão inteiro estremeceu. Sinhá não confiava em cangaceiro, por mais protegida que fosse. Medo não tinha, mas prudência sim. Foi aí que nasceu a butija.

Enterrou o tesouro pela primeira vez numa noite sem lua, em lugar que só ela sabia. Marcou tudo na cabeça. Um mapa feito de pedras, árvores tortas, sombras específicas. Ao longo dos anos, desenterrou e enterrou de novo, mudando o esconderijo conforme mudava o mundo. A serra, o quintal, o curral, a beira do riacho seco. A butija andava com Sinhá.

Anos mais tarde, já no final da década de 30, o truculento cangaceiro Moreno esteve pelas redondezas, nos rumos da Capoeira do Cão, fazendo arruaças e intimando os moradores. Sinhá resolveu mudar a butija de lugar. Nessa época, o tesouro havia crescido e seu valor era inestimável.

Pedro, seu sobrinho, criado como filho naquela casa grande, contou que a surpreendeu com o ouro espalhado sobre a cama. As joias faiscavam, refletindo nos olhos dela uma luz quase febril. Sinhá mandou fechar a porta. Disse apenas:

 — Meu bem, isso aqui não é coisa de se ver.

Chamava todos assim: meu bem. Mas ninguém se enganava. Quando ia à cidade, montada a cavalo, cobrar aluguéis na Rua Velha de Brejo Santo, os devedores tremiam. Dia marcado era dia marcado. Não pagou, despejo. Sem drama. Sem escândalo. Lei cumprida.

Católica fervorosa, não perdia missa. Na fazenda ou na sede do município. Ajoelhava-se com a mesma firmeza com que mandava arrancar roça ou vender boi. A moral de Sinhá era maior que a patente do marido. O que ela dizia, ficava dito.

Morreu como viveu: enfrentando. Em 26.06.1971, em plena luz do dia, dia de feira, na Rua Velha, alguém sacou uma arma para atingir Antônio Martins, seu único filho. Sinhá não pensou. Avançou. O tiro foi nela. Caiu ali mesmo, no chão quente, diante do povo. Morreu defendendo o que mais lhe tinha valor.

A butija nunca foi encontrada.

Dizem que ainda está enterrada em algum ponto das Serras da Canabravinha e do Poço do Pau, terras suas, guardada pela vegetação dura, pelo silêncio antigo, pelo pacto invisível entre a mulher e a terra. Outros juram que Sinhá levou o segredo consigo, como quem fecha a última porta antes de sair.

No sertão, certas riquezas não foram feitas para serem desenterradas. Foram feitas para virar lenda, como Sinhá foi.


Hérlon Fernandes Gomes

Brejo Santo-CE, 05 de Janeiro de 2026.

Para o Sr. Pedro da Fazenda, sobrinho de Sinhá Martins e seu homem de confiança, desde rapazote. É um exímio contador de histórias. Na década de 1960, já era ele quem organizava a festa de Senhora Santana, com o mesmo rigor que aprendera na lida da fazenda. Sinhá cuidava da parte social e espiritual como quem governa um território sagrado. Pedro executava. Sem vaidade. Sem atraso. No ano de 2024, Pedro da Fazenda recebeu da Secretaria de Cultura de Brejo Santo o título de Mestre da Cultura, justamente pelo legado de cidadão imbuído em relevantes práticas culturais.


Pedro da Fazenda e o autor Hérlon Fernandes Gomes

Os restos mortais de Sinhá Martins, Major Firmino e Antônio Martins, na Capela da Cachoeirinha.



sábado, 10 de maio de 2025

QUEM FORAM OS AUTORES DAS PINTURAS RUPESTRES NA PEDRA DA LETRA?

 

Créditos: Pedra da Letra - Comunidade do Facebook


Essa pergunta — ou melhor, sua resposta — desafia o consenso atual sobre o povoamento das Américas. Aprendemos na escola que o homem migrou da Ásia para as Américas entre 8 e 10 mil anos atrás, através da América do Norte, pelo estreito de Bering, seja utilizando embarcações primitivas ou mesmo andando sobre o gelo que ligava os dois continentes durante a era glacial (sim, ainda estamos em uma era glacial).

Por incrível que pareça, essa teoria data do século XVI, proposta por José de Acosta em 1590. Ela ganhou força em 1930 e foi retomada nos anos 1970, tornando-se praticamente unânime entre os historiadores desde então.

A partir da década de 1970, apenas cogitar a possibilidade de outra forma de entrada nas Américas — ou mesmo questionar a data de 13 mil anos — era considerado uma ofensa.

Porém, pesquisas realizadas pela renomada arqueóloga Niéde Guidon, na Serra da Capivara, no estado do Piauí, ainda nos anos 1970, trouxeram à tona novos fatos acerca desses povos.

Atraída pela maior coleção de pinturas rupestres do mundo, a pesquisadora decidiu aprofundar seus estudos e realizou escavações em vários pontos-chave da extensa área que, graças a seus esforços, foi transformada no Parque Nacional da Serra da Capivara, instituído em 1979.

Essas buscas culminaram na descoberta de dezenas de artefatos pré-históricos — como pontas de lança, cerâmicas, machados — e até dois esqueletos humanos datados de aproximadamente 12 mil anos.

Mas não parou por aí. Quanto mais se escavava, mais antigos eram os achados, chegando a incríveis 50 mil anos, comprovados por meio das técnicas científicas de datação por radiocarbono e termoluminescência (TL).

É importante destacar que as pinturas rupestres possuem entre 6 e 12 mil anos. Apenas as fogueiras e os artefatos encontrados nas escavações possuem datas mais antigas.

Mas o que as pinturas rupestres da Serra da Capivara têm a ver com a nossa Pedra da Letra, em Mauriti-CE?

Tudo!


Ambas estão localizadas no continente sul-americano, no Nordeste do Brasil, relativamente próximas (cerca de 500 km de distância), e apresentam a mesma composição de matéria-prima utilizada na tinta: ocre, óxido de ferro, entre outros.

Que fique claro: essas não são manifestações artísticas dos povos indígenas que reconhecemos como legítimos habitantes da região, mas sim de um povo — ou povos — anteriores.

O Ceará era ancestralmente habitado por povos indígenas dos troncos Tupi (Tabajara, Potyguara, Tapeba, entre outros) e Jê (Kariri, Inhamum, Jucá, Kanindé, Tremembé, Karatius, entre outros). E, como já foi dito, é fato que não foram esses povos os autores das obras em questão.

Então, quem seriam?

Padrões semelhantes aos nossos são registrados em outros continentes, como África e Ásia, e ainda em países das Américas, como Argentina, México e Estados Unidos. Eles datam, em sua maioria, do mesmo período: entre 6 e 13 mil anos, quase como se fosse um costume ou uma vocação desses povos.



Seria um equívoco atribuir a um único povo a autoria dessas obras. Sabe-se que foram feitas por paleoíndios, possíveis ancestrais dos povos indígenas conhecidos. Alguns autores arriscam sugerir grupos como Kaingang, Xokleng, Guarani, entre outros, como possíveis responsáveis.

Entretanto, não encontrei, entre esses autores, estudos ou artigos científicos que tornem essas teorias fatos. Afinal, um mesmo povo compartilha uma língua, cultura, história e características físicas. Como pode alguém afirmar que se trata dos mesmos povos de 12 mil anos atrás, se, ao longo dos milênios, nenhum povo da Terra permaneceu o mesmo? Todos se fundem, se dividem, se adaptam — e, assim, originam novos grupos.

A resposta para o título deste texto é: ainda não sabemos.

Faltam estudo, pesquisa, interesse, curiosidade e vontade.

O objetivo deste artigo, além de informar, é provocar, instigar e, definitivamente, estimular o leitor à evidente reflexão que ele propõe.

José Sávio Martins Sampaio Filho
Mauriti - CE
07/05/2025

Fontes consultadas:

- Guida, Victor. A ocupação do continente americano à luz dos novos dados genéticos e o sensacionalismo midiático. Arqueologia e Pré-História, 9 de novembro de 2018.

- Leite Neto, João. Índios e Terra - Ceará: 1850-1880.

- Pivetta, Marcos. Niéde Guidon: uma arqueóloga no sertão. Revista Pesquisa FAPESP.

- Tommasino, Kimiye. Povos indígenas no Brasil: Kaingang.

quarta-feira, 19 de março de 2025

O MASSACRE INDÍGENA DA SERRA DA CANABRAVINHA

Serras da Canabravinha e do Poço
Serras da Canabravinha e Poço - Foto do autor.

De qualquer ponto de Brejo Santo, no Ceará, observam-se, a leste, as imensas serras da Canabravinha e do Poço, como um gigantesco cágado - casco e cabeça, por trás de onde o sol nasce, trazendo os primeiros raios de sol para as planícies alagadas. 

Região remota e envolta em mistérios, a Serra da Canabravinha é um local marcado por histórias que transitam entre o real e o lendário. O relevo acidentado, coberto por uma vegetação densa e cortado por trilhas sinuosas, abriga segredos há muito esquecidos. Seus caminhos foram percorridos por tropeiros, fugitivos e aventureiros, todos em busca de um destino que, muitas vezes, se perdia na imensidão da paisagem.

A vegetação típica da caatinga, com suas canabravas esguias e resistentes, empresta seu nome ao lugar. A flora e a fauna da região resistem bravamente ao tempo e às transformações impostas pelo homem. Há quem acredite que a serra esconde grutas e cavernas onde foram guardados segredos dos tempos coloniais, talvez até mesmo tesouros que nunca foram encontrados.

Nas noites de lua cheia, dizem os mais antigos que é possível ouvir ecos de vozes vindas das profundezas da serra. Alguns juram serem espíritos errantes dos Calangros e Quirinos, bandidos cangaceiros que fizeram fama ali, durante o Império. A verdade, essa senhora virtuosa, se esconde nas brumas que pairam sobre aquelas montanhas ao amanhecer.

Entre os relatos populares, destaca-se a história de um grupo de vaqueiros que teria desaparecido ao tentar atravessar a serra em busca de reses desgarradas. Seus cavalos foram encontrados dias depois, exaustos e sem sinais dos donos.

Nesse tempo, diversos grupos indígenas habitavam o sertão nordestino. Entre eles, os índios Kariri e os Tarairiú (ou Tarairiús). Os Tarairiú, em particular, eram compostos por várias tribos nômades conhecidas por sua resistência à colonização e por práticas culturais que, aos olhos dos colonizadores, eram consideradas violentas. Relatos históricos mencionam que algumas dessas tribos praticavam o canibalismo ritualístico, o que contribuiu para sua reputação de ferocidade.​

Acredita-se que esses indígenas viviam isolados do restante do mundo e realizavam rituais macabros, caçando e devorando aqueles que ousavam invadir seu território. Exploradores e caçadores que se aventuraram por essas terras juram ter encontrado vestígios de fogueiras rodeadas por ossadas humanas e símbolos desconhecidos esculpidos nas pedras. 

Dança dos Tarairiú, por Albert Eckhout (séc. XVII)

Houve, portanto, um tempo em que a Serra da Canabravinha escondia mais do que seus segredos geológicos e suas formações rochosas misteriosas. Entre suas fendas e veredas, histórias de sangue e resistência estão gravadas no solo seco e castigado pelo sol inclemente. 

O padre João Alboíno Pequeno, que andara por aquelas bandas de Brejo Santo, abrigando-se sob o pseudônimo de Abelardo Parreira, reuniu diversas histórias sobre esse tempo, intitulando o livro de "Sertanejos e Cangaceiros". Nele, há o registro de um dos mais violentos confrontos entre brancos e indígenas naquela terra de extremos.

Tudo começou com o desaparecimento daqueles vaqueiros, fiéis servidores do temido coronel Manoel Gomes Pereira. No distante ano de 1833, os homens sumiram sem deixar rastros enquanto tocavam o gado pelas encostas da serra. As suspeitas recaíram de imediato sobre os Tarairiú, os donos primordiais daquelas terras, cuja fama os precedia: eram bravos, ferozes e, segundo os relatos de viajantes amedrontados, praticavam ritos de antropofagia. O desaparecimento dos vaqueiros foi o estopim de um conflito que já fervilhava.

Sertanejos e Cangaceiros - Abelardo Parreira - 2ª Edição. Organização: Adriano de Carvalho Duarte

O coronel, homem forjado no calor do sertão e no gosto pelo domínio, não tardou em agir. Reuniu uma bandeira de homens, sertanejos calejados e pistoleiros de confiança, armados até os dentes com seus bacamartes, facões afiados e pólvora suficiente para uma guerra. O objetivo era claro: varrer os Tarairiú da face da terra.

A batalha se deu entre os recortes pedregosos da serra, onde o eco dos estampidos misturava-se aos gritos de dor e fúria. Os indígenas, mesmo em desvantagem numérica e bélica, não cederam sem resistência. Vinham das sombras, rápidos como o vento que cortava as grotas, disparando suas flechas certeiras e envenenadas, manejando zarabatanas que lançavam dardos silenciosos, letais. De corpos pintados para a guerra, olhos flamejantes e lanças afiadas, embrenhavam-se entre a vegetação, aparecendo e desaparecendo como fantasmas da terra.

Do outro lado, os homens do coronel disparavam sem hesitação, cada tiro, um trovão no meio da serra; cada chumbo ceifando vidas indígenas. O chão, antes seco, agora bebia o sangue dos combatentes, formando poças escarlates entre as pedras e os galhos quebrados. O ar cheirava a pólvora e carne queimada.

A luta se arrastou por dias, o massacre desenhando-se inevitável. Por mais que resistissem, os Tarairiú foram sendo abatidos um a um, até que, enfim, restavam apenas corpos espalhados pelo campo de batalha. Desde o ancião pajé até a mais tenra criança. O derradeiro golpe da guerra foi impiedoso: um extermínio, uma chacina. Quando o silêncio enfim se fez, o vento soprou pelas fendas da serra como um lamento de almas inquietas.

O coronel Manoel Gomes Pereira sobreviveu por um fio. Durante o combate, uma flecha atravessou-lhe o tronco, deixando-o à beira da morte. Diz-se que o ferimento o acompanhou pelo resto da vida, como uma lembrança indelével da carnificina que ele mesmo orquestrara. Mas ele viveria, para contar a história a seu modo, a dos vencedores, enquanto os Tarairiú, vencidos, tinham sua história dissolvida na poeira do tempo e no esquecimento cruel do sertão.

Hérlon Fernandes Gomes

Brejo Santo-CE, 19 de Março de 2025.






quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

MANU CHAO, CEARENSE POR DESTINO


Descobri Manu Chao na voz delicada de Adriana Calcanhotto, que regravou lindamente a música Clandestino. E, ao ouvir aquela canção, fiquei fascinado. Logo procurei conhecer o artista e seu repertório. Quando o ouvi, senti que havia ali um artista inquietante, livre e curiosamente íntimo. Era como se sua voz, poesia e musicalidade viessem das esquinas de todo o mundo, mas ao mesmo tempo ecoavam familiares, como se gestadas nas calçadas quentes do meu Ceará. Senti uma identificação imediata. Manu Chao soava-me com toda a vibração latina, também como o sertanejo do Cariri e a gente do litoral de Aracati, embalada pelos mesmos ventos que sopram na Jamaica. Sim, Manu Chao é a cara de Canoa Quebrada.

Sua rapsódia de ritmos lembra-me, de algum modo, a cadência do xote e o forró de Luiz Gonzaga, o eterno Rei do Baião. Tem, ainda, na poesia de suas letras, algo da nossa cultura popular: alegorias parecidas ao nosso folclore, as rimas fáceis dos cordéis declamados, a dolência das cantigas de penitentes e o olhar, enfim, de quem já andou pelas feiras de um mundo árido, gelado, tropical, exuberante e plural.

Foi ouvindo Manu Chao que imaginei jangadas cortando o azul-turquesa do mar de Jericoacoara, as fitas coloridas tremulando no Horto do Padre Cícero, as feiras animadas de Brejo Santo, um voo rasante sobre a Chapada do Araripe. Sua música também é estrada, fé, poeira levantada no sertão, cheiro de café coado no amanhecer e de chuva batendo nas telhas.

Se não nasceu no Ceará, Manu Chao, talvez por vontade do destino, teve um filho cearense, Kirá, reafirmando esse laço invisível, essa irmandade cultural com nossa terra e nossa gente. Como o fruto não cai longe do pé, ou filho de peixe, peixinho é, Kirá demonstra ter herdado o talento musical paterno, apresentando-se ao seu lado, confirmando a bonita herança.

Por tudo isso, Manu Chao há de ser considerado cearense e eu o abraço, como a seu filho, nesta crônica de amigo conterrâneo.

Hérlon Fernandes Gomes

Com a alma em Brejo Santo-CE, 08 de Janeiro de 2025.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

O PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO DE BREJO SANTO: DA VILA À CIDADE E A EVOLUÇÃO DE SUA IDENTIDADE TERRITORIAL NO CONTEXTO DA LEI Nº 448, DE 20 DE DEZEMBRO DE 1938

 


Decreto-lei n. 448, de 20 de dezembro de 1938. Limites inter-municipais e inter-distritais em que se baseia o quadro territorial-administrativo judiciário e policial do Estado. - IBGE.


    Durante o período imperial e o início da Primeira República no Brasil, as localidades designadas como "vilas" e "cidades" seguiram conceitos distintos, cujas origens remontavam ao sistema administrativo português e às práticas coloniais. A designação de “vila” representava o primeiro estágio de autonomia administrativa, que precedeu o reconhecimento como “cidade”. Este processo implicou um desenvolvimento institucional progressivo até alcançar o título de cidade, associado a um grau mais elevado de importância socioeconômica e política.

    No Brasil colonial, as vilas eram condicionais como unidades administrativas que serviam como centros de controle e jurisdição das capitanias, possibilitando o desenvolvimento local sob a supervisão da Coroa portuguesa. A criação de uma vila implicava a instalação de uma Câmara Municipal e a concessão de autonomia para a gestão de questões locais, como a aplicação de tributos e a administração de terras. Este modelo continuou durante o período imperial (1822-1889) e até o início da República (a partir de 1889), e foi sob esta tradição que Brejo Santo foi instituída como vila pelo Decreto n.º 49, de 26 de agosto de 1890. Antes disso, o núcleo urbano foi reconhecido pela primeira vez como "Brejo dos Santos" pela Resolução nº 1023, de 14 de novembro de 1862, com a criação do Distrito de Paz de Brejo dos Santos, um ato que marcou o início da transformação de uma área rural para um espaço urbano organizado.

    Antes da oficialização, as terras que formariam Brejo Santo já tinham sido designadas com diferentes nomes: Brejo do Barbosa, Brejo da Barbosa, Brejo de Francisco Pereira, Brejo e Nascença. Estes nomes refletem a história dos proprietários e as características locais anteriores à formalização administrativa. Sob o ponto de vista histórico, essa pluralidade de nomes documenta as diversas fases de ocupação e de uso do território, que então se consolidaria sob o nome “Brejo dos Santos” antes de se tornar “Brejo Santo”.

    A passagem de vila para cidade no Brasil republicano foi mais simbólica do que funcional, mas representava uma formalização da importância de determinadas localidades. No final do século XIX, com o advento da República, o termo "cidade" passou a estar associado a um grau de maior relevância política e econômica, representando um sinal de desenvolvimento urbano e de prestígio administrativo. No entanto, isso não implicava necessariamente uma alteração substancial no papel administrativo dessas localidades. Sob a perspectiva científica e histórica, as vilas e cidades brasileiras no período imperial e republicano representavam, na prática, unidades administrativas semelhantes em estrutura e função. Ambas eram geridas por uma Câmara Municipal e detinham autonomia sobre os assuntos locais, mas o título de cidade conferia à localidade uma aura de urbanidade e progresso, em conformidade com os valores republicanos e com a política de modernização e centralização administrativa do Estado brasileiro.

    A mudança de Brejo Santo – anteriormente conhecida como "Brejo dos Santos" – de vila para cidade foi formalizada pela Lei Federal n.º 448, de 20 de dezembro de 1938, que estipulou que todas as sedes de municípios deveriam ser chamadas de cidades, abolindo o uso do termo "vila" para qualquer sede municipal. Este ato legislativo marcou a mudança de Brejo Santo e de diversas outras localidades pelo país, inserindo-se no contexto de unificação terminológica e administrativa da nova política territorial brasileira. Ao mesmo tempo, essa lei alterou o nome oficial de Brejo dos Santos para “Brejo Santo”, um ajuste que, além de simplificar a nomenclatura, estava alinhado com a ideologia centralizadora do Estado Novo, voltada para a construção de uma identidade nacional abrangente. A remoção da pluralidade de “dos Santos” reflete o desejo de padronizar os nomes das localidades brasileiras, eliminando traços considerados provincianos e afirmando uma identidade singular, inserida no projeto nacionalista de Vargas.

    A conversão de Brejo dos Santos para Brejo Santo revela um impacto significativo nas comunidades do interior do Nordeste. Essa mudança pode ser vista não apenas como uma reorganização administrativa, mas também como uma forma de reafirmação da identidade regional, alinhada com as políticas centralizadoras do Estado Novo. Com essa nova designação, Brejo Santo passou a representar uma comunidade que se inseria no projeto de uma nação unificada, marcando uma ruptura parcial com a tradição colonial da antiga vila.

    O Estado Novo buscava integrar as localidades ao projeto republicano de modernização e construção de uma nação coesa e centralizada. O historiador Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, destaca que o poder no Brasil sempre esteve alicerçado em uma estrutura que une o controle territorial ao patronato local, observando que “o patronato político brasileiro possui suas raízes na posição das capitanias, que se localizam como bases para a formação das elites políticas” (Faoro, 2000, p. 58). Contudo, essa estrutura começou a dar lugar ao ideal de homogeneização promovido pela República, que via no título de “cidade” um símbolo de progresso e um rompimento com as tradições coloniais. De modo semelhante, José Murilo de Carvalho, em A Construção da Ordem, observa que a elevação de uma vila à condição de cidade no Império não era meramente administrativa, mas carregava um peso simbólico que legitimava a importância política e econômica da localidade, afirmando que “o título de cidade trazia consigo a ideia de modernidade e desenvolvimento que a nova ordem republicana buscava estabelecer” (Carvalho, 2017, p. 143). Este reconhecimento se intensificou no Brasil republicano, quando a condição da cidade passou a expressar um grau maior de desenvolvimento e relevância.

    A transformação de vila para cidade, especialmente em Brejo Santo, foi, antes de tudo, uma questão de terminologia, sem alterar substancialmente a estrutura administrativa, que permanece gerida pela legislação estadual e federal, mantendo-se as mesmas competências para sedes municipais. A legislação de 1938 impôs uma denominação unificada e padronizada como um reconhecimento formal da importância urbana e administrativa das localidades, representando o ideal republicano de centralização e modernização. Como observou Carlos Henrique Furtado em sua dissertação Entre a Vila e a Cidade, a extensão do título de vila “reordenou a visão dos brasileiros sobre o que constitui uma comunidade moderna e inserida no projeto de nação” (Furtado, 2015, p. 82). A mudança nominal para a cidade foi, portanto, um marco simbólico, que alinhou Brejo Santo ao projeto de desenvolvimento urbano e homogeneidade cultural defendido pelo governo Vargas.

    Cândido Mendes, em seu artigo “A Evolução Urbana e os Títulos Municipais no Brasil”, destaca que a mudança de designação de vilas para cidades “não apenas simbolizava o crescimento das localidades, mas também refletia a nova organização política e social que se estabelecia no Brasil” (Mendes, 1969, p. 29). Este reconhecimento da transformação das vilas em cidades foi inserido num contexto mais amplo de urbanização e modernização que permeou a nação.

    A transformação de Brejo Santo e de outras localidades brasileiras de vila para cidade demonstra o processo de centralização e uniformização da administração pública no início do século XX, fundamentado nos valores republicanos de progresso e unidade nacional. Essa transição marcou um momento de ruptura com o passado colonial e imperial, integrando essas localidades ao projeto de construção de uma nação coesa e centralizada, onde a nomenclatura e os símbolos eram tão importantes quanto as transformações práticas.

O Brejo é Isso!

Por Bruno Yacub Sampaio Cabral

Referências bibliográficas

BRASIL. Decreto-lei n. 448, de 20 de dezembro de 1938. Limites intermunicipais e interdistritais em que se baseiam o quadro territorial-administrativo judiciário e policial do Estado. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=214055

CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem: A Elite Política Imperial. Brasília: Senado Federal, 2017.

FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro. São Paulo: Globo, 2000.

FURTADO, Carlos Henrique. Entre a Vila e a Cidade: O Processo de Transformação das Sedes Municipais no Brasil Republicano. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Pernambuco, 2015.

MENDES, Cândido. "A Evolução Urbana e os Títulos Municipais no Brasil: A Transformação de Vila em Cidade." Revista Brasileira de Administração Pública, vol. 23, n.º 3, 1969. 

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

A SENZALA DE BREJO SANTO E A ESCRAVIZAÇÃO NO CARIRI CEARENSE

 

Aspecto atual do local onde abrigou uma senzala
em Brejo Santo no século XIX, na região da cidade
 conhecida popularmente como Rua da Taboqueira.

   


    A escravidão no Cariri cearense, uma região marcada por suas peculiaridades econômicas e geográficas, desempenhou um papel significativo na história do Ceará. Durante os séculos XVIII e XIX, a escravização, embora muitas vezes associada à agricultura, especialmente no cultivo de cana-de-açúcar e café em outras partes do estado, também teve uma forte presença nas atividades pecuárias da região. Em Brejo Santo, por exemplo, a escravização esteve diretamente ligada ao ciclo curraleiro, que envolvia a criação de gado, uma atividade predominante na localidade. As terras de Brejo Santo, que entre 1814 e 1889 pertenciam ao município de Jardim, exemplificam como o trabalho escravo não se limitava às grandes plantações, mas também se estendia às pequenas propriedades rurais, onde os escravizados eram essenciais para a manutenção da economia local.

    O caso de Francisco José Gomes de Sá, um dos primeiros proprietários de terras na região, é emblemático para entender a dinâmica da escravidão no Cariri. Francisco José, vindo de Cabrobó, em Pernambuco, estabeleceu-se em Brejo Santo na segunda metade do século XIX, onde construiu três casas de pedra e cal: uma para sua residência, uma para visitas e uma senzala, onde ficaram alojados os escravizados, como Maria Nicácio e Paranhos. A construção dessa senzala, que ficava localizada na atual Avenida Coronel Basílio Gomes, popularmente conhecida como Rua da Taboqueira, é um marco importante na história da cidade, pois simboliza a presença do sistema escravista no coração do Cariri. O nome da rua, "Taboqueira", remonta à vegetação de tabocas que circundava o riacho local, uma área que desempenhou um papel central no desenvolvimento da cidade. Essas informações foram registradas por José Gomes Medeiros, mais conhecido como Zuca de Tobias, em seu livro A Origem de Brejo Santo (2000, p. 11 e 12), no qual ele, bisneto de Francisco José Gomes de Sá, narra a história de sua família e a construção das primeiras casas em Brejo Santo.

    O famoso Casarão do Coronel Basílio, hoje, embora tenha sua fachada descaracterizada e sua estrutura dividida em duas residências, ainda conserva aspectos que refletem a arquitetura original, como o recuo das construções em relação ao atual arruamento da cidade. Este recuo é um elemento que remete à organização inicial da área, que foi projetada antes do arruamento moderno e, portanto, reflete a disposição da cidade naquele contexto histórico. Segundo José Gomes Medeiros, a Rua da Taboqueira não recebeu seu nome por conta de quem a construiu, mas sim de quem a comprou — no caso, o Coronel Basílio Gomes da Silva, que adquiriu as casas de Francisco José Gomes de Sá após este enfrentar dificuldades econômicas. Como Medeiros descreve, Francisco José trouxe muito gado bovino e equino da região do Rio São Francisco, mas, ao longo do tempo, os animais fugiam, e ele mandava seus escravizados atrás, os quais nunca mais retornavam, fugindo para o Quilombo em Alagoas. Enfraquecido economicamente, Francisco José acabou vendendo suas propriedades na Taboqueira para o Coronel Basílio, libertou o restante dos escravizados e retornou às margens do Velho Chico.

    Esse episódio evidencia não apenas a transição do poder econômico na região, mas também revela como as narrativas históricas frequentemente são construídas a partir da perspectiva da elite, que muitas vezes reinterpreta os fatos de acordo com seus interesses e conveniências. O foco das histórias sobre a formação de cidades, como a de Brejo Santo, tende a ser centrado nos feitos dos grandes proprietários e nas mudanças que envolveram figuras como o Coronel Basílio Gomes da Silva, em vez de se dar a devida atenção aos aspectos mais profundos da história, como as condições de vida e as lutas dos escravizados. No caso específico da Rua da Taboqueira, a ênfase recai sobre os homens que compraram as propriedades, como Basílio, e não sobre as pessoas que, sob extrema opressão, deram forma à história local. Isso aponta para uma tendência mais ampla de invisibilidade das narrativas das classes subalternas na construção da memória histórica.

    Maria Nicácio, uma das escravizadas na propriedade de Francisco José Gomes de Sá, teve um papel particular após a abolição. Libertada junto com outros cativos, ela continuou a servir à elite local, mas de uma maneira que exemplifica como os ex-escravizados muitas vezes se viam inseridos em uma estrutura social que, embora os tivesse libertado, ainda os subordinava de diversas formas. Maria Nicácio se tornou parteira e, assim, passou a trazer para o mundo filhos de famílias que, no passado, haviam sido seus senhores. Ela cortou o cordão umbilical de várias figuras importantes da cidade, como Zuca de Tobias, Mário Leite, Chico Inácio, Zé Amaro, Maria Macêdo, Auristela Arrais, entre outros, conforme relatado por Lenira Macêdo em Recortes de Vidas (2006, p. 122). Essa realidade revela um aspecto crucial da continuidade das relações de poder e dependência entre a elite e os ex-escravizados, mesmo após a abolição. Embora Maria Nicácio tenha sido libertada, seu serviço à elite local demonstra como as antigas estruturas sociais não desapareceram completamente, e como, mesmo em liberdade, os ex-escravizados continuaram a desempenhar papéis subordinados dentro da sociedade.

    Portanto, ao refletirmos sobre a história da escravidão no Cariri, especialmente em Brejo Santo, é crucial questionarmos as versões predominantes e buscar reconhecer os registros e testemunhos que abordam a resistência, o sofrimento e a busca pela liberdade dos escravizados. O estudo dessas histórias, que muitas vezes são marginalizadas ou distorcidas, é fundamental para a construção de uma memória mais justa e representativa da sociedade cearense. A preservação do registro histórico da senzala de Francisco José Gomes de Sá, assim como a valorização dos relatos sobre os fugidos para o Quilombo e a análise crítica das narrativas históricas dominantes, são essenciais para entender a complexidade das relações sociais e econômicas que moldaram o Cariri.

    A escravidão no Cariri, e em Brejo Santo em particular, foi um processo multifacetado que não se limitou à agricultura, mas que envolveu diversas atividades econômicas, como o ciclo curraleiro e as pequenas propriedades urbanas. A presença de senzalas como a de Francisco José Gomes de Sá revela a complexidade do sistema escravocrata na região, onde a criação de gado e o trabalho nas pequenas propriedades dependiam diretamente da força de trabalho escravizado. Mesmo em um contexto de grandeza econômica menor em relação a outras áreas do Ceará, como o litoral, a escravidão se consolidou como um sistema fundamental para a economia local.

    O registro da existência da senzala de Francisco José Gomes de Sá e a história da escravização em Brejo Santo oferecem um importante olhar sobre o sistema escravocrata no Cariri cearense. Esse episódio, embora específico de uma propriedade particular, ilustra um processo mais amplo de resistência, luta e transformação social que ocorreu na região. A preservação dessas memórias históricas é essencial para entender as origens da cidade e os legados da escravidão no Ceará, garantindo que as futuras gerações reconheçam a complexidade e as contradições de sua formação social e econômica.


Por Bruno Yacub Sampaio Cabral


O Brejo é Isso!


Referências bibliográficas:

MACÊDO, Lenira. Recortes de Vidas. Brejo Santo: edição da autora: 2006, p. 122.

MEDEIROS, José Gomes. A origem de Brejo Santo. Brejo Santo: edição do autor, 2000, p. 11 e 12.