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| SINHÁ MARTINS E MAJOR FIRMINO |
A história do sertão é também a história de mulheres que souberam se impor num mundo áspero, onde a força nem sempre vinha dos braços, mas da firmeza do caráter. Mulheres que ganharam fama pela perseverança, pelo tino político, pela resistência silenciosa e, muitas vezes, pela dureza necessária à sobrevivência. Nomes como dona Fideralina Augusto, de Lavras da Mangabeira, e Marica do Tipi, de Aurora, atravessaram o tempo não por estarem à sombra de homens, mas por construírem, com autonomia e coragem, o próprio protagonismo.
Em Brejo Santo, mais precisamente nas terras da Cachoeirinha, um nome se ergue com igual força e singularidade: Maria Martins Cardoso, conhecida por todos como Sinhá Martins. Herdeira de vastas posses, de terras sem fim e de numeroso gado, Sinhá trazia no sangue uma linhagem antiga, transmitida desde seu tetravô, o capitão Bartolomeu Martins de Morais, português nascido em 1729, no Concelho e Distrito do Porto, em Portugal. Era desse passado remoto, feito de heranças e decisões, que nascia a mulher cuja história o sertão jamais esqueceria.
O sertão não nasce manso. Brejo Santo era chão de espinhos, mas também de promessas, e Sinhá Martins aprendeu cedo que a terra só obedece a quem sabe mandar.
Filha do Cariri, nascida em 31.07.1900, criada entre rezas e contas feitas de cabeça, Sinhá tinha o olhar firme das mulheres que não pedem licença. Não era alta nem frágil, mas trazia nos gestos uma economia de movimentos que denunciava mando. Falava pouco, decidia rápido. Desde moça, entendia de gado, de roça, de gente. E gente, no sertão, é o mais difícil de lidar.
Aos dezoito anos decidiu que precisava se casar, porque assim era o destino de toda mulher. Queria ter filhos, uma casa só sua. Em 1918, na vizinha cidade de Milagres, durante a missa solene da festa de Nossa Senhora dos Milagres conheceu seu pretendente. A igreja estava cheia, abafada, o cheiro de vela misturado aos incensos. Os olhos azuis do Major Firmino Inácio encontraram os dela. Sinhá não desviou. Gostou. Não do homem apenas, que era belo, mas do que ele representava: filho do Major Zé Inácio, de Barro, nome pesado, dono de terras, padrinho de cangaceiros, senhor de silêncios, de favores e muito poder.
O casamento não tardou. Em janeiro de 1919, uniram-se na Capela de Senhora Santana, na Cachoerinha, em Brejo Santo, num enlace grandioso, com festa de três dias.
Após o matrimônio, o casal passou a viver no Sítio Angico, em terras pertencentes ao pai de Sinhá, o senhor Antônio Martins. Pouco depois, Sinhá decidiu adquirir as terras do Sítio Cachoeirinha, compradas de um tio da própria Sinhá, Dezinho Cardoso. Foi ali que fincaram a raiz. A Fazenda Cachoeirinha tornou-se morada e centro de vida comunitária, lugar de trabalho, fé e acolhimento. Para o novo lar, Firmino levou o sobrenome e a patente - nem uma agulha; Sinhá levou dinheiro, tino e futuro.
A propriedade era uma fazenda grande, espraiada entre Brejo Santo e o Pajeú pernambucano, onde o Riacho dos Porcos corria preguiçoso no inverno e se escondia no verão, como tudo no sertão.
Em 29 de novembro de 1919 nasceu o primeiro e único filho biológico do casal, Antônio Martins de Sousa. Mais tarde pegou Indé para criar, como se filho fosse.
A geografia ali ensinava resistência. A terra era pedregosa nas beiradas, mas fértil nos baixios. Crescia milho grosso, feijão de arranca, mandioca boa de farinha. O pasto sustentava boi e esperança. Ao redor, a Serra da Canabravinha se levantava áspera, vestida de xique-xique, jurema, macambira, guardando segredos antigos que nem o sol arrancava. Nos tempos coloniais, ali foi esconderijo de cangaceiros, a exemplo do temido João Calangro.
Sinhá governava sem precisar do aval do marido. Firmino aceitava. Não era Sinhá do major Fimino, mas o major de Sinhá. Todos sabiam que ali a ordem vinha dela. Era Sinhá quem decidia a plantação, quem distribuía tarefa, quem cobrava dívida. Produziam queijo, cereais, hortaliças. Um exército de moradores trabalhava aquelas terras, gente que devia mais à palavra de Sinhá do que a qualquer contrato escrito.
Sinhá fez da Festa de Nossa Senhora de Santana um marco anual. Gente vinha de longe. Havia missa, comida farta, promessa paga, sanfona, parque de diversões e silêncio respeitoso. Fé, para Sinhá, não era enfeite. Era estrutura.
Gostava de ouro, sim, mas não de ostentação. Usava pouco. Guardava muito. Ao longo da vida, especialmente pelos presentes da prima rica, Maria Pia, foi juntando cordões, anéis, brincos, pedras que brilhavam como olho de cobra no escuro. Ouro não era vaidade. Era garantia. Ouro não apodrece, não foge, não trai.
Em 1925, quando Lampião passou pela região e procurou o major Firmino pedindo ajuda para compra de armas, o sertão inteiro estremeceu. Sinhá não confiava em cangaceiro, por mais protegida que fosse. Medo não tinha, mas prudência sim. Foi aí que nasceu a butija.
Enterrou o tesouro pela primeira vez numa noite sem lua, em lugar que só ela sabia. Marcou tudo na cabeça. Um mapa feito de pedras, árvores tortas, sombras específicas. Ao longo dos anos, desenterrou e enterrou de novo, mudando o esconderijo conforme mudava o mundo. A serra, o quintal, o curral, a beira do riacho seco. A butija andava com Sinhá.
Anos mais tarde, já no final da década de 30, o truculento cangaceiro Moreno esteve pelas redondezas, nos rumos da Capoeira do Cão, fazendo arruaças e intimando os moradores. Sinhá resolveu mudar a butija de lugar. Nessa época, o tesouro havia crescido e seu valor era inestimável.
Pedro, seu sobrinho, criado como filho naquela casa grande, contou que a surpreendeu com o ouro espalhado sobre a cama. As joias faiscavam, refletindo nos olhos dela uma luz quase febril. Sinhá mandou fechar a porta. Disse apenas:
— Meu bem, isso aqui não é coisa de se ver.
Chamava todos assim: meu bem. Mas ninguém se enganava. Quando ia à cidade, montada a cavalo, cobrar aluguéis na Rua Velha de Brejo Santo, os devedores tremiam. Dia marcado era dia marcado. Não pagou, despejo. Sem drama. Sem escândalo. Lei cumprida.
Católica fervorosa, não perdia missa. Na fazenda ou na sede do município. Ajoelhava-se com a mesma firmeza com que mandava arrancar roça ou vender boi. A moral de Sinhá era maior que a patente do marido. O que ela dizia, ficava dito.
Morreu como viveu: enfrentando. Em 26.06.1971, em plena luz do dia, dia de feira, na Rua Velha, alguém sacou uma arma para atingir Antônio Martins, seu único filho. Sinhá não pensou. Avançou. O tiro foi nela. Caiu ali mesmo, no chão quente, diante do povo. Morreu defendendo o que mais lhe tinha valor.
A butija nunca foi encontrada.
Dizem que ainda está enterrada em algum ponto das Serras da Canabravinha e do Poço do Pau, terras suas, guardada pela vegetação dura, pelo silêncio antigo, pelo pacto invisível entre a mulher e a terra. Outros juram que Sinhá levou o segredo consigo, como quem fecha a última porta antes de sair.
No sertão, certas riquezas não foram feitas para serem desenterradas. Foram feitas para virar lenda, como Sinhá foi.
Hérlon Fernandes Gomes
Brejo Santo-CE, 05 de Janeiro de 2026.
Para o Sr. Pedro da Fazenda, sobrinho de Sinhá Martins e seu homem de confiança, desde rapazote. É um exímio contador de histórias. Na década de 1960, já era ele quem organizava a festa de Senhora Santana, com o mesmo rigor que aprendera na lida da fazenda. Sinhá cuidava da parte social e espiritual como quem governa um território sagrado. Pedro executava. Sem vaidade. Sem atraso. No ano de 2024, Pedro da Fazenda recebeu da Secretaria de Cultura de Brejo Santo o título de Mestre da Cultura, justamente pelo legado de cidadão imbuído em relevantes práticas culturais.
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| Pedro da Fazenda e o autor Hérlon Fernandes Gomes |
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| Os restos mortais de Sinhá Martins, Major Firmino e Antônio Martins, na Capela da Cachoeirinha. |



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