A Munganga Promoção Cultural

A MUNGANGA PROMOÇÃO CULTURAL: O Brejo é Isso!

sábado, 28 de agosto de 2021

RIQUEZA, PAIXÃO E DECADÊNCIA DE MARIA PIA: A BARONESA DAS CACIMBAS


A rica viúva Maria Pia - A baronesa das Cacimbas.

                                                              
Os mais velhos diziam, ali pelas bandas de Brejo Santo, quando queriam ressaltar as exageradas posses de alguém:

- Aquele ali compete com Maria Pia, em riqueza!

A mulher ficou conhecida pela vultosa herança recebida, quando, em 1932, faleceu-lhe o pai, o Coronel Pedro Martins, dono de terras sem fim, limitando até os estados vizinhos, além de muito gado e ricos negócios.

Na solidão de seu quarto no velho sobrado, nas Cacimbas, construído pelo seu avô, em 1850, quando já era dono de tudo, Maria Pia refletia sobre para quê lhe serviria tanto dinheiro, se a morte acabou lhe levando tudo o que julgava mais precioso. Primeiro foram os filhos: um, aos seis meses; depois foi a morte de Francisca, sua boneca, a luz de seus olhos, a rosa do jardim, aos 4 anos. Depois o pai; veio, então, a viuvez seguida da partida materna. A morte andava no seu encalço. Só lhe restaram um irmão solteirão e uma irmã viúva, além de muito, muito dinheiro. Tanto que ela nem conseguia mensurar.

Sobrado de Maria Pia.
Sítio Cacimbas, Brejo Santo - CE.

Vencido o nojo do luto, das cinzas de seu coração desiludido, Maria Pia se deixou seduzir por um don juan do sertão: Zé Pimenta. Boticário de Missão Velha, caixeiro-viajante, um dia apareceu no casarão, com sua maleta de novidades, oferecendo óleos perfumados, águas de colônia, essências, unguentos e pílulas para a alegria. Com seu jeito manso, educado, como a tratar Maria Pia igual a uma rainha, reacendeu-lhe uma brasa de paixão que julgava inexistente.

Não demorou muito, tornaram-se amantes. As idas e vindas de Zé Pimenta para visitar a viúva não pareciam ser só de negócios. Logo veio o falatório do povo.

- Largou esposa e filhos para viver com a rica viúva. 

Aquilo foi um escândalo.

Os irmãos de Maria se preocupavam quando tinham notícias de que as propriedades estavam à venda, para bancar luxos exagerados dos dois; viam naquilo a intenção indisfarçável de um golpe e passaram a pressioná-la a abrir os olhos. Cega, Maria Pia achava o sentimento de Zé Pimenta genuíno e decidiu que viveria do jeito que sempre quis, sem dar satisfação a ninguém, sendo feliz, gastando o que era seu.

O festival da extravagância era noticiado por todos. Zé Pimenta ostentava em automóveis, festas regadas a champanhe e orquestra de música; gostava de viajar, conhecer novos mundos. Não demoraria muito para ele e Maria Pia serem rostos conhecidos nas lojas e restaurantes caros de Recife, Fortaleza...

Pelo fim dos anos 60, mandaram abrir uma pista de pouso nas Cacimbas, para descer avião, fretado de Recife, trazendo os amigos de baralho de Zé Pimenta. A notícia de que um avião pousaria ali, arrastou gente da cidade, do Deserto, do Poço para ver aquele espetáculo. Nesse dia, alegre demais pelo som da sanfona e pelo champanhe, Zé Pimenta presenteou os curiosos com voos gratuitos. Fizeram fila e, assim, como do impossível, muita gente se sentiu como um carcará, lá do alto.

Mas aquela vida pródiga, que demorou alguns bons anos, teve um efeito devastador sobre os bens de Maria Pia. Como cupim, roeu todas as riquezas que possuía, até que se viu amontoada de dívidas, sem um tostão furado. Com Zé, foram se recolher em Missão Velha, onde passaram a viver em extrema humildade.

Quem encontrasse Maria Pia, já envelhecida e viúva pela segunda vez, vendendo cocadas pela feira, admirava-se de seu resultado; sem arrependimento, mas com um gosto trágico, narrava a história de sua riqueza, de sua paixão e decadência.

A história de Maria Pia é longa, bordada também pelo folclore popular; mas tudo o que está aqui narrado eu ouvi de gente que conheceu ou morou nas Cacimbas, em Brejo Santo. Conta-se que Maria Pia e Zé Pimenta também fizeram muita caridade por aquele sertão. Dizem que adotaram cerca de quarenta filhos por aquelas redondezas.

Citando Bruno Yacub, no artigo Sobre a origem da família Martins de Morais em Brejo Santo, publicado no blog dA Munganga, segue a descrição genealógica de Maria Pia.

Pedro Martins de Oliveira Rocha foi casado com Francisca Martins Cardoso, filha de Antônio Cardoso dos Santos. São seus filhos:

MARIA MARTINS CARDOSO - casada com Pergentino Martins de Morais, filho de Manoel Martins de Morais e Ana Martins Furtado. Tiverem somente um filho, Pedro Martins Cardoso de Morais.

ANTONIO MARTINS CARDOSO - casado com Amélia Martins Barreto, de quem são filhos: Luiz Martins Barreto, João Martins Barreto e Maria Martins Cardoso (Dona Sinhá, nascida em 31.07.1900 e falecida em 26.06.1971), esta casada com o major Firmino Inácio de Sousa (nasceu em 16.10.1894 e faleceu em 20.07.1973), filho do major José Inácio do Barro e pais de Antônio Martins de Souza, nascido em 29.11.1919 e falecido em 11.04.2018. Dona Sinhá adquiriu em 1919 o sítio Cachoerinha, às margens do Riacho dos Porcos, sede do atual distrito do Poço, em Brejo Santo.

PEDRO MARTINS CARDOSO - de quem são filhos: Maria Pia Martins Cardoso, Alice Martins Cardoso e José Martins Cardoso.

Para saber mais sobre a família Martins, leia SOBRE A ORIGEM DA FAMÍLIA MARTINS DE MORAIS EM BREJO SANTO.

Hérlon Fernandes Gomes

Agradecimentos: A Bruno Yacub, que me trouxe dados colhidos com Heitor Nicodemos; aos irmãos Edmilson Furtado e Edísio Furtado, por compartilharem suas memórias; a Roberto Novais por proporcionar o encontro com Dona Candinha; a senhora Maria Cãndida Alves, Dona Candinha, por ceder suas lembranças e fotos de Maria Pia, sua mãe.


Maria Pia ao centro, já idosa.


Aspecto atual da fazenda Cacimbas, localizada na região do Poço, em Brejo Santo - CE.





quarta-feira, 12 de maio de 2021

VOVÓ RITINHA



Minha avó paterna veio ao mundo numa noite clara de lua cheia, ano difícil de seca e depois de um parto sofrido. Não tinha parentes importantes nem sobrenome que contasse a história de sua linhagem. Assim, foi batizada como Rita Moça de Jesus. Cresceu e se acostumou ao árido sertão da Paraíba, onde aprendeu com seu pai os mistérios de orações milagrosas e o segredo das plantas medicinais. Quando emigrou para o Ceará, na década de 1960, trouxe consigo seu ofício de bênçãos e sabedoria com as ervas milagrosas.

Em Brejo Santo, especialmente no bairro São Francisco, não havia criança que não tivesse se submetido às suas rezas contra mau olhado, mijada de aranha e toda outra “coisa botada” por gente ruim. Gente adulta também procurava vovó para que se desse fim aos males causados pela inveja e maldade alheia.

Vovó vivia em uma humildade franciscana, nunca tivera um luxo sequer na vida. Sua riqueza era um pequeno quintal, sombreado por uma goiabeira de frutos doces, ao redor de onde verdejavam touceiras de capim santo, mastruz, malvas santas e do reino, erva cidreira, babosa, pimenteiras, arruda e um pé de pinhão roxo. Deste, ela retirava alguns galhos com os quais iniciava seu ritual contra as debilidades da alma. A cozinha cheirava a macela, boldo, canela, cravo e tantas outras meizinhas, que nunca lhe faltavam.

Vovó era alva, de olhos bem verdes (ou seriam azuis? Nunca soube ao certo. Eles mudavam como o céu). Com esse fenótipo, era uma incomum sertaneja. Conservava os cabelos ajeitados em coque, fixado com um pente. Um dia me surpreendi com ela a penteá-los, completamente brancos, abaixo da cintura. Nunca vi cabelos tão longos e bonitos. Cuidava para que nenhum fio caísse e rolasse pelo terreiro, onde bem-te-vis gostavam de ciscar. Alimentava a superstição de que se aquelas aves carregassem algum fio e levassem-no a construir ninhos, seus pensamentos ficariam confusos e ela poderia enlouquecer.

Cresci recebendo suas rezas. Eu e toda uma infinidade de gente da região, que também a tomava por avó, madrinha de coração, madrinha de fogueira. Concentrava-me naqueles seus transes: ela, de olhos semicerrados, balbuciava palavras mágicas em orações que falavam de anjos; arcanjos; da Virgem Maria, na beira do Rio Jordão, com um livro de ouro na mão; noutras, exortava São Bento, São Jorge, São Benedito e um exército de almas vaqueiras... Eram orações fortes que, ao final, deixavam vovó cansada e os galhos de pinhão completamente murchos, sinais de que eu estava impregnado de coisas ruins; mas depois, liberto.

Contava uns oito ou nove anos, quando, certo dia, amanheci febril, sem coragem, com gânglios inchados na região direita das virilhas. Minha mãe fechou o diagnóstico: eram ínguas.

- Vá lá em madrinha Ritinha pra ela rezar.
Fui para a casa de vovó, recebi sua bênção e contei meu problema. Vovó, como uma espécie de médica, foi até o fogão à lenha e tratou de pegar uma peixeira que lá descansava.
- Chegue aqui, meu fi, pro terreiro. Vou cortar as danadas dessas ínguas.
Eu arregalei os olhos. Não supus que vovó estivesse de brincadeira, porque não era do seu feitio.
- Oxe, vovó, e a senhora vai arrancar de faca?
Seu rosto desenhou um sorriso discreto, ao que ela me tranquilizou, em seguida:
- Vou cortar de faca, meu neto, mas não vou derramar uma gota de seu sangue. Não se preocupe. Qual o lado das ínguas?
Indiquei que eram do lado direito. Vovó se acocorou no chão, tomou o meu pé direito e descalço, circundando-o com a ponta da faca, a fim de desenhá-lo na terra batida. Pediu-me que retirasse o pé e passou a fazer cortes no desenho, enquanto proferia baixinho uma ladainha secreta. Estava curado. Depois tomávamos café com bolacha de sete-capas e conversávamos. Pedi por várias vezes que vovó me ensinasse algumas daquelas orações. Gostaria de ser detentor também daqueles miraculosos poderes. Ela ria-se:
- Meu fi, não queira aprender não. Você não vai ter sossego. A gente não pode se negar a quem vem pedir uma reza. Mas chega uma hora que a gente cansa.
- Mas eu quero aprender mesmo assim, vovó.
- Um dia eu ensino…

Uma doença pulmonar veio fragilizar ainda mais a sua saúde. Em determinada altura de sua vida, parou de rezar em quem lhe procurasse. Após sofrer meses, entre idas e vindas ao hospital, ela finalmente se encantou, em maio de 1997.

Antes de morrer, vovó pediu que se cumprisse sua última vontade: não a sepultassem em um caixão. Era da terra e queria ser da terra após cumprir sua missão. Seu desejo foi cumprido. Em chão limpo, do pó ao pó, vovó afirmava naquele gesto que da vida nada levamos além de quem fomos.

Às vezes, quando menos espero, encontro vovó Ritinha em sonhos. Neles, ela continua a me tirar quebrantos, a me fortalecer e me curar. Esta semana, senti seu perfume pelo corredor de casa. Há certos dias em que sinto sua presença. Não tenho dúvidas de que continua a me proteger.

Ela partiu sem me ensinar todos os seus encantos, mas me deixou como legado uma única poderosa oração, com a qual me armo todos os dias antes de sair de casa. Sinto uma vigorosa saudade de seu carinho e de sua simplicidade.

Hérlon Fernandes Gomes

quinta-feira, 22 de abril de 2021

TÚNEL DO TEMPO - OS HÁBEIS

Sabe o que vai tocar hoje no Brejo Santo União Clube? Os Hábeis, o melhor da jovem guarda e do iê-iê-iê. Eles não são Renato e seus Blue Caps, mas são Incríveis!

A banda marcou sucesso. Segundo me disse Paulo Gondim, num café virtual, os garotos iniciaram os ensaios na casa velha da Nascença, perto do engenho; chegou a vê-los ensaiar e assistiu a uma apresentação, no Cine Paroquial. Eles também fizeram a trilha sonora da Rua do Juá, pois lá também se reuniam em ensaios, conforme me confessou Bôsco Monteiro.

O primeiro da fila, dos que estão em pé, é Geraldim de Porteiras; o segundo é Zé de Helena; o terceiro é Xavier; o quarto é Chagas de Barbalha; sentados estão Geraldo Alvino e Luizinho, seu irmão.

Falta na fotografia Juvenal, que não era Roberto Carlos, mas era papo-firme!

Alguns já partiram.

A memória musical entrega saudade a quem construiu recordações afetivas na história e na alma de muita gente.

Agradeço também aos meus pais, Sebastião e Tôta, meus oráculos do passado brejo-santense, que se lembram comigo de coisas que não vi.



domingo, 21 de março de 2021

O GINÁSIO PADRE ABATH

Professor Júlio Macêdo Costa, ao centro,
entre as professoras Marizinha e Neuzelide Pinheiro.
Turma de 1957.

Brejo Santo teve e tem grandes titãs no meio educacional, que deixaram um legado imensurável ao povo, porque suas sementes frutificaram ao longo das décadas, logrando ao Brejo essa vaidade de poder ver seus filhos formados, bem educados, letrados.

No ano de 1957, foi implantado o Ginásio Padre Abath, onde hoje funciona polo da Universidade Federal do Cariri. Fundado pelo  Professor Júlio Macêdo  Costa, padre Tibúrcio Alves Grangeiro e Valmir Alves, o empreendimento trouxe muito orgulho para nossa gente e foi pilar de toda uma geração. Nas palavras de Paulo Gondim, ex-aluno, "o Ginásio Padre Abath ficou na história de Brejo Santo, com seus desfiles nas datas festivas, cujos alunos se orgulhavam de vestir o uniforme cáqui, para os homens, e as mulheres com saias azuis, com duas listras horizontais e blusa branca. O mesmo uniforme foi levado para o Ginásio Estadual Balbina Viana Arrais. O tempo passou e o Professor Macedo não está mais entre nós, mas com certeza, será sempre lembrado por sua iniciativa revolucionária na educação de Brejo Santo."

O Ginásio Padre Abath formou alunos e também professores, que multiplicavam o conhecimento.

O professor Macêdo era rigoroso na disciplina e lecionava principalmente matérias de linguagem ou humanas. Naquela época, a língua estrangeira adotada era o francês, da qual o professor era um exímio mestre.  Curioso lembrar que o saudoso mestre era seminarista, mas largou a vocação porque se apaixonou por uma de suas alunas, Iêda, que também era sobrinha. Viveram uma linda história de amor, com o sonho realizado de conhecerem Paris.

O Ginásio Padre Abath foi embrião da Escola de 1º e 2º Graus Balbina Viana Arrais, onde o professor seguiu com longa e brilhante carreira como diretor. Na administração pública, ocupou cargos de secretário de educação e cultura na década de 90. Deixou um livro de memórias, intitulado Missão Cumprida.

A praça da Universidade Federal do Cariri, campus Brejo, leva seu nome, assim como o Núcleo de Arte e Educação.

Na fotografia, daquele início, vê-se o inesquecível professor Macêdo, ladeado da elegante professora Neuzelide Pinheiro e da professora Marizinha. Peço ajuda para legendar a foto e reconhecer os demais. Com a ajuda de minha mãe e de vocês, caros leitores, identificamos alguns, como Marineusa Santana, Erivaldo Santana, Bernadete, Iêda, Marli Feijó, meu tio Lucena Fernandes. Peço ajuda da comunidade para completarmos a legenda.

Hérlon Fernandes Gomes


sábado, 6 de março de 2021

MARIA ALACOQUE E A RUA DA BEATA

Tenho para mim que a Rua da Beata levava este nome, porque era lá que morava Maria Alacoque, a beata mais temida da criançada.

Morena grande, óculos grossos, cabelo bem arrumado, saião comprido, banhada de muito perfume de alfazema, era ela uma das responsáveis pela catequese da criançada, com estrita ordem e sem piedade para utilizar a dolorida palmatória. Muitos que se lembram dela ainda sentem arrepios na espinha, porque aluno de Maria Alacoque precisava saber uma grande lista de orações, histórias bíblicas e rezar bonito o ato de contrição… Quem se desse mal no dia do argumento, ou se desviasse de sua atenção, sentiria o couro da mão esquentar!

Era Maria Alacoque a responsável por realizar a lapinha, no Natal, pintando e arrumando a criançada para festejar o nascimento do menino Jesus. Eram caboclinhos, anjos, o sol, a lua, pastores, encarnados nesses personagens fantásticos. Era um lindo espetáculo teatral, simples, com palhas de coco, muito papel crepom, música e fogos de artifício.

Na igreja, sua voz no coro era a mais estridente e a meninada mangava escondido daquele seu jeito exagerado de cantar. Era uma vingança pueril pelos tormentos sofridos na palmatória da ranzinza, mas ordeira catequista.

Hérlon Fernandes Gomes


FOTOGRAFIA: PADRE LUIZ ANTÔNIO DOS SANTOS, VIGÁRIO COOPERADOR DE BREJO SANTO (1949-1951). AO LADO DO PÁROCO, VÊ-SE MARIA ALACOQUE, DE MÃOS POSTAS. QUEM SABERIA IDENTIFICAR AS DEMAIS?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A CHEGADA DE CHICO CHICOTE AO SEMINÁRIO

O Major Francisco Chicote, respeitado pela comunidade inteira por sua patente, sua moral, seu fino trato e concórdia, desgostava daquela aversão do filho caçula às letras, aos estudos; temia aquele espírito indomável em sempre querer impor as próprias vontades a tudo. É bem verdade que o rapazinho não era preguiçoso. Realmente nascera para tratar da brutalidade da terra, dos bichos, desses negócios. Encaminhara o menino ao Seminário por insistência de Donina, apegada à crença de que a fé nos ensinamentos cristãos abrandassem aquele temperamento inconsequente. Anos antes, encaminhara Quinco, um dos filhos, que de lá retornou com refinamento de educação, até arranhando o francês.

Até determinado ponto da estrada, já se podia divisar de longe, pequenino, no alto de um morro, uma imponente construção toda murada, parecendo até um castelo das histórias de Camongi, ouvidas tantas noites em Brejo dos Santos pelo menino.

- Ali está o Seminário, meu filho. Sua casa, a partir de hoje, por um bom tempo!

O pai aconselhava-o, ressaltando a necessidade de evoluir nos estudos e melhorar a disciplina, com o pensamento em Deus. Isso faria dele um grande homem.

O menino, já um rapazinho de quatorze anos, insistia que não queria ser padre. Poderia ficar no Brejo e retomar as aulas com o professor Krebs; prometia também ir à missa mais vezes, como sonhava a mãe. O velho major respondeu àquelas promessas somente com um olhar sisudo, demonstrando que não se tratava de negociação, mas de imposição.

Alunos da Quarta Fase. 1893. Chico Chicote é um desses alunos. Não conseguimos identificá-lo. Acreditamos que seja o único registro fotográfico existente, retirado do Álbum do Seminário do Crato. 1893. Dentre seus colegas, temos o ilustre Irineu Pinheiro.

Seminário São José - Crato, onde Chico Chicote estudou, em 1893, até ser expulso, depois de entrar em luta corporal, com um colega, armado de um canivete.


De perto, o Seminário São José parecia ter a grandiosidade de uma das pirâmides do Egito, pensou Chiquinho, que um dia se admirara ao descobrir as gigantes de Gizé, nas gravuras de um livro amarelado de História Geral, do professor particular.

O primeiro portão abria um corredor ladeado por dois imensos canteiros separados por pequenos muros intercalados, onde finalmente, uma segunda e suntuosa entrada de três portas e três altas janelas, guardaria um mundo de solidão, amizade e violência. Muitos anos mais tarde, na cela de uma cadeia, ele lembraria que estivera mais preso e mais vulnerável naquele “ambiente de santidade”, do que pelas grades de um crime.

O ambiente interno, pesado de silêncios, funcionava como um relógio de parede, cheio de atividades sem graça e rotineiras. O tempo era uma eternidade de demora. Sentia-se como um pássaro na gaiola. Precisava de licença para tudo, até para conversar – aliás, cochichar.

Fingia que rezava, que cantava, que sabia acompanhar o latim. Um dia fora descoberto e denunciado por Horácio, um seminarista bajulador do professor Aristarco, o terror do Seminário. Foram suas primeiras, longas e dolorosas palmadas.

... Continua

Hérlon Fernandes Gomes - Paiol de Pólvora (romance histórico inédito)

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

CORONEL NÉ ROSENDO DAS PORTEIRAS

Manoel Rosendo Tavares,
o conhecido Cel. Né Rosendo.
Foto: acervo de Napoleão Tavares Neves.


    Quem visita a zona rural de Porteiras, no Cariri cearense, ao chegar a terra encantada do Saco, atual Distrito da comuna, se depara com um paredão de 900 metros de altura e um semicírculo de cerca de 20 quilômetros de comprimento, oito bocas d’água e uma imensidão verde, resistente às mais duras secas.
    A região foi batizada pela própria Chapada do Araripe, que a envolve como em um saco - visto de cima, é como se tivessem comido pela Chapada em uma dentada, formando um “U”.
 
Foto de satélite da Chapada do Araripe, destacando a região do distrito do Saco.
Observa-se o formato da letra "U" ou uma ferradura.
Fonte: Google Earth.

Panorama atual da região do distrito do Saco, em Porteiras.





    Através das memórias escritas por Dr. Napoleão Tavares Neves, neto materno do coronel Né Rosendo (Manoel Tavares Rosendo), proprietário do sítio Saquinho, trazemos relatos surpreendentes sobre as passagens de Lampião e seu bando pela região, a tentativa frustrada de assalto ao casarão do Coronel, por Horácio Novais e o esconderijo para fugir do ataque às Guaribas.
    Em 1926, quando Lampião passou em demanda de Juazeiro pela pequenina vila de Porteiras, foi até a fazenda do Cel. Né Rosendo, ciceroneado pelo intendente e seu vizinho de terras, Franklin Tavares Pinheiro (Cel. Franco Pinheiro), querendo oito animais emprestados, para melhor se apresentar perante o padre Cícero. Naquela ocasião, o Rei do Cangaço disse que devolveria os animais, deixando os seus no cercado da fazenda para descansarem. O Cel. Né Rosendo então mandou seu filho, Rosendo Miranda Tavares, de oito anos de idade, ir juntar os animais que foram trocados pelos de Lampião.
    O garoto, com medo dos cangaceiros escolherem os cavalos de estimação da fazenda, escondeu-os debaixo de uma grande moita de unha de gato e trouxe os burros de cambito do engenho de rapadura que, mesmo assim, eram muito mais vistosos do que os animais magros e cansados dos cangaceiros.

Engenho da fazenda do Cel. Né Rosendo.
    Após a famosa passagem de Lampião e seus quase cinquenta homens por Juazeiro, Lampião deixou os animais para serem devolvidos, em São José do Belmonte, conforme relata João Benito, filho do Cel. Né Rosendo e atual morador do casarão, no sítio Saquinho.
    Outro episódio relacionando o Cel. Né Rosendo e o cangaço, foi a tentativa de assalto à sua fazenda por Horácio Novais.
    Sempre que vinha ao Cariri, o que acontecia com frequência nos anos de 1926 a 1928, o bando de Lampião era engrossado por Horácio Novais ou Horácio Grande, por ser muito alto, que vivia escondido na fazenda Agrestim, arredores de Porteiras, por ter crimes na sua terra natal, Floresta, em Pernambuco. Vale salientar que Horácio Novais chegou a ocupar o cargo de delegado na vila de Porteiras. O mesmo ainda incendiou a fazenda Canoa, também em Porteiras, propriedade do Cel. Franco Pinheiro.
    Certa vez, por volta de 1926, Horácio Novais requisitou quatro cabras a Lampião e cercou, certamente para roubar, a casa grande do sítio Saco, do abastado Cel. Né Rosendo, de Porteiras. Homem pacifista e pacificador. Né Rosendo estava em casa somente com seu filho, Francisco Miranda Tavares, de uns quinze anos e sua cozinheira, Antônia Lúcia.
    Era alta madrugada e o coronel Né Rosendo sentiu que a sua aprazível mansão, de calçadas altas, imponente, no meio do bananal, estava cercada. Ele tinha em casa apenas dois rifles velhos que, ao serem manobrados, faziam um tremendo ruído. Né Rosendo usou uma estratégia que deu certo e saiu ileso do episódio. Manobrava um rifle na porta da frente e Antônia Lúcia o outro na porta da cozinha, de tal maneira que, quem tivesse fora da casa, pensaria estar a mesma guarnecida por homens armados.
    Horácio soltou as vacas de leite no curral no pomar, para atrair o proprietário, em vão! Soltou os bois mansos do engenho no canavial, também em vão! Quando o sol começou a clarear, Horácio Novais e seus homens foram embora, sendo vistos na passagem pela vila de Porteiras.
    Fica uma lição: nem sempre quem vence é a coragem, mas a inteligência prática das pessoas. Esta, sim, é quem decide tudo na vida!

Dr. Napoleão Tavares Neves entre o primo Elói de Sá Sampaio e o tio-irmão
Rosendo Miranda Tavares, o garoto que juntou os animais emprestados a Lampião.
Foto: acervo de Napoleão Tavares Neves.

    Na manhã de 1° de fevereiro de 1927, o coronel Né Rosendo, ouviu tiros na direção do nascente do seu sítio Saquinho, bem na raiz da Chapada do Araripe, distante uns quatro quilômetros de Guaribas, terras do Cel. Chico Chicote (Francisco Pereira de Lucena).
    Pensando em tratar-se de choque armado entre Lampião, esperado no Cariri, e as forças volantes, que andavam no seu encalço, Né Rosendo refugiou-se com a família na gruta do sopé da serra do sítio, chamada Casa de Pedra. Ali ficou aguardando os acontecimentos, pois ninguém sabia quem era pior: se Lampião ou se a polícia do Ten. José Gonçalves Bezerra. E os dois juntos, nem se fala!
    Pois bem, o sol subiu e desceu na tarde e o tiroteio prosseguiu! O que seria aquilo? Mandou um positivo descer à casa do sítio para averiguar e lá soube do que acontecia: a tropa do Ten. José Bezerra cercava a casa de Guaribas, do Cel. Chico Chicote, que resistira bravamente 31 horas tiros, até que na tarde do dia dois de fevereiro, sem munição e ferido, foi trucidado pelas forças do governo.

Por Bruno Yacub Sampaio Cabral

Aspecto atual do Casarão do Cel. Né Rosendo, sítio Saquinho, distrito do Saco, Porteiras-CE.




Os pesquisadores Hérlon Fernandes e Bruno Yacub
ao lado do filho do Cel. Né Rosendo, o senhor João Benito,
atual morador do Casarão.

Fonte bibliográfica:
-Entrevista com o Sr. João Benito Caldas Tavares, filho do Cel. Né Rosendo, em 09 de dezembro de 2020.
- NEVES, Napoleão Tavares; Cariri – Cangaço, Coiteiros e Adjacentes, Crônicas Cangaceiras; Editora Thesaurus; Brasília – DF, 2009.
- O médico que conta histórias - disponível em < https://caririrevista.com.br/o-medico-que-conta-historias/ > Acesso em 15 de dezembro de 2020.
- SANTOS, Cícero Joaquim dos; Passado Alumiado: Representações históricas de Porteiras; IMOPEC; Fortaleza – CE; 2011.