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| Com o cantor Altemar Dutra. Brejo Santo União Clube. Arquivo Pessoal. |
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| Com o cantor Nelson Gonçalves e amigos. Brejo Santo União Clube. Arquivo Pessoal. |
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| Com o cantor Altemar Dutra. Brejo Santo União Clube. Arquivo Pessoal. |
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| Com o cantor Nelson Gonçalves e amigos. Brejo Santo União Clube. Arquivo Pessoal. |
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| Coroação de Nossa Senhora no interior da Matriz do Sagrado Coração de Jesus, em 31 de maio em 1949. Ministrada pelo Padre Pedro Inácio Ribeiro. |
O povo brejo-santense é muito devoto de Nossa Senhora. É uma tradição de muitos anos a realização da festa da Coroação da mesma, no dia 31 de maio. Não se sabe ao certo a data da primeira festa da Coroação de Nossa Senhora na nossa cidade.
Na década de 1930, o Padre Pedro Inácio Ribeiro celebrava esta festa da Coroação de Nossa Senhora, com muito carinho, com a colaboração da Irmandade das Filhas de Maria Imaculada (associadas moças) e das mães cristãs (casadas). Durante o mês de maio, mês dedicado a Nossa Senhora, sua imagem visitava as casas das famílias, especialmente das que pagavam promessas por graças alcançadas. Toda noite era celebrada a novena e a missa na Matriz do Sagrado Coração de Jesus; e em seguida a imagem de Nossa Senhora era conduzida à casa da família segundo a agenda. Ali era rezado o terço, à noite, quando da sua chegada, por todos os devotos que a acompanhava em procissão. No dia seguinte a família anfitriã rezava o terço, ao meio dia, em companhia da vizinhança. Á noite a imagem era reconduzida de volta à Matriz pela família, vizinhos e devotos. Este ritual era reproduzido todas as noites durante todo o mês de maio. No final do mês eram realizadas duas coroações: uma pelas Filhas de Maria e Mães cristãs, numa data combinada, e a outra no dia 31 pela comunidade paroquial, de modo geral.
Caracterizados de personagens, como por exemplo: o dia e a noite; os astros (o sol, a lua e as estrelas); as virtudes (fé, esperança e caridade); as santas (Bernadete e Rosa) e os anjos, estavam lá no altar bem ornamentado, os artistas que prestariam seus louvores à mãe do Salvador.
A decoração do altar a cada ano era mais bonita e a cerimônia da coroação deixava a todos encantados pela beleza. Era lindo o altar cheinho de anjos com suas camisolas, coroas e asas nas cores: branca, azul e rosa; parecia o céu na terra.
Como era emocionante a oferta das rosas , do coração e da coroa ao som do coro das vozes infantis. Mais emocionante ainda era o ponto alto da celebração, a coroação propriamente dita. Um anjo, com voz quase divina, cantava o hino de louvor a Maria, à medida que ia descendo a coroa. Colocada a coroa sobre a cabeça da imagem de Nossa Senhora das Graças todos aplaudiam com os corações inflamados de amor, entre os estrondos e as lágrimas dos fogos de artifício feitos por seu Antônio Generosa.
Muitas foram as crianças e jovens que tiveram o privilégio de coroar a nossa mãe do céu aqui na terra, na nossa paróquia do Sagrado Coração de Jesus. Entre elas, por exemplo: Noêmia Araújo, Maria Simplício, Filomena Alves, Sandra Rocha e Rosângela Santana (minha filha);e tantas outras.
Uma vez a coroação foi realizada no altar mor do Sagrado Coração de Jesus. Outro ano o altar foi erigido sob o coro da igreja , ficando a imagem de Nossa Senhora e o anjo que a coroou acima do mesmo. Algumas vezes o altar foi montado na porta principal da Matriz. Certa vez durante a coroação choveu, e os anjos foram retirados as pressas para dentro da igreja pelos familiares; enquanto desmontavam o altar sem que os ornamentos fossem danificados. (Lá estava eu, Marineusa, entre os anjinhos das asas molhadas).
De outra feita um anjo teve uma das suas asinhas queimada pelas chamas das velas do castiçal (ele se encontrava bem atrás de mim e só depois de muitos anos quando já era adulta, descobri que o anjo da asa queimada, era minha então amiga, Maria Cabral).
O vigário cooperador Dermival de Anchieta Gondim deu continuidade a celebração por muitos anos, como era costume da paróquia, sem nada modificar. Com o passar do tempo a responsabilidade pela coroação de Nossa Senhora foi passada para as escolas. A cada ano uma delas se encarregava da realização do evento que ocorria como sempre no dia 31 de maio .
Alguns anos pós a construção da Igreja de São Francisco as famílias daquele bairro tiveram a ideia de Nossa senhora visitar as famílias como no bairro da Matriz, e passaram a realizar uma coroação também lá .Por muito tempo ele esteve sob a responsabilidade de Dona Terezinha de Zé Pecuária e Dona Inês Carlota.
A população aumentou muito e para evitar que algumas famílias ficassem tristes por não ter a oportunidade de acolher a Imagem de Maria em sua casa, pois são apenas 30 vistas ao mês, foi tomada a decisão de serem feitas as visitas às ruas. Assim as famílias, em mutirão, ornamentavam um altar campal e todas se sentiam visitadas pela mãe de Jesus.
Maria Santíssima é coroada também nas escolas e nas comunidades rurais.
Diante das dificuldades, dentre elas a financeira, o vigário resolveu pedir à Secretaria da Ação Social para assumir a responsabilidade para com a Coroação de Nossa Senhora. E desde o ano de 1999 a coroação vem sendo feita pela comunidade sob a responsabilidade da Secretaria Municipal da Ação Social, hoje denominada de Secretaria Municipal de Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos.
A coroação de Nossa Senhora na Matriz de São Francisco de Assis, atualmente é organizada pela Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Eventos.
Nos últimos anos tem sido escolhido um tema mariano para encenação, como por exemplo: as aparições de Maria, A meditação do terço, O ofício Mariano... E no ano de 2006, quando a paróquia do Sagrado Coração de Jesus comemorou o jubileu de ouro da ordenação sacerdotal do Monsenhor Dermival de Anchieta Gondim, e também jubileu de ouro de permanência dele entre seus paroquianos, “A ação de Maria em sua vida” foi o tema da Coroação, homenageando a Maria da Imaculada Conceição através da vida do seu afilhado de batismo.
O Monsenhor Dermival de Anchieta Gondim nasceu aos 08 de dezembro, dia da Imaculada Conceição, foi ordenado sacerdote também no dia 08 de dezembro e é um grande devoto daquela que é sua madrinha. Foi encenada a vida do Monsenhor Dermival mostrando a ação de Nossa Senhora em sua vida: no batismo, no chamado à vocação sacerdotal, na sua vida de seminarista , na sua ordenação, exatamente em 08 de dezembro, nas suas visitas aos santuários marianos do mundo inteiro, onde jovens estiveram caracterizadas dos ícones de Maria de acordo com os locais das suas aparições. Foi uma verdadeira apoteose. Além dos paroquianos, estiveram presentes, as irmãs sacramentinas, seus familiares e seu mestre de disciplina Monsenhor José Honor.
Maria Santíssima foi sempre muito venerada por nosso povo. O amor dedicado a ela manteve os paroquianos do Sagrado Coração de Jesus de Brejo Santo fiéis a religião católica, mesmo quando não eram evangelizados, não faziam a leitura e a meditação da Palavra de Deus, por não ser permitido ao povo uso da Bíblia.
A Nossa Senhora nossos louvores por ter sempre cuidado da nossa paróquia com tanto amor e carinho, intercedendo ao seu Filho que mandassem sacerdotes íntegros para guiar este rebanho brejo-santense.
Todas as famílias se reuniam para coroarem Nossa Senhora, como Rainha do céu e da terra. Num altar erigido, geralmente na lateral da Igreja; entre esta e a casa paroquial, Maria era homenageada por crianças e adolescentes que durante todo o mês haviam ensaiado os cânticos da homenagem.
Aspectos da Coroação de Nossa Senhora na Matriz do Sagrado Coração de Jesus, na década de 1980.
Lá pela altura dos meus oito anos, que me recorde, a Semana Santa aparecia como uma época de respeito, carregada de medo e mistério. Era a época em que a Igreja refletia e orava sobre o Cristo crucificado.
Havia duas coisas que me metiam muito medo nesse tempo: contava-se a lenda que, na Missa do Galo, o padre procuraria na Bíblia Sagrada um pingo do sangue de Jesus Cristo e, caso não encontrasse o precioso pingo, seria o fim do mundo! Isso me deixava apavorado; mas o que me matava mesmo de medo era a tropa de Caretas soltos nas ruas, pedindo jejuns nas portas das casas, nas bodegas, na feira, nos sítios, arrastando seus chocalhos, com suas máscaras pavorosas de papelão, de couro ou de remendos de pano. Alguns, com ares de líderes, tinham chifres como adornos, chicotes mais ameaçadores – era como se o inferno tivesse baixado na Terra.
O tormento durava do Domingo de Ramos ao Sábado de Aleluia. A meninada vivia com o coração acelerado ao som do primeiro chocalho. Era chororô e gritaria. Uns partiam para debaixo da cama – eu corria a me esconder dentro do móvel da máquina de costura da minha mãe. Ali eu duvidava que Careta me encontrasse!
É uma tradição muito antiga, trazida pelos portugueses e espanhóis, desde o descobrimento do Brasil; mas sua origem pode estar associada a um culto pagão mais distante no tempo, que festeja o início da primavera.
Vovó me contava que os caretas eram os ‘cãos’ que levavam Judas para o Inferno, no Sábado de Aleluia. E me dizia que tudo começou porque Judas Iscariotes teve inveja de Jesus e traiu-o com um beijo dado em sua face. O gesto foi a senha dada aos soldados do Império Romano, entregando Nosso Senhor para iniciar o triste calvário da crucificação. Como paga pela traição, Judas recebeu trinta moedas de ouro. Consumada a trairagem, arrependeu-se, quis restituir o dinheiro, mas não conseguiu. Cheio de remorsos, enforcou-se numa corda. Os Caretas apareciam para atormentar Judas por tamanha desfeita: a traição contra o Filho de Deus.
Na minha cabeça, as portas do inferno estavam abertas e os ‘cãos’ estavam soltos para levar Judas de corpo e alma.
Fui crescendo e perdendo a fobia pelos bichos feios. Já me divertia com eles. Gostava de ouvi-los, com sua voz gutural, chamando todo mundo de “padim” e de “madinha”, pedindo dinheiro, fruta, arroz, cachaça...
Descobri que os caretas juntavam tudo o que arrecadavam numa espécie de sítio: um quadrado, demarcado com palmas de coco e uma linha no chão batido de terra. Ao centro, estava amarrado o Judas, um mal-amanhado boneco de pano, recheado de palha de milho, dependurado enforcado com uma corda, às vezes com os bolsos exibindo notas de dinheiro para fora.
O Sábado de Aleluia mais movimentado à que assisti aconteceu em Porteiras, nas cercanias do sítio Cancelas, meu reduto materno. Foi lá onde vi os Caretas mais valentes, mais assustadores, mais violentos e seu “sítio” mais rico. Uma multidão se aglomerava ao redor da demarcação. Muitos homens e rapazes corajosos invadiam o sítio, tentando despistar os horripilantes vigias e se livrar de suas chicotadas. Alguns vestiam até três calças, varias camisas para aguentar as cipoadas e entravam no sítio para tentar a sorte de arrebatar valiosa prenda: uma nota alta, uma garrafa de conhaque, um jerimum maduro... Alguns se feriam graves, não se importavam de exibir os vergões de chicotes na pele. A multidão vibrava cada vez que alguém alcançava um prêmio; mangava quando alguém se lascava na pêia.
Por fim, Judas era surrado e queimado pelos Caretas, cumprindo sua sentença de ir arder nas profundezas do Inferno.
Algumas comunidades dão nomes aos seus Judas, geralmente políticos que caem na antipatia de sua gente ou perversos criminosos, por exemplo.
Hérlon Fernandes Gomes
10 de Abril de 2022.
| Foto tirada em final de expediente. Setembro/1970.Velho engenho da Fazenda Piçarra. Identifica-se, de óculos escuros, Ivanilda (mãe de Wilton), Aglae, Sr. Antônio e o menino Wilton, em primeiro plano. |
| Wilton (22 anos) e o avô Antônio (92 anos). |
| Bruno Yacub, Wilton Santana e eu. Piçarra. Dezembro de 2021. |
Em 1970, uma mulher se tornou a sensação do momento, entrando pela TV nos lares brasileiros, no famoso programa Show Sem Limite, de J. Silvestre, respeitado apresentador da TV Tupi. O programa era desses da pergunta milionária. A professora Aglae, de Cabrobó-PE, foi sabatinada na atração, respondendo a tudo sobre um difícil e interessante assunto: LAMPIÃO. Os programas se avolumavam, a audiência era grande e a professorinha aproximava-se da resposta premiada.
- Absolutamente certa a
resposta, dona Aglae! – bradava o apresentador.
| Com J. Silvestre - Fotografia: Revista O Cruzeiro - 11/08/1970. |
Ela foi uma apaixonada pela história do cangaço, rendendo a publicação de impressionante livro a respeito, intitulado Lampião, Cangaço e Nordeste. Dedicou uma vida a pesquisar, visitando lugares, consultando sobreviventes do período. Nertan Macedo, que honrou as orelhas do livro; e Rachel de Queiroz, que o prefaciou, assim escreveram sobre autora e obra:
“Sem contar jamais com verbas e
recursos oficiais, Aglae não fez pesquisa livresca, buscando nas fontes
consagradas o que entre nós foi dito e escrito sobre os cangaceiros. Ela
própria, nascida e vivida no sertão, conviveu, durante duas décadas, não apenas
com a paisagem que emoldurou o Capitão do Cangaço, mas com os cabras
sobreviventes da terrível aventura, que lhe ditaram memórias e reminiscências
inesquecíveis sobre a vida comunitária do grupo bandoleiro, fatos, hábitos, higiene,
sexo, maneiras de encarar as coisas, os homens e os animais. [o livro] é uma
fonte de consulta obrigatória a quantos queiram conhecer o cangaço nômade na
intimidade.” (Nertan Macêdo)
“Hoje ninguém poderá pretender discutir cangaço e cangaceiros - especialmente quando se tratar daquele que foi chamado o Rei do Cangaço, Lampião -, sem se curvar ante a professora Aglae Lima de Oliveira, autoridade máxima no assunto. (...) Aglae domina o assunto, conhece-o profundamente, vive a história de Virgulino, interpreta-a, recorda-a quase como uma testemunha - , o que de certa forma o foi. Pois se a moça não viu, porque nem era nascida então, ou era pequena demais para entender o que assistia, soube depois recolher no testemunho direto dos contemporâneos, na visita aos cenários do drama (que ocupou lugar tão dilatado no tempo e no espaço do Nordeste), no interrogatório paciente e minucioso dos sobreviventes da grande tragédia sertaneja, a sua verdade mais autêntica.” (Rachel de Queiroz)
| Sr. Antônio Teixeira Leite, o famoso Antônio da Piçarra e a escritora Aglae, na Fazenda Piçarra - 1970 |
Sobre Lampião, resumiu Aglae à revista O Cruzeiro, de 11/08/1970: "Na minha concepção, foi um fenômeno sociológico e psicológico. Um gênio militar perdido nas caatingas. Grande capacidade de liderança. Amava e odiava, alimentava e assaltava, era herói e covarde. Foi profundamente nacionalista. Sua vida foi a luta de um homem contra o destino. Lampião era astuto e calculista e não se pode dizer que era totalmente ruim. É que seu lado mau tem sido muito explorado. Ele não cansava de repetir as quatro coisas que mais gostava: gado gordo, cavalo de passada boa, mulher e arma de fogo."
A distante Piçarra, no Cariri, localizada no município de Porteiras-CE, foi um dos pontos para onde convergiu a escritora, em busca de conversar com Sr. Antônio, 75 anos de idade, memória viva de sua complicada relação com Lampião: de coiteiro a delator, premido pelas questões legalistas. De fato, a Piçarra foi palco de importantíssimas diligências cangaceiras. Foi lá, por exemplo, onde aconteceu, em 1928, uma das mais penosas baixas no bando do Rei do Cangaço, a morte de Sabino Gomes, o lugar-tenente de Lampião.
| Vilson é a criança em primeiro plano, com o avô, primo e tio. |
Fui me encontrar com Wilton Santana (Vilson), filho-neto de Sr. Antônio, que me contou a bonita história de afeto entre ele e o seu velho invisível - o seu velho indivisível avôhai; e como foram as visitas de Aglae em busca de todos os detalhes sobre o cangaço. À época, Vilson era uma tenra e curiosa criança, que cresceu apaixonado pelas histórias do perigoso sertão. Ele me contou os detalhes desses encontros.
... Continua
Hérlon Fernandes Gomes