A Munganga Promoção Cultural

A MUNGANGA PROMOÇÃO CULTURAL: O Brejo é Isso!

sábado, 15 de outubro de 2022

TICO RC NAS ONDAS DO RÁDIO: O FÃ DO REI E DA MEMÓRIA DA MÚSICA

Tico RC com o cantor Ronie Von, no Brejo Santo União Clube. Roberta ao centro.
Arquivo pessoal.

A história de um lugar pode ser contada pelo conhecimento de seus homens e mulheres, que cresceram, viram e contribuíram com a formação de sua sociedade. Para se conhecer um lugar, é imprescindível, portanto, observar sua gente. 

Brejo Santo é uma cidade do interior cheia de personalidades interessantes. É uma cidade que goza de desenvolvimento, e ainda conserva seu ar pacato, uma certa identidade própria de seu povo.

Quero contar a vocês a história de um menino, que agarrado a suas ilusões infantis conseguiu edificar um sonho: uma rádio comunitária. A história desse menino e dessa rádio são bonitos recortes da história brejo-santense. Esta é história de Tico RC e a rádio Padre Pedro FM.

Em 11 de junho de 1955, nascia Francisco José Pereira, na Rua da Palha, em uma casa simples, na pacata Brejo Santo, sul do Ceará – no Cariri encantado.

Primogênito de uma prole de seis filhos, Tico, como desde criança foi carinhosamente apelidado, era uma criança inquieta, sonhadora. Sua alegria eram o cinema, os circos, os parques de diversão, as brincadeiras livres.

Alfabetizou-se em uma escola que funcionava no primeiro andar do Cine Paroquial, ambos administrados pelo padre Dermival, coadjutor do padre Pedro Inácio Ribeiro, o bom santo e velho pároco.

A primeira vez que entrou no cinema, foi como se estivesse dentro de um sonho: as imagens em movimento, a música, os artistas... Ria com os filmes de Mazzaropi, conhecia o Brasil pelos filmes da Cinelândia! Seu grande ídolo era Waldick Soriano, que lhe aparecia nas canções executadas no sistema de som de Zezim Moreira e dos parques de diversão que de vez em quando davam a alegria de se instalar no Brejo perdido. Se quisessem encontrar Tico, nessas ocasiões, pudesse estar certo da grande probabilidade de ele estar colado à cabine de som, olhando admirado as capas dos LPs, com os retratos expostos dos artistas, perguntando mil e uma coisas ao locutor.

Foi numa noite dessas que ele foi contagiado por um ritmo, por um artista. O sistema de som executava acordes novos, uma música diferente, rebelde. Correu até a cabine para saber quem era o artista.

- É Roberto Carlos, menino!

Tico chegou em casa feliz, cantando o viciante refrão: Só quero que você me aqueça neste inverno, e que tudo mais vá pro inferno.

O pai, católico devoto, não gostou daquela música e seu estilo, ordenando que o filho abandonasse essa história de jovem guarda e seus modismos. Fosse gostar de Nelson Gonçalves, que era um cantor de respeito. Todavia, não obstante os reclamos do pai, ouvir Roberto Carlos e seguir a moda do iê-iê-iê passaram a ser o pecado secreto de Tico.

Desde menino, premido pela necessidade e em busca de poder vivenciar seus pequenos luxos, vendia guloseimas feitas pelo pai, no Cine Paroquial e nos jogos de futebol acontecidos num quadro atrás da Igreja Matriz. Eram cocadas e amendoins torrados e caramelizados. Tico voltava para casa de bolsos cheios e tabuleiro vazio.

Na época, a palavra bullying ainda não se fazia ouvir como hoje, mas a prática de certo preconceito em cima da condição de um simples vendedor de cocadas, fez o menino abandonar o ofício. Que moça teria gosto em namorar um com aquele futuro?

Uma manhã, passando pela calçada do Cine Alvorada, o adolescente Tico sentiu o coração acelerar ao ler na tabuleta, enfeitada com letras garrafais: CINE ALVORADA EXIBE “ROBERTO CARLOS, EM RITMO DE AVENTURA.”

Foi tomado por um êxtase, mas a situação financeira não estava boa; cinema era luxo. O desânimo bateu, mas foi embora logo. Seguiu até a praça, conversar com um amigo engraxate. Ele fazia bico de limpar o cinema em troca de uma entrada. Não teria ele a moral de colocá-lo para dentro, a ver o filme? Ajudaria a limpar o salão, estava muito bem disposto.

Naquele dia, o engraxate e Tico estavam com sorte. O primeiro havia recebido umas encomendas de um grã-fino, da Rua do Araújo, para engraxar-lhe uma dúzia de sapatos; já Tico, porque pegava aquela oportunidade, como um presente precioso. Aquele ingresso era tudo o que ele queria.

Deu-se a limpar o cinema, como uma joia: para fazer jus ao desejo e porque Roberto Carlos merecia estrear no Brejo, em grande estilo. Cortinas de veludo sacudidas, cadeiras limpas, uma por uma... Chão varrido, passado o pano, com um cheiro fresco de eucalipto, Tico acendeu todas as luzes do cinema e ficou a sonhar com a tela branca e o momento em que apareceria seu ídolo. Despertou do devaneio com a chegada de Sr. Benôni, o dono do cinema, assustado com aquelas luzes todas acesas, em plena luz do dia. Não era dono de Paulo Afonso! E afinal, o que ele fazia ali?

Tico explicou todas as manobras, descreveu a limpeza, enfatizando as minúcias:

- Desafio o senhor a encontrar um resto de chiclete sequer pregado nas poltronas, sêo Benôni...

O chefe estava realmente admirado:

- Este cinema só esteve tão limpo e bem arrumado, assim, no dia da inauguração. Você é mesmo caprichoso, rapaz! Está contratado. Mas você não merece ser um varredor, Tico. Vejo um futuro em você. Você será meu ajudante de bilheteria. – A verdade é que Benôni Anselmo, o maior amante da sétima arte que Brejo Santo já teve, comovia-se com o amor do menino por um ídolo, pela arte. Ele também fora assim.


Depois daquela incrível matinê, Tico voltou para casa duplamente feliz: por ter visto seu ídolo na gigante tela do cinema e pelo convite para trabalhar na bilheteria do luxuoso Cine Alvorada, que dava banho de suntuosidade no modesto Cine Paroquial. Ganhava a oportunidade de trabalhar onde o mundo era fantasia e arte e cativava para junto de si um grande amigo.

O adolescente Tico. Na moda da jovem guarda.
Arquivo Pessoal.

Em casa, no quintal cercado de varas e cheio de árvores frutíferas, ele criava seus espetáculos. Era o próprio circo, onde gatos eram leões e cachorros eram ursos; era a sua rádio, onde ele apresentava um show de calouros para os amigos e anunciava principalmente sucessos do Rei.

Deixa de trabalhar do cinema, porque recebe uma proposta para trabalhar de contínuo no escritório de contabilidade de Aldo Leite, onde logo se destacará pela dedicada organização de suas tarefas. Com seu primeiro salário, compra um rádio – seu brinquedo de luxo.
Enlace Matrimonial. Arquivo Pessoal

É nessa época que conhece Verinha, uma moça estagiária do trabalho, que roubou seus encantos desde o primeiro instante. Tornaram-se logo amigos. Verinha era moça prendada, modista de mão cheia e gostava de ler as revistas do rádio. Tinha muita afinidade com Tico – corrigia até “seus erros de português ruim”; desenhava e costurava suas roupas, ao estilo dos artistas da jovem guarda. Tico, assim, apaixonou-se inevitavelmente pela moça, e tristemente sentia que ela era muita areia pro seu caminhão. Lutou, para não ultrapassar além de suas intenções de fiel amigo, até que, não suportando mais as dores de cotovelo daquele amor platônico, resolveu arriscar. Levou um gravador para a janela da moça, de noite, onde pôs a tocar, por umas três vezes, PROPOSTA, sucesso da época, de Roberto Carlos: Eu te proponho/Não dizer nada/Seguirmos juntos/A mesma estrada/Que continua/ Depois do amor/ No amanhecer.

Casam-se logo. A primogênita do casal leva o nome de Roberta. Vai ver seja dessa época que se incorporou definitivamente o “RC” ao seu nome, sigla de seu ídolo, tão marcante em tantos momentos de sua vida.

Tico e sua eterna namorada: Verinha.
Arquivo Pessoal.

Tico, de estudante de contabilidade, passa a professor desse curso, no renomado Colégio Padre Viana, cativado por mais um grande amigo que a vida lhe confirma: o professor José Teles de Carvalho. Seu escritório e sua carreira seguem de sucesso. A família recebe mais dois filhos, Paulo Renato e Ana Carla.
Com o Professor José Teles de Carvalho.
Arquivo Pessoal

No final dos anos 80, Tico RC guia um programa musical na Rádio AM Sul Cearense, sobre o Rei Roberto Carlos. Amante da boemia, sua vida é marcada pela presença certa em festas famosas no Brejo Santo União Clube. Foi membro atuante em promoções afins, como o famoso Baile Preto e Branco, organizado pela maçonaria, que reunia a fina sociedade de Brejo Santo.

Com o cantor Altemar Dutra. Brejo Santo União Clube. Arquivo Pessoal.

Com o cantor Nelson Gonçalves e amigos. Brejo Santo União Clube. Arquivo Pessoal.


Por essas noites boêmias brejo-santenses, conheceu Altemar Dutra, Ronie Von, Nelson Gonçalves, Moacir Franco, Jerry Adriani, Renato e seus Blue Caps, Waldick Soriano e tantos outros. Infelizmente, nunca teve o prazer de poder encontrar o Rei Roberto Carlos, de pertinho assim e dar-lhe um abraço do tamanho de sua admiração e dedicação.

Em 31 de Julho de 1996, em prédio particular construído onde antes era sua casa, na antiga Rua da Palha, passou a funcionar a primeira Rádio FM de Brejo Santo: a Padre Pedro FM, 104,9, uma rádio comunitária concedida a um grupo de amigos, do qual Tico era o grande entusiasta.

Sob a proteção divina de Padre Pedro Inácio Ribeiro, que nomeia a FM, a rádio segue no ar há 26 anos. Por ela já passaram muitos locutores e colaboradores inesquecíveis, com programas educativos, a exemplo da memorialista Marineusa Santana e outros de raízes sertanejas, como dos saudosos Chagas Arcelino e Expedido FM, espécies de Ludugero de seu tempo, além de tantos outros homens e mulheres de gabarito da nossa cultura.

Tico: cercado pelo Rei e pela memória da música.

Tico, pilotando seu sonho, ao longo dos anos, vem formando ouvintes fieis e forjando novos fãs do Rei. Suas histórias, nas ondas do rádio, são crônicas espontâneas de saudades, embaladas quase sempre por um clássico da jovem guarda.

A Rádio Padre Pedro FM faz parte da minha memória afetiva. Dia desses, dentro do meu carro, em Porto Velho, sintonizei uma playlist no meu Spotfy, criada com base nesse passado nostálgico. Jerry Adriani cantava “Rosas Rubras”, transportando meus sentidos a um longínquo final de tarde de sábado, família reunida, churrasco assando, feijão verde no fogo, cerveja e saudade.

Tico RC é uma personalidade autêntica, homem orgulhoso de suas conquistas, pai e avô dedicado. A vida lhe é próspera, coroada de sua grande família, agora com mais duas filhas, Ana Renata e Ana Júlia, além dos netos e netas.

A Rádio Padre Pedro FM é o Divã de Tico, onde o fundador se abre em reflexões, em rememorar o passado, a criança que foi, o menino que ainda vive nele; suas emoções, detalhes de um passado imorredouro.

Por mais de um quarto de século, posso dizer que a Rádio Padre Pedro FM é uma companhia frequente em diversos lares de Brejo Santo, zona urbana, zona rural, seja no café, no almoço, no fim das tardes, nos sábados, domingos e feriados, como um livro falado, um companheiro, um amigo conselheiro, que resgata lembranças e momentos felizes, com o melhor da canção. Tico RC e a Rádio Padre Pedro FM são cultura e são do povo.


Hérlon Fernandes Gomes, Porto Velho, Rondônia. 16 de Outubro de 2022.


Para meus pais, Sebastião e Tôta, fãs da rádio Padre Pedro FM, amigos de Tico RC e família. Ao amigo Paulo Renato, que tem seguido os caminhos do pai, navegando com o ouvinte pelas ondas do rádio.

domingo, 29 de maio de 2022

COROAÇÃO DE NOSSA SENHORA EM BREJO SANTO - POR MARINEUSA SANTANA


Coroação de Nossa Senhora no interior da Matriz do Sagrado Coração de Jesus,
em 31 de maio em 1949.
Ministrada pelo Padre Pedro Inácio Ribeiro.

    O povo brejo-santense é muito devoto de Nossa Senhora. É uma tradição de muitos anos a realização da festa da Coroação da mesma, no dia 31 de maio. Não se sabe ao certo a data da primeira festa da Coroação de Nossa Senhora na nossa cidade.
    Na década de 1930, o Padre Pedro Inácio Ribeiro celebrava esta festa da Coroação de Nossa Senhora, com muito carinho, com a colaboração da Irmandade das Filhas de Maria Imaculada (associadas moças) e das mães cristãs (casadas). Durante o mês de maio, mês dedicado a Nossa Senhora, sua imagem visitava as casas das famílias, especialmente das que pagavam promessas por graças alcançadas. Toda noite era celebrada a novena e a missa na Matriz do Sagrado Coração de Jesus; e em seguida a imagem de Nossa Senhora era conduzida à casa da família segundo a agenda. Ali era rezado o terço, à noite, quando da sua chegada, por todos os devotos que a acompanhava em procissão. No dia seguinte a família anfitriã rezava o terço, ao meio dia, em companhia da vizinhança. Á noite a imagem era reconduzida de volta à Matriz pela família, vizinhos e devotos. Este ritual era reproduzido todas as noites durante todo o mês de maio. No final do mês eram realizadas duas coroações: uma pelas Filhas de Maria e Mães cristãs, numa data combinada, e a outra no dia 31 pela comunidade paroquial, de modo geral.
    Caracterizados de personagens, como por exemplo: o dia e a noite; os astros (o sol, a lua e as estrelas); as virtudes (fé, esperança e caridade); as santas (Bernadete e Rosa) e os anjos, estavam lá no altar bem ornamentado, os artistas que prestariam seus louvores à mãe do Salvador.
    A decoração do altar a cada ano era mais bonita e a cerimônia da coroação deixava a todos encantados pela beleza. Era lindo o altar cheinho de anjos com suas camisolas, coroas e asas nas cores: branca, azul e rosa; parecia o céu na terra.
    Como era emocionante a oferta das rosas , do coração e da coroa ao som do coro das vozes infantis. Mais emocionante ainda era o ponto alto da celebração, a coroação propriamente dita. Um anjo, com voz quase divina, cantava o hino de louvor a Maria, à medida que ia descendo a coroa. Colocada a coroa sobre a cabeça da imagem de Nossa Senhora das Graças todos aplaudiam com os corações inflamados de amor, entre os estrondos e as lágrimas dos fogos de artifício feitos por seu Antônio Generosa.
    Muitas foram as crianças e jovens que tiveram o privilégio de coroar a nossa mãe do céu aqui na terra, na nossa paróquia do Sagrado Coração de Jesus. Entre elas, por exemplo: Noêmia Araújo, Maria Simplício, Filomena Alves, Sandra Rocha e Rosângela Santana (minha filha);e tantas outras.
    Uma vez a coroação foi realizada no altar mor do Sagrado Coração de Jesus. Outro ano o altar foi erigido sob o coro da igreja , ficando a imagem de Nossa Senhora e o anjo que a coroou acima do mesmo. Algumas vezes o altar foi montado na porta principal da Matriz. Certa vez durante a coroação choveu, e os anjos foram retirados as pressas para dentro da igreja pelos familiares; enquanto desmontavam o altar sem que os ornamentos fossem danificados. (Lá estava eu, Marineusa, entre os anjinhos das asas molhadas).
    De outra feita um anjo teve uma das suas asinhas queimada pelas chamas das velas do castiçal (ele se encontrava bem atrás de mim e só depois de muitos anos quando já era adulta, descobri que o anjo da asa queimada, era minha então amiga, Maria Cabral).
   O vigário cooperador Dermival de Anchieta Gondim deu continuidade a celebração por muitos anos, como era costume da paróquia, sem nada modificar. Com o passar do tempo a responsabilidade pela coroação de Nossa Senhora foi passada para as escolas. A cada ano uma delas se encarregava da realização do evento que ocorria como sempre no dia 31 de maio .
    Alguns anos pós a construção da Igreja de São Francisco as famílias daquele bairro tiveram a ideia de Nossa senhora visitar as famílias como no bairro da Matriz, e passaram a realizar uma coroação também lá .Por muito tempo ele esteve sob a responsabilidade de Dona Terezinha de Zé Pecuária e Dona Inês Carlota.
    A população aumentou muito e para evitar que algumas famílias ficassem tristes por não ter a oportunidade de acolher a Imagem de Maria em sua casa, pois são apenas 30 vistas ao mês, foi tomada a decisão de serem feitas as visitas às ruas. Assim as famílias, em mutirão, ornamentavam um altar campal e todas se sentiam visitadas pela mãe de Jesus.
    Maria Santíssima é coroada também nas escolas e nas comunidades rurais.
   Diante das dificuldades, dentre elas a financeira, o vigário resolveu pedir à Secretaria da Ação Social para assumir a responsabilidade para com a Coroação de Nossa Senhora. E desde o ano de 1999 a coroação vem sendo feita pela comunidade sob a responsabilidade da Secretaria Municipal da Ação Social, hoje denominada de Secretaria Municipal de Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos.
    A coroação de Nossa Senhora na Matriz de São Francisco de Assis, atualmente é organizada pela Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Eventos.
    Nos últimos anos tem sido escolhido um tema mariano para encenação, como por exemplo: as aparições de Maria, A meditação do terço, O ofício Mariano... E no ano de 2006, quando a paróquia do Sagrado Coração de Jesus comemorou o jubileu de ouro da ordenação sacerdotal do Monsenhor Dermival de Anchieta Gondim, e também jubileu de ouro de permanência dele entre seus paroquianos, “A ação de Maria em sua vida” foi o tema da Coroação, homenageando a Maria da Imaculada Conceição através da vida do seu afilhado de batismo.
    O Monsenhor Dermival de Anchieta Gondim nasceu aos 08 de dezembro, dia da Imaculada Conceição, foi ordenado sacerdote também no dia 08 de dezembro e é um grande devoto daquela que é sua madrinha. Foi encenada a vida do Monsenhor Dermival mostrando a ação de Nossa Senhora em sua vida: no batismo, no chamado à vocação sacerdotal, na sua vida de seminarista , na sua ordenação, exatamente em 08 de dezembro, nas suas visitas aos santuários marianos do mundo inteiro, onde jovens estiveram caracterizadas dos ícones de Maria de acordo com os locais das suas aparições. Foi uma verdadeira apoteose. Além dos paroquianos, estiveram presentes, as irmãs sacramentinas, seus familiares e seu mestre de disciplina Monsenhor José Honor.
    Maria Santíssima foi sempre muito venerada por nosso povo. O amor dedicado a ela manteve os paroquianos do Sagrado Coração de Jesus de Brejo Santo fiéis a religião católica, mesmo quando não eram evangelizados, não faziam a leitura e a meditação da Palavra de Deus, por não ser permitido ao povo uso da Bíblia.
    A Nossa Senhora nossos louvores por ter sempre cuidado da nossa paróquia com tanto amor e carinho, intercedendo ao seu Filho que mandassem sacerdotes íntegros para guiar este rebanho brejo-santense.
    Todas as famílias se reuniam para coroarem Nossa Senhora, como Rainha do céu e da terra. Num altar erigido, geralmente na lateral da Igreja; entre esta e a casa paroquial, Maria era homenageada por crianças e adolescentes que durante todo o mês haviam ensaiado os cânticos da homenagem.

Aspectos da Coroação de Nossa Senhora na Matriz do Sagrado Coração de Jesus, na década de 1980.



Bibliografia

SANTANA, Marineusa; Reminiscências; Brejo Santo; 2001.
SANTANA, Marineusa; Coroação de nossa senhora; https://www.recantodasletras.com.br/contos/501041; acesso em 29.05.2021.

domingo, 10 de abril de 2022

OS CARETAS DA SEMANA SANTA E A MALHAÇÃO DE JUDAS

Lá pela altura dos meus oito anos, que me recorde, a Semana Santa aparecia como uma época de respeito, carregada de medo e mistério. Era a época em que a Igreja refletia e orava sobre o Cristo crucificado.

Havia duas coisas que me metiam muito medo nesse tempo: contava-se a lenda que, na Missa do Galo, o padre procuraria na Bíblia Sagrada um pingo do sangue de Jesus Cristo e, caso não encontrasse o precioso pingo, seria o fim do mundo! Isso me deixava apavorado; mas o que me matava mesmo de medo era a tropa de Caretas soltos nas ruas, pedindo jejuns nas portas das casas, nas bodegas, na feira, nos sítios, arrastando seus chocalhos, com suas máscaras pavorosas de papelão, de couro ou de remendos de pano. Alguns, com ares de líderes, tinham chifres como adornos, chicotes mais ameaçadores – era como se o inferno tivesse baixado na Terra.

O tormento durava do Domingo de Ramos ao Sábado de Aleluia. A meninada vivia com o coração acelerado ao som do primeiro chocalho. Era chororô e gritaria. Uns partiam para debaixo da cama – eu corria a me esconder dentro do móvel da máquina de costura da minha mãe. Ali eu duvidava que Careta me encontrasse!

É uma tradição muito antiga, trazida pelos portugueses e espanhóis, desde o descobrimento do Brasil; mas sua origem pode estar associada a um culto pagão mais distante no tempo, que festeja o início da primavera.

Vovó me contava que os caretas eram os ‘cãos’ que levavam Judas para o Inferno, no Sábado de Aleluia. E me dizia que tudo começou porque Judas Iscariotes teve inveja de Jesus e traiu-o com um beijo dado em sua face. O gesto foi a senha dada aos soldados do Império Romano,  entregando Nosso Senhor para iniciar o triste calvário da crucificação. Como paga pela traição, Judas recebeu trinta moedas de ouro. Consumada a trairagem, arrependeu-se, quis restituir o dinheiro, mas não conseguiu. Cheio de remorsos, enforcou-se numa corda. Os Caretas apareciam para atormentar Judas por tamanha desfeita: a traição contra o Filho de Deus. 

Na minha cabeça, as portas do inferno estavam abertas e os ‘cãos’ estavam soltos para levar Judas de corpo e alma.

Fui crescendo e perdendo a fobia pelos bichos feios. Já me divertia com eles. Gostava de ouvi-los, com sua voz gutural, chamando todo mundo de “padim” e de “madinha”, pedindo dinheiro, fruta, arroz, cachaça...

Descobri que os caretas juntavam tudo o que arrecadavam numa espécie de sítio: um quadrado, demarcado com palmas de coco e uma linha no chão batido de terra. Ao centro, estava amarrado o Judas, um mal-amanhado boneco de pano, recheado de palha de milho, dependurado enforcado com uma corda, às vezes com os bolsos exibindo notas de dinheiro para fora.

O Sábado de Aleluia mais movimentado à que assisti aconteceu em Porteiras, nas cercanias do sítio Cancelas, meu reduto materno. Foi lá onde vi os Caretas mais valentes, mais assustadores, mais violentos e seu “sítio” mais rico. Uma multidão se aglomerava ao redor da demarcação. Muitos homens e rapazes corajosos invadiam o sítio, tentando despistar os horripilantes vigias e se livrar de suas chicotadas. Alguns vestiam até três calças, varias camisas para aguentar as cipoadas e entravam no sítio para tentar a sorte de arrebatar valiosa prenda: uma nota alta, uma garrafa de conhaque, um jerimum maduro... Alguns se feriam graves, não se importavam de exibir os vergões de chicotes na pele. A multidão vibrava cada vez que alguém alcançava um prêmio; mangava quando alguém se lascava na pêia.

Por fim, Judas era surrado e queimado pelos Caretas, cumprindo sua sentença de ir arder nas profundezas do Inferno. 

Algumas comunidades dão nomes aos seus Judas, geralmente políticos que caem na antipatia de sua gente ou perversos criminosos, por exemplo.

Hérlon Fernandes Gomes

10 de Abril de 2022.

terça-feira, 22 de março de 2022

BODAS DE OURO DOS MEUS PAIS

 


A história de amor dos meus pais, Sebastião e Tôta, começou em 1968, na festa de coroação de Nossa Senhora da Conceição, no município de Porteiras, Ceará. Foi ali onde foram apresentados e começaram o namoro. Ela, dezoito anos, uma morena de cabelos longos e olhos de cigana; ele, vinte e dois anos, galego dos olhos verdes.

Já haviam se visto em outras ocasiões, pela praça de Brejo Santo, no Cine Alvorada, no comércio – os olhares já se cruzavam cúmplices. Era ela uma estudante normalista; ele, um jovem barbeiro profissional, emigrado da Paraíba, chegado a Brejo Santo há cerca de dois anos, onde encontrou prosperidade para suas mãos habilidosas.

O namoro ia bem, sob a vigília constante de Zé Milagres e D. Hosana, pais da moça, e a censura de Levina, avó da apaixonada. Levina era cismada com o rapaz. Gabava-se dos próprios olhos azuis e implicava com os olhos verdes de Sebastião: dizia que olhos verdes indicavam falsidade. Tôta achava engraçada essa implicância da avó, até que, certo dia, o seu mundo desabou. Um amiga veio lhe trazer uma decepcionante notícia: tinha ouvido, em um programa romântico da Rádio Educadora do Crato, um recado enviado pela “noiva” de Sebastião, residente no Barro, cobrando sua presença. Ele era noivo de outra! Foi o mesmo que a morte! Seus sonhos, sua paixão, seus sentimentos desabaram. Chorou, lastimou-se, adoeceu de tristeza e ainda teve de ouvir o discurso de Levina: - Bem que eu lhe disse, fia! Esse povo dos zói verdes não se pode confiar! E cantarolava uma velha canção que, segundo ela, confirmava sua teoria:

“Era o meu lindo jangadeiro

De olhos da cor verde do mar

Também como ele traiçoeiro

Mentiu-me tanto o seu olhar!”

Tôta demorou para aliviar aquela profunda tristeza. Não quis mais vê-lo, não deu espaço para suas justificações. Cortava caminho para não encontrá-lo; evitava estar onde ele pudesse aparecer. Mas Sebastião era insistente. Mandava recados, marcava encontros, queria se explicar, recebendo a indiferença como resposta. Oferecia-lhe músicas pela rádio: “Essa vai para Tôta, em Brejo Santo, O Mérito do Perdão, de Roberto Silva. Quem oferece é Sebastião Gomes: o eterno apaixonado.” E a música era um pedido de desculpas:

“Quem se humilha e quer perdão

Merece ser atendido.

Eu errei, meu coração,

Hoje estou arrependido!

Se você me perdoar,

Prometo nunca mais errar!”

Tirou um dia inteiro para pastorá-la e, quando ela subia para o ginásio, no seu traje costumeiro de normalista, atalhou-a e suplicou para que lhe ouvisse. Havia terminado o noivado, na verdade, já estava em processo de término há muito tempo. Mostrou-lhe a carta do fim, os bilhetes, as fotografias devolvidas e até a aliança! Implorou pelo seu perdão. Era única mulher da sua vida!

Um coração apaixonado sempre perdoa, rendido pelas esperanças de felicidade. E foi assim que voltaram o namoro. Ele só teve de enfrentar as rabissacas de Levina e o olhar não muito lisonjeiro de Sêo Zé Milagres. O namoro se arrastava já por quatro anos e o pai não via muito futuro naquela união:

- Ele vai lhe enrolar igual fez com a prima! Ele não tem intenções de casar. Não quero cabra alisando banco aqui em casa. – E ordenou que a filha terminasse aquele namoro sem futuro. Deu-lhe um ultimato.

Tôta se viu novamente entre a cruz e a espada. O que fazer? Estavam apaixonados. Ano a ano faziam promessas de casar, mas a situação financeira do rapaz era difícil, pois era arrimo de família – recentemente havia trazido os pais para morar em Brejo Santo, com os demais irmãos... Só tinha um jeito de resolver aquela pendenga: e se eles fugissem?

- Fugir? Ela perguntou, apavorada.

- Sim, fugir! Se a gente fugir, Sêo Zé Milagres vai ter que nos aceitar, porque assim a gente casa!

A ideia da fuga passou a alimentá-la, paralelamente a um grande medo. Para viver seu grande amor era preciso ter de desagradar ao pai, irresoluto sobre a necessidade de pôr um fim à união dos dois. Ensaiou inúmeras vezes a fuga, mas faltava-lhe coragem, até que o pai marcou no calendário:

- Até o fim da semana eu quero esse namoro terminado, ou você vai se ver comigo!

Certa noite, pediu ao pai para ir até o Café de D. Edésia, lanchar o último doce, em companhia do namorado. Naquele dia resolveria, o pai não se preocupasse. Sêo Zé concordou com aquela última saída, mas estivesse de volta antes das oito.

Saíram com a roupa do corpo, fretaram um carro, na Praça, e fugiram para a cidade do Barro, onde moravam uns parentes de Sebastião.

Sêo Zé Milagres, às oito em ponto já estava num pé e noutro, olhos atentos no rumo da praça. Pegou uma corda! “Quando ela chegar, ela me paga!” Deu nove, deu dez... Coçava a cabeça e as orelhas impacientemente! Saiu a procurá-la por todos os cantos. Nada. Foi Dora, a empregada gaga, quem sugeriu o destino:

- Ma-ma-madinha Hosana, eu-eu-eu acho que o ga-ga-ga-lego bu-bu-chudo carregou nossa To-totinha!

Sêo Zé Milagres ficou fumando numa telha de ódio, ao concluir que Dora tinha razão! Arrenegou o nome da filha. Proibiu que dissessem o nome dela dentro de casa. Uma tristeza grande consumiu a casa. No outro dia, Sebastião voltou a trabalhar na barbearia e anunciou para quem quisesse ouvir que havia carregado a filha do velho Zé Milagres. Mandou um tio com a missão diplomática de acalmar a fera e contar que Tôta estava em casa de família, passava bem, não se preocupassem. Sêo Zé não quis acordo. Para ele, a filha estava morta; fosse do Barro para mais longe, que ele não lhe reconhecia nem a abençoava mais.

Mas a raiva não durou uma semana. Sentiu falta daquela filha amorosa, que na vida só tinha lhe dado gosto. Não aguentava ver o cachorro Cherry, triste, ganindo, chamando pela dona; nem a ladainha de Hosana, pedindo que amolecesse aquele coração. Rendeu-se, mandou buscar a filha para fazer o casamento.

Era o dia 23 de Março de 1972, há 50 anos atrás. Foi o padre Dermival de Anchieta Gondim quem celebrou o enlace matrimonial. Ao longo desse tempo todo, dia após dia, Zé Milagres foi descobrindo no genro um grande amigo; ninou os netos que vieram – quatro ao todo: Hércules, Helaine, Heloísa e Hérlon e amou com ternura a filha até seus últimos instantes de vida. Com Levina aconteceu o mesmo, fazendo-a vencer, por fim, o preconceito contra aqueles que têm olhos verdes.

Sebastião e Tôta estavam muito certos acerca do que sentiam, serviram com coragem ao amor que os nutria e acreditaram no destino daquele sentimento, contra tudo, contra todos. Construíram uma família, na humildade e simplicidade. Na estrada, encontraram dificuldades, mas também, preciosas vitórias.

A história de amor dos meus pais lembra-me as palavras sagradas da carta de Paulo aos Coríntios: Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor - estes três, mas o maior destes é o amor, porque o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

Hérlon Fernandes Gomes

Porto Velho, 22 de Março de 2022

sábado, 29 de janeiro de 2022

LAMPIÃO, CANGAÇO E NORDESTE – AGLAE LIMA DE OLIVEIRA – O FESTEJADO LIVRO E SUA HISTÓRIA COM SR. ANTÔNIO DA PIÇARRA – 2ª PARTE

Wilton me conta que nasceu em 22/06/1965, em Brejo Santo-CE, filho de Maria Ivanilda Teixeira e Silva e Wilton Santana e Silva. A ideia primeira de seu nome era se chamar igualmente ao avô, Antônio Teixeira Leite, acrescido de Neto, por vontade de seu pai, Wilton Santana, grande amigo do sogro. Mas em 12 de Janeiro de 1965, antes do nascimento da criança, o jovem pai sucumbe em um acidente de trânsito. Com o nascimento do menino, seu Antônio recusa a homenagem:

- Vai se chamar como o pai, Wilton Santana Filho. É seu primogênito e único filho.

A referência de pai foi o avô, já que do pai biológico só lhe restaram lembranças contadas. Na altura dos seus 70 anos, Sêo Antônio se viu e se sentiu na doçura da paternidade novamente, um pai com benefícios de avô. Ele se apegou tanto ao menino, que até adoecia quando se apartavam.

Entre Brejo Santo e a Fazenda Piçarra, de Porteiras, a criança cresceu na curiosidade por descobrir as histórias daquele avô e pai, como canta um bom trovador paraibano. Causos antigos, de longos tempos do cangaço, seduziam o menino. Histórias de amizade, de traições, de tiroteio, bang-bangs mais interessantes que os faroestes de John Wayne, assistidos no Cine Alvorada. Seu avô era seu herói, sertanejo samurai, com seu gibão de couro, era um cavaleiro armado, vaqueiro de coragem, intrépido na caatinga, nas pegas de bois. A velhice não atingira sua alma. O avô era famoso, dava entrevistas a escritores que vinham de longe comprovar e anotar suas memórias: Nertan Macêdo, professor Antônio Amaury, Hilário Lucetti, José Peixoto Jr., Napoleão Tavares Neves...

Wilton se levanta, em determinado momento da conversa, e entra em casa; volta com duas fotografias em preto e branco.

- Estas fotos são de quando a escritora Aglae esteve por aqui. Era uma pessoa extremamente simpática, carismática demais, inteligente ao extremo. Era uma pessoa extremamente interessante. Eu era pequeno, mas eu a admirava.

Foto tirada em final de expediente. Setembro/1970.Velho engenho da Fazenda Piçarra.
Identifica-se, de óculos escuros, Ivanilda (mãe de Wilton), Aglae,
Sr. Antônio e o menino Wilton, em primeiro plano.


Na Fazenda Piçarra, corriam os tempos da moagem, um quente setembro. Aglae quis conhecer o cotidiano, os hábitos do lugar, transportando o passado para o presente, ressuscitando nomes, confirmando fatos da época lampiônica. Ela e o avô pareciam velhos conhecidos, porque dominavam tanto das mesmas histórias! Sêo Antônio se admirava do quanto aquela professora sabia de tudo, parecia até ter vivido naqueles tempos. E como era simpática! Aglae sentia ter descoberto  grande relíquia.

Aquele senhor estava ligado a três emblemáticas figuras desses anos findos da década de 20, tinha muitas amizades, transitava de Padre Cícero a Lampião. Era muito amigo do coronel Chico Chicote, que não se dava com o Rei do Cangaço. Metido com essas personalidades, além de tantas outras interessantes, Sr. Antônio viveu histórias incríveis de se contar, confirmadas na rica bibliografia deixada sobre o cangaço.

Olharam a bagaceira, sentiram o cheiro de mel de cana fervendo. Ao fim de quase uma semana, Aglae havia feito muitas anotações. Seu livro estava quase pronto. Aquela visita à Piçarra foi tão engrandecedora, que a escritora levou Sr. Antônio para o Recife, a participar de entrevistas e de eventos. Em um deles, Sr. Antônio chegou a reencontrar os ex-cangaceiros Candeeiro e Barreira, além de conhecer a filha de Lampião, Expedita Ferreira.

Lampião, Cangaço e Nordeste foi um sucesso de vendas e de crítica. A 1ª edição, lançada em 1970, com 5 mil exemplares, esgotou em duas semanas. Mais duas edições saíram posteriormente, dentro de um ano. É um livro que influenciou muitos pesquisadores e escritores, a exemplo de Ângelo Osmiro e Manoel Severo. Eles me confidenciaram que foi o responsável por apaixoná-los pelo fenômeno social do cangaço.

Foi um sucesso editorial, levando Aglae a percorrer todo o Brasil, em conferências por universidades, onde foi homenageada com diversos certificados de honra ao mérito, por magníficos reitores.

Aglae Lima de Oliveira faleceu de câncer na cidade de Recife, em 04 de junho de 1984, aos cinquenta e nove anos. Sua obra continua inspiradora. Lampião, Cangaço e Nordeste não foi mais reeditada. É livro raro, caro, verdadeiro ouro nos sebos. Merece uma reedição.

A última escritora a visitar Sr. Antônio foi a respeitada professora Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, autora de A Derradeira Gesta. Ele viveu longos 99 anos de idade, falecendo em 31/08/1994. 

Estamos sentados no velho banco, dos tempos dos cangaceiros, eu, Bruno Yacub e Wilton. Velho banco testemunha de todas essas histórias, onde se sentaram Lampião e tantos apaixonados pesquisadores.

Wilton (22 anos) e o avô Antônio (92 anos).


Aglae e Sr. Antônio da Piçarra se foram, mas obra e memória permanecem vivas, aprimoradas por outras pesquisas. Wilton é a perpetuação das memórias deixadas pelo avô; é um exímio conhecedor do assunto, mente enriquecida pelas obras que leu ao longo de décadas. Wilton é um tesouro vivo e a Piçarra representa, até hoje, espécie de oráculo das obscuras histórias do cangaço.

Hérlon Fernandes Gomes

Agradecimentos especiais a Bruno Yacub, que me acompanha e me inspira nessas incursões. Para Wilton Santana e sua mãe, D. Ivanilda, pelo carinho e amizade de família. Aos meus avós maternos, José Milagres da Silva e Hosana Fernandes de Moura, compadres em batismo de Sr. Antônio. Vovó, aos 103 anos, em seus delírios ao passado, ainda recorda o velho compadre, como se vivo fosse. Para meu pai, Sebastião Gomes da Silva, barbeiro de Sr. Antônio até o último momento de vida.

Bruno Yacub, Wilton Santana e eu. Piçarra. Dezembro de 2021.

Leia também: LAMPIÃO, CANGAÇO E NORDESTE – AGLAE LIMA DE OLIVEIRA – O FESTEJADO LIVRO E SUA HISTÓRIA COM SR. ANTÔNIO DA PIÇARRA – 1ª PARTE

sábado, 22 de janeiro de 2022

LAMPIÃO, CANGAÇO E NORDESTE – AGLAE LIMA DE OLIVEIRA – O FESTEJADO LIVRO E SUA HISTÓRIA COM SR. ANTÔNIO DA PIÇARRA – 1ª PARTE

Em 1970, uma mulher se tornou a sensação do momento, entrando pela TV nos lares brasileiros, no famoso programa Show Sem Limite, de J. Silvestre, respeitado apresentador da TV Tupi. O programa era desses da pergunta milionária. A professora Aglae, de Cabrobó-PE, foi sabatinada na atração, respondendo a tudo sobre um difícil e interessante assunto: LAMPIÃO. Os programas se avolumavam, a audiência era grande e a professorinha aproximava-se da resposta premiada.

- Absolutamente certa a resposta, dona Aglae! – bradava o apresentador.

Com J. Silvestre - Fotografia: Revista O Cruzeiro - 11/08/1970.

Ela foi uma apaixonada pela história do cangaço, rendendo a publicação de impressionante livro a respeito, intitulado Lampião, Cangaço e Nordeste. Dedicou uma vida a pesquisar, visitando lugares, consultando sobreviventes do período. Nertan Macedo, que honrou as orelhas do livro; e Rachel de Queiroz, que o prefaciou, assim escreveram sobre autora e obra:

“Sem contar jamais com verbas e recursos oficiais, Aglae não fez pesquisa livresca, buscando nas fontes consagradas o que entre nós foi dito e escrito sobre os cangaceiros. Ela própria, nascida e vivida no sertão, conviveu, durante duas décadas, não apenas com a paisagem que emoldurou o Capitão do Cangaço, mas com os cabras sobreviventes da terrível aventura, que lhe ditaram memórias e reminiscências inesquecíveis sobre a vida comunitária do grupo bandoleiro, fatos, hábitos, higiene, sexo, maneiras de encarar as coisas, os homens e os animais. [o livro] é uma fonte de consulta obrigatória a quantos queiram conhecer o cangaço nômade na intimidade.” (Nertan Macêdo)

“Hoje ninguém poderá pretender discutir cangaço e cangaceiros - especialmente quando se tratar daquele que foi chamado o Rei do Cangaço, Lampião -, sem se curvar ante a professora Aglae Lima de Oliveira, autoridade máxima no assunto. (...) Aglae domina o assunto, conhece-o profundamente, vive a história de Virgulino, interpreta-a, recorda-a quase como uma testemunha - , o que de certa forma o foi. Pois se a moça não viu, porque nem era nascida então, ou era pequena demais para entender o que assistia, soube depois recolher no testemunho direto dos contemporâneos, na visita aos cenários do drama (que ocupou lugar tão dilatado no tempo e no espaço do Nordeste), no interrogatório paciente e minucioso dos sobreviventes da grande tragédia sertaneja, a sua verdade mais autêntica.” (Rachel de Queiroz)

Sr. Antônio Teixeira Leite, o famoso Antônio da Piçarra e a escritora Aglae, na Fazenda Piçarra - 1970

Sobre Lampião, resumiu Aglae à revista O Cruzeiro, de 11/08/1970: "Na minha concepção, foi um fenômeno sociológico e psicológico. Um gênio militar perdido nas caatingas. Grande capacidade de liderança. Amava e odiava, alimentava e assaltava, era herói e covarde. Foi profundamente nacionalista. Sua vida foi a luta de um homem contra o destino. Lampião era astuto e calculista e não se pode dizer que era totalmente ruim. É que seu lado mau tem sido muito explorado. Ele não cansava de repetir as quatro coisas que mais gostava: gado gordo, cavalo de passada boa, mulher e arma de fogo."

A distante Piçarra, no Cariri, localizada no município de Porteiras-CE, foi um dos pontos para onde convergiu a escritora, em busca de conversar com Sr. Antônio, 75 anos de idade,  memória viva de sua complicada relação com Lampião: de coiteiro a delator, premido pelas questões legalistas. De fato, a Piçarra foi palco de importantíssimas diligências cangaceiras. Foi lá, por exemplo, onde aconteceu, em 1928, uma das mais penosas baixas no bando do Rei do Cangaço, a morte de Sabino Gomes, o lugar-tenente de Lampião.

Vilson é a criança em primeiro plano, com o avô, primo e tio.

Fui me encontrar com Wilton Santana (Vilson), filho-neto de Sr. Antônio, que me contou a bonita história de afeto entre ele e o seu velho invisível - o seu velho indivisível avôhai; e como foram as visitas de Aglae em busca de todos os detalhes sobre o cangaço. À época, Vilson era uma tenra e curiosa criança, que cresceu apaixonado pelas histórias do perigoso sertão. Ele me contou os detalhes desses encontros.

... Continua

Hérlon Fernandes Gomes

Leia também: LAMPIÃO, CANGAÇO E NORDESTE – AGLAE LIMA DE OLIVEIRA – O FESTEJADO LIVRO E SUA HISTÓRIA COM SR. ANTÔNIO DA PIÇARRA – 2ª PARTE

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

O MUNGUNZÁ DO CARIRI


Da culinária da minha terra, o mungunzá salgado, mais conhecido ali pela região do sul do Ceará, para dentro da Paraíba e em algumas cidades circunvizinhas do Pernambuco, é a receita mais carregada da memória afetiva da minha família. Conhece-se muito o mungunzá doce do baiano, ou canjica baiana, do qual também sou fã. Viajando pelo Brasil, acabei constatando que fora daquela minha região, pouca gente parece conhecer o mungunzá como feito no Cariri. A palavra é de origem africana, do quimbundo mu'kunza, e significa milho cozido.

Naquele grande raio de sertão, milho e feijão foram, desde os primórdios, plantações básicas desses sertanejos e garantiam-lhes a nutrição mais costumeira. As carnes salgadas eram a forma de proteína mais adequada para armazenamento e conservação duradoura. Na despensa, o caririense guardava uma costelinha de porco salgada, mocotós, uns pedaços de toucinho...

O mungunzá salgado é uma mistura de todos esses ingredientes em um grande cozido. Há receitas mais modestas, nascidas na escassez das secas, quando o bucho e as tripas não se desperdiçavam e substituíam os cortes mais nobres. Eu, particularmente, aprecio o “mungunzá do inverno” e o “mungunzá da seca”. Os caririenses, viciados no abundante pequi da Chapada do Araripe, acrescentam, a uma ou a outra receita, uns caroços do generoso fruto. É uma receita calórica, necessário composto a quem pegava no pesado, trabalhando duro na lavoura.

O preparo de um mungunzá é um ritual. Não é uma receita simples. O sertanejo nem sempre dispôs das práticas panelas de pressão. Minha avó paraibana contava que era preciso deixar o milho e o feijão de molho, por horas. Em panelas de barro separadas cozinhavam-se os grãos. O fogão à lenha varava a madrugada fervendo, fritando, misturando os sabores. Ao feijão, acrescentavam-se as carnes temperadas com pimenta do reino e cominho. Um cheiro de fartura inundava a casa inteira. Por fim, o milho e o cozido do feijão juntam-se numa panela maior, onde se aferventa a receita completa, finalizada com coentro fresco picado. Incontáveis pratos fumegantes na hora do almoço! Cheiro e gosto da minha gênese, chaves de pertencimento.

Reflito que o mungunzá é para o caririense o mesmo que representa a feijoada para o baiano. Pelo Cariri, é coisa fácil de se comer. Nos cafés antigos, nos velhos mercados, é possível tirar a ressaca de manhãzinha comendo um apetitoso mungunzá. No São João, é sucesso nas barracas de comidas. É receita de ouro da nossa gente, sinônimo de fartura, banquete para a fome, cozinha de tradição.

O Brejo é Isso!

Hérlon Fernandes Gomes

Foto: Google Imagens