A Munganga Promoção Cultural

A MUNGANGA PROMOÇÃO CULTURAL: O Brejo é Isso!

sábado, 28 de setembro de 2019

OTACÍLIO ANSELMO E SILVA - 110 ANOS


Muitas dúvidas pairavam acerca da naturalidade de Otacílio. Alguns o davam, por certo, brejo-santense; outros, cratense; ouvimos, por fim, que se tratava de jatiense, o que nos foi confirmado em documento deixado pelo próprio autor, no seu discurso de posse no Instituto Cultural do Cariri:

“Com efeito, nasci e dei meus primeiros passos no antigo povoado de Macapá, hoje cidade de Jati, quando aquela pequena povoação, banhada pelo riacho dos Porcos e vizinha de Pernambuco, era parte integrante do Município de Jardim.”

Era o dia 09 de Dezembro de 1909. Cresceu e realizou seus primeiros estudos em Brejo Santo, onde o pai era um afamado boticário. A farmácia de João Anselmo e Silva era, com efeito, o reduto da intelectualidade daquela época, local onde o cidadão se mantinha informado do que acontecia no Cariri e no mundo. 

Contemporâneo de importantes acontecimentos históricos, Otacílio Anselmo foi um cronista do seu tempo e das memórias deixadas na infância de um menino sertanejo, do sul do Cariri.

Seguiu carreira militar, destacando-se na música, integrando a Banda de Música do 23º Batalhão de Caçadores, em Fortaleza. Ali,  foi colega de Luiz Gonzaga -  o Rei do Baião. Em 1935, fundou, na capital, o tradicional bloco carnavalesco Prova de Fogo.

De volta ao Cariri, como capitão reformado do Exército Brasileiro, ocupou a cadeira de n. 7 do Instituto Cultural do Cariri, onde passou a se dedicar ao estudo da História da região, contribuindo incansavelmente em publicações da Revista Itaytera. Nesta, em 1956, escreveu o Esboço Histórico do Município de Brejo Santo. Nele, remonta desde a ocupação dos índios Cariris; a chegada do homem branco, perpassando pelo cangaceirismo da era imperial até a ascensão do coronelismo, no início do século XX, configurando-se em um importante registro da história, não só do município, mas de toda a região. É, sem dúvida, o registro de maior relevância, até hoje, para a cidade. Todas as obras vindouras necessariamente passaram, e hão de passar, pelas anotações deixadas por Otacílio.

Narrando sua própria experiência, o autor escreveu, em 1957, a obra O Ceará e a Revolução de 30.

Sua obra mais importante, publicada em 1968, Padre Cícero: Mito e Realidade, demorou oito anos para ser concluída e é leitura obrigatória sobre a polêmica do famoso milagre envolvendo o líder religioso, além de como se deram determinadas relações políticas no Cariri daquele tempo. 
Otacílio discursa no lançamento da biografia Padre Cícero: Mito e Realidade (1968)

Nessa famosa biografia, panorama dos problemas sociais do sertão, latifúndio,  fé e banditismo,  o autor comunga do mesmo entendimento do historiador brejo-santense Padre Antônio Gomes de Araújo, autor de O Apostolado do Embuste (1956), obra contestadora do milagre de Juazeiro e acusadora dos responsáveis. 

Otacílio defende que o aludido milagre foi, na verdade, uma armação, um truque químico engendrado pelo professor José Marrocos, íntimo amigo do padre Cícero. A alarmada hóstia em sangue, na boca da beata Maria de Araújo seria, na verdade, uma mistura de amido, saliva e fenolftaleína, dissolvendo-se rubra, na língua.

Embora não seja uma obra definitiva sobre os acontecimentos – afinal, como ser definitivo em assunto que mexe tanto com a fé? -, o olhar de Otacílio sobre os acontecimentos trouxe um paradigma para que autores como Azarias Sobreira, Daniel Walker e Lira Neto, complementassem outras peças desse enigmático quebra-cabeças que é a figura desse líder religioso.

Em 1972, rememorando histórias do velho sul do Cariri, o autor publica na Revista Itaytera, A Tragédia de Guaribas (1972), texto de profundo cuidado histórico, em que explora a política, o banditismo, o cangaceirismo e as feições do ineficiente Estado, que culminam com a morte do famoso Chico Chicote, em sua fazenda Guaribas, no ano de 1927, quando cerca de 300 homens, compostos pela polícia de três estados, reuniram-se para dar cabo do poderoso coronel.



Otacílio Anselmo faleceu em 08 de janeiro de 1982. Está sepultado no Cemitério da Paz, em Fortaleza

Hérlon Fernandes Gomes

P.S.: Salvo engano, o Poder Legislativo de Brejo Santo carece de prestar merecida homenagem a Otacílio Anselmo. Não conheço nenhum nome de logradouro, ou biblioteca, algo que valha a inscrição de tão importante pessoa para nossa História.

Agradecimentos a Bruno Yacub e Antônio Marrocos Anselmo, neto de Otacílio Anselmo.

domingo, 22 de setembro de 2019

O CRUZEIRO DO SERROTE E O CEMITÉRIO DOS FLAGELADOS



O Cruzeiro do Serrote está erguido desde 1942.

Compondo o complexo histórico popular do entorno da Pedra do Urubu, está erigido o Cruzeiro, fincado no ponto mais alto do Serrote, desde 1942.

Idealizada por dona Balbina Lídia Viana Arrais - A Mestra, para além do pagamento de uma graça alcançada, foi um incentivo aos paroquianos às peregrinações, a fim de devotarem sua fé ou de fazerem penitência por ocasião da Quaresma. Até encenação da Via Sacra era realizada no local.

Dona Balbina Lídia Viana Arrais - A Mestra.
Foto: acervo de Maria Auriluce Arraes Bezerra.

A tradição oral revela que, com o início das peregrinações, o local também se tornou um “campo santo”, utilizado para sepultamento de pessoas vítimas de epidemias, como a Hanseníase e Varíola. A seca, associada aos aglomerados de pessoas não vacinadas, vivendo em plena falta de higiene, facilitou a disseminação de bactérias e viroses, principalmente em grupos de indivíduos com maiores riscos e vulnerabilidade social, ali na região do Serrote. Por receio de risco de contaminação, não era permitido o sepultamento dos corpos no cemitério São João Batista.

Os recém-nascidos, popularmente chamados de “anjinhos”, também eram sepultados no entorno do Cruzeiro do Serrote, como pagãos (não batizados), pois somente poderiam ser enterradas no cemitério pessoas batizadas pela Igreja. Até o fim da década de 1990, existem relatos de sepultamentos desses "anjinhos".

Visão geral da área do Serrote onde se encontram a Caixa D'água e o Cruzeiro:
Monumentos Históricos do Município. Foto: Thales Luciano.

Foto: Thales Luciano.
Foto: Thales Luciano.

Foto: Thales Luciano.
Foto: Thales Luciano.

Foto: Thales Luciano.

Em conversa com monsenhor Dermival, o Reverendíssimo informou que, desde a sua chegada em Brejo Santo, em 1957, para atuar como Vigário Cooperador de padre Pedro Inácio Ribeiro, a orientação da Diocese, em relação às práticas de sepultamentos, seria para que todos os falecidos fossem enterrados no próprio cemitério local, reservando-se uma área específica para o sepultamento dos ditos “anjinhos”.

Ultimamente, no Cruzeiro do Serrote, realizam-se manifestações religiosas esporádicas, como foi a missa celebrada no último dia 14 de setembro de 2019, em devoção à Santa Cruz. Para se ter uma ideia, antes disso, a última missa realizada no local aconteceu há 12 anos.


Peregrinação da Santa Cruz ao Cruzeiro do Serrote, 14 de setembro de 2019.


Registro da Missa celebrada em 14 de setembro de 2019.

Registro da Missa celebrada em 14 de setembro de 2019.

Registro da Missa celebrada em 14 de setembro de 2019.

Registro da Missa celebrada em 14 de setembro de 2019.

Do local, tem-se uma linda vista de todo o Brejo Santo. A luz do sol se espraia por toda a várzea. Os restos de vela sobre as pedras, ao redor do Cruzeiro, são um rastro de fé deixado por anos.

Visão do nascer do sol a partir do Cruzeiro do Serrote, com o Brejo ao fundo.


O Cruzeiro do Serrote tornou-se Patrimônio Histórico do Município de Brejo Santo, através da Lei Municipal n° 480/05, de 28 de junho de 2005.

Conheça outros pontos históricos da cidade tombados através de Leis Municipais:

- A pedra denominada de “Urubu” em um raio de 15m² em circunferência, através da Lei Municipal N° 346/99, de 28 de dezembro 1999;

Visão aérea da Pedra do Urubu e o seu entorno. Foto: Thales Luciano.


- A pedra denominada de “Sapo” em um raio de 15m² em circunferência, através da Lei Municipal N° 346/99, de 28 de dezembro 1999;

Monumento Histórico "Pedra do Sapo".
"Pedra do Sapo" e "Pedra do Urubu".


- A pedra denominada de “Furna da Onça” em um raio de 15m² em circunferência – através da Lei Municipal N° 346/99, de 28 de dezembro 1999;

Monumento Histórico "Furna da Onça".


- A área denominada de “Cacimbinha” em um raio de 15m² em circunferência, através da Lei Municipal N° 346/99, de 28 de dezembro 1999; (DESTRUÍDO)!

Monumento Histórico "Cacimbinha" (DESTRUÍDO).

Monumento Histórico "Cacimbinha" (DESTRUÍDO).

- Caixa d’água localizada no Serrote, erguido em 1953, através da Lei Municipal N° 480/05, de 28 de junho de 2005;

Monumento Histórico da Caixa D'água. 


- O Casarão localizado no final da Avenida coronel Basílio Gomes, ao lado do cemitério São João Batista, erguido em 1908 (construído pelo capitão Antônio Leite Rabelo da Cunha), através da Lei Municipal N° 480/05, de 28 de junho de 2005; (DESTRUÍDO)!

Monumento Histórico Casarão do capitão Antônio Leite Rabelo da Cunha, 1908. DESTRUÍDO!
Foto: Blog do Mateus Silva.

Monumento Histórico Casarão do capitão Antônio Leite Rabelo da Cunha, 1908. DESTRUÍDO!
Foto: Blog do Mateus Silva.


- O Casarão localizado na Avenida coronel Basílio Gomes, cuja construção data de 1872 (residência do Cel. Basílio Gomes da Silva), através da Lei Municipal N° 480/05, de 28 de junho de 2005.

Monumento Histórico Casarão do coronel Basílio Gomes da Silva, construída em 1872.



Lei Municipal N° 346/99, de 28 de dezembro de 1999.
Lei Municipal N° 480/05, de 28 de junho de 2005.

Lei Municipal N° 480/05, de 28 de junho de 2005.


Este texto é dedicado aos amigos Maria Auriluce Arraes Bezerra e João Viana Arraes Neto, descendentes de dona Balbina.




Conheça o seu lugar!
Visite o complexo histórico da Pedra do Urubu, especialmente o seu Museu.





O Brejo é Isso!



Bruno Yacub Sampaio Cabral
Pesquisador



Fontes de pesquisa:

- AMIC – CANAO, Amigos da Cultura – Casarão, Nascença e Outros, Balbina Lídia Viana Arrais – A Mestra, Brejo Santo – CE, 2007;
- Silva, Otacílio Anselmo e Silva, D. Balbina Lídia Vianna Arrais, em revista Itaytera, n° 18, Instituto Cultural do Cariri, Crato - CE, 1974;
- Leite, Maria Santana, Reminiscências, Brejo Santo - CE, 2000;
- Araújo, Francisco Alves, Veredas do Chão Nativo, Brejo Santo - CE, 2003;
- Silva, Otacílio Anselmo e, Esboço Histórico do Município de Brejo Santo, em revista Itaytera, N° 2, Instituto Cultural do Cariri, Crato - CE, 1956;
- Arquivo da Câmara Municipal de Brejo Santo - CE;
- Entrevista com o monsenhor Dermival de Anchieta Gondim em 16 de setembro de 2019;
- Entrevista com Maria Auriluce Arraes Bezerra, em 16 e 17 de setembro de 2019;
- Entrevista com o diácono Raimundo Tarcísio Cabral, em 19 de setembro de 2019;
- Entrevista com Tony Santos (Tony da Pedra do Urubu), em 20 de setembro de 2019.


Links de artigos sobre Dona Balbina:

Dona Balbina Lídia Viana Arrais

Balbina Lídia Viana Arrais

A primeira Professora pública de Brejo Santo

Lançamento do Livro "Balbina Lídia Viana Arrais - A Mestra"

O Casarão da Família Viana Arrais

O Casarão dos Viana Arrais, um lar de saberes e ensinamentos

sábado, 7 de setembro de 2019

A PEDRA BRANCA


Hérlon Fernandes Gomes revela capítulo de seu romance, em que a cidade de Porteiras aparece em lugar de destaque. O livro contará a história de Chico Chicote, o poderoso coronel de Guaribas, que  foi vítima de um complô do Governo e de seus inimigos, em 1927. Cerca de 300 homens se reuniram para trucidá-lo. O seguinte capítulo retrata parte da infância do protagonista.

A Pedra Branca (Google Imagens)

A PEDRA BRANCA ENCANTADA

Naqueles rincões, uma das principais diversões da meninada era ouvir as histórias que os mais velhos contavam, nos alpendres pela noite adentro, regadas a chá de cidreira e capim santo. Algumas, muito inventadas, como as aventuras e espertezas de Camonge, um herói malandro que levava sempre a melhor, enganando homens poderosos, como reis e malfeitores. A criançada gostava de ouvir, também, os ‘causos malassombrados’ acontecidos ali: almas penadas, caiporas que protegiam a mata, menino amaldiçoado que virava lobisomem... Mas aqueles garotos se impressionaram especialmente sobre uma: a história da misteriosa Pedra Branca.
De todo aquele vale do Sul do Cariri, nos limites do povoado de Porteiras, abrindo-se no imenso vale verde que ladeia a Chapada do Araripe, erguia-se aquele monólito cheio de enigmas. De muito longe, parecia uma tosca casa, elevando-se além do verde, já perto das nuvens, para abrigar certamente muitos encantos e magias.
Dizia-se que dentro da Pedra vivia uma família aprisionada. Ninguém sabe que maldição esse povo sofreu, mas é certo que penava lá dentro por algo de mal que lhe botaram. Contavam que na hora do almoço, se a gente pusesse o ouvido rente à pedra, seria possível ouvir o tilintar de colheres nos pratos;  panelas que caiam na cozinha, como se as pessoas estivessem terminando de preparar a comida para servir. Às vezes, era possível ouvir vozes, gritos, risos, lamentos...
Corria a notícia de que uma moça, moradora daquelas vizinhanças, havia sumido recentemente ao avisar em casa que iria visitar a Pedra, mesmo advertida de que não o fizesse. Nunca mais se soube dela. Teria trocado de lugar com algum dos prisioneiros da maldição?
Nas noites de Natal, o velho Janeta e outras pessoas sérias juravam de pé junto que era possível, mesmo de longe, ver subir da Pedra, até o céu, um iluminado carneiro de ouro, em homenagem ao nascimento do Menino Jesus...
Ninguém segura curiosidade de menino. Depois de ouvirem todas aquelas palestras, Chico, Sebastião Cancão e Mané Caipora sabiam que precisavam ver a Pedra Branca de perto, conferir por eles mesmos aquele mistério.
Passaram a semana planejando a viagem. Calcularam por alto a distância e o tempo da, aproveitando o curso do rio. Precisariam de um dia inteiro para ida e volta. Chico Chicote decidiu que seria melhor que fossem no sábado, quando o pai e mãe desceriam para a feira de Brejo e só voltariam à noitinha, assim nem dariam por sua falta.
Otília estranhou o fato de os meninos Mané Caipora e Tião Cancão chegarem tão cedo perguntando por Chico.
- Ainda está dormindo. E o que vocês querem tão cedo aqui? – perguntou, com ar de abuso, porque tinha íntima suspeita de traquinagem braba.
- A gente combinou de ir catar umas muricis hoje cedo, lá no alto, e caçar uns passarim. – Mentiu Caipora, esticando a baladeira em direção à interlocutora. Vou trazer uns arribaçãs pra senhora.
Otília se apiedou daquela promessa de generosidade e ordenou que os meninos entrassem e fossem acordar Chico. Molhou mais massa de milho para aumentar o cuscuz e peneirou mais goma para as tapiocas do café da manhã.
- Oxe, isso é hora de tá dormindo? Levante, Chico. Rumbora, senão vai ficar tarde. Não tem quem aguente esse sol nas costas, não.
Chico pulou da cama, atordoado. Arrumou-se e foi para a cozinha com os amigos. Instruiu-lhes a não deixarem nada de comida na mesa, a levarem tudo para a viagem. Comeram vorazmente, até se fartarem. Chico iniciou um diálogo:
- Otília, vi sua galinha numa tristeza ali pelos cantos, que tô achando que ela tá goguenta!
                O menino se referia a uma ave que era o xodó da senhora, tinha até nome: Mimosa. Chamando por São Francisco de Assis, a mulher saiu apressada da cozinha em busca de averiguar a ardilosa informação. Enquanto isso, os três arrastavam o que fosse de comida e guarneceram seus bornais. Correram para o curral, montaram seus cavalos e partiram para a grande aventura.
Era o ano de 1889, mais um ano de seca. Aquelas crianças ainda não conheciam o que era um inverno de verdade, nunca viram o rio caudaloso como contavam os mais velhos. Anos antes, com chuvas escassas, foi possível vê-lo correr em longo curso, embora com pouca água. Naquele ano, todavia, o leito estava seco, só apresentando água em alguns raros olhos d’água que se abriam tímidos em seu curso. Os mais velhos diziam que tanta seca era sinal dos fins dos tempos. Corria a história da hóstia que virara sangue, na boca de uma das beatas do padre Cícero do Juazeiro. Os meninos conjecturavam sobre essas coisas “do outro mundo”, sobre o fim dos tempos, enquanto passeavam admirados pelas grandes pedras dispostas sobre uma areia infinitamente branca, dentro de um magnífico cânion.
- Pois e se for mesmo o fim do mundo, a gente vai morrer sem conhecer a Pedra Branca? – indagava Chico.
- Meu fi, eu não penso em Pedra Branca, não, quando o assunto é fim do mundo. Eu tenho medo é de fogo, porque quando o mundo se acabou a primeira, foi de água. Falam que agora vai ser o fogo do inferno – rebateu Caipora, parando a marcha para acender um cigarro de palha que lhe valia o apelido, desde os oito anos de idade.
Cancão morria de medo dessas conversas do Apocalipse, não estava gostando da prosa. Tinha medo que alguma alma penada, de repente, aparecesse anunciando alguma desgraça, por isso aconselhou aos amigos:
- Tanta coisa boa pra conversar e vocês só ficam falando em malassombros. Ôs caba besta! Vamos conversar sobre outras coisas...
Depois de longa e estafante caminhada, finalmente era possível ver mais de perto, o imenso monumento natural. Resolveram descansar um pouco antes de reiniciar a subida, que se fazia cada vez mais íngreme. Àquela altura de clima serrano, o tempo se fazia mais ameno e o rio deixava notar cada vez mais algumas nascentes que o alimentavam. Em uma delas, os garotos descobriram um tesouro escondido: um santuário de pedras de peixe. Como qualquer criança crescida ali, eles sabiam identificar perfeitamente aquelas misteriosas espécimes que, quebradas cuidadosamente, ao meio, exibiam diversos tipos de peixes, insetos e outros bichos de quando o Sertão foi mar! Quando se aperceberam daquilo, deram-se àquele alvoroçado garimpo.
- Olhem aqui! Esse peixe aqui parece um chupa-pedra, só que maior e mais feio! – admirava-se Tião Cancão.
Caipora encontrou, na primeira quebrada, um belo “bibiu”, nome que dava à libélula. Chicote descobriu um peixe muito esquisito e brilhante, reto como um punhal. Infelizmente não puderam levar tudo o que desejavam, pois os bornais já estavam pesados demais para enfrentar aquela última subida.
Os meninos chegaram até um platô, uns dez metros abaixo da base da Pedra. Apearam os animais e subiram a pé, único meio encontrado para chegar mais rapidamente ao tão esperado destino. Entre espinhos de cansanção e raízes que serviam de cipó, deram-se, enfim, de frente com a imensa lateral da Pedra.  Uma rasga-mortalha voou do alto, entoando seu canto de agouro. Sebastião Cancão fez o sinal da cruz. Mané Caipora e Chico sentiram o sangue esfriar. Ninguém disse uma palavra. Cigarras despertavam num incessante lamento sem fim, ensurdecendo os ouvidos dos meninos.
Embora o ar se desenhasse numa espécie de fantasmagoria, a sensação reinante era de vitória, satisfação e um êxtase de admiração. Rodearam todo o lugar, à espera de que algo sobrenatural acontecesse.
Chico pôs os olhos no sol, a pino. Era a hora do almoço. Pôs os ouvidos na Pedra em busca de ouvir o que diziam os contadores. Os outros meninos integraram o ritual. Sebastião Cancão alarmou, sem saber ao certo se acreditava no que dizia:
- Eu ouvi uma xícara cair. Juro por Deus!
Cético, Chico Chicote rebateu desapontado:
- Ouviu coisa nenhuma. Eu mesmo não ouvi nada...
- Eu não sei se ouvi alguém cochichando alguma coisa...
Depois de tentativas duvidosas como aquelas. Cancão lembrou que seria muito mais interessante procurar algumas lascas de ouro derrubadas pelo Carneiro do Natal, de cima da Pedra.
Naquela procura vã, chegaram, por fim, à frente da Pedra, onde se abria uma cripta para receber o nascer do dia, como uma porta. Admirados, os meninos adentraram. Não havia grande profundidade. Imaginavam que aquela abertura fosse um túnel, mas equivalia ao tamanho de um pequeno vão, onde facilmente cabia o trio, com folga de espaço. Chico gritou:
- Ô de casa!
O eco reverberou de lá de dentro por sobre o vale, tangendo alguns morcegos e espantando os enxus de maribondos. O trio foi expulso da Pedra, cada um com uma dezena de ferroadas. Rolaram ladeira abaixo, indo cair até bem perto dos animais. Cancão fez troça de Mané Caipora:
- Bicho, óia o tamanho dos teus beiços?
Todos estavam com as fisionomias deformadas pelas picadas. Chico Chicote fez esforço para abrir os olhos. Riram-se uns dos outros. Será que a Pedra não os queria ali, ou tudo foi uma dolorosa coincidência? Não estavam se sentindo bem, era bom que se apressassem em voltar para casa.
Na metade do caminho, uma forte febre se instalou nos garotos, que cavalgavam debilitados. Chico começou a ter delírios. Via a índia velha Araci na frente dos cavalos, como a guiá-los no rumo certo da estrada. Depois o espectro sumia e já estava na garupa do seu cavalo. Em determinado momento perdeu completamente os sentidos e já acordou com o olhar aflito de sua mãe, com um terço na mão a agradecer a Deus porque o pior não acontecera. A febre finalmente havia cessado. A primeira preocupação de Chico foi saber da mãe onde estava seu bornal com as preciosas pedras de peixe.
Continua...
Hérlon Fernandes Gomes


O autor escalando a Pedra Branca em 2009.


quarta-feira, 21 de agosto de 2019

DOS SANTOS DO BREJO AO BREJO DOS SANTOS

"Ah, seu moço! Naquela casa da Nascença, só havia rastro de entrada.”

O casarão da Nascença foi construído pela família Santos. 

    Boiadeiros, mascates, cavalarianos transitavam sempre pelo Brejo dos Santos em negócio de seu interesse profissional. Os que se destinavam a Milagres, vindos de Jardim e Porteiras ou destas localidades àquela não podiam senão passar pelo Brejo dos Santos, pois não se conhecia outra estrada a contornar. Esta única estrada cortava o pátio da casa dos "Santos do Brejo".

    O casal Gonçalo de Oliveira Rocha e Joana Martins de Morais senhoreou a Fazenda Nascença, limítrofe do Sítio Brejo, junto de cujas terras molhadas surgiu a cidade de Brejo Santo. Gonçalo de Oliveira Rocha, Tenente (viúvo de Francisca de Jesus), um dos destacados colonos do rincão brejo-santense, que nasceu no ano de 1703, na vila de Penedo, Alagoas, filho de Bento de Oliveira Rocha e de Joana da Rocha. Gonçalo faleceu a 20.08.1799, e foi sepultado na Igreja Matriz de Missão Velha, Ceará. Joana Martins de Morais, nasceu nos Cariris Novos, filha do capitão Bartolomeu Martins de Morais, e Ana Maria Ferreira, tronco dos Martins de Morais. Foi a 2ª esposa de Gonçalo de Oliveira Rocha. Tiveram quatro filhos: Pedro Martins de Oliveira Rocha, Gonçalo de Oliveira Rocha Júnior (Gonçalinho), Joana Martins do Espírito Santo, Maria Martins de Oliveira Rocha e Rita Francisca de Jesus (filha do 1° casamento de Gonçalo com Francisca de Jesus). 

    Conta-se que os Santos - capitão Gonçalo de Oliveira Rocha Júnior ou Gonçalinho, sua esposa Joana Pereira Filgueiras e seus filhos Manoel, João, Francisco, Cosmo, Pedro e Ana (Inácio Oliveira Santos) tinham uma hospedaria na região da Nascença e recebiam os viajantes.

    Segundo Francisco Augusto de Araújo Lima, em seu livro Famílias Cearenses Um, traz a seguinte informação sobre a denominação dos Santos do Brejo: Gonçalo de Oliveira Rocha Júnior e Joana Pereira Filgueiras são pais da irmandade de nove Santos que deu origem a Brejo dos Santos, todos nascidos na Fazenda Nascença: Pedro Inácio de Oliveira Santos, Francisco Inácio de Oliveira Santos, Davi Inácio de Oliveira Santos, João Inácio de Oliveira Santos, Manoel Inácio de Oliveira Santos, Cosmo Inácio de Oliveira Santos, Antônio Inácio de Oliveira Santos, Joaquim Inácio Oliveira Santos, Ana Inácio Oliveira Santos.

    É necessário reconhecermos e corrigirmos um equívoco histórico. O capitão Gonçalo de Oliveira Rocha Júnior, o Gonçalinho, nascido na Fazenda Nascença, no atual município de Brejo Santo, Ceará, casou-se com Joana Pereira Filgueiras, que nasceu em terras do atual município de Barbalha, Ceará. Esta, filha de Inácio dos Santos de Oliveira Brito e de Francisca Teodora Pereira Filgueiras. (Joana, portanto, é sobrinha materna do Capitão Mor de Crato e Governador d’Armas do Ceará, José Pereira Filgueiras). O capitão Gonçalinho faleceu no ano de 1824, assassinado, no Sítio Cantagalo, em Missão Velha e não no ano de 1850, durante o ataque do corpo policial provincial de Crato à Fazenda Nascença, comandada pelo chefe político da vila de Milagres, Manoel de Jesus da Conceição Cunha, quando a maioria dos filhos de Gonçalinho morreu, conhecidos como a família Santos.


    Nem todos os irmãos Santos foram desordeiros e bandidos. Manoel Inácio Oliveira Santos e Pedro Inácio Oliveira Santos, não obstante a ignorância, um temperamento violento, não se encaminharam pelos caminhos do bacamarte. Entretanto, Francisco (Tico), João e Cosmo caracterizavam-se por desrespeitadores da lei, chegando a matar os viajantes que se hospedassem em seu sítio com o intuito de roubar os seus pertences.

    "Alta noite, quando reinava completamente o silêncio, os bandidos caíam sobre os hóspedes, matando-os. Os cadáveres eram sepultados ou dentro da própria casa ou em um córrego situado ao lado dela. Entre si, eles dividiam os despojos das vítimas: dinheiro, joias e tudo mais. Conhecemos uma preta de cem anos, que fora escrava deles (Eufrázia, chamava-se ela). Dizia ela: "Ah, seu moço! Naquela casa da Nascença, só havia rastro de entrada". (1)

    "Os Santos, eram um terror armado aos camboeiros descuidados. Assassinos e ladrões, fizeram-se na escola ambulante dos crimes, indo num crescendo assustador, desde a emboscada fria e perversa de que nunca escapou uma vítima, até o prazer requintado dos grupos bandoleiros, que eles foram os primeiros a constituir. Dadas as dificuldades do momento, as faltas de transportes e socorros urgentes, os Santos formaram no centro do seu núcleo de povoação, o mais sério perigo à ordem publica, perturbando-a continuamente. Esse estado de coisas aumentou mais tarde, por ataques intermitentes de bando a bando: Impunha-se uma medida enérgica, capaz de estabelecer a ordem alterada, fazendo voltar ao seio das famílias amedrontadas, a calma e a confiança na ação justiceira do Império, e que, naquele momento da vida difícil da nação, eram tão necessárias". (2)

    A partir desse ponto, temos uma crônica sobre Antônio José de Sousa, contada por duas visões históricas divergentes.

    Fernando Maia Nóbrega em Brejo Santo, Sua História e Sua Gente, págs. 29 e 30 (Imprensa Oficial do Ceará, Brejo Santo, 1981),  aponta que o assassinato de João Santos foi praticado por Antônio José de Sousa, e este, assassinado em Serra do Bom Nome, por vingança dos Santos, através de denuncia passada por um escravo chamado Joaquim Sabino:

    “Antônio José de Sousa, mais conhecido por mestre Antônio, este concunhado de um dos Santos, o João Inácio Oliveira Santos, além de possuir uma vivenda que fornecia mercadorias aos viajantes de Pernambuco, Paraíba e Bahia em busca de Jardim e Crato, mestre Antônio praticava a carpintaria e confeccionava carroças de boi.

    Devido à encomenda de um carro de boi feita por João Santos à mestre Antônio, que posteriormente deu defeito, quebrando o cabeçote do carro, onde tinha previsto João e recebido garantias de mestre Antônio, João, enraivecido, foi imediatamente à procura do concunhado. Ao se deparar com o comerciante, João Santos foi logo o destratando com uma chibata.

    Chegando em casa, mestre Antônio informou o ocorrido à sua mulher, dizendo que fora desmoralizado pelo concunhado. E só lhe restava uma alternativa: matar João Santos. E em um determinado dia, sorrateiramente, numa emboscada, sem que ninguém desconfiasse, disparou seu bacamarte vindo a matar seu concunhado. Depois da prática do homicídio foi para casa, onde se fez de doente até ser avisado da morte de João Santos pelos demais irmãos dele.

    A morte de João abalou o gênio agressivo dos irmãos Santos. Desconhecendo quem teria sido o autor do crime, Cosmo, Tico, Pedro e Manoel saíram matando todo aquele em que airasse qualquer dúvida. Se em determinada pessoa houvesse possibilidade, embora remota, de ter assassinado o irmão, era pretexto de ser morta, sem nunca pensar que o autor teria sido mestre Antônio.

    A narrativa popular informa que foram mortas numa base de vinte pessoas.

    Tempos depois, em uma discussão sobre terras entre Cosmo dos Santos e mestre Antônio, houve uma ameaça de morte partindo de Cosmo contra o Mestre.

    A tradição nos conta que chegando em casa, mestre Antônio, enraivecido, contava o ocorrido para sua esposa com a voz alta e teria dito:- "Ora, eu já matei um deles, para matar o outro, nada custa..."

    Enquanto isso, no oitão da casa encontrava-se um negro escravo de nome Joaquim Sabino, que ao ouvir a conversa, correu ao sítio Nascença para transmitir o que ouvira.

    Certo dia, mestre Antônio dirigia-se a cavalo, com a escrava Eufrázia, com destino a uma farinhada na Serra do Bom Nome, quando foi emboscado por Cosmo (embora alguns informem que foi Pedro). Socorrido pela escrava Eufrásia, mestre Antônio veio a falecer ali mesmo.

    No bornal de mestre Antônio, todo furado das balas, foi exibido, ainda no século passado, por sua filha Maria da Conceição de Jesus, casada com o coronel Basílio Gomes da Silva.”

    Entretanto, Joaquim Amaro, em História do banditismo da família Santos Chicote, págs. 80 e 81 (Tipografia Diário da Manhã, Recife – PE, 1928), afirma que João Santos foi morto por seu irmão Cosmo Santos (e não por mestre Antônio) e que o mesmo articulou a vingança deste, fazendo com que os irmãos Santos assassinassem oito pessoas (e não vinte), incluindo o próprio mestre Antônio:

    “Certa vez os irmãos Cosmo e João Santos tiveram uma desavença a tal ponto que o segundo despejou no primeiro o seu trabuco, ferindo-o gravemente, com uma forte leva de chumbos.

    Restabelecido os ferimentos, Cosmo jurou a morte do irmão, que não soubera pregar-lhe o tiro no coração facínora e ladrão da pior espécie.

    Cônscio da resolução, seu “digno” irmão João Santos tornou-se prevenido. Conhecia a alma negra de Cosmo, também em camaradagem de ofício.

    Após muitas emboscadas infrutíferas, Cosmo chegou, a saber, que João fazia viagens espaçadas, porém regulares, da sua Fazenda Monte ao Sítio Salvaterra. Emboscou-o no lugar denominado Ladeira das Batingas e espreitou um mês a fio o irmão. Quem com ferro fere, com ferro será ferido.

    João caiu na tocaia de Cosmo varado por uma bala deste, morrendo instantaneamente.

    Cosmo fez ver ao pai e aos irmãos que o João havia sido assassinado por oito pessoas cujos nomes foram por ele declinados. Eram todos desafetos da família Santos.

    Mandaram chamar à Nascença a Manoel e Pedro Felipe, ambos honestos agricultores na Serra de São Felipe.

    De boa fé vieram, sendo mortos ao transporem o limiar da casa dos Santos pelos assassinos que estavam de espera.

    Pouco dias depois, mataram na Serra do Bom Nome o agricultor Antônio de Souza (mestre Antônio), sogro do coronel Basílio Gomes.

    Fizeram-lhe fogo e derrubaram do cavalo abaixo banhado em sangue. Como ainda desse sinal de vida, Pedro Santos (e não Cosmo) sangrou-o, enterrando-lhe a faca até o cabo.

    Voltando da empresa sinistra, Pedro Santos conduzia a faca rubra de sangue. Ao passar por uma casa de uma comadre, gritou-lhe: “Água, comadre, para lavar esta faca que acabei de sangrar um porco”.

    A quarta vítima foi Antônio Pereira, abastado agricultor.

    Acabara de cear. Levantou-se, pôs as mãos para rezar a ação de graças.

    Desejando-lhe então as balas dos trabucos que o prostrou inerme.

    Mais quatro vítimas e ficou saciada a sede dos bandidos, enquanto Cosmo permanecia a bom resguardo auxiliando nessas empresas sinistras.”

    Pois bem, pouco tempo depois, um dos Santos foi à vila de Milagres. Prenderam-no. Administrava a Vila o preposto imperial Manoel de Jesus da Conceição Cunha. No dia seguinte ao da prisão, Manoel de Jesus recebeu um ultimato violento dos Santos para soltar o preso sob a pena de fazerem eles, à mão armada. Enquanto andava o mensageiro, os Santos tomavam uma resolução. Julgaram que aquele pedido lhe diminuísse. Jamais haviam recebido afronta sem represália da parte deles. Esta não devia passar sem desforra. Iriam a Milagres: arrebentariam as portas da cadeia e retirariam o camarada fiel. Assim pensaram e assim fizeram.

    Reuniram-se todos e partiram. Chegando na vila de Milagres a galope, arrombaram logo a porta da cadeia e dela tiraram o preso criminoso.

    Depois fizeram arruaças com o intento de provocar Manoel de Jesus e matá-lo então. Frustado o plano, voltaram para a Nascença.

    Manoel de Jesus não resistira porque não dispunha, naquele momento inesperado, de homens armados suficientes. A prudência aconselhara-o a sofrer afronta sem um queixume, para evitar perdas de vidas sem resultado prático.

    Tomou, porém, as providências ao seu alcance e que as circunstancias permitiam e exigiam. Comunicou tudo para a Capital da Província: a existência dos bandidos, todos os seus feitos, bem como a afronta que sofrera.

    Em resposta, ordenou-lhe o Presidente da Província que requisitasse forte contingente do Corpo Policial da Província em Crato e destruísse o antro do Brejo.

    Manoel de Jesus deu mãos à empresa, ocultante, temendo malogro, porque se os Santos tivessem qualquer sinal denunciador, não descansariam enquanto não tirassem a vida ao seu inimigo.

    Tudo aprestado, formado o plano de ataque, estabelecido o itinerário, a tropa partiu escalando por Mauriti e Poço, chegando ao Brejo pelo lado sul, depois de descrever quase um semicírculo, medida tomada para evitar qualquer aviso prévio aos bandidos de algum interessado que visse a tropa rumar diretamente para o Brejo.

    Os bandidos foram apanhados de surpresa, na maior despreocupação nesta calma que antecipa a tempestade e no ledo e quedo de que ninguém existia grande como eles, engano que os granadeiros imperiais não deixariam durar muito nas plagas de Brejo dos Santos. Fez o ataque com rapidez do relâmpago.

    Não obstante o imprevisto deste ataque, os bandidos responderam, de começo, com coragem ao fogo inicial. Por fim, julgando inútil a resistência, procuraram na fuga a salvação.

    Destruído, deste modo, o antro da Nascença, os brejo-santenses respiraram liberdade.

Açude da Nascença quando ainda recebia água. 

    A fazenda Nascença pertenceu aos Santos até 1850, data em que foi adquirida pelo coronel Simplício Pereira da Silva, célebre mandatário do Pajeú.  Foi revolucionário e tio do Barão do Pajeú. Casou duas vezes. Chegou ao título de Coronel da Guarda Nacional e foi o maior desbravador daquela mata virgem. Tornou-se uma lenda em sua época, os seus feitos são extensos, participou ativamente no sertão de várias convulsões políticas que se sucederam após a abdicação de D. Pedro I. Nascido em 1784, na fazenda Serra Talhada – PE, faleceu em 10 de janeiro de 1859, na fazenda Baixio Grande, em Jardim – CE.

    Depois de Simplício, a Nascença passou, respectivamente, às mãos de João Alves Biró, Manuel Inácio Medeiros, Antônio Leite Rabelo da Cunha, Raimundo Tavares de Souza, Basílio Gomes da Silva e José Jacinto de Araújo.

    Quando o coronel Basílio adquiriu as terras da Nascença, ampliou o antigo casarão dos "Santos do Brejo", construindo um edifício para residência e outro para um engenho. Em todas as escavações daquelas construções, encontraram uma quantidade copiosa de ossos humanos: crânios, vértebras, costelas, tíbias, troncos etc. Até uma escavação feita dentro da casa velha, para fincar uma cantareira, acharam-se ossos. A profundidade em que se achavam aqueles ossos, não media mais que um metro geralmente. 

    Segundo as crônicas e tradições, os Santos são conhecidos como os segundos donatários da Nascença. Daqui saiu a primeira denominação oficial “Brejo dos Santos”, com a criação do Distrito de Paz em 14.11.1862, Freguesia em 25.07.1876 e Vila em 26.08.1890. Em 20.12.1938 a denominação do município foi alterado definitivamente para Brejo Santo.

   Sobre a atual denominação de Brejo Santo, Otacílio Anselmo trás a seguinte nota:

    “A denominação atual do município de Brejo Santo é inadequada, em originalidade atentatória à tradição secular da terra. Brejo Santo é uma designação inexpressiva, incorreta e sem fundamento, pois ali jamais houve santo. Padre Antônio Gomes de Araújo, em palestra com o autor, emitiu o seguinte juízo sobre o assunto: “Opino, pessoalmente que a denominação “dos Santos” e “Santo” não se justificam. A primeira funda-se: a) no número – circunstância psicologicamente impressionante – dos irmãos Santos; b) na truculência dos mesmos, inédita na crônica do crime de Brejo e só igualaria à de seu descendente Chico Chicote. A atuação dos irmãos Inácio Oliveira Santos, tomados no conjunto, foi negativa no processo da evolução de Brejo Santo”. (SILVA,1956).

O Brejo é Isso!

Bruno Yacub Sampaio Cabral


Artigo do autor inserida na primeira edição da revista O BREJO, agosto de 2019.


Notas:
(1) Abelardo F. Montenegro, História do Cangaceirismo no Ceará.
(2) Id. , ob. cit.


Fonte bibliográfica:

- AMARO, Joaquim, História do Banditismo da Família Santos Chicote, Tipografia Diário da Manhã, Recife - PE, 1928;
- MONTENEGRO, Abelardo Fernando, História do Cangaceirismo no Ceará, Expressão Gráfica Editora, 2011;
- NÓBREGA, Fernando Maia da, Brejo Santo, Sua história e sua gente, De Brejo da Barbosa a Brejo Santo, Breve sinopse do Município, Imprensa Oficial do Ceará, Brejo Santo - CE, 1981;
- SILVA, Otacílio Anselmo e, Esboço Histórico do Município de Brejo Santo, em revista Itaytera N° 2, Instituto Cultural do Cariri, Crato - CE, 1956;
- www.genealogiapernambucana.com.br;
- www.cariricangaco.blogspot.com.