A Munganga Promoção Cultural

A MUNGANGA PROMOÇÃO CULTURAL: O Brejo é Isso!

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O TRIBUNAL DO JÚRI DE VILLA BELLA, PERNAMBUCO, JULGA O CORONEL CHICO CHICOTE – 1913 – ANÁLISE DE AUTOS DE PROCESSO-CRIME

Chicote
"Recebi cópia de libelo pelo qual sou acusado e do rol de testemunhas.
Cadeia pública, 3 de Novembro de 1913. Francisco Pereira de Lucena."
 

1. INTRODUÇÃO


Há alguns anos venho desbravando as fontes históricas, sejam na bibliografia conhecida ou nos documentos dos arquivos, acerca do personagem central de um romance, já em adiantada fase. Trata-se da pessoa do coronel Chico Chicote, brejo-santense radicado em Porteiras, na famosa localidade Guaribas, atacada em 1927, por quatro forças policiais e pelo consórcio de seus inimigos. Ele foi símbolo de poder naquela época, típico líder da era do bacamarte.

Um neto do próprio Chico Chicote, o advogado Djalma Inácio de Lucena, ao narrar o que sabia sobre as histórias do avô, contou-me sobre um júri à que fora submetido o coronel, na comarca de Belmonte, sem data certa. Não sabia maiores detalhes a respeito.

Com tais informações, em pesquisas na hemeroteca da Biblioteca Nacional, acabei por descobrir a notícia de um jornal, revelando a prisão de Chico Chicote, no ano de 1913, em Belmonte, Pernambuco.

Jornal do Recife - Terça-feira, 11 de Novembro de 1913.

Com esse fio, conversando com Valdir Nogueira, amigo que a família Cariri Cangaço me agregou, residente naquele local, conversamos sobre a minha sonhada vontade de poder encontrar os autos daquele processo-crime, certamente uma fonte de informações preciosas, considerando a oficiosidade dos atos judiciais.

Conversamos sobre muitos fatos curiosos da antiga Villa Bella; Valdir me disse que, por coincidência, seguiria até Recife, no dia seguinte, e daria um pulo no departamento histórico do Tribunal de Justiça do Estado do Pernambuco, onde o processo talvez estivesse arquivado.

Qual não é minha surpresa quando recebi os preciosos documentos: o processo de primeiro grau e a respectiva apelação.

Folha de rosto do Processo Crime - 1913 - Juízo Municipal de Belmonte.

Ao folhear as velhas páginas destes autos, senti-me como talvez se sentiram os arqueólogos que abriram a tumba de Tutancámon; ao transcrever os rebuscados manuscritos, senti-me como um Sherlock Holmes. Foi o mais próximo que consegui chegar do famigerado coronel.

Conforme CALEIRO, et al, os processos “são testemunhos dos costumes e da constituição do universo físico e mental do período analisado, bem como da ação da justiça institucionalizada. As imagens que se depreendem da leitura destes documentos descortinam relações de poder, amor, ódio, violência e solidariedade.”

O processo, presidido por uma autoridade de Estado, um juiz togado, respeitado o Contraditório e Ampla Defesa, é documento valiosíssimo para a pesquisa, porque seu conteúdo reflete “aspectos da vida cotidiana, uma vez que, interessada a justiça em reconstruir o evento criminoso, penetra no dia-a-dia dos implicados, desvenda a sua vida íntima, investiga seus laços familiares e afetivos registrando o corriqueiro de suas existências” (MACHADO, 1987, p. 23).

Compartilho, pois, com todos vocês da análise de transcrições relevantes de peças do dito processo. Certamente, minha intimidade com o processo penal facilitou-me a tarefa. É um precioso mergulho no tempo.

2. A DENÚNCIA

Por libelo crime em cartório diz a justiça pública, como autora, por seu promotor, contra os réus Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote; Antônio de Lira; José Luiz e Laurentino de Tal, por esta ou na melhor forma de direito.

E.L.C.

1. Provará que no dia 12 de Agosto de mil novecentos e seis, de 3 para 4 horas da tarde, no lugar Mameluco, deste município, os réus desfecharam diversos tiros de rifles em Félix de Tal, dos quais um o atingiu produzindo-lhe o ferimento descrito no presente sumário.

2. Provará que este ferimento por sua natureza e sede foi causa eficiente da morte do ofendido.

3. Provará que os réus cometeram o crime impelidos por motivo frívolo.

4. Provará que os réus cometeram o crime com superioridade em armas de modo que o ofendido não pudesse defender-se com probabilidade de repelir a ofensa.

5. Provará que os réus cometeram o crime com premeditação mediando entre a deliberação criminosa e a execução o espaço pelo menos de 24 horas.

6. Provará que os réus cometeram o crime com surpresa.

Nestes termos, pede-se a condenação dos réus nos graus máximos do art. 294, §1º, do Código Penal, por se dar nas circunstâncias agravantes do 39, §§2,º, 4º, 5ª e 13º do mesmo Código Penal.

E para que o crime se julgue, se oferece o presente libelo que se espera seja recebido e afinal julgado provado.

E. Custas

Requeiro a bem da acusação que tenham lugar as diligências legais e especialmente que sejam notificadas as testemunhas abaixo arroladas para comparecerem às sessões do julgamento a fim de afirmarem o que souberem e perguntado lhes for acerca do presente crime.

Rol de Testemunhas:

1. José Feijó de Medeiros

2. [?] Ribeiro de Melo

3. Antônio Feijó de Medeiros

4. José Pinho Celestino

5. Amaro Pereira de Araújo

6. Alexandre B [?] de Araújo

Umas residentes no Ceará, outras neste município

Villa Bella, 13 de Junho de 1913.


O Promotor Público

Januário Batista do Amaral

Libelo acusatório.

3. A INSTRUÇÃO PROBATÓRIA: MOTIVAÇÃO DO CRIME E INTERROGATÓRIO DO RÉU

O juiz presidente do Tribunal do Júri foi do Dr. Felisberto dos Santos Pereira, natural de Rio Formoso, zona da Mata de Pernambuco. Nascido em 1882 e formado em 1907, pela Faculdade de Direito do Recife, sendo colega do poeta paraibano Augusto dos Anjos. 

Destaco trechos relevantes a oitiva das testemunhas.

a) 1ª TESTEMUNHA

José Feijó de Medeiros

Que achava-se no campo, na qualidade de vaqueiro que era, no dia doze de agosto de mil novecentos e seis, data em que se deu o fato delituoso de que se trata, (…) quando ela testemunha vinha saindo de uma vereda que desemboca na estrada de Canabravinha deste termo, aí encontrou-se inesperadamente com o denunciado Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote, e mais três indivíduos aos quais ela testemunha não conheceu; que aí todos lhe disseram - boa tarde - e um deles dirigindo-se a ela testemunha disse-lhe que desse lembrança a Félix de Tal que agora iria levar carta no inferno; que logo após os citados indivíduos, todos armados de rifle, continuaram o seu caminho pela referida estrada e ela testemunha surpresa com o que acabava de ouvir, dirigiu-se imediatamente a sua casa, onde deixou a roupa de couro, digo de campo, logo se encaminhando para um açude próximo em que o citado Félix trabalhava; que em ali chegando encontrou ele à margem do açude referido, de pé e recostado a um pau, o aludido Félix, que apresentava um ferimento mortal na região lombar, produzido por bala, ferimento este que atravessando todos os tecidos da região, veio terminar do outro lado na região abdominal correspondente; que ela testemunha indagando de Félix o motivo de semelhante desgraça, este lhe respondeu que há poucas horas apenas fôra surpreendido no seu trabalho pelos denunciados Chico Chicote, José Luiz, Antônio de Lyra e Laurentino de Tal, os quais se aproximando dele ofendido, descarregaram-lhe cerrada carga de tiros, ouvindo antes Chicote dizer para seus companheiros: - O homem é este - que o próprio Félix disse a ela testemunha ter contado onze tiros na ocasião dos disparos e que não obstante estar armado de garrucha, tão atarantado ficou que dela não fez uso; que ela testemunha verificou na vítima além do ferimento descrito uma espécie de queimadura no braço direito, sendo de presumir que tivesse sido feita por alguma bala mal alvejada; que Chico Chicote e seus companheiros se aproximaram da vítima sem que esta pressentisse, tanto que ao passarem pelo rancho que Félix ali fizera para descanso nas horas mais quentes do dia, apanharam o rifle do mesmo Félix que ali estava, carregando-o depois do fato; que a opinião corrente e mais segura é a de que o motivo do crime foi determinado pelo fato de Félix ter dito ao seu patrão e compadre Manuel Chicote, irmão do primeiro denunciado, que este havia pegado dolosamente uns bois de propriedade do referido Manuel Chicote; que dias depois José Chicote, também irmão do referido denunciado, fez público que o fato fora levado ao conhecimento de Manoel Chicote, por Félix; que inconformado [?] com a denúncia de Félix, Chico Chicote prometeu que tomaria uma vingança, seria logo que se encontrasse com o mesmo Félix; que este sendo avisado do sinistro que contra si se tramava, resolveu mudar-se para Mameluco deste termo (...)

b) 2ª TESTEMUNHA

De...do Ribeiro de Melo:

(…) Que estava em sua casa no lugar Mameluco deste termo, por volta de quatro horas da tarde do dia doze de agosto de mil novecentos e seis, quando aí chegou José Feijó de Medeiros, e lhe disse que a curta distância dali e num açude em que estavam trabalhando Félix de Tal e outros trabalhadores, com uma garruncha, dela não se serviu, que além desta arma Félix tinha no rancho em que costumava descansar, e ali também situado, um rifle que os criminosos após o delito carregaram; que o motivo do fato delituoso referido é público e notório, foi ter Félix, quando morava no Cariri, denunciado de Chico Chicote ao patrão dele Félix, Manuel Chicote, irmão do denunciado, por ter este pegado uns bois do irmão com dolo; que sabedor desta denúncia Chico Chicote ficou seriamente [ilegível] com Félix, prometendo que desforraria do seu atrevimento na primeira ocasião em que o encontrasse. Que devido a este incidente, Félix deixou a companhia de seu patrão e veio para Mameluco, onde há apenas um mês se achava trabalhando no aludido açude; que Chicote e os seus companheiros sabendo o paradeiro de Félix vieram a seu encontro (...); que incontinente ela testemunha saiu de casa em demanda do açude ali encontrando Félix banhado de sangue e apresentando um ferimento produzido por bala de rifle, a qual penetrando na região lombar esquerda e atravessando os intestinos veio sair na região abdominal correspondente próximo ao umbigo; que dirigindo-se a Félix perguntou-lhe como se dera aquele fato, ao que este respondeu que estando no seu trabalho foi de surpresa acometido por Chico Chicote e mais três indivíduos (...) que sobre a conduta do primeiro denunciado, ela testemunha tem ouvido dizer ser muito irregular por se ele homem perverso e dado ao cangaço; que dos outros denunciados nada sabe por não ouvir dizer, nem conhece-os; que o morto era homem trabalhador e de bons costumes. E por mais não dizer nem lhe ser perguntado, deu-se por findo este depoimento, que lido e conforme assina a rogo da testemunha.

c) 3ª Testemunha

Antônio Feijó de Medeiros

(...) que conhece desde menino Chico Chicote, e faz do mesmo péssimo juízo, pois sempre o conheceu como turbulento e dado ao cangaço, sabendo igualmente que ele é autor de outros crimes além deste, no Estado do Ceará, embora lhe conste não estar sujeito a processo naquele Estado; que o seus corréus, segundo consta, são cangaceiros de profissão, mas ela testemunha nada sabe de positivo a respeito da conduta dos mesmos; que relativamente a Félix o conhecia de pouco tempo, mas sempre o viu proceder com correção, mostrando-se trabalhador e honesto.


d) 4ª Testemunha

José Pedro Celestino, conhecido por José Dutra, com cinquenta e oito ano de idade, casado, agricultor, natural do Estado da Paraíba, residente em Porteiras, Estado do Ceará, não sabe ler nem escrever, aos costumes disse nada, testemunha jurada na forma legal, prometeu dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado.

E sendo inquirida a denúncia de folhas, que lhe foi lida, respondeu: que no dia em que se passou o fato criminoso, ela testemunha achava-se no lugar, digo, no local em que o mesmo fato se passou, num açude em que com Félix estava trabalhando; que ela testemunha achava-se em cima da barreira do açude e Félix embaixo marcando a parede do mesmo açude, quando de repente ouviram o estampido de sucessivos tiros e a voz do denunciado Chico Chicote chamar - "Morreste, negro', que Félix, implorando em gritos a proteção divina procurou fugir à sanha dos seus agressores, correndo de riacho acima, ao passo que o tiroteio continuava; que ao saltar uma cerca recebeu uma bala, que penetrando na região lombar direita, perfurou os intestinos vindo sair na região umbilical produzindo grande derramamento de sangue acompanhado da expulsão de uma parte do tecido adiposo da aludida região; que do grupo criminoso ela testemunha conheceu bem aos denunciados Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote, e José Luiz, vindo a saber depois de fonte insuspeita que os outros eram Antônio de Lyra e Laurentino e de Tal; que Félix estava na ocasião armado de uma pistola pequena, mas dela não se serviu, tendo a fora dessa arma e num rancho ali também situado um rifle que os criminosos carregaram; que depois de praticado o crime o denunciado José Luiz quis obrigar a ela testemunha a entregar o aludido rifle que depois eles encontraram no aludido rancho; que o denunciado Chico Chicote disse a ela testemunha tempos depois que não tinha dado esse conhecimento no dia em que atiraram em Félix, porque então não estava ainda bem informado dos precedentes dela testemunha a respeito dele denunciado, aludindo assim a informações caluniosas que pessoas suas desafetas haviam dado a seu respeito ao mesmo Chicote; que o fato criminoso originou-se de uma denúncia que dizem Félix ter dado contra Chico Chicote aos irmãos deste, denúncia que se baseava no fato de ter Chico Chicote ilicitamente pegado uns bois de seus irmão; que divulgado esse fato, Chicote entrou a perseguir Félix, de modo tão tenaz que obrigou este a retirar-se da companhia de seu patrão no Cariri para vir trabalhar no Mameluco, deste município; que aí chegando não suspeitava sequer dos planos criminosos do seu desafeto por estar longe de suas vistas quando de chofre foi atacado pelo mesmo do modo já referido, o qual teve como companheiros os demais denunciados

4. INTERROGATÓRIO

Interrogatório do réu Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote.

Perguntado qual o seu nome, naturalidade, estado, idade e residência?

Respondeu chamar-se Francisco Pereira de Lucena, conhecido por Chico Chicote, natural do Estado do Ceará, com trinta e quatro anos de idade, casado, residente no município de Porteiras, do Estado do Ceará.

Perguntado qual o tempo de sua residência no lugar declinado?

Respondeu que há cerca de cinco anos.

Perguntado quais seus meios de vida e profissão?

Respondeu que agricultor e criador.

Perguntado se sabia ler e escrever?

Respondeu que sim.

Perguntado se sabia o motivo pelo qual era acusado e se precisava de algum esclarecimento a esse respeito?

Respondeu que sabe por ter recebido cópia do libelo.

Perguntado se conhece as testemunhas que juraram neste processo e se tinha alguma causa a opôr contra elas?

Respondeu que conhece a(ilegível) a de nome José Dutra, que é parente do morto, sendo as demais suas desafetas.

Perguntado se tinha algum motivo particular a que atribua a acusação?

Respondeu que não.

Perguntado se tinha fatos ou provas que justificassem ou mostrassem sua inocência?

Respondeu que tem e o seu advogado oportunamente dirá.

Perguntado se tinha mais alguma causa a declarar ou esclarecer?

Respondeu que não.


6. VEREDICTO




O júri depois de haver nomeado dentre si por escrutínio secreto e por maioria absoluta de votos, o seu presidente e secretário da leitura recomendada pela lei e mais formalidades desta, respondeu aos quesitos pela maneira seguinte:

Ao 1º quesito:

Não, por nove votos

O réu Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote, de 3 para as 4 horas da tarde, do dia 12 de Agosto de 1906, no lugar Mameluco deste Município de Belmonte não desfechou tiros de rifle em Félix de Tal produzindo-lhe o ferimento descrito no corpo de delito [ilegível] deste sumário.

O júri deixa de responder aos demais quesitos por se achar prejudicado com a resposta do primeiro.

Sala secreta do Júri de Belmonte, 26 de Novembro de 1913.



Hérlon Fernandes Gomes, Porto Velho, Rondônia, 11 de Outubro de 2021.

sábado, 28 de agosto de 2021

RIQUEZA, PAIXÃO E DECADÊNCIA DE MARIA PIA: A BARONESA DAS CACIMBAS


A rica viúva Maria Pia - A baronesa das Cacimbas.

                                                              
Os mais velhos diziam, ali pelas bandas de Brejo Santo, quando queriam ressaltar as exageradas posses de alguém:

- Aquele ali compete com Maria Pia, em riqueza!

A mulher ficou conhecida pela vultosa herança recebida, quando, em 1932, faleceu-lhe o pai, o Coronel Pedro Martins, dono de terras sem fim, limitando até os estados vizinhos, além de muito gado e ricos negócios.

Na solidão de seu quarto no velho sobrado, nas Cacimbas, construído pelo seu avô, em 1850, quando já era dono de tudo, Maria Pia refletia sobre para quê lhe serviria tanto dinheiro, se a morte acabou lhe levando tudo o que julgava mais precioso. Primeiro foram os filhos: um, aos seis meses; depois foi a morte de Francisca, sua boneca, a luz de seus olhos, a rosa do jardim, aos 4 anos. Depois o pai; veio, então, a viuvez seguida da partida materna. A morte andava no seu encalço. Só lhe restaram um irmão solteirão e uma irmã viúva, além de muito, muito dinheiro. Tanto que ela nem conseguia mensurar.

Sobrado de Maria Pia.
Sítio Cacimbas, Brejo Santo - CE.

Vencido o nojo do luto, das cinzas de seu coração desiludido, Maria Pia se deixou seduzir por um don juan do sertão: Zé Pimenta. Boticário de Missão Velha, caixeiro-viajante, um dia apareceu no casarão, com sua maleta de novidades, oferecendo óleos perfumados, águas de colônia, essências, unguentos e pílulas para a alegria. Com seu jeito manso, educado, como a tratar Maria Pia igual a uma rainha, reacendeu-lhe uma brasa de paixão que julgava inexistente.

Não demorou muito, tornaram-se amantes. As idas e vindas de Zé Pimenta para visitar a viúva não pareciam ser só de negócios. Logo veio o falatório do povo.

- Largou esposa e filhos para viver com a rica viúva. 

Aquilo foi um escândalo.

Os irmãos de Maria se preocupavam quando tinham notícias de que as propriedades estavam à venda, para bancar luxos exagerados dos dois; viam naquilo a intenção indisfarçável de um golpe e passaram a pressioná-la a abrir os olhos. Cega, Maria Pia achava o sentimento de Zé Pimenta genuíno e decidiu que viveria do jeito que sempre quis, sem dar satisfação a ninguém, sendo feliz, gastando o que era seu.

O festival da extravagância era noticiado por todos. Zé Pimenta ostentava em automóveis, festas regadas a champanhe e orquestra de música; gostava de viajar, conhecer novos mundos. Não demoraria muito para ele e Maria Pia serem rostos conhecidos nas lojas e restaurantes caros de Recife, Fortaleza...

Pelo fim dos anos 60, mandaram abrir uma pista de pouso nas Cacimbas, para descer avião, fretado de Recife, trazendo os amigos de baralho de Zé Pimenta. A notícia de que um avião pousaria ali, arrastou gente da cidade, do Deserto, do Poço para ver aquele espetáculo. Nesse dia, alegre demais pelo som da sanfona e pelo champanhe, Zé Pimenta presenteou os curiosos com voos gratuitos. Fizeram fila e, assim, como do impossível, muita gente se sentiu como um carcará, lá do alto.

Mas aquela vida pródiga, que demorou alguns bons anos, teve um efeito devastador sobre os bens de Maria Pia. Como cupim, roeu todas as riquezas que possuía, até que se viu amontoada de dívidas, sem um tostão furado. Com Zé, foram se recolher em Missão Velha, onde passaram a viver em extrema humildade.

Quem encontrasse Maria Pia, já envelhecida e viúva pela segunda vez, vendendo cocadas pela feira, admirava-se de seu resultado; sem arrependimento, mas com um gosto trágico, narrava a história de sua riqueza, de sua paixão e decadência.

A história de Maria Pia é longa, bordada também pelo folclore popular; mas tudo o que está aqui narrado eu ouvi de gente que conheceu ou morou nas Cacimbas, em Brejo Santo. Conta-se que Maria Pia e Zé Pimenta também fizeram muita caridade por aquele sertão. Dizem que adotaram cerca de quarenta filhos por aquelas redondezas.

Citando Bruno Yacub, no artigo Sobre a origem da família Martins de Morais em Brejo Santo, publicado no blog dA Munganga, segue a descrição genealógica de Maria Pia.

Pedro Martins de Oliveira Rocha foi casado com Francisca Martins Cardoso, filha de Antônio Cardoso dos Santos. São seus filhos:

MARIA MARTINS CARDOSO - casada com Pergentino Martins de Morais, filho de Manoel Martins de Morais e Ana Martins Furtado. Tiverem somente um filho, Pedro Martins Cardoso de Morais.

ANTONIO MARTINS CARDOSO - casado com Amélia Martins Barreto, de quem são filhos: Luiz Martins Barreto, João Martins Barreto e Maria Martins Cardoso (Dona Sinhá, nascida em 31.07.1900 e falecida em 26.06.1971), esta casada com o major Firmino Inácio de Sousa (nasceu em 16.10.1894 e faleceu em 20.07.1973), filho do major José Inácio do Barro e pais de Antônio Martins de Souza, nascido em 29.11.1919 e falecido em 11.04.2018. Dona Sinhá adquiriu em 1919 o sítio Cachoerinha, às margens do Riacho dos Porcos, sede do atual distrito do Poço, em Brejo Santo.

PEDRO MARTINS CARDOSO - de quem são filhos: Maria Pia Martins Cardoso, Alice Martins Cardoso e José Martins Cardoso.

Para saber mais sobre a família Martins, leia SOBRE A ORIGEM DA FAMÍLIA MARTINS DE MORAIS EM BREJO SANTO.

Hérlon Fernandes Gomes

Agradecimentos: A Bruno Yacub, que me trouxe dados colhidos com Heitor Nicodemos; aos irmãos Edmilson Furtado e Edísio Furtado, por compartilharem suas memórias; a Roberto Novais por proporcionar o encontro com Dona Candinha; a senhora Maria Cãndida Alves, Dona Candinha, por ceder suas lembranças e fotos de Maria Pia, sua mãe.


Maria Pia ao centro, já idosa.


Aspecto atual da fazenda Cacimbas, localizada na região do Poço, em Brejo Santo - CE.





quarta-feira, 12 de maio de 2021

VOVÓ RITINHA



Minha avó paterna veio ao mundo numa noite clara de lua cheia, ano difícil de seca e depois de um parto sofrido. Não tinha parentes importantes nem sobrenome que contasse a história de sua linhagem. Assim, foi batizada como Rita Moça de Jesus. Cresceu e se acostumou ao árido sertão da Paraíba, onde aprendeu com seu pai os mistérios de orações milagrosas e o segredo das plantas medicinais. Quando emigrou para o Ceará, na década de 1960, trouxe consigo seu ofício de bênçãos e sabedoria com as ervas milagrosas.

Em Brejo Santo, especialmente no bairro São Francisco, não havia criança que não tivesse se submetido às suas rezas contra mau olhado, mijada de aranha e toda outra “coisa botada” por gente ruim. Gente adulta também procurava vovó para que se desse fim aos males causados pela inveja e maldade alheia.

Vovó vivia em uma humildade franciscana, nunca tivera um luxo sequer na vida. Sua riqueza era um pequeno quintal, sombreado por uma goiabeira de frutos doces, ao redor de onde verdejavam touceiras de capim santo, mastruz, malvas santas e do reino, erva cidreira, babosa, pimenteiras, arruda e um pé de pinhão roxo. Deste, ela retirava alguns galhos com os quais iniciava seu ritual contra as debilidades da alma. A cozinha cheirava a macela, boldo, canela, cravo e tantas outras meizinhas, que nunca lhe faltavam.

Vovó era alva, de olhos bem verdes (ou seriam azuis? Nunca soube ao certo. Eles mudavam como o céu). Com esse fenótipo, era uma incomum sertaneja. Conservava os cabelos ajeitados em coque, fixado com um pente. Um dia me surpreendi com ela a penteá-los, completamente brancos, abaixo da cintura. Nunca vi cabelos tão longos e bonitos. Cuidava para que nenhum fio caísse e rolasse pelo terreiro, onde bem-te-vis gostavam de ciscar. Alimentava a superstição de que se aquelas aves carregassem algum fio e levassem-no a construir ninhos, seus pensamentos ficariam confusos e ela poderia enlouquecer.

Cresci recebendo suas rezas. Eu e toda uma infinidade de gente da região, que também a tomava por avó, madrinha de coração, madrinha de fogueira. Concentrava-me naqueles seus transes: ela, de olhos semicerrados, balbuciava palavras mágicas em orações que falavam de anjos; arcanjos; da Virgem Maria, na beira do Rio Jordão, com um livro de ouro na mão; noutras, exortava São Bento, São Jorge, São Benedito e um exército de almas vaqueiras... Eram orações fortes que, ao final, deixavam vovó cansada e os galhos de pinhão completamente murchos, sinais de que eu estava impregnado de coisas ruins; mas depois, liberto.

Contava uns oito ou nove anos, quando, certo dia, amanheci febril, sem coragem, com gânglios inchados na região direita das virilhas. Minha mãe fechou o diagnóstico: eram ínguas.

- Vá lá em madrinha Ritinha pra ela rezar.
Fui para a casa de vovó, recebi sua bênção e contei meu problema. Vovó, como uma espécie de médica, foi até o fogão à lenha e tratou de pegar uma peixeira que lá descansava.
- Chegue aqui, meu fi, pro terreiro. Vou cortar as danadas dessas ínguas.
Eu arregalei os olhos. Não supus que vovó estivesse de brincadeira, porque não era do seu feitio.
- Oxe, vovó, e a senhora vai arrancar de faca?
Seu rosto desenhou um sorriso discreto, ao que ela me tranquilizou, em seguida:
- Vou cortar de faca, meu neto, mas não vou derramar uma gota de seu sangue. Não se preocupe. Qual o lado das ínguas?
Indiquei que eram do lado direito. Vovó se acocorou no chão, tomou o meu pé direito e descalço, circundando-o com a ponta da faca, a fim de desenhá-lo na terra batida. Pediu-me que retirasse o pé e passou a fazer cortes no desenho, enquanto proferia baixinho uma ladainha secreta. Estava curado. Depois tomávamos café com bolacha de sete-capas e conversávamos. Pedi por várias vezes que vovó me ensinasse algumas daquelas orações. Gostaria de ser detentor também daqueles miraculosos poderes. Ela ria-se:
- Meu fi, não queira aprender não. Você não vai ter sossego. A gente não pode se negar a quem vem pedir uma reza. Mas chega uma hora que a gente cansa.
- Mas eu quero aprender mesmo assim, vovó.
- Um dia eu ensino…

Uma doença pulmonar veio fragilizar ainda mais a sua saúde. Em determinada altura de sua vida, parou de rezar em quem lhe procurasse. Após sofrer meses, entre idas e vindas ao hospital, ela finalmente se encantou, em maio de 1997.

Antes de morrer, vovó pediu que se cumprisse sua última vontade: não a sepultassem em um caixão. Era da terra e queria ser da terra após cumprir sua missão. Seu desejo foi cumprido. Em chão limpo, do pó ao pó, vovó afirmava naquele gesto que da vida nada levamos além de quem fomos.

Às vezes, quando menos espero, encontro vovó Ritinha em sonhos. Neles, ela continua a me tirar quebrantos, a me fortalecer e me curar. Esta semana, senti seu perfume pelo corredor de casa. Há certos dias em que sinto sua presença. Não tenho dúvidas de que continua a me proteger.

Ela partiu sem me ensinar todos os seus encantos, mas me deixou como legado uma única poderosa oração, com a qual me armo todos os dias antes de sair de casa. Sinto uma vigorosa saudade de seu carinho e de sua simplicidade.

Hérlon Fernandes Gomes

quinta-feira, 22 de abril de 2021

TÚNEL DO TEMPO - OS HÁBEIS

Sabe o que vai tocar hoje no Brejo Santo União Clube? Os Hábeis, o melhor da jovem guarda e do iê-iê-iê. Eles não são Renato e seus Blue Caps, mas são Incríveis!

A banda marcou sucesso. Segundo me disse Paulo Gondim, num café virtual, os garotos iniciaram os ensaios na casa velha da Nascença, perto do engenho; chegou a vê-los ensaiar e assistiu a uma apresentação, no Cine Paroquial. Eles também fizeram a trilha sonora da Rua do Juá, pois lá também se reuniam em ensaios, conforme me confessou Bôsco Monteiro.

O primeiro da fila, dos que estão em pé, é Geraldim de Porteiras; o segundo é Zé de Helena; o terceiro é Xavier; o quarto é Chagas de Barbalha; sentados estão Geraldo Alvino e Luizinho, seu irmão.

Falta na fotografia Juvenal, que não era Roberto Carlos, mas era papo-firme!

Alguns já partiram.

A memória musical entrega saudade a quem construiu recordações afetivas na história e na alma de muita gente.

Agradeço também aos meus pais, Sebastião e Tôta, meus oráculos do passado brejo-santense, que se lembram comigo de coisas que não vi.



domingo, 21 de março de 2021

O GINÁSIO PADRE ABATH

Professor Júlio Macêdo Costa, ao centro,
entre as professoras Marizinha e Neuzelide Pinheiro.
Turma de 1957.

Brejo Santo teve e tem grandes titãs no meio educacional, que deixaram um legado imensurável ao povo, porque suas sementes frutificaram ao longo das décadas, logrando ao Brejo essa vaidade de poder ver seus filhos formados, bem educados, letrados.

No ano de 1957, foi implantado o Ginásio Padre Abath, onde hoje funciona polo da Universidade Federal do Cariri. Fundado pelo  Professor Júlio Macêdo  Costa, padre Tibúrcio Alves Grangeiro e Valmir Alves, o empreendimento trouxe muito orgulho para nossa gente e foi pilar de toda uma geração. Nas palavras de Paulo Gondim, ex-aluno, "o Ginásio Padre Abath ficou na história de Brejo Santo, com seus desfiles nas datas festivas, cujos alunos se orgulhavam de vestir o uniforme cáqui, para os homens, e as mulheres com saias azuis, com duas listras horizontais e blusa branca. O mesmo uniforme foi levado para o Ginásio Estadual Balbina Viana Arrais. O tempo passou e o Professor Macedo não está mais entre nós, mas com certeza, será sempre lembrado por sua iniciativa revolucionária na educação de Brejo Santo."

O Ginásio Padre Abath formou alunos e também professores, que multiplicavam o conhecimento.

O professor Macêdo era rigoroso na disciplina e lecionava principalmente matérias de linguagem ou humanas. Naquela época, a língua estrangeira adotada era o francês, da qual o professor era um exímio mestre.  Curioso lembrar que o saudoso mestre era seminarista, mas largou a vocação porque se apaixonou por uma de suas alunas, Iêda, que também era sobrinha. Viveram uma linda história de amor, com o sonho realizado de conhecerem Paris.

O Ginásio Padre Abath foi embrião da Escola de 1º e 2º Graus Balbina Viana Arrais, onde o professor seguiu com longa e brilhante carreira como diretor. Na administração pública, ocupou cargos de secretário de educação e cultura na década de 90. Deixou um livro de memórias, intitulado Missão Cumprida.

A praça da Universidade Federal do Cariri, campus Brejo, leva seu nome, assim como o Núcleo de Arte e Educação.

Na fotografia, daquele início, vê-se o inesquecível professor Macêdo, ladeado da elegante professora Neuzelide Pinheiro e da professora Marizinha. Peço ajuda para legendar a foto e reconhecer os demais. Com a ajuda de minha mãe e de vocês, caros leitores, identificamos alguns, como Marineusa Santana, Erivaldo Santana, Bernadete, Iêda, Marli Feijó, meu tio Lucena Fernandes. Peço ajuda da comunidade para completarmos a legenda.

Hérlon Fernandes Gomes


sábado, 6 de março de 2021

MARIA ALACOQUE E A RUA DA BEATA

Tenho para mim que a Rua da Beata levava este nome, porque era lá que morava Maria Alacoque, a beata mais temida da criançada.

Morena grande, óculos grossos, cabelo bem arrumado, saião comprido, banhada de muito perfume de alfazema, era ela uma das responsáveis pela catequese da criançada, com estrita ordem e sem piedade para utilizar a dolorida palmatória. Muitos que se lembram dela ainda sentem arrepios na espinha, porque aluno de Maria Alacoque precisava saber uma grande lista de orações, histórias bíblicas e rezar bonito o ato de contrição… Quem se desse mal no dia do argumento, ou se desviasse de sua atenção, sentiria o couro da mão esquentar!

Era Maria Alacoque a responsável por realizar a lapinha, no Natal, pintando e arrumando a criançada para festejar o nascimento do menino Jesus. Eram caboclinhos, anjos, o sol, a lua, pastores, encarnados nesses personagens fantásticos. Era um lindo espetáculo teatral, simples, com palhas de coco, muito papel crepom, música e fogos de artifício.

Na igreja, sua voz no coro era a mais estridente e a meninada mangava escondido daquele seu jeito exagerado de cantar. Era uma vingança pueril pelos tormentos sofridos na palmatória da ranzinza, mas ordeira catequista.

Hérlon Fernandes Gomes


FOTOGRAFIA: PADRE LUIZ ANTÔNIO DOS SANTOS, VIGÁRIO COOPERADOR DE BREJO SANTO (1949-1951). AO LADO DO PÁROCO, VÊ-SE MARIA ALACOQUE, DE MÃOS POSTAS. QUEM SABERIA IDENTIFICAR AS DEMAIS?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A CHEGADA DE CHICO CHICOTE AO SEMINÁRIO

O Major Francisco Chicote, respeitado pela comunidade inteira por sua patente, sua moral, seu fino trato e concórdia, desgostava daquela aversão do filho caçula às letras, aos estudos; temia aquele espírito indomável em sempre querer impor as próprias vontades a tudo. É bem verdade que o rapazinho não era preguiçoso. Realmente nascera para tratar da brutalidade da terra, dos bichos, desses negócios. Encaminhara o menino ao Seminário por insistência de Donina, apegada à crença de que a fé nos ensinamentos cristãos abrandassem aquele temperamento inconsequente. Anos antes, encaminhara Quinco, um dos filhos, que de lá retornou com refinamento de educação, até arranhando o francês.

Até determinado ponto da estrada, já se podia divisar de longe, pequenino, no alto de um morro, uma imponente construção toda murada, parecendo até um castelo das histórias de Camongi, ouvidas tantas noites em Brejo dos Santos pelo menino.

- Ali está o Seminário, meu filho. Sua casa, a partir de hoje, por um bom tempo!

O pai aconselhava-o, ressaltando a necessidade de evoluir nos estudos e melhorar a disciplina, com o pensamento em Deus. Isso faria dele um grande homem.

O menino, já um rapazinho de quatorze anos, insistia que não queria ser padre. Poderia ficar no Brejo e retomar as aulas com o professor Krebs; prometia também ir à missa mais vezes, como sonhava a mãe. O velho major respondeu àquelas promessas somente com um olhar sisudo, demonstrando que não se tratava de negociação, mas de imposição.

Alunos da Quarta Fase. 1893. Chico Chicote é um desses alunos. Não conseguimos identificá-lo. Acreditamos que seja o único registro fotográfico existente, retirado do Álbum do Seminário do Crato. 1893. Dentre seus colegas, temos o ilustre Irineu Pinheiro.

Seminário São José - Crato, onde Chico Chicote estudou, em 1893, até ser expulso, depois de entrar em luta corporal, com um colega, armado de um canivete.


De perto, o Seminário São José parecia ter a grandiosidade de uma das pirâmides do Egito, pensou Chiquinho, que um dia se admirara ao descobrir as gigantes de Gizé, nas gravuras de um livro amarelado de História Geral, do professor particular.

O primeiro portão abria um corredor ladeado por dois imensos canteiros separados por pequenos muros intercalados, onde finalmente, uma segunda e suntuosa entrada de três portas e três altas janelas, guardaria um mundo de solidão, amizade e violência. Muitos anos mais tarde, na cela de uma cadeia, ele lembraria que estivera mais preso e mais vulnerável naquele “ambiente de santidade”, do que pelas grades de um crime.

O ambiente interno, pesado de silêncios, funcionava como um relógio de parede, cheio de atividades sem graça e rotineiras. O tempo era uma eternidade de demora. Sentia-se como um pássaro na gaiola. Precisava de licença para tudo, até para conversar – aliás, cochichar.

Fingia que rezava, que cantava, que sabia acompanhar o latim. Um dia fora descoberto e denunciado por Horácio, um seminarista bajulador do professor Aristarco, o terror do Seminário. Foram suas primeiras, longas e dolorosas palmadas.

... Continua

Hérlon Fernandes Gomes - Paiol de Pólvora (romance histórico inédito)