A Munganga Promoção Cultural

A MUNGANGA PROMOÇÃO CULTURAL: O Brejo é Isso!

sábado, 29 de janeiro de 2022

LAMPIÃO, CANGAÇO E NORDESTE – AGLAE LIMA DE OLIVEIRA – O FESTEJADO LIVRO E SUA HISTÓRIA COM SR. ANTÔNIO DA PIÇARRA – 2ª PARTE

Wilton me conta que nasceu em 22/06/1965, em Brejo Santo-CE, filho de Maria Ivanilda Teixeira e Silva e Wilton Santana e Silva. A ideia primeira de seu nome era se chamar igualmente ao avô, Antônio Teixeira Leite, acrescido de Neto, por vontade de seu pai, Wilton Santana, grande amigo do sogro. Mas em 12 de Janeiro de 1965, antes do nascimento da criança, o jovem pai sucumbe em um acidente de trânsito. Com o nascimento do menino, seu Antônio recusa a homenagem:

- Vai se chamar como o pai, Wilton Santana Filho. É seu primogênito e único filho.

A referência de pai foi o avô, já que do pai biológico só lhe restaram lembranças contadas. Na altura dos seus 70 anos, Sêo Antônio se viu e se sentiu na doçura da paternidade novamente, um pai com benefícios de avô. Ele se apegou tanto ao menino, que até adoecia quando se apartavam.

Entre Brejo Santo e a Fazenda Piçarra, de Porteiras, a criança cresceu na curiosidade por descobrir as histórias daquele avô e pai, como canta um bom trovador paraibano. Causos antigos, de longos tempos do cangaço, seduziam o menino. Histórias de amizade, de traições, de tiroteio, bang-bangs mais interessantes que os faroestes de John Wayne, assistidos no Cine Alvorada. Seu avô era seu herói, sertanejo samurai, com seu gibão de couro, era um cavaleiro armado, vaqueiro de coragem, intrépido na caatinga, nas pegas de bois. A velhice não atingira sua alma. O avô era famoso, dava entrevistas a escritores que vinham de longe comprovar e anotar suas memórias: Nertan Macêdo, professor Antônio Amaury, Hilário Lucetti, José Peixoto Jr., Napoleão Tavares Neves...

Wilton se levanta, em determinado momento da conversa, e entra em casa; volta com duas fotografias em preto e branco.

- Estas fotos são de quando a escritora Aglae esteve por aqui. Era uma pessoa extremamente simpática, carismática demais, inteligente ao extremo. Era uma pessoa extremamente interessante. Eu era pequeno, mas eu a admirava.

Foto tirada em final de expediente. Setembro/1970.Velho engenho da Fazenda Piçarra.
Identifica-se, de óculos escuros, Ivanilda (mãe de Wilton), Aglae,
Sr. Antônio e o menino Wilton, em primeiro plano.


Na Fazenda Piçarra, corriam os tempos da moagem, um quente setembro. Aglae quis conhecer o cotidiano, os hábitos do lugar, transportando o passado para o presente, ressuscitando nomes, confirmando fatos da época lampiônica. Ela e o avô pareciam velhos conhecidos, porque dominavam tanto das mesmas histórias! Sêo Antônio se admirava do quanto aquela professora sabia de tudo, parecia até ter vivido naqueles tempos. E como era simpática! Aglae sentia ter descoberto  grande relíquia.

Aquele senhor estava ligado a três emblemáticas figuras desses anos findos da década de 20, tinha muitas amizades, transitava de Padre Cícero a Lampião. Era muito amigo do coronel Chico Chicote, que não se dava com o Rei do Cangaço. Metido com essas personalidades, além de tantas outras interessantes, Sr. Antônio viveu histórias incríveis de se contar, confirmadas na rica bibliografia deixada sobre o cangaço.

Olharam a bagaceira, sentiram o cheiro de mel de cana fervendo. Ao fim de quase uma semana, Aglae havia feito muitas anotações. Seu livro estava quase pronto. Aquela visita à Piçarra foi tão engrandecedora, que a escritora levou Sr. Antônio para o Recife, a participar de entrevistas e de eventos. Em um deles, Sr. Antônio chegou a reencontrar os ex-cangaceiros Candeeiro e Barreira, além de conhecer a filha de Lampião, Expedita Ferreira.

Lampião, Cangaço e Nordeste foi um sucesso de vendas e de crítica. A 1ª edição, lançada em 1970, com 5 mil exemplares, esgotou em duas semanas. Mais duas edições saíram posteriormente, dentro de um ano. É um livro que influenciou muitos pesquisadores e escritores, a exemplo de Ângelo Osmiro e Manoel Severo. Eles me confidenciaram que foi o responsável por apaixoná-los pelo fenômeno social do cangaço.

Foi um sucesso editorial, levando Aglae a percorrer todo o Brasil, em conferências por universidades, onde foi homenageada com diversos certificados de honra ao mérito, por magníficos reitores.

Aglae Lima de Oliveira faleceu de câncer na cidade de Recife, em 04 de junho de 1984, aos cinquenta e nove anos. Sua obra continua inspiradora. Lampião, Cangaço e Nordeste não foi mais reeditada. É livro raro, caro, verdadeiro ouro nos sebos. Merece uma reedição.

A última escritora a visitar Sr. Antônio foi a respeitada professora Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, autora de A Derradeira Gesta. Ele viveu longos 99 anos de idade, falecendo em 31/08/1994. 

Estamos sentados no velho banco, dos tempos dos cangaceiros, eu, Bruno Yacub e Wilton. Velho banco testemunha de todas essas histórias, onde se sentaram Lampião e tantos apaixonados pesquisadores.

Wilton (22 anos) e o avô Antônio (92 anos).


Aglae e Sr. Antônio da Piçarra se foram, mas obra e memória permanecem vivas, aprimoradas por outras pesquisas. Wilton é a perpetuação das memórias deixadas pelo avô; é um exímio conhecedor do assunto, mente enriquecida pelas obras que leu ao longo de décadas. Wilton é um tesouro vivo e a Piçarra representa, até hoje, espécie de oráculo das obscuras histórias do cangaço.

Hérlon Fernandes Gomes

Agradecimentos especiais a Bruno Yacub, que me acompanha e me inspira nessas incursões. Para Wilton Santana e sua mãe, D. Ivanilda, pelo carinho e amizade de família. Aos meus avós maternos, José Milagres da Silva e Hosana Fernandes de Moura, compadres em batismo de Sr. Antônio. Vovó, aos 103 anos, em seus delírios ao passado, ainda recorda o velho compadre, como se vivo fosse. Para meu pai, Sebastião Gomes da Silva, barbeiro de Sr. Antônio até o último momento de vida.

Bruno Yacub, Wilton Santana e eu. Piçarra. Dezembro de 2021.

Leia também: LAMPIÃO, CANGAÇO E NORDESTE – AGLAE LIMA DE OLIVEIRA – O FESTEJADO LIVRO E SUA HISTÓRIA COM SR. ANTÔNIO DA PIÇARRA – 1ª PARTE

sábado, 22 de janeiro de 2022

LAMPIÃO, CANGAÇO E NORDESTE – AGLAE LIMA DE OLIVEIRA – O FESTEJADO LIVRO E SUA HISTÓRIA COM SR. ANTÔNIO DA PIÇARRA – 1ª PARTE

Em 1970, uma mulher se tornou a sensação do momento, entrando pela TV nos lares brasileiros, no famoso programa Show Sem Limite, de J. Silvestre, respeitado apresentador da TV Tupi. O programa era desses da pergunta milionária. A professora Aglae, de Cabrobó-PE, foi sabatinada na atração, respondendo a tudo sobre um difícil e interessante assunto: LAMPIÃO. Os programas se avolumavam, a audiência era grande e a professorinha aproximava-se da resposta premiada.

- Absolutamente certa a resposta, dona Aglae! – bradava o apresentador.

Com J. Silvestre - Fotografia: Revista O Cruzeiro - 11/08/1970.

Ela foi uma apaixonada pela história do cangaço, rendendo a publicação de impressionante livro a respeito, intitulado Lampião, Cangaço e Nordeste. Dedicou uma vida a pesquisar, visitando lugares, consultando sobreviventes do período. Nertan Macedo, que honrou as orelhas do livro; e Rachel de Queiroz, que o prefaciou, assim escreveram sobre autora e obra:

“Sem contar jamais com verbas e recursos oficiais, Aglae não fez pesquisa livresca, buscando nas fontes consagradas o que entre nós foi dito e escrito sobre os cangaceiros. Ela própria, nascida e vivida no sertão, conviveu, durante duas décadas, não apenas com a paisagem que emoldurou o Capitão do Cangaço, mas com os cabras sobreviventes da terrível aventura, que lhe ditaram memórias e reminiscências inesquecíveis sobre a vida comunitária do grupo bandoleiro, fatos, hábitos, higiene, sexo, maneiras de encarar as coisas, os homens e os animais. [o livro] é uma fonte de consulta obrigatória a quantos queiram conhecer o cangaço nômade na intimidade.” (Nertan Macêdo)

“Hoje ninguém poderá pretender discutir cangaço e cangaceiros - especialmente quando se tratar daquele que foi chamado o Rei do Cangaço, Lampião -, sem se curvar ante a professora Aglae Lima de Oliveira, autoridade máxima no assunto. (...) Aglae domina o assunto, conhece-o profundamente, vive a história de Virgulino, interpreta-a, recorda-a quase como uma testemunha - , o que de certa forma o foi. Pois se a moça não viu, porque nem era nascida então, ou era pequena demais para entender o que assistia, soube depois recolher no testemunho direto dos contemporâneos, na visita aos cenários do drama (que ocupou lugar tão dilatado no tempo e no espaço do Nordeste), no interrogatório paciente e minucioso dos sobreviventes da grande tragédia sertaneja, a sua verdade mais autêntica.” (Rachel de Queiroz)

Sr. Antônio Teixeira Leite, o famoso Antônio da Piçarra e a escritora Aglae, na Fazenda Piçarra - 1970

Sobre Lampião, resumiu Aglae à revista O Cruzeiro, de 11/08/1970: "Na minha concepção, foi um fenômeno sociológico e psicológico. Um gênio militar perdido nas caatingas. Grande capacidade de liderança. Amava e odiava, alimentava e assaltava, era herói e covarde. Foi profundamente nacionalista. Sua vida foi a luta de um homem contra o destino. Lampião era astuto e calculista e não se pode dizer que era totalmente ruim. É que seu lado mau tem sido muito explorado. Ele não cansava de repetir as quatro coisas que mais gostava: gado gordo, cavalo de passada boa, mulher e arma de fogo."

A distante Piçarra, no Cariri, localizada no município de Porteiras-CE, foi um dos pontos para onde convergiu a escritora, em busca de conversar com Sr. Antônio, 75 anos de idade,  memória viva de sua complicada relação com Lampião: de coiteiro a delator, premido pelas questões legalistas. De fato, a Piçarra foi palco de importantíssimas diligências cangaceiras. Foi lá, por exemplo, onde aconteceu, em 1928, uma das mais penosas baixas no bando do Rei do Cangaço, a morte de Sabino Gomes, o lugar-tenente de Lampião.

Vilson é a criança em primeiro plano, com o avô, primo e tio.

Fui me encontrar com Wilton Santana (Vilson), filho-neto de Sr. Antônio, que me contou a bonita história de afeto entre ele e o seu velho invisível - o seu velho indivisível avôhai; e como foram as visitas de Aglae em busca de todos os detalhes sobre o cangaço. À época, Vilson era uma tenra e curiosa criança, que cresceu apaixonado pelas histórias do perigoso sertão. Ele me contou os detalhes desses encontros.

... Continua

Hérlon Fernandes Gomes

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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

O MUNGUNZÁ DO CARIRI


Da culinária da minha terra, o mungunzá salgado, mais conhecido ali pela região do sul do Ceará, para dentro da Paraíba e em algumas cidades circunvizinhas do Pernambuco, é a receita mais carregada da memória afetiva da minha família. Conhece-se muito o mungunzá doce do baiano, ou canjica baiana, do qual também sou fã. Viajando pelo Brasil, acabei constatando que fora daquela minha região, pouca gente parece conhecer o mungunzá como feito no Cariri. A palavra é de origem africana, do quimbundo mu'kunza, e significa milho cozido.

Naquele grande raio de sertão, milho e feijão foram, desde os primórdios, plantações básicas desses sertanejos e garantiam-lhes a nutrição mais costumeira. As carnes salgadas eram a forma de proteína mais adequada para armazenamento e conservação duradoura. Na despensa, o caririense guardava uma costelinha de porco salgada, mocotós, uns pedaços de toucinho...

O mungunzá salgado é uma mistura de todos esses ingredientes em um grande cozido. Há receitas mais modestas, nascidas na escassez das secas, quando o bucho e as tripas não se desperdiçavam e substituíam os cortes mais nobres. Eu, particularmente, aprecio o “mungunzá do inverno” e o “mungunzá da seca”. Os caririenses, viciados no abundante pequi da Chapada do Araripe, acrescentam, a uma ou a outra receita, uns caroços do generoso fruto. É uma receita calórica, necessário composto a quem pegava no pesado, trabalhando duro na lavoura.

O preparo de um mungunzá é um ritual. Não é uma receita simples. O sertanejo nem sempre dispôs das práticas panelas de pressão. Minha avó paraibana contava que era preciso deixar o milho e o feijão de molho, por horas. Em panelas de barro separadas cozinhavam-se os grãos. O fogão à lenha varava a madrugada fervendo, fritando, misturando os sabores. Ao feijão, acrescentavam-se as carnes temperadas com pimenta do reino e cominho. Um cheiro de fartura inundava a casa inteira. Por fim, o milho e o cozido do feijão juntam-se numa panela maior, onde se aferventa a receita completa, finalizada com coentro fresco picado. Incontáveis pratos fumegantes na hora do almoço! Cheiro e gosto da minha gênese, chaves de pertencimento.

Reflito que o mungunzá é para o caririense o mesmo que representa a feijoada para o baiano. Pelo Cariri, é coisa fácil de se comer. Nos cafés antigos, nos velhos mercados, é possível tirar a ressaca de manhãzinha comendo um apetitoso mungunzá. No São João, é sucesso nas barracas de comidas. É receita de ouro da nossa gente, sinônimo de fartura, banquete para a fome, cozinha de tradição.

O Brejo é Isso!

Hérlon Fernandes Gomes

Foto: Google Imagens

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

ANÁLISE DA ENTREVISTA QUE LAMPIÃO CONCEDEU EM BREJO SANTO, EM 1926 NO CONTEXTO DO QUE NOTICIAVA A IMPRENSA DA ÉPOCA. COLUNA PRESTES. UMA NOTÍCIA FALSA PÕE A VILA DE BREJO EM ALERTA. LAMPIÃO VAI A JUAZEIRO SE ALISTAR AO GOVERNO PARA LUTAR CONTRA O CAVALEIRO DA ESPERANÇA.

A Serra do Poço está localizada no município de Brejo Santo,
na região de fronteira entre o Cariri cearense e o Pajeú pernambucano. 
Registro feito a partir da Barragem dos Porcos.
Foto: Acervo dA Munganga.

O jornal Gazeta de Juazeiro colheu impressionante reportagem a respeito de Lampião e seu grupo, ao passar por Brejo Santo, na direção do Pajeú.

Publicada também pelo Jornal do Recife, em 25 de fevereiro de 1926, a matéria fornece interessantes informações sobre Lampião e o seu bando. O célebre bandoleiro andava fardado de Coronel, depois de realizar malfeitos na região, matando, roubando e lançando o terror por toda a parte.

Nessa época, levas de romeiros pediam a proteção do padre Cícero e se obstinavam em permanecer em Juazeiro, único ponto onde se julgam a salvo do banditismo.

Francisco Saraiva Xavier, mas conhecido como Chiquinho,
foi proprietário da fazenda Poço e vizinho do major Firmino Inácio 
e Dona Sinhá, no sítio Cachoeirinha,
localizados às margens do Riacho dos Porcos.
Foto: acervo de Maria do Socorro Cardoso Xavier.

Estava o senhor Francisco Saraiva Xavier no seu sítio Poço, na vila de Brejo dos Santos (atual Brejo Santo – CE), quando apareceu ali Lampião e um numeroso grupo de bandidos pedindo-lhes pousada. Vinham todos a cavalo e estavam armados até os dentes.  Chiquinho Xavier, como era conhecido, não pôde deixar de dar pousada aos estranhos hóspedes, que se mostraram desde logo sem cerimônias, tomando conta da casa.

O fazendeiro aproveitou o ensejo para realizar uma entrevista ao Rei do Cangaço.

Contou o parnamirinense, radicado em Brejo Santo, casado com Eulália Sampaio Cardoso Martins Xavier,  que o grupo de facínoras era composto de Lampião, Dé Araújo e Sabino, formando um grupo de 45 homens. Vinham de Aurora, tendo penetrado a Paraíba e, após as mais terríveis depredações, retornavam ao Ceará para, em seguida, internarem-se nos sertões do Pajeú pernambucano.

O anfitrião pediu que Lampião se apresentasse, tendo dito:

- Eu sou o coronel Lampião, o homem mais valente do Brasil.

Em seguida, apresentou os principais componentes do seu grupo.

- Aqui o meu estado maior... major Horácio Novais, meu secretário..., capitão fulano..., tenente sicrano.

O repórter descreveu que todos estavam fardados como verdadeiros militares, cada um apresentando as divisas dos seus imaginários postos. A segunda pergunta questionava a Lampião quais os objetivos com a tropa naquele lugar:

- Ando recrutando gente para a guerra... – respondeu Virgulino Ferreira.

Chiquinho Xavier não compreendeu bem a resposta e Lampião se pôs a conversar desembaraçadamente, expondo todos os seus planos com desassombro.

- Por ora somos 32 homens, 32 que você está vendo e mais 20 que mandei a uma diligência (incendiar as propriedades de um fazendeiro na Paraíba). Vim ao Ceará somente recrutar gente para a guerra. Pretendo agora no Pajeú completar uma força de 200 homens para atacar uma cidade importante no Pernambuco, a fim de aumentar o número de homens a mil.

E dizendo isto, mostrou uma porção de rifles e munição que levava de sobressalência, para distribuir com os novos recrutas. As condições do engajamento eram as seguintes: Lampião daria um rifle com munição, fardamento e 1000$000 (cem mil réis) em dinheiro ao recruta e este então fizesse pela vida daí por diante.

- E para que o Coronel quer tanta gente? Indagou Chiquinho Xavier, curioso.

- Não lhe disse que era para a guerra? Tornou Lampião. Quero juntar mil homens para declarar guerra oficial aos estados da Paraíba e Pernambuco. Hei de fazer uma guerra tão violenta a estes Estados que o meu nome ficará na história.

- E não tem medo do Governo Federal? Lampião riu ironicamente e continuou:

- Nós não sabemos o que é medo. O meu plano é resistir como um leão até o Governo nos conceder anistia.

Francisco Xavier estava de queixo caído. Todavia, Lampião prosseguiu:

- Agora vou lutar a descoberto. Estou aborrecido de caminhar por veredas. Só andarei agora pelas estradas e faço questão de me encontrar com os “macacos” do Governo.

A matéria ressaltava a vaidade de Lampião, devido à celebridade que o seu nome havia ganhado nos jornais e citava outras matérias contemporâneas, em que se descrevia um homem de atitudes contraditórias às selvagerias também alardeadas. Por exemplo, sobre as horríveis depredações da Paraíba, nos sítios Cipó e Catingueira, ele foi citado, no jornal O Rebate, de Cajazeiras como um chefe de bando generoso e moderado.

Outra matéria contava que, no Ceará,  Lampião teria dado 500$000 (quinhentos mil réis) para o conserto de uma capela, e mais 100$000 (cem mil réis) de esmola a uma velhinha e obrigou um dos cabras a restituir 60$000 (sessenta mil réis) que roubara de um pobre lavrador.

Trajado como um Coronel do exército, no Poço, em Brejo Santo, usava meias de seda, camisa palha de seda, lenço também de seda ao pescoço, passado num anel de brilhante, relógios, pulseira nos dois punhos, bornal, cartucheira ataviados com moedas de ouro, chapéu de abas largas, ao modo dos bandidos de cinema.

Nos pousos, o bandoleiro chefe costumava tocar uma harmônica e outros jogavam moedas de ouro no chão. O major Horácio Novais era quem lia as últimas notícias dos jornais para o coronel Lampião, que o ouvia atentamente, interrompendo-o aqui e ali para fazer os seus comentários sempre galhofeiros.

Lampião demonstrava gosto por ver seu nome em letras de forma e se interessava especialmente pelas notícias relativas aos revolucionários da Coluna Miguel Costa-Prestes, aos quais devotava um verdadeiro culto de admiração:

- Só não gostei do nome dessa tal Coluna Peste, mas se esses peste é contra o Governo, tô com eles.

UMA FAKE NEWS ANTIGA ASSUSTOU BREJO DOS SANTOS

Grupo de brejo-santenses formado para proteger a vila de Brejo dos Santos
de um possível ataque de Lampião, em janeiro de 1926.
1 - Zé Chicote, 2 - Antônio Cornélio, 3 - Mestre Olívio, 4 - Pedro Celião,
5 - Elias Bastos, 6 - Zé Celião, 7 - Antônio Simplício, 8 - Basílio Neto,
9 - Antônio Matias, 10 - João Gomes.
Foto: Acervo Seculte Brejo Santo.

No início de janeiro de 1926, espalhou-se pela vila de Brejo dos Santos uma notícia, que alvoroçou o povo brejo-santense, que correu para se armar. Saia gente de todo canto avisando e pedindo para que as pessoas se prevenissem contra o possível ataque do famigerado bandido. Outras pegaram em armas e se juntaram em grupos com o intuito de enfrentar a horda que se dizia aproximar para grande arruaça. Vários homens, de fato, se reuniram, em busca de um plano que amenizasse os possíveis estragos na cidade.

O coronel Manoel Leite de Moura, que era conhecidamente manso, logo se avexou, procurando defesa. Conforme nos contou o neto do dito coronel, Francisco Leite Quental e o co-autor Antônio Klévisson Viana Lima, no livro - Lampião e Outras Histórias Curiosas do Cangaço: “na agonia e no desespero da tão decantada invasão, correu e agarrou o seu rifle cruzeta e colocou a cartucheira na cintura. Quando voltou todo equipado, chamou logo a atenção dos presentes, pelo inusitado da vestimenta. Guardando certa pose, desfilava um tanto orgulhoso e altaneiro pela casa, quando se ouve um barulhozinho: “top... top... top...” O nêgo Zé Felix, seu amigo e compadre, por sinal muito valente, depois de observá-lo atentamente, disse: - “Coroné, o sinhô colocou a cartucheira foi de cabeça pra baixo e as balas estão todas despencando!” Ninguém aguentou e todos caíram na gargalhada, enquanto o Coronel repetia desapontado: - “Ô que seiscentos diabo! Eu não dou pra isso, definitivamente eu não dou pra isso...”

Coronel Manoel Leite de Moura
 e sua esposa, Antônia Leite Tavares.
Foto: acervo dA Munganga.

Chalé do Cel. Manoel Leite de Moura, na vila de Brejo dos Santos. Década de 1940.
Foto: acervo dA Munganga.

Como dito no subtítulo, foi apenas uma fake news. O bando de Lampião não passou pelo centro da Vila de Brejo dos Santos, do Poço, onde concluiu a entrevista, seguiu para o Pajeú.

Notícias outras noticiavam que Lampião nutria "simpatia' pelos revoltosos da Coluna Prestes, a respeito dos quais acompanhava as notícias por meio da imprensa. Sua admiração pelo "Cavaleiro da Esperança" aparentemente seria tanta que planejava formar um batalhão para se unir aos rebeldes tenentistas, com quem faria uma "guerra oficial" aos estados de Pernambuco e da Paraíba. Os revoltosos, em teoria, estariam tentando aliciar o "rei" dos cangaceiros, de acordo com Flores da Cunha, em carta ao "coronel "Ângelo Gomes Lima, mais conhecido por Ângelo da Gia.

Especulações de que oficiais da Coluna teriam recomendado que Prestes convidasse o bandoleiro a se unir aos revoltosos, mas que ele teria se recusado; e de que um primo de Lampião, na Paraíba, teria se oferecido ao "Cavaleiro da Esperança" para convidar Virgulino a se unir à sua Coluna, o que também foi rejeitado. Até mesmo um cangaceiro, José Alves da Cunha, o Ventania, teria sido capturado pelos soldados de Prestes e incorporado à Coluna, durante a passagem dos "revoltosos" pela região. E que o próprio Lampião chegou a afirmar que havia aprendido muito com os revolucionários.

Conforme dito, foram somente especulações, pois não há nenhum indício, seja da parte de Lampião, seja de entrevistas ou documentos de Prestes ou dos oficiais tenentistas, de que o mais famoso comunista brasileiro tivesse manifestado entusiasmo em se unir aos cangaceiros. Pelo contrário, como se sabe, o "capitão" Virgulino Ferreira se aliaria ao Governo por um breve período para lutar contra Prestes e seus soldados, quando vai receber a patente de Capitão do Batalhão Patriótico, em 06/03/1926, em Juazeiro do Norte-CE, chamando-se de legalista por onde passasse.

Registros da passagem de Lampião em Juazeiro do Norte, em março de 1926, feitas por Lauro Cabral de Oliveira Leite e Pedro Maia.

Ao Lampião "patriota" de 1926, atuando agregado ao Batalhão
Patriótico, não ficava bem o uso de chapéu de couro de aba
arrebitada, símbolo máximo do cangaço. Melhor o de feltro.
Foto de Pedro Maia.
Texto: Frederico Pernambucano de Mello.
Tendo recebido a patente de capitão honorário das forças legais,
despira o chapéu de couro, símbolo máximo do cangaço.
Máquina pronta, luz ideal, Lampião segura delicadamente o fotógrafo
 pelo braço e lhe sussurra ao ouvido: "Tu vai tirar meu retrato só daqui
pra cima (e fez um gesto significativo querendo dizer: só o busto!)
"
 e continuou: "Mas cuidado para não pegar meu olho cego, viu?"
 Porém Pedro, como bom profissional que era, sombreou o lado
direito do rosto do cangaceiro e fez um belo perfil,
 representando a melhor foto de Lampião, conhecida mundialmente. 
Foto: Pedro Maia.

Ainda no Juazeiro, Lampião (de chapéu de couro) e 
Antônio Ferreira (irmão de Lampião), vulgo Esperança portam
mosquetões mauser 1895, com pesadas cartucheiras de
 duas camadas à cintura (cerca de cem cartuchos)
e broches do Padre Cícero no peitoral.
Foto de Lauro Cabral de Oliveira Leite.
Texto de Frederico Pernambucano de Mello.

Grupo de Lampião em visita ao Juazeiro em março de 1926. Da esquerda, de pé,
o chefe e o seu irmão mais velho, Esperança, armas em riste. Dos 21 bandoleiros,
 15 portavam rifles Winchester, e 6, fuzis ou mosquetões Mauser. Sabino recusou-se
 ostensivamente a posar, retirando-se com os seus 16 homens.
Foto de Pedro Maia.
Texto de Frederico Pernambucano de Mello.

Grupo completo, vendo-se a primeira fila de joelho no chão; a segunda de pé e a terceira
em cima de um banco. Lampião e Antônio Ferreira aparecem no lado esquerdo da fotografia.
Foto de Pedro Maia.

Foto da família Ferreira na visita de Lampião ao Juazeiro, tirada pelo fotografo
 Lauro Cabral de Oliveira Leite. Da esquerda para a direita: Domingos Paulo,
 um desconhecido, Sebastião Paulo, Ezequiel, João Ferreira, um desconhecido,
Francisco Paulo, Virgínio e José Dandão. Sentados: Antônio Ferreira, Angélica,
 Joana (mulher de João Ferreira), Mocinha, Anália e Virgulino.
 

PS: Francisco Saraiva Xavier, mais conhecido por Chiquinho, nasceu em Leopoldina, hoje Parnamirim – PE, em 1896 e é filho de Pedro Xavier de Souza e Josefa Leocádia de Castro Saraiva. Casou-se em 10.12.1917 com Eulália Sampaio Martins Cardoso, mais conhecida por Lolosa, nascida 04.04.1892, no sítio Crioulos, em Barbalha – CE, sendo filha de João Martins Cardoso de Oliveira e Maria Glória Sampaio Cardoso. Chiquinho e Lolosa tiveram os seguintes filhos: Audízio Martins Xavier, Olavo Martins Xavier, Alberto Martins Xavier, Adalberto Martins Xavier, Agemir Marins Xavier, Agamenon Martins Xavier, Aldo Martins Xavier, Adair Martins Xavier, Marlene Xavier do Amaral e Maria Sampaio Xavier Mariano.

O Brejo é Isso!

Por Bruno Yacub Sampaio Cabral.

Agradecimento especial aos amigos Hérlon Fernandes Gomes e Ângelo Osmiro Barreto.

PANORAMA ATUAL DA FAZENDA POÇO, ANTERIORMENTE PERTENCENTE A FRANCISCO SARAIVA XAVIER.




Referência bibliográfica:

- BONFIM, Luiz Ruben F. de A; Lampeão antes de ser Capitão; Paulo Afonso; Editora Oxente; 2ª Edição; 2020;

- CABRAL, Bruno Yacub Sampaio. Análise da entrevista que lampião concedeu em brejo santo, em 1926 no contexto do que noticiava a imprensa da época: coluna prestes. uma notícia falsa põe a vila de brejo em alerta. lampião vai a juazeiro se alistar ao governo para lutar contra o cavaleiro da esperança. Brejo Santo, 2021. Disponível em: < https://amunganga.blogspot.com/2021/12/analise-da-entrevista-que-lampiao.html >. Acesso em: 27 dez. 2021;

- CHANDLER, Billy James; Lampião: o rei dos cangaceiros; São Paulo; Paz e Terra; 1981;

- IRMÃO, José Bezerra Lima; Lampião: a raposa das caatingas; 4ª edição; Salvador; JM Gráfica & Editora Ltda; 2018;

- PERICÁS, Luiz Bernardo; Os Cangaceiros: ensaio de interpretação histórica; São Paulo; Boitempo; 2010;

- QUENTAL, Francisco Leite; e Lima, Antônio Klévisson Viana; Lampião e Outras Histórias Curiosas do Cangaço; Brejo Santo; 2005;

- MACIEL; Frederico Bezerra; Lampião: seu tempo e seu reinado; Petrópolis; Vozes; v. III; 1986;

- MELLO, Frederico Pernambucano de; Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil; São Paulo; A Girafa; 2011;

- MELLO, Frederico Pernambucano de; Benjamim Abrahão: entre anjos e cangaceiros; São Paulo; Escrituras Editora; 2012;

- MELLO, Frederico Pernambucano de; Apagando Lampião: vida e morte do rei do cangaço; São Paulo; Global; 2018;

- NETO, Lira; Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão; São Paulo; Companhia das Letras; 2009;

- SANTOS, Robério (organizador); Álbum do Cangaço 2; 2018;

- XAVIER, Maria do Socorro Cardoso; Cardoso: troncos e galhos de um clã caririense; João Pessoa. Sal da Terra Editora; 2006;

- XAVIER, Maria do Socorro Cardoso; A saga de um clã Xavier; João Pessoa; Sal da Terra Editora; 2012;

- WALKER, Daniel; Padre Cícero, Lampião e coronéis: análise de vida política de Padre Cícero através de dois eventos: outorga da patente de Capitão a Lampião e o Pacto dos Coronéis; Fortaleza; Expressão Gráfica e Editora; 2017;

- WALKER, Daniel; Lampião e sua falsa patente de Capitão; Rio de Janeiro; Katzen Editora; 2019;

- Jornal O Combate (SP); edição de 13 de janeiro de 1926;

- Jornal A Província (PE); edição de 26 de janeiro de 1926;

- Jornal do Recife (PE); edição de 25 de fevereiro de 1926.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O TRIBUNAL DO JÚRI DE VILLA BELLA, PERNAMBUCO, JULGA O CORONEL CHICO CHICOTE – 1913 – ANÁLISE DE AUTOS DE PROCESSO-CRIME

Chicote
"Recebi cópia de libelo pelo qual sou acusado e do rol de testemunhas.
Cadeia pública, 3 de Novembro de 1913. Francisco Pereira de Lucena."
 

1. INTRODUÇÃO


Há alguns anos venho desbravando as fontes históricas, sejam na bibliografia conhecida ou nos documentos dos arquivos, acerca do personagem central de um romance, já em adiantada fase. Trata-se da pessoa do coronel Chico Chicote, brejo-santense radicado em Porteiras, na famosa localidade Guaribas, atacada em 1927, por quatro forças policiais e pelo consórcio de seus inimigos. Ele foi símbolo de poder naquela época, típico líder da era do bacamarte.

Um neto do próprio Chico Chicote, o advogado Djalma Inácio de Lucena, ao narrar o que sabia sobre as histórias do avô, contou-me sobre um júri à que fora submetido o coronel, na comarca de Belmonte, sem data certa. Não sabia maiores detalhes a respeito.

Com tais informações, em pesquisas na hemeroteca da Biblioteca Nacional, acabei por descobrir a notícia de um jornal, revelando a prisão de Chico Chicote, no ano de 1913, em Belmonte, Pernambuco.

Jornal do Recife - Terça-feira, 11 de Novembro de 1913.

Com esse fio, conversando com Valdir Nogueira, amigo que a família Cariri Cangaço me agregou, residente naquele local, conversamos sobre a minha sonhada vontade de poder encontrar os autos daquele processo-crime, certamente uma fonte de informações preciosas, considerando a oficiosidade dos atos judiciais.

Conversamos sobre muitos fatos curiosos da antiga Villa Bella; Valdir me disse que, por coincidência, seguiria até Recife, no dia seguinte, e daria um pulo no departamento histórico do Tribunal de Justiça do Estado do Pernambuco, onde o processo talvez estivesse arquivado.

Qual não é minha surpresa quando recebi os preciosos documentos: o processo de primeiro grau e a respectiva apelação.

Folha de rosto do Processo Crime - 1913 - Juízo Municipal de Belmonte.

Ao folhear as velhas páginas destes autos, senti-me como talvez se sentiram os arqueólogos que abriram a tumba de Tutancámon; ao transcrever os rebuscados manuscritos, senti-me como um Sherlock Holmes. Foi o mais próximo que consegui chegar do famigerado coronel.

Conforme CALEIRO, et al, os processos “são testemunhos dos costumes e da constituição do universo físico e mental do período analisado, bem como da ação da justiça institucionalizada. As imagens que se depreendem da leitura destes documentos descortinam relações de poder, amor, ódio, violência e solidariedade.”

O processo, presidido por uma autoridade de Estado, um juiz togado, respeitado o Contraditório e Ampla Defesa, é documento valiosíssimo para a pesquisa, porque seu conteúdo reflete “aspectos da vida cotidiana, uma vez que, interessada a justiça em reconstruir o evento criminoso, penetra no dia-a-dia dos implicados, desvenda a sua vida íntima, investiga seus laços familiares e afetivos registrando o corriqueiro de suas existências” (MACHADO, 1987, p. 23).

Compartilho, pois, com todos vocês da análise de transcrições relevantes de peças do dito processo. Certamente, minha intimidade com o processo penal facilitou-me a tarefa. É um precioso mergulho no tempo.

2. A DENÚNCIA

Por libelo crime em cartório diz a justiça pública, como autora, por seu promotor, contra os réus Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote; Antônio de Lira; José Luiz e Laurentino de Tal, por esta ou na melhor forma de direito.

E.L.C.

1. Provará que no dia 12 de Agosto de mil novecentos e seis, de 3 para 4 horas da tarde, no lugar Mameluco, deste município, os réus desfecharam diversos tiros de rifles em Félix de Tal, dos quais um o atingiu produzindo-lhe o ferimento descrito no presente sumário.

2. Provará que este ferimento por sua natureza e sede foi causa eficiente da morte do ofendido.

3. Provará que os réus cometeram o crime impelidos por motivo frívolo.

4. Provará que os réus cometeram o crime com superioridade em armas de modo que o ofendido não pudesse defender-se com probabilidade de repelir a ofensa.

5. Provará que os réus cometeram o crime com premeditação mediando entre a deliberação criminosa e a execução o espaço pelo menos de 24 horas.

6. Provará que os réus cometeram o crime com surpresa.

Nestes termos, pede-se a condenação dos réus nos graus máximos do art. 294, §1º, do Código Penal, por se dar nas circunstâncias agravantes do 39, §§2,º, 4º, 5ª e 13º do mesmo Código Penal.

E para que o crime se julgue, se oferece o presente libelo que se espera seja recebido e afinal julgado provado.

E. Custas

Requeiro a bem da acusação que tenham lugar as diligências legais e especialmente que sejam notificadas as testemunhas abaixo arroladas para comparecerem às sessões do julgamento a fim de afirmarem o que souberem e perguntado lhes for acerca do presente crime.

Rol de Testemunhas:

1. José Feijó de Medeiros

2. [?] Ribeiro de Melo

3. Antônio Feijó de Medeiros

4. José Pinho Celestino

5. Amaro Pereira de Araújo

6. Alexandre B [?] de Araújo

Umas residentes no Ceará, outras neste município

Villa Bella, 13 de Junho de 1913.


O Promotor Público

Januário Batista do Amaral

Libelo acusatório.

3. A INSTRUÇÃO PROBATÓRIA: MOTIVAÇÃO DO CRIME E INTERROGATÓRIO DO RÉU

O juiz presidente do Tribunal do Júri foi do Dr. Felisberto dos Santos Pereira, natural de Rio Formoso, zona da Mata de Pernambuco. Nascido em 1882 e formado em 1907, pela Faculdade de Direito do Recife, sendo colega do poeta paraibano Augusto dos Anjos. 

Destaco trechos relevantes a oitiva das testemunhas.

a) 1ª TESTEMUNHA

José Feijó de Medeiros

Que achava-se no campo, na qualidade de vaqueiro que era, no dia doze de agosto de mil novecentos e seis, data em que se deu o fato delituoso de que se trata, (…) quando ela testemunha vinha saindo de uma vereda que desemboca na estrada de Canabravinha deste termo, aí encontrou-se inesperadamente com o denunciado Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote, e mais três indivíduos aos quais ela testemunha não conheceu; que aí todos lhe disseram - boa tarde - e um deles dirigindo-se a ela testemunha disse-lhe que desse lembrança a Félix de Tal que agora iria levar carta no inferno; que logo após os citados indivíduos, todos armados de rifle, continuaram o seu caminho pela referida estrada e ela testemunha surpresa com o que acabava de ouvir, dirigiu-se imediatamente a sua casa, onde deixou a roupa de couro, digo de campo, logo se encaminhando para um açude próximo em que o citado Félix trabalhava; que em ali chegando encontrou ele à margem do açude referido, de pé e recostado a um pau, o aludido Félix, que apresentava um ferimento mortal na região lombar, produzido por bala, ferimento este que atravessando todos os tecidos da região, veio terminar do outro lado na região abdominal correspondente; que ela testemunha indagando de Félix o motivo de semelhante desgraça, este lhe respondeu que há poucas horas apenas fôra surpreendido no seu trabalho pelos denunciados Chico Chicote, José Luiz, Antônio de Lyra e Laurentino de Tal, os quais se aproximando dele ofendido, descarregaram-lhe cerrada carga de tiros, ouvindo antes Chicote dizer para seus companheiros: - O homem é este - que o próprio Félix disse a ela testemunha ter contado onze tiros na ocasião dos disparos e que não obstante estar armado de garrucha, tão atarantado ficou que dela não fez uso; que ela testemunha verificou na vítima além do ferimento descrito uma espécie de queimadura no braço direito, sendo de presumir que tivesse sido feita por alguma bala mal alvejada; que Chico Chicote e seus companheiros se aproximaram da vítima sem que esta pressentisse, tanto que ao passarem pelo rancho que Félix ali fizera para descanso nas horas mais quentes do dia, apanharam o rifle do mesmo Félix que ali estava, carregando-o depois do fato; que a opinião corrente e mais segura é a de que o motivo do crime foi determinado pelo fato de Félix ter dito ao seu patrão e compadre Manuel Chicote, irmão do primeiro denunciado, que este havia pegado dolosamente uns bois de propriedade do referido Manuel Chicote; que dias depois José Chicote, também irmão do referido denunciado, fez público que o fato fora levado ao conhecimento de Manoel Chicote, por Félix; que inconformado [?] com a denúncia de Félix, Chico Chicote prometeu que tomaria uma vingança, seria logo que se encontrasse com o mesmo Félix; que este sendo avisado do sinistro que contra si se tramava, resolveu mudar-se para Mameluco deste termo (...)

b) 2ª TESTEMUNHA

De...do Ribeiro de Melo:

(…) Que estava em sua casa no lugar Mameluco deste termo, por volta de quatro horas da tarde do dia doze de agosto de mil novecentos e seis, quando aí chegou José Feijó de Medeiros, e lhe disse que a curta distância dali e num açude em que estavam trabalhando Félix de Tal e outros trabalhadores, com uma garruncha, dela não se serviu, que além desta arma Félix tinha no rancho em que costumava descansar, e ali também situado, um rifle que os criminosos após o delito carregaram; que o motivo do fato delituoso referido é público e notório, foi ter Félix, quando morava no Cariri, denunciado de Chico Chicote ao patrão dele Félix, Manuel Chicote, irmão do denunciado, por ter este pegado uns bois do irmão com dolo; que sabedor desta denúncia Chico Chicote ficou seriamente [ilegível] com Félix, prometendo que desforraria do seu atrevimento na primeira ocasião em que o encontrasse. Que devido a este incidente, Félix deixou a companhia de seu patrão e veio para Mameluco, onde há apenas um mês se achava trabalhando no aludido açude; que Chicote e os seus companheiros sabendo o paradeiro de Félix vieram a seu encontro (...); que incontinente ela testemunha saiu de casa em demanda do açude ali encontrando Félix banhado de sangue e apresentando um ferimento produzido por bala de rifle, a qual penetrando na região lombar esquerda e atravessando os intestinos veio sair na região abdominal correspondente próximo ao umbigo; que dirigindo-se a Félix perguntou-lhe como se dera aquele fato, ao que este respondeu que estando no seu trabalho foi de surpresa acometido por Chico Chicote e mais três indivíduos (...) que sobre a conduta do primeiro denunciado, ela testemunha tem ouvido dizer ser muito irregular por se ele homem perverso e dado ao cangaço; que dos outros denunciados nada sabe por não ouvir dizer, nem conhece-os; que o morto era homem trabalhador e de bons costumes. E por mais não dizer nem lhe ser perguntado, deu-se por findo este depoimento, que lido e conforme assina a rogo da testemunha.

c) 3ª Testemunha

Antônio Feijó de Medeiros

(...) que conhece desde menino Chico Chicote, e faz do mesmo péssimo juízo, pois sempre o conheceu como turbulento e dado ao cangaço, sabendo igualmente que ele é autor de outros crimes além deste, no Estado do Ceará, embora lhe conste não estar sujeito a processo naquele Estado; que o seus corréus, segundo consta, são cangaceiros de profissão, mas ela testemunha nada sabe de positivo a respeito da conduta dos mesmos; que relativamente a Félix o conhecia de pouco tempo, mas sempre o viu proceder com correção, mostrando-se trabalhador e honesto.


d) 4ª Testemunha

José Pedro Celestino, conhecido por José Dutra, com cinquenta e oito ano de idade, casado, agricultor, natural do Estado da Paraíba, residente em Porteiras, Estado do Ceará, não sabe ler nem escrever, aos costumes disse nada, testemunha jurada na forma legal, prometeu dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado.

E sendo inquirida a denúncia de folhas, que lhe foi lida, respondeu: que no dia em que se passou o fato criminoso, ela testemunha achava-se no lugar, digo, no local em que o mesmo fato se passou, num açude em que com Félix estava trabalhando; que ela testemunha achava-se em cima da barreira do açude e Félix embaixo marcando a parede do mesmo açude, quando de repente ouviram o estampido de sucessivos tiros e a voz do denunciado Chico Chicote chamar - "Morreste, negro', que Félix, implorando em gritos a proteção divina procurou fugir à sanha dos seus agressores, correndo de riacho acima, ao passo que o tiroteio continuava; que ao saltar uma cerca recebeu uma bala, que penetrando na região lombar direita, perfurou os intestinos vindo sair na região umbilical produzindo grande derramamento de sangue acompanhado da expulsão de uma parte do tecido adiposo da aludida região; que do grupo criminoso ela testemunha conheceu bem aos denunciados Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote, e José Luiz, vindo a saber depois de fonte insuspeita que os outros eram Antônio de Lyra e Laurentino e de Tal; que Félix estava na ocasião armado de uma pistola pequena, mas dela não se serviu, tendo a fora dessa arma e num rancho ali também situado um rifle que os criminosos carregaram; que depois de praticado o crime o denunciado José Luiz quis obrigar a ela testemunha a entregar o aludido rifle que depois eles encontraram no aludido rancho; que o denunciado Chico Chicote disse a ela testemunha tempos depois que não tinha dado esse conhecimento no dia em que atiraram em Félix, porque então não estava ainda bem informado dos precedentes dela testemunha a respeito dele denunciado, aludindo assim a informações caluniosas que pessoas suas desafetas haviam dado a seu respeito ao mesmo Chicote; que o fato criminoso originou-se de uma denúncia que dizem Félix ter dado contra Chico Chicote aos irmãos deste, denúncia que se baseava no fato de ter Chico Chicote ilicitamente pegado uns bois de seus irmão; que divulgado esse fato, Chicote entrou a perseguir Félix, de modo tão tenaz que obrigou este a retirar-se da companhia de seu patrão no Cariri para vir trabalhar no Mameluco, deste município; que aí chegando não suspeitava sequer dos planos criminosos do seu desafeto por estar longe de suas vistas quando de chofre foi atacado pelo mesmo do modo já referido, o qual teve como companheiros os demais denunciados

4. INTERROGATÓRIO

Interrogatório do réu Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote.

Perguntado qual o seu nome, naturalidade, estado, idade e residência?

Respondeu chamar-se Francisco Pereira de Lucena, conhecido por Chico Chicote, natural do Estado do Ceará, com trinta e quatro anos de idade, casado, residente no município de Porteiras, do Estado do Ceará.

Perguntado qual o tempo de sua residência no lugar declinado?

Respondeu que há cerca de cinco anos.

Perguntado quais seus meios de vida e profissão?

Respondeu que agricultor e criador.

Perguntado se sabia ler e escrever?

Respondeu que sim.

Perguntado se sabia o motivo pelo qual era acusado e se precisava de algum esclarecimento a esse respeito?

Respondeu que sabe por ter recebido cópia do libelo.

Perguntado se conhece as testemunhas que juraram neste processo e se tinha alguma causa a opôr contra elas?

Respondeu que conhece a(ilegível) a de nome José Dutra, que é parente do morto, sendo as demais suas desafetas.

Perguntado se tinha algum motivo particular a que atribua a acusação?

Respondeu que não.

Perguntado se tinha fatos ou provas que justificassem ou mostrassem sua inocência?

Respondeu que tem e o seu advogado oportunamente dirá.

Perguntado se tinha mais alguma causa a declarar ou esclarecer?

Respondeu que não.


6. VEREDICTO




O júri depois de haver nomeado dentre si por escrutínio secreto e por maioria absoluta de votos, o seu presidente e secretário da leitura recomendada pela lei e mais formalidades desta, respondeu aos quesitos pela maneira seguinte:

Ao 1º quesito:

Não, por nove votos

O réu Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote, de 3 para as 4 horas da tarde, do dia 12 de Agosto de 1906, no lugar Mameluco deste Município de Belmonte não desfechou tiros de rifle em Félix de Tal produzindo-lhe o ferimento descrito no corpo de delito [ilegível] deste sumário.

O júri deixa de responder aos demais quesitos por se achar prejudicado com a resposta do primeiro.

Sala secreta do Júri de Belmonte, 26 de Novembro de 1913.



Hérlon Fernandes Gomes, Porto Velho, Rondônia, 11 de Outubro de 2021.