Naquela manhã de setembro, o cheiro das flores do cajueiro entrou primeiro casarão adentro. Veio do quintal, atravessou as portas altas e espalhou-se pelos cômodos antes mesmo que chegassem todas as crianças para mais um dia de aula.
Dona Balbina gostava de manhãs como aquela, temperadas por chuvas extemporâneas. Conhecia também os ruídos: o arrastar dos bancos; o ranger das portas; a algazarra subitamente interrompida quando ela assumia o birô da sala.
Era a bússola e a ordem. A mestra conduzia o som das tabuadas repetidas em coro e dos lápis riscando o papel. Olhava gentilmente para a hesitação da criança diante da primeira palavra lida e, ainda, aquela pequena maravilha que nunca deixava de emocioná-la: o instante em que os sinais escritos deixavam de ser desenhos incompreensíveis e se transformavam em linguagem.
Naquela manhã, entretanto, tudo parecia soar diferente. Era 16 de setembro de 1919.Dona Balbina ia se aposentar.
Vestira o costumeiro preto. Ainda carregava consigo a ausência do irmão, o padre Casemiro Viana, homem culto cuja morte precoce deixara na família um desses vazios que o tempo aprende a contornar, mas nunca consegue preencher inteiramente. Só abria exceção ao luto no 13 de maio, pela Virgem Santíssima, por quem vestia branco.
Aos 56 anos, seus cabelos já estavam completamente embranquecidos e repartidos ao meio. Por trás dos óculos de grossas lentes, os olhos azuis percorriam demoradamente as salas. Não olhava apenas paredes, portas, móveis. Olhava o tempo.
Quantas crianças haviam passado diante daqueles olhos? Quantas mãos pequenas aprenderam a desenhar letras sob sua orientação? Uma palavra aprendida nunca era apenas uma palavra. Era uma porta. E Balbina passara a vida abrindo portas. Talvez por isso aquele casarão tivesse tantas.
O prédio conservava a aparência das construções novas. O sol do sertão batia sobre as cores da fachada e fazia sobressair os verdes, os amarelos claros e o branco. Cinco grandes portas verdes voltavam-se para a rua, encimadas pelos arcos trabalhados e pela delicadeza dos relevos. Acima deles, a fachada clara subia até os ornamentos e a balaustrada.
Pelas portas entravam crianças diferentes umas das outras. E isso agradava a Balbina.
Havia filhos de famílias conhecidas e crianças de famílias pobres. Meninos e meninas. Crianças brancas, negras, mestiças. Algumas chegavam cuidadosamente vestidas; outras traziam na roupa a simplicidade de suas casas. Havia pés calçados e pés acostumados diretamente à terra. Mas, diante das letras, pensava Balbina, não deveria existir nascimento mais importante que outro. A escola precisava ser assim: uma casa onde as diferenças entrassem pela porta, mas não determinassem quem teria direito ao conhecimento.
Naquele dia, porém, as lições não seguiram inteiramente a rotina. Havia uma inquietação no ar. Correra entre os alunos a notícia de que seria feito um retrato de todo mundo.
A chegada do fotógrafo Basílio Neto alterou imediatamente a ordem da casa-escola. As crianças queriam ver o equipamento. Os menores se aproximavam até que algum adulto os mandasse recuar. Os maiores fingiam indiferença, embora observassem cada movimento. Para muitos deles, aquela máquina era quase um objeto fantástico.
O retratista escolheu o lugar. A fachada inteira deveria aparecer. Começou então uma pequena batalha contra a desordem infantil. Os mais altos para trás. Os menores na frente. As meninas ajeitavam os vestidos umas das outras. Uma professora alisava com a palma da mão o cabelo de uma criança. Um menino era chamado novamente porque saíra do lugar. Outro olhava fixamente para o aparelho fotográfico, tentando compreender de que maneira uma caixa poderia aprisionar pessoas dentro de uma imagem.
Balbina observava tudo. Talvez tenha sorrido. Talvez não. As fotografias daquele tempo exigiam solenidade, e a própria vida lhe ensinara certa austeridade. Mas havia ternura naquele olhar. Entre aquelas crianças estavam anos de sua existência.
Quando finalmente pediram que ocupasse seu lugar, Balbina caminhou para o centro. Apoiava-se na bengala. O vestido negro descia severamente até os pés. O luto por Casemiro fazia com que sua figura se destacasse entre as roupas claras das crianças.
Abriram espaço para ela. Balbina ficou entre os alunos. Não à frente deles, como quem deseja ser homenageada. Entre eles. Ali era o seu lugar. Balbina estava certa de que ninguém ensina sozinho. Um professor continua existindo naquilo que os alunos fazem com o que aprenderam.
Basílio pediu que as crianças ficassem imóveis. Foi um pedido quase impossível. Um último cochicho percorreu a fileira. Uma criança riu. Balbina olhou para a máquina e pensou no futuro.
Não sabia como seria Brejo dos Santos dali a cinquenta anos. Muito menos dali a cem. Não poderia imaginar suas ruas crescendo, as casas avançando, as distâncias diminuindo, novas escolas surgindo, gerações inteiras caminhando sobre aquela mesma terra. Mas sabia uma coisa: Nenhuma sociedade cresce verdadeiramente se não fizer da educação um compromisso.
Balbina olhou novamente para aquelas crianças e orou para que Brejo Santo não se esquecesse disso: Que cresça! Que prospere! E que, sempre que tenha de escolher onde colocar suas esperanças, escolha uma escola. Porque um lugar que investe em educação não constrói apenas o presente, constrói pessoas capazes de imaginar um futuro que ainda não existe.
Basílio Neto desapareceu atrás da máquina. Pediu mais uma vez: Ninguém se mexa!
O sertão ficou imóvel. O casarão ficou imóvel. Dona Balbina ficou imóvel. E o tempo abriu os olhos. Então, finalmente, o casarão silenciou diante da pequena explosão do flash de pólvora.
Mais de um século se passou. Brejo Santo cresceu. A vila tornou-se cidade. As ruas se alargaram. Novas escolas abriram suas portas. Gerações chegaram e partiram. Muitos daqueles meninos e meninas aprenderam, ensinaram, constituíram famílias e ajudaram a construir a cidade que viria depois deles.
De alguma maneira, portanto, a esperança de Balbina não foi em vão.
Brejo Santo caminhou. E continua caminhando. Mas todo caminho cobra, de quem avança, o cuidado de não perder de vista o lugar de onde partiu.
Os meninos e meninas daquele retrato envelheceram. Tiveram filhos. Alguns partiram para longe. Outros permaneceram. Um a um, desapareceram. Também Dona Balbina partiu assim como o velho casarão tombou, engolido pela especulação imobiliária.
Em 2026, quem passa por aquela rua já não encontra as cinco portas verdes, os arcos trabalhados nem a balaustrada recortando o céu. A rua está tomada de funerárias, que se aproveitam da proximidade da Matriz para exercer seu agourento e necessário ofício. Incongruências do progresso...
Onde existiu a escola há, agora, um chão vazio. Mas vazio é uma palavra perigosa, pois há lugares que permanecem habitados mesmo depois que suas paredes desaparecem. Continuam ocupados pelas vozes que ali ressoaram, pelos passos que atravessaram suas salas, pelas crianças que aprenderam suas primeiras letras e pelos sonhos daqueles que acreditaram que ensinar era uma forma de construir o futuro.
Talvez seja essa a última lição de Dona Balbina: Uma cidade não é feita somente daquilo que constrói. É feita também daquilo que decide não esquecer.
Brejo Santo avançou. Há muitas escolas, professores, estudantes, livros, homens e mulheres que, de tantas maneiras, continuam repetindo o gesto daquela velha mestra diante de uma criança: abrir uma porta para o conhecimento.
Estamos no caminho. Que não nos esqueçamos de que nenhum progresso estará completo se, na pressa de chegar ao futuro, apagarmos as pegadas daqueles que primeiro caminharam em sua direção.
Honrar D. Balbina não significa apenas conservar seu nome. Significa compreender o que sua vida representou e continuar acreditando numa escola capaz de reunir diferentes, enfrentar desigualdades e oferecer a todos, independentemente da origem, a possibilidade de aprender.
Porque memória também se ensina. E uma sociedade só se torna verdadeiramente grande quando aprende a reconhecer aqueles sobre cujos ombros conseguiu enxergar mais longe.
O futuro que Balbina talvez tenha imaginado diante da máquina de Basílio Neto finalmente chegou. Somos nós.
E, diante daquela fotografia centenária, já não cabe perguntar apenas o que fizemos com a escola de Dona Balbina. Talvez seja preciso perguntar também: O que faremos com a memória que ela nos deixou?
A resposta ainda está sendo escrita. Nas escolas. Nos livros. Na memória dos mais velhos. Nas crianças que hoje aprendem suas primeiras palavras. Em cada pessoa que se recusa a permitir que o tempo transforme em esquecimento aquilo que foi fundamento.
Enquanto Brejo Santo souber de onde veio, aquelas cinco portas continuarão abertas. E, do outro lado delas, uma velha professora de olhos azuis ainda nos observa, cercada de crianças, enquanto Basílio Neto se prepara para fazer o retrato.
É 16 de setembro de 1919. Ninguém se mexe. Por um breve instante, passado e futuro olham um para o outro. E Brejo Santo inteiro cabe dentro de uma escola.
Hérlon Fernandes Gomes.
Brejo Santo-CE. 25 de Agosto de 2026.
A imagem foi construída com IA a partir de uma fotografia original de uma das turmas de alunos e alunas da Escola de Balbina.













