A Munganga Promoção Cultural

A MUNGANGA PROMOÇÃO CULTURAL: O Brejo é Isso!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

EI, VOCÊ, DO CARIRI, QUANTOS POR CENTO DE BAIANO EXISTE EM VOCÊ? 70 ANOS DA PUBLICAÇÃO DO CONCURSO DA BAHIA NA FORMAÇÃO DA GENS CARIRIENSE


A premiada tese do historiador brejo-santense, Padre Antônio Gomes de Araújo, completa 70 anos. Apresentada no 1º Congresso de História da Bahia, em 1949, a obra foi publicada em 1950. Nela, o autor defende que os baianos foram os primeiros homens "civilizados" a ocuparem os domínios do Cariri, exterminando índios e criando gado. 
Isso explica muito da nossa cultura diferenciada, da nossa culinária carregada de temperos, do nosso sotaque e de um certo axé que todo caririense possui.
Destaquei trechos importantes do texto, ipsis litteris, para que se permitam viajar na linguagem medida e certa de padre Gomes, e tenham uma ideia sobre os objetivos do estudo. Boa leitura:

“Movidos pela necessidade de reação contra a indiada agressora e pela perspectiva fascinante de metais e gemas, os pioneiros partiram dos arredores da cidade de Salvador, tomando depois afeição pela atividade dos currais, dominada a cortina de arcos e tangapemas e diluída a ilusão das minas.”

“A zona é percorrida por rios secos e serranias de altura medíocre, de platôs e faldas férteis, abrindo-se em depressões vulgarmente conhecidas por boqueirões. Florestas em serras de altura de mil metros, mais ou menos, e às margens de rios, água em lagoas, olhos d’água e cacimbas, barreiros salgados, forragens substanciosas, campos mimosos e agrestes ao lado de caatingas, carrascais e ilhas de cactos, eis outra face da fisionomia natural da terra, tudo conforme acentuou Capistrano de Abreu.”

“Baianos devassadores de sertões foram os primeiros na ordem cronológica a reconhecer o Cariri, subindo o Salgado e o Riacho dos Porcos, e descente este, vindos do Terra Nova e pela Chapada do Araripe, deixando atrás o riacho da Brígida.”

“O fato deve ter ocorrido a partir de 1660. O certo é, ao fechar-se o século XVII e no começo do ano seguinte, colonos situados na zona de Exu Velho, hoje Exu, encosta pernambucana da serra do Araripe, comunicavam com moradores estabelecidos neste vale do Cariri.”


“Findo o século XVII, devassado o território e reduzidos os índios à disciplina social para a nova era iniciada, tornou-se a criação de gado a principal atividade do interior cearense, pertencendo as fazendas em geral aos baianos, os quais passaram a gerí-las pessoalmente, depois de havê-las administrado de longe, por intermédio de prepostos, para tanto especialmente contratados à razão de um bezerro de lucro sobre quatro nascidos.”

Hérlon Fernandes Gomes

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DE BREJO SANTO: VIDA E MORTE DO CANGACEIRO RAIMUNDO MORAIS

Especial 129 anos de Brejo Santo - CE
26 de agosto de 1890
26 de agosto de 2019

Parabéns, Terra da Pedra do Urubu!



    "Cangaceiro era aquele que vivia no cangaço e dele sobrevivia, muitas vezes pela falta de condições de trabalho, de instrução ou ainda pelo prazer da vida aventureira." (Sousa Neto).


    Alguns pesquisadores defendem uma classificação analítica acerca dos diferentes motivos que levavam a entrada de um indivíduo para um bando cangaceiro. 


    As histórias que envolvem o cangaceiro Mundinho, nos mostra um típico exemplo de CANGAÇO - MEIO DE VIDA: "Era o que ocorria com maior frequência. Esse tipo de banditismo não objetivava a política partidária, como também não existiam ligações sentimentalistas. A finalidade era, tão somente, a sobrevivência com o ganho pessoal, notoriedade e o poder. Era profissão." (Sousa Neto)


    "Que a história cangaceira sirva sempre como base para estudos e pesquisas e nunca como exemplo a ser seguido". (Geraldo Antônio de Souza Júnior).


Capa da edição n° 48, da revista Itaytera, 2019.

Texto do autor compondo a edição n° 48, da revista Itaytera, 2019.
    Em agosto de 1928, entre os cangaceiros que se encontravam na cadeia pública da capital cearense, presos pela polícia, depois que Mozart Catunda Gondim assumiu a direção da Secretaria da Polícia e Segurança Pública, figurava Raimundo Maximiano de Morais, vulgo Mundinho, que contava 28 anos de idade, de cor morena, baixo, natural do sítio Oitizeiro, na vila de Brejo dos Santos (atual Brejo Santo, Ceará). Gabava-se Mundinho de ter vivido doze anos na espingarda no meio dos mais temíveis e importantes companheiros de luta, a exemplo de Sinhô Pereira (Sebastião Pereira da Silva), Luiz Padre ou Lulu Padre (Luiz Pereira da Silva Jacobina), Lampião e seus irmãos, Antônio e Livino Ferreira e de ter relação com importantes figurões da política cearense, paraibana e pernambucana, como o major Zé Inácio do Barro (José Inácio de Sousa), de Milagres; o coronel Zé Pereira de Princesa (José Pereira de Lima), de Princesa Isabel; Cel. Chico Chicote (Francisco Pereira de Lucena), de Brejo Santo; Yoyô Maroto (Crispim Pereira de Araújo), de São José do Belmonte; dentre outros.

    Viveu em Brejo dos Santos até 1914, em companhia de seu pai, José Maximiano de Morais, a quem ajudava numa loja de que o mesmo era proprietário. No fim daquele ano, quando contava apenas 14 anos de idade, abandonou a casa do seu pai a fim de ganhar a vida sozinho, passando a trabalhar para o coronel Chico Chicote (Francisco Pereira de Lucena) homem influente, que poucos dias depois o convidou a tomar parte do assalto armado a Porteiras, Ceará.

    Em janeiro de 1915, coligavam-se contra o coronel Raimundo Cardoso dos Santos, de Porteiras, Mousinho Cardoso (Pedro Aristides Cardoso dos Santos, que em 1926 viria a se tornar tenente-coronel do Batalhão Patriótico do Juazeiro e um dos braços-direito do general de brigada do Exército Brasileiro e deputado federal, Floro Bartolomeu da Costa), Chico Chicote, o major Zé Inácio do Barro e o Cel. Domingos Furtado, chefes influentes de Brejo dos Santos e Milagres. Os coligados mandaram assaltar, à mão armada, a propriedade de Raimundo Cardoso e, a seguir, expediram telegramas à imprensa de Fortaleza e do Rio de Janeiro e ao Presidente da República, clamando por providencias, já que não confiavam no Governo do Estado do Ceará.

    Tomadas essas medidas preliminares, finalmente, no dia 13 de junho de 1915, os colegiados à frente de cerca de 300 homens, atacavam a vila de Porteiras, defendida pelo tenente Artur Inácio, com uma força estadual composta de 40 praças e 02 oficiais. Após 11 horas de fogo, seu último reduto foi o cemitério de onde se retraiu com o chefe deposto. Esgotadas as munições, a força estadual abandonava a Vila, que ficava entregue à sanha dos vencedores.

    Com extraordinária satisfação, Mundinho aceitou o convite e seguiu no meio de numeroso grupo para o ataque àquela Vila, que caiu em poder dos colegiados. Durante a luta, Mundinho portou-se com tal valentia, que passou a ser alvo de elogios do chefe do bando e dos seus companheiros, o que encheu de orgulho e o animou a prosseguir na vida do cangaço.

    Pouco depois dessa façanha, quando se encontrava no sitio Guaribas (em Porteiras), de propriedade do coronel Chico Chicote, tomou, por duas vezes, parte na defesa daquela propriedade, atacada por forças do governo.

    Serenadas as coisas em Guaribas, foram dispensados os serviços de todos os cabras, tendo Mundinho seguido com diversos deles com destino a Brejo dos Santos, onde foram cercados por uma numerosa força policial, que conseguiu capturar um dos bandoleiros. Mundinho conseguiu não ser apanhado e fugiu para a vila de São José de Piranhas, Paraíba, onde, não sendo conhecido, pôde empregar-se como lavrador no sítio Picadas, de propriedade do major Andrade. Passou seis meses trabalhando naquele sítio, mas tinha saudade da vida do cangaço, e, por isso, voltou a Brejo dos Santos, sendo, logo após a sua chegada ali, cercado por uma força policial.  Graças ao auxilio que lhe prestou um irmão seu, pôde fugir, indo ter ao sítio Barro, de propriedade do major Zé Inácio, homem rico, de Milagres, ao qual, certo dia, lhe entregou um rifle e farta munição para, em companhia de outros “rapazes”, ir fazer um serviço.
    Tratava-se nada mais, nada menos, de liquidar João Flandeiro (João Jericó Boaventura), inimigo do major Zé Inácio do Barro.  O grupo era composto pelo próprio major Zé Inácio, Sinhô Pereira, Tiburtino Inácio de Sousa, (vulgo Gavião, filho do major Zé Inácio), José Nogueira Deodato (vulgo Rouxinol), Raimundo Agustinho, Raimundo Tabaqueiro, Raimundo Patrício, Patrício de tal (filho de João Raimundo), Cornélio (vulgo João Caixão), Sátiro (vulgo Meu Primo), Manuel Vaqueiro, Manuel Santana, Firmino Miranda, Manuel Benedito, Antônio Dino (vulgo Pilão), José de Genoveva, Ulisses Liberato, Ponto Fino, José Pedro e o próprio Mundinho. Por volta das 05 horas da manhã, o grupo cercou e atacou o sítio Pitombeiras, distante uns três quilômetros do pequeno povoado de Barro, propriedade e residência de João Flandeiro, aonde também se encontravam sua esposa, dona Maria Luiz e cinco filhas.  Após muitas horas de violento tiroteio, a família do atacado, obteve permissão para sair de casa.
    O combate continuou por mais algum tempo e os atacantes atearam fogo em um paiol de milho, se estendendo também para a casa, forçando a saída de João Flandeiro para o terraço que, mesmo sem munição, o atacado não se intimidou e partiu para cima de seus algozes de punhal em punho, onde enfrentou a artilharia dos “rapazes” do “Senhor do Barro”.

    Dois meses mais tarde, fazendo parte de um grupo de 12 homens, em que figuravam Luiz Padre, Sinhô Pereira, Mourão, Gitirana, José Dedé (vulgo Baliza), João Dedé (vulgo Criança), Vicente Marinho, José Marinho e Cambirimba, dirigiu-se Mundinho para a região do Pajeú, em Pernambuco, onde morava uma filha do major Zé Inácio do Barro.  Ali, no povoado Queixadas (atual Mirandiba), mataram, depois de sangrenta luta, Antônio da Umburana, que havia assassinado Manoel Pereira da Silva Filho (Né Dadú ou Né Pereira), irmão de Sinhô Pereira. Cometido esse crime e sendo perseguido pela polícia pernambucana, o grupo voltou para o sítio Barro, fazendo, em caminho, vários saques.

    Depois de alguns meses de repouso, em janeiro de 1922, Mundinho entrou num grupo de 45 homens, organizado pelo major Zé Inácio do Barro e do qual fazia parte Lampião e seus irmãos, para atacar o padre José Furtado de Lacerda, no lugar Coité (hoje distrito de Mauriti), a seis quilômetros do lugar citado e cinco léguas de Milagres.

    Este singular episódio da história do cangaço obteve pela primeira vez o envolvimento da figura de um sacerdote católico, o qual, para defender a própria vida, teve de trocar o breviário pelo “44” e lutar com a mesma combatividade de qualquer leigo do sertão.

    Pelas 09 horas da manhã de 20 de janeiro de 1922, o numeroso bando, que se encontrava bem armado e municiado, atacou o Coité, ocupando, no primeiro embate, três casas. Ao ser atacado, o Sacerdote estava acompanhado apenas de Luís Lacerda. Pouco depois, Pedro Sampaio de Lacerda, Manoel Lacerda (Neco) e o vaqueiro Mané Gato romperam o cerco e, sob um chuveiro de balas, entraram na casa e passaram a resistir ao lado do valente clérigo, que durou seis horas. Pedro Augusto de Lacerda, subdelegado de Mauriti e sobrinho do padre Lacerda, ao ter conhecimento do assalto dos bandidos, partiu imediatamente com dez praças e alguns paisanos em socorro do tio. Esse fato foi decisivo para o recuo dos assaltantes, indo até a fazenda Araticum, do coronel André Brasiliense do Couto Cartaxo, também em Mauriti, o qual, sabendo da insegurança na região, tinha se transferido dias antes da fazenda Araticum para Mauriti, fixando-se numa de suas casas no centro da localidade. A cabroeira de Sinhô Pereira passou três dias na mencionada fazenda, destruindo móveis e objetos de estimação, abatendo animais domésticos e violando paióis.  E mais: em sua fúria criminosa, os cangaceiros chegaram até a rasgar retratos e degolar imagens, sacrilégio de que foi autor o cabra Pitombeira. E não ocorreram maiores depredações, inclusive o abate de uma novilha, devido à interferência de Gavião, junto ao chefe do bando.

    De acordo com as recomendações de Zé Inácio, o grupo, ao retirar-se de Coité, deveria atacar Milagres, mas achando-se essa localidade bem guarnecida, Lampião tentou atrair a atenção da força policial para fora daquele Município, para o que fingiu atacar a fazenda Queimadas, próximo a Mauriti.

    O grupo de cangaceiros passou distante de Mauriti cerca de um quilometro, no local Apanha-Peixe, e foi estacionar em casa do coronel Antônio Martins, nas Queimadas, distante meia-légua da Vila.

    No momento em que efetuava o assalto a Queimadas, o bando foi surpreendido por uma força de 15 praças, vinda de Milagres. O sargento Antônio Pereira Lima, vulgo Antônio Gouveia, com bravura e destemor, escolheu vinte homens do pequeno destacamento para ir atacar os bandidos. No momento da partida, cinco soldados esmoreceram e não tiveram coragem de marchar para a luta.

    No decorrer do combate, os cangaceiros, mais numerosos e sagazes, estavam quase a envolver a polícia. Advertido do perigo, o sargento Gouveia envia uma mensagem a seu colega sargento Jonas, em Mauriti, solicitando socorro. O pedido foi lealmente atendido. A retaguarda do sargento Jonas forçou os bandoleiros recuarem para a casa da fazenda.

    No último ataque do sargento Gouveia, a força policial bate em retirada para Mauriti, com três soldados feridos e a perda de nove fuzis, levados pelos cangaceiros. O grupo decidiu retirar-se em direção à vila de Conceição, Paraíba. Durante a luta, morreram dois soldados, um deles apelidado de Papagaio e os cangaceiros perderam o temido cabra Pitombeira. Acentue-se que o grupo do qual fazia parte Lampião, teve ainda um cabra gravemente baleado, chamado Lavandeira, que foi levado de rede pelos seus companheiros para a casa do velho Batista dos Valões, tio de Sinhô Pereira e de Luiz Padre. O cangaceiro Pitombeira foi sepultado em cima da serra da Canabrava.

    De Conceição, os bandoleiros dirigiram-se para o povoado Cristovão, município de São José do Belmonte, em Pernambuco, onde foram homiziados por Yoyô Maroto, que lhes forneceu munição.

    Como é sabido, antes do Fogo do Coité, o major Zé Inácio do Barro havia patrocinado tanto o assalto ao sítio Nazaré, em Milagres, propriedade de dona Praxedes (Maria Furtado de Lacerda), viúva do chefe político e ex-intendente de Milagres, coronel Domingos Leite Furtado, que por volta das 07 horas da manhã do dia 20 de janeiro de 1919, foi invadida pelo grupo formado por Sinhô Pereira, Mundinho, Gavião, Rouxinol, Baliza, Criança, Raimundo Patrício, Antônio Bandeira, Antônio Carneiro e Luiz Padre como também, pouco tempo depois, no mesmo ano de 1919, o assalto de Luiz Padre ao sítio Nascença, em Brejo dos Santos, de propriedade do tenente-coronel da Guarda Nacional Basílio Gomes da Silva (no ato do assalto, além do Coronel, estava também José Nicodemos da Silva Basílio, um de seus filhos), e que distava quinhentos metros da sede da Vila, onde estacionava uma força de 100 praças sob o comando do capitão José dos Santos Carneiro. A força policial só chegou ao teatro dos acontecimentos duas horas depois, não sendo avisados no momento em que agiam os bandidos.

    Os cangaceiros passaram a noite anterior comendo, bebendo e jogando na localidade Batoque, a 12 quilômetros do referido agrupamento militar. No ato do ataque ao casarão do então ex-chefe político e ex-intendente de Brejo dos Santos, os saqueadores levaram dinheiro, cortes de seda, joias, escrituras, umas das fardas da guarda nacional do Coronel, com seus botões de ouro, a espada de prata com o cabo cravado de diamantes, como também destruíram a Carta Patente de Tenente-Coronel, assinada pelo próprio Presidente da República, Floriano Peixoto. 

    Durante o assalto, Mundinho foi reconhecido e em determinado momento em que o anel de ouro de 18 quilates não saia da mão do coronel Basílio, Mundinho gritou: - Arranjem um facão para cortar a mão do Coroné! Alguns instantes silenciaram. O coronel Basílio, num tom pacífico, respondeu ao bandido: - Que adianta cortar minha mão Mundinho, se num futuro bem próximo ela irá te servir? O bandoleiro desistiu do intento e naquele instante, coronel Basílio profetizou corretamente o futuro do cangaceiro.

    Essa ação de Luiz Padre foi a última aqui no nordeste. Em seguida, o cangaceiro foi chamado a Juazeiro do Norte pelo Padre Cícero, ato contínuo fugiu para a região central do país.


Casarão do Cel. Basílio assaltado a mando do major Zé Inácio do Barro, em 1919.

    Após esses acontecimentos, voltaram todos ao Barro, de Zé Inácio, que mostrou a Mundinho um telegrama que lhe fora enviado pelo deputado federal Floro Bartolomeu, aconselhando-o a abandonar a vida de cangaço, visto como pretendia fazê-lo Deputado Estadual. Em virtude deste conselho, José Inácio resolveu dispensar o grupo, mandando-o para o Pajeú das Flores (atual Flores, Pernambuco).

    Os bandoleiros não quiseram ir para aquela localidade pernambucana, e rumaram para a fazenda Patos (em Princesa Isabel, Paraíba) e dali a Vila Bela (atual Serra Talhada, Pernambuco), onde se acoitaram no sitio Abóboras, de propriedade do coronel Marçal Diniz.  Numa dessas viagens, o grupo dividiu-se e seis homens dirigiram-se a localidade Olho D’água, tendo um encontro com a força cearense comandada pelo capitão José de Santos Carneiro. Os seis cangaceiros perderam as montarias e refugiaram-se na fazenda Patos, onde se encontrava Lampião.

    Desse encontro nasceu o receio de que a força cearense atacasse a fazenda Patos, razão porque Marcolino Diniz, que protegia os bandoleiros, pediu auxílio do coronel Zé Pereira, de Princesa Isabel, que lhe remeteu mais de 100 homens armados. Enquanto enviava esse reforço de cabras, o coronel Zé Pereira de Princesa foi ao encontro da força cearense, avistando-se com a mesma nas proximidades da fazenda Patos. O coronel Zé Pereira procurou convencer ao capitão Carneiro que não havia cangaceiros naquele Município, mas o aludido oficial, com cerca de 80 praças, foi até a fazenda Patos, não encontrando, ali, nenhum bandoleiro, pois, de acordo com os planos do coronel Zé Pereira, foram escondidos todos os “rapazes”.  Isso foi uma felicidade para a força cearense, porquanto estava combinado que, se tentasse a mesma efetuar qualquer prisão, seria repelida pelos cangaceiros, em número, então, superior a 200. No dia imediato, o capitão Carneiro se retirou da fazenda Patos. Lampião, à frente de 30 homens, dirigiu-se para o Pajeú das Flores, não sendo acompanhado de Mundinho que, com dois bandoleiros, voltou ao Ceará.

    Durante dois anos, Mundinho viveu como bodegueiro, mas, vez por outra, realizava, “expedições” de cangaço por conta própria.  Numa dessas “expedições”, chefiou um grupo composto de Antônio Padeiro, Lavandeira e dos Mateus, com os quais atacou José Amaro, no município de Aurora, saqueando totalmente a casa deste. Esta façanha custou-lhe nova perseguição da polícia, o que determinou sua fuga para o Pajeú, onde encontrou a proteção de Yoyô Maroto. Este, poucos meses depois, recebia Lampião em sua fazenda, passando Mundinho a “agir”, juntamente com o temível chefe bandoleiro.

    Lampião retirou-se abandonando Mundinho, pois este não lhe merecia confiança. Então junto a Lavandeira, Mundinho passou a roubar entre as regiões de Cristóvão, em São José do Belmonte e do Poço, em Brejo dos Santos.  Depois de várias peripécias, Mundinho foi acusado da morte de Vicente Quilarino, pelo que teve de fugir, vindo para a localidade Gameleira do Pau ou Gameleira de São Sebastião, região da Serra dos Matos, em Missão Velha, onde foi contratado para, em companhia do bando dos cangaceiros Marcelinos, perseguirem Horácio Novaes ou Horácio Grande (Horácio Cavalcanti de Albuquerque), que, mesmo envolvido em crimes na região de Floresta, Pernambuco, veio se esconder na fazenda Agrestim, e foi nomeado, em 1919, Delegado da vila de Porteiras, com a ajuda dos irmãos Afonso Gomes Novaes e Urias Novaes Filho, filhos de José Gomes de Novaes (Zé Panta) e de Umbelina Gomes de Sá, ricos fazendeiros e comerciantes de prestígio do lugar. Em pouco tempo tornou-se inimigo de pessoas influentes da região, como os coronéis Chico Chicote e Franco Pinheiro (Franklin Tavares Pinheiro), este último, então, Intendente de Porteiras, além do coronel Antônio Joaquim de Santana, de Missão Velha. Por volta de 1926, Horácio Novaes requisitou 04 cabras de Lampião e cercou, certamente para tentar roubar, a casa grande do sítio Saco, do coronel Né Rosendo (Manoel Tavares Rosendo), em Porteiras, mas não obteve êxito.

    Mundinho demorou em Gameleira do Pau, mas, ali, se viu perseguido por um dos proprietários da localidade, Júlio Pereira (alfaiate em Juazeiro, casado com uma sobrinha do coronel Antônio Joaquim de Santana e notório fornecedor de munição ao bando de Lampião), por não querer trabalhar com ele em furtos de gado. Júlio Pereira, com diversos homens, o atacou no dia 12 de maio de 1926, mas não conseguiu matá-lo.

    Mundinho foi para a localidade Olho D’água dos Santos, em Brejo dos Santos, onde pediu a proteção do coronel Joaquim Inácio de Lucena, conhecido por coronel Quinco Chicote, Intendente Municipal, que prometeu acoitá-lo, dando-lhe uma casa. Depois de poucos dias, em maio de 1926, o mesmo coronel Quinco Chicote mandou mata-lo por um grupo de 12 civis, que faziam parte João Gomes (João Gomes de Lucena), sobrinho de Quinco Chicote e do coronel Manoel Inácio de Lucena (coronel Manoel Chicote), então Intendente de Milagres, Antônio e Pedro Gomes Granjeiro, Manoel Salgueiro e Ferrugem.  Mundinho entrincheirou-se em casa e resistiu ao ataque desde 10 horas da noite até 08 e meia da manhã seguinte, quando recebeu duas balas na perna direita.

    Além desses ferimentos, a sua munição acabou-se, não podendo mais resistir. O primeiro a entrar em sua casa foi o Manoel Salgueiro, a quem Mundinho comunicou que estava ferido.  

    Minutos depois, penetravam na casa mais três homens que queriam matar Mundinho, que apelou para Manoel Salgueiro, mostrando que era covardia assassinar um homem ferido e sem armas. Manoel Salgueiro ficou ao lado de Mundinho, não consentido que lhe tirassem a vida. Ferrugem e os outros insistiram em dar cabo do ferido, mas Manoel Salgueiro botou bala na agulha do rifle e tomou posição, disposto a defender a vida do homem, que tinha ido matar.  Ferrugem e os outros homens não quiseram entrar em luta com Manoel Salgueiro, retirando-se da casa resmungando.

    O malfeitor passou dez horas sem ser socorrido, sendo sabedor da ocorrência, o coronel Basílio mandou busca-lo. Conduzido à Vila, onde foi alvo da curiosidade dos antigos companheiros de infância, o saqueador foi submetido a uma cirurgia, no Casarão dos Viana Arrais, efetuada pelo médico Caminha e o “velho Lino” (vaqueiro do coronel Basílio e prático em primeiros socorros) e auxiliado por Pedro Celião de Moura. Sua perna direita foi amputada na altura da coxa, tendo sido usados na cirurgia, instrumentos rudes, como agulha de costurar sacas, facas comuns e um serrote. No Casarão, Mundinho é muito bem recebido e tratado por dona Balbina Viana Arrais, só saindo de lá com o “côto” sarado por completo. Grato, ele dizia a dona Balbina: - Me dê uma arma, pois se vier um cangaceiro, eu defendo a casa. Respondia-lhe mansamente, dona Balbina: - Obrigada, mas minha casa defendo com o rosário.

    Após aquele martírio e humilhado como se achava, Mundinho solicitou um confessor. Padre Raimundo Nonato Pita ouviu-lhe por mais de uma hora e assistiu missa, dizendo ele que há 14 anos não entrava em uma Igreja. Finalmente o bandido escapou e, sem condições necessárias, deixou a vida mundana e passou a esmolar. Diariamente, o coronel Basílio mandava deixar sua alimentação e quando necessário alguns utensílios. Antes do coronel Basílio falecer, já enfermo, reuniu sua família e pediu para que não abandonassem aquele ex-bandido errante.


Ilustração de Raimundo Morais.

    Passados alguns meses, seguindo para Missão Velha, encontrou a proteção do coronel Isaías Arruda, que lhe deu cama e mesa.  Passou a viver tranquilamente em Missão Velha, mas, em agosto de 1928, quando menos esperava, foi preso e removido para a Capital.

    Já na Capital, ao ceder uma entrevista ao jornal “O Ceará” Mundinho fez um pedido, afirmando ter muitos inimigos na Paraíba que desejavam sua remoção para aquele Estado, a fim de assassiná-lo, e por esse motivo queria uma intercessão junto ao Secretário da Polícia e Segurança Pública a fim de conservá-lo preso no Ceará, onde teria de responder por diversos crimes, inclusive a morte de João Flandeiro, em Milagres, a mandado do major Zé Inácio do Barro, e a morte de dois soldados da polícia cearense.

    Antes de morrer, Mundinho concordou em narrar episódios de sua vida pregressa. Em dado momento, quando se referia ao seu batismo de fogo no grupo de Sinhô Pereira (combate da Carnaúba, no Pajeú) o então ex-cangaceiro expandiu-se num pranto convulsivo sem mais poder pronunciar uma só palavra.

    Para sobreviver, tornou-se engraxate. Com uma perna amputada, ficava muitas vezes sentado na sombra do famoso “Pé de Barriguda”, em frente ao Chalé do coronel Manoel Leite, ou na entrada da Rua da Taboqueira. Virou motivo de chacota por parte dos conterrâneos, principalmente das crianças, apelidando-o de “Perna Cotó”, “Perna Pôde” ou "Raimundo Coxoló". Mas todos sabiam de sua vida no cangaço.

    O referido bandoleiro era natural da comunidade de Oitizeiro e irmão de Xixiu e Róseo Morais, este último, acusado de matar Delmiro Gouveia, ao lado de Jacaré, e este, irmão Antônio Moreno.

    De resto, sozinho e alcoólatra inveterado, Mundinho, veio a falecer na mais negra miséria em 1955, em seu torrão natal.

    O Brejo é Isso!

    Bruno Yacub Sampaio Cabral



Referência bibliografia:

• Edição do jornal “O Ceará”, 1° de setembro de 1928;

• Edição do jornal “O Jornal” (RJ), 04 de julho de 1926;
• SILVA, Otacílio Anselmo, Esboço Histórico do Município de Brejo Santo, em Itaytera, N° 2, 1956;
• SILVA, Otacílio Anselmo, Subsídios para a História de Mauriti, em Itaytera, N° 12, 1968;
• SILVA, Otacílio Anselmo, Novos Subsídios para a História de Mauriti, em Itaytera, Instituto Cultural do Cariri, N° 12, 1968;
• MONTENEGRO, Abelardo Fernando, Fanáticos e Cangaceiros, Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, edição 2011;
• AMIC - CANAO, Balbina Lídia Viana Arrais - A Mestra, Brejo Santo, Ceará, 2007;
• CAVALCANTE, Francisco Mirancleide Basílio e LUCENA, Francisco Leite de, História Político-Social Brejo-Santense, Brejo Santo, 2008;
• BONFIM, Luiz Ruben F. de A, Lampião em 1926, editora Oxente, Paulo Afonso – BA, 2017;
• CABRAL, Bruno Yacub Sampaio, Subsídios para a História de Brejo Santo, Vida e Morte do cangaceiro Raimundo Maximiano de Morais, vulgo Mundinho, em Itaytera, N° 48, 2019;
• SOUSA, Severino Neto de (Sousa Neto), José Inácio do Barro e o Cangaço, Barro, Ceará, 2011;
• Entrevista com José Araújo Celião (Zé Tirí), em 28.02.2019, Brejo Santo, Ceará;
• Entrevista com Francisco Gomes Feijó (Chico de Sinésio), em 09.03.2019, Brejo Santo, Ceará;
• Entrevista com Francisco Assis Alves (Valmir Alves), em 27.07.2019, Brejo Santo, Ceará.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

A LAGOA DA MALHADA FUNDA

Aspecto atual da Lagoa da Malhada Funda.
No seu centro está localizado o marco
dos limites entre os
municípios de Brejo Santo, Missão Velha e Porteiras.




Ao falarmos sobre as passagens de Lampião pelo Cariri cearense entre 1922 e 1928, quando este e seu bando iriam se refregar e reabastecer de armas e munições, cerca de duas a três vezes por ano, na Serra do Mato, em Missão Velha, região de domínio do Cel. Santana, é comum a citação da passagem destes bandoleiros em pontos estratégicos no percurso, onde poderiam descansar e dessedentar seus animais. Estes lugares onde se acumulava água da chuva, chamados de “barreiros” ou “aguadas” eram conhecidos no platô da Serra do Araripe, com a sua mata virgem, sem divisões de propriedades e suas cercas, onde o gado bravo criado solto mitigava sua sede, como era o caso do barreiro do lugar Baixa das Cacimbas, já no município de Jardim, como também a Lagoa da Malhada Funda, ponto de divisa territorial entre os municípios de Brejo Santo, Porteiras e Missão Velha.

A Lagoa da Malhada Funda ficou marcada como um dos cenários no episódio do Fogo das Guaribas, pois o local serviu de camarote para o Rei do Cangaço ouvir o tiroteio no seu início, entre as forças volantes de três estados contra o Cel. Chico Chicote, já que usando o pretexto de perseguição ao famoso bandido, o Estado usou a sua força para dar cabo ao temido Coronel. Em um país onde houvesse realmente o Estado de Direito, Guaribas teria sido indenizada pelos enormes prejuízos e os seus invasores exemplarmente punidos.

Assim citado por Otacílio Anselmo e Silva em A Tragédia das Guaribas, Itaytera; N° 16; de 1972; pág. 21:

“Exatamente naquele instante, Lampião se achava com seu bando na chapada do Araripe, acantonado no local denominado Malhada Funda, a pouca distância de Guaribas. Ao escutar o tiroteio, e certo de que se tratava do ataque policial a Chico Chicote, ele assim manifestou-se: “Se ele fosse meu amigo, eu ia lá”. E foi na mesma data — l.° de fevereiro de 1927 — que Lampião passou a cometer selvageria no Ceará, sequestrando, no lugar Baixa das Cacimbas, município de Jardim, os caririenses Pedro Vieira, fuzilado no dia seguinte — após o fracasso do ataque a Ipueiras, na fronteira de Pernambuco com o Ceará — e Vicente Venâncio, que conseguiu fugir do bando logo depois do sequestro”.

Sabe-se que Chico Chicote e Lampião eram notórios desafetos, como cita Napoleão Tavares Neves em Cariri Cangaço, Coiteiros e Adjacências – Crônicas Cangaceiras; Editora Thesaurus; 2009; pág. 49:
“(...) Não se entendiam desde que, descansando na Serra do Mato, Lampião deu liberdade aos seus cangaceiros para comerem churrasco na bebida da Fonte da Pendência e eles mataram um boi do coronel Pedro Martins (Pedro Martins de Oliveira Rocha, proprietário da fazenda Cacimbas, em Brejo dos Santos) e dele se alimentaram. O vaqueiro do coronel indagou sobre a autoria da matança do boi e os cangaceiros disseram que havia sido por ordem de Chico Chicote. Lampião silenciou, mas Chico Chicote não gostou nada daquela infundada informação e passou a ter Lampião como inimigo.”

Fonte da Pendência,
região da Gameleira de São Sebastião,
em Missão Velha - CE.

Ainda em A Tragédia das Guaribas, Itaytera; N° 16; de 1972; pág. 10, Otacílio Anselmo faz a seguinte explanação sobre a relação de Chico Chicote e Lampião:

“(...) A partir daí, o boato alastrou-se no município e nas suas imediações, e, como não podia deixar de acontecer, provocou forte indignação ao caluniado.

De resto, o caso foi comunicado pessoalmente a Chico Chicote por Pedro Martins, para o que o convidara a ir a Cacimbas acompanhado do seu irmão Manoel Inácio de Lucena (Manoel Chicote). 

Pouco depois, no intuito de evitar luta entre Lampião e Chico Chicote, Antônio Aristides Xavier, genro de Pedro Martins, conseguiu levar Lampião à fazenda Crioulo (município de Jardim) e convidou Chico para ir até lá, tentando, desse modo, fazer a paz entre ambos.

Lá chegando, e cientificado de tal intenção, Chico Chicote repeliu o intento, não entrando, sequer, na casa do fazendeiro, em cujo interior se achava o famoso bandoleiro. Além disso, em voz alta – como sempre costumava falar – fez severas criticas a conduta de Virgulino, acrescentando que continuaria a tê-lo como inimigo, como foi detalhado por Antônio Lucena Cabral, sobrinho legítimo de Chico Chicote, ao autor.

Sem nenhuma dúvida, a recusa de “Seu Chico” à sugestão de Antônio Xavier deixou Virgulino bastante preocupado, naturalmente pelo fato de não ter um só inimigo no Ceará, onde encontrava com seus mais prestigiosos coiteiros e onde se mantinha absolutamente inofensivo. Daí porque, decorridos alguns dias, Chico Chicote recebeu um convite do Cel. Antônio Joaquim de Santana para comparecer à sua casa, no sítio Serra do Mato.

Ao ser recebido pelo mandão de Missão Velha, “Seu Chico” perguntou-lhe para que fora chamado. Em resposta, disse-lhe o Coronel que o convidara a pedido do cabra Sabino, que desejava conhece-lo pessoalmente.

Como é sabido, esse bandoleiro (Sabino Barbosa de Melo, mais conhecido como Sabino Gomes ou Sabino das Abóboras), era lugar-tenente de Lampião. E está evidente que ele apenas serviria de intermediário para a conciliação almejada pelo Rei do Cangaço.

“Seu Chico”, porém, além de recusar-se à apresentação, não esperou nem pelo café-gordo que o Coronel mandara preparar, voltando incontinenti para Guaribas, segundo informes de Pedro Celião de Moura ao autor.”

Escombros do Casarão do
Cel. Antônio Joaquim de Santana
Serra do Mato, Missão Velha - CE.

Aspecto atual do local do Casarão do
Cel. Santana na Serra do Mato.
Pois bem, ao visitarmos recentemente a Malhada Funda, podemos observar a sua descaracterização, sendo o local ocupado por atividades humanas: adensamento populacional, construção de moradias ao longo da parede da lagoa, como o uso de sua área para fins agrícolas. Sabe-se que posterior à década de 1960, o proprietário, um famoso pecuarista da região, aterrou o local com a finalidade de práticas agropastoris.

E desde então a Lagoa da Malhada Funda “não pegou mais água”.

Memorial Descritivo o município de Brejo Santo,
 da Lei Estadual n° 16.198, de 29.12.16,
sobre os limites municipais do estado do Ceará.

Mapa atual do município de Brejo Santo.
Fonte: IPECE.


O Brejo é Isso!

Bruno Yacub Sampaio Cabral
A Munganga Promoção Cultural

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

O CHALÉ DO CORONEL MANOEL LEITE DE MOURA



A construção mais arrojada de Brejo dos Santos foi, sem dúvida, o chalé do Coronel Manoel Leite de Moura (11/02/1877 – 13/08/1944). Rico comerciante, empreendedor na agropecuária e indústria. Era um manso coronel, com gosto pelas letras, pela arte. O primeiro gramofone da Vila foi trazido por ele. Amante da música, mandava trazer discos do sudeste do país, encomendando-os da afamada Casa Edison. Sua casa tornou-se naturalmente um refúgio aos que se deleitavam com arte. Casou-se com Antônia Leite Tavares, constituindo uma prole de nove filhos.


Ocupou o Executivo municipal entre 1929-1930, ano em que o padre Pedro Inácio Ribeiro chegou à comunidade. Para receber o novo pároco, o prefeito conclamou a população a se fazer presente a um concerto de música, oferecido pela Banda de Música Carlos Gomes.

A visão humanista do Coronel refletiu na educação dos filhos, muitos dos quais romperam os limites do Cariri, estudando nas capitais nordestinas, como Fernando Leite Tavares, grande intelectual e médico que chegou a ocupar o cargo de reitor na Universidade Federal do Ceará. Além de Fernando, também foram seus filhos: José Leite Tavares, Emílio Moura Leite, João Leite Tavares, Mário Leite Tavares, Hamilton Leite Tavares, Onezina Leite Tavares, Neuza Leite Tavares e Valdeci Leite Tavares.


O Casarão já não existe mais. É somente mais uma lembrança. Localizava-se em frente de onde hoje são os fundos da Escola Municipal Padre Pedro Inácio Ribeiro, antigo IPEC, com fundos do Banco do Nordeste. A aludida escola era um descampado, chamado de “quadro do comércio” ocupado pelos feirantes. O entorno da Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus era o ponto mais movimentado da promissora urbe. De frente do Chalé, na outra ponta, encontrava-se o prédio do Paço Municipal, quase esquina com o Casarão dos Viana Arrais, iniciando a quadra do casario da abastada sociedade. 



Quem passasse por Brejo dos Santos naqueles tempos, observando aquela arquitetura, admirava-se pelo progresso de sua gente.

O Brejo é Isso!

Hérlon Fernandes Gomes

CAVALCANTE, Francisco Mirancleide Basílio. Memórias de Brejo Santo.
LEITE, Maria Santana Leite. O Santo do Sertão
LEITE, Maria Santana Leite. Reminiscências.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

O DESABAMENTO DA IGREJA MATRIZ DE BREJO SANTO


Aspecto da Matriz do Sagrado Coração de Jesus antes do desabamento,
ocorrido em 09 de dezembro de 1949.
Acervo de Marineusa Santana.


    No final do ano de 1949 iniciava-se uma reforma na Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus para ampliação e adequação estética do Templo, que nessa época já tinha 81 anos, sendo o início de sua construção datada em dezembro de 1868. O Mestre de Obras contratado chamava-se Cícero e era de Juazeiro, e este, um experiente construtor de capelas e igrejas por todo o Cariri.

    O Vigário da Paróquia era o padre Pedro Inácio Ribeiro desde 1930 e no final da década de 1940 foi acometido de hidropisia (barriga d'agua).  Após esse infortúnio na vida do padre Pedro a artrite reumatoide acometeu o Sacerdote. As dificuldades começaram a aparecer, pois os seus movimentos estavam pouco a pouco sendo comprometidos. No final da década de 1940 ele já sentia a necessidade de um Vigário Cooperador para auxiliar nas tarefas ministeriais da Santa Igreja. O padre Luís Antônio dos Santos, natural de Lavras da Mangabeira, seria o segundo Padre que viria auxiliar o padre Pedro, ele atuou de 1949 a 1951.

Coroação de Nossa Senhora na Igreja Matriz no ano de 1949,
com a presença do padre Pedro Inácio Ribeiro.
Acervo de Marineusa Santana.


    Porteiras, nesse período, deixou de ser cidade, se tornando um Distrito dessa comuna, junto ao Poço e o São Felipe, como também sua Matriz de Nossa Senhora da Conceição e demais Capelas pertenciam à Paróquia do Sagrado Coração de Jesus.

    Pois bem, por volta das cinco e meia da tarde do dia 09 de dezembro de 1949, uma sexta-feira, os operários estavam trabalhando nas colunas internas de sustentação da Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus e inesperadamente, todo o telhado e paredes internas vieram abaixo. O barulho chamou logo à atenção de toda a cidade e o povo ficou em pânico. Fala-se que 10 pessoas foram atingidas no momento, sendo que um operário chamado Olávio, de 17 anos morreu no local e seu pai, mestre Antônio, morreu a caminho do hospital em Crato. Dentre os feridos achava-se o Sr. Misael Fernandes Pinheiro, coletor estadual da cidade, que estava visitando as obras no momento. Os feridos mais graves foram levados ao hospital em Crato.

    Um fato inusitado desse fatídico episódio é que nesse mesmo dia estava pousado na cidade um avião da empresa Cimaipinto e o aviador Rolf Fehrlen, tomado o seu avião, foi a Juazeiro do Norte pedir auxílio médico para os acidentados, conforme afirma o jornal Correio de Juazeiro: Semanário Independente e Noticioso; N° 48; de 11 de dezembro de 1949; pág. 6.

Edição n° 18 do jornal Correio de Juazeiro, de 11 de dezembro de 1949.

    O desabamento da Matriz de Brejo Santo foi noticiado em vários jornais: em Pernambuco (Diário de Pernambuco), São Paulo (Correio Paulistano) e na Capital da República na época: Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, Diário de Notícias e A Noite).

    Sabe-se que em 1954 a Matriz ainda estava em obras e a população se recuperava do terrível episódio.

Aspecto da Igreja Matriz no ano de 1949. Fonte: IBGE.


    Segue a descrição inédita e na integra do desabamento da Matriz registrado no Livro de Tombo da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus:

    Dezembro de 1949. Inicia-se o mês com a festa de Nossa Senhora da Conceição na vila de Porteiras. Houve a distribuição dos fieis em cinco grupos correspondentes aos Santos cultuados na capela de Porteiras: Sagrado Coração de Jesus, Nossa Senhora da Conceição, São Vicente de Paulo, São José e Santa Teresinha do Menino Jesus. Esta festa de Nossa Senhora da Conceição da vila de Porteiras foi bem vista pelo povo e trouxe uma renda de Cr$ 10.000,00 (dez mil cruzeiros) líquidos que o padre Luiz Antônio depositou na Cooperativa de Barbalha em benefício da capela de Porteiras. Foi celebrada a festa da Padroeira de Porteiras pelo padre Luiz Antônio que desta vez conseguiu resolver os rendimentos da festa para serem aplicados aos serviços que deveriam processar-se na capela. Neste mesmo tempo, encontra-se na sede da Paróquia o Revmo. Frei Juvêncio que vem substituir o padre Luiz por 10 dias, enquanto o padre Luiz vai visitar sua família.

    Em 09 de dezembro de 1949, parte o padre Luiz Antônio para visitar sua família no município de Lavras e deixou em seu lugar o Revmo. frei Juvêncio, Sacerdote Franciscano do convento Otávio Bonfim, em Fortaleza. Neste mesmo dia, às cinco e meia da tarde a cidade de Brejo Santo foi abalada e atordoada com o maior sinistro que se poderia imaginar: Desabam de uma vez só todo o teto da parte da Matriz que se achava em construção, compreendendo o desabamento de toda a nave central e lateral direita, levando consigo as correspondentes paredes internas. O desmoronamento causou horroroso pânico em toda a cidade e não poderia ser para menos, visto que o estrondo se ouviu a grande distância e sabendo-se que além dos operários em exercício que poderiam ter ficados soterrados, outras pessoas das famílias locais que costumavam visitar o andamento do serviço, assim como outros curiosos, eram todos expostos sobre os escombros. A multidão em volta do Templo não sabia como solucionar os casos mais urgentes e pessoas gritavam e outras choravam. Terceiros tentavam penetrar no recinto, invadido pela poeira, em busca de entes queridos que não eram vistos fora do Templo e a confusão e o horror deu a impressão exata de um dia de juízo. Finalmente foram encontrados sob as ruínas vários feridos e um morto, para os quais foram tomadas as devidas providencias médicas. Como os operários eram quase todo de Juazeiro, o morto, jovem de 17 anos, por nome de Olávio, foi transportado para sua cidade de origem, e os feridos foram imediatamente levados para hospital de Crato, com exceção dos menos feridos em que aqui tinham famílias. O Sr. Mizael Fernandes, coletor estadual desta cidade, saiu também gravemente ferido, mas só foi transportado para o hospital vários dias depois.

    Sabendo do ocorrido, de Juazeiro do Norte, volta o padre Luiz Antônio à Brejo Santo, mas encontrando os feridos em Missão Velha, foi hospitalizá-los em Crato. Na mesma noite de hospitalização, um dos mais feridos, que era o pai do que havia morrido, faleceu também no hospital. Era o senhor mestre Antônio, irmão de mestre Cícero, empreiteiro do trabalho da Matriz, o qual, mestre Antônio acompanhou o seu desditoso filho até a eternidade.

Comentários em torno do assunto

    Para fazer comentários infundados sobre o assunto não faltaram interessados nos dias que se seguiram ao desabamento da Matriz de Brejo Santo. Muitos comentaristas começavam por descobrir as causas do desabamento que eram na maioria dos casos, causas cerebrinas e falsas que atingiam às vezes até as raias de superstições; depois comentavam o próprio ocorrido e tentavam às vezes analisar as suas mais remotas consequências. É de notar-se que alguns comentaristas gratuitos chegavam mesmo a lançar a pecha de culpabilidade sobre elementos que por força das circunstancias, se achavam realmente envolvidos no caso, mas que receberam o golpe do desabamento como desagradabilíssima surpresa que a qualquer um poderia vir como a estes veio à revelia da inocência e boa intenção. Para consolação dos responsáveis devemos assinalar, aqui, que todos os comentários, antes de ocorrer o sinistro, passaram, em silencio admirador e respeitoso, sob as arcadas da construção.
    Antes de terminarmos essa nossa apreciação, devemos concordar com os seguintes pontos de vista:

    a) A inexperiência dos orientadores da construção não podia nem devia, a conselho, mesmo por prudência, sobrepor-se aos conhecimentos reais ou pressupostos do técnico construtor, ainda que esta inexperiência possa e deva ser contada como fator de culpabilidade;

    b) A imperícia do mestre construtor, que realmente prepondera sobre os demais fatores, pode ainda um pouco atenuada pela confiança que o mesmo depositava no material ordinário de que se servia e, outrossim, pela comprovada reta intenção e boa vontade do desditoso construtor;

    c) O complexo de circunstâncias, causas atenuantes ou agravantes e outros fatores incógnitos que fizeram derruir o templo sagrado em construção, não pode e nem deve ser analisado em opiniões apresadas e indébitos que visam apenas sensacionalismo e somente pensam em solução simples e unilateral.

    Na realidade, a Igreja estava em construção, e de fato desmoronou e a única solução que resta é levantá-la novamente sob pena de ficarmos sem Matriz. Rezemos, pois, para que o Sagrado Coração de Jesus nos dê força, coragem, confiança e entusiasmo para continuarmos a trabalhar pela grandeza de nossa fé e pelo brilhantismo de um novo templo à altura de nossos sentimentos religiosos. Vamos pra frente, com Deus e para Deus.

II Livro de Tombo da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, Brejo Santo – CE.

II Livro de Tombo da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, Brejo Santo – CE.

II Livro de Tombo da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, Brejo Santo – CE.

II Livro de Tombo da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, Brejo Santo – CE.



O Brejo é Isso!
Bruno Yacub Sampaio Cabral


Referências Bibliográficas:
- II Livro de Tombo da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, Brejo Santo – CE, págs. 72 e 73;
- Uchôa, Waldery; Anuário do Ceará; 1953/1954;
- Leite, Maria Santana; Memorial Padre Pedro Inácio Ribeiro, O Santo do Sertão, Uma Biografia; 2002; Brejo Santo, Ceará;
- Nóbrega, Fernando Maia da; Brejo Santo Sua História e Sua Gente; Imprensa Oficial do Ceará; Brejo Santo, 1981.

Jornais:
Ceará:
- Jornal Correio de Juazeiro: Semanário Independente e Noticioso, edição n° 48, Ano 1, de 11 de dezembro de 1949; pág 6;

Pernambuco:
- Jornal Diário de Pernambuco, edição n° 286, ano 125, de 13 de dezembro de 1949; pág. 2;

São Paulo:
- Jornal Correio Paulistano, edição n° 28.73, ano XCVI, de 13 de dezembro de 1949;

Rio de Janeiro:
- Jornal Diário de Notícias, edição n° 8326, ano XX, de 13 de dezembro de 1949;
- Jornal Gazeta de Notícias, edição n° 291, ano 74, de 13 de dezembro de 1949;
- Jornal A Noite, edição 13.356, ano XXXVIII, de 12 de dezembro de 1949.

Sítios Eletrônicos:

Depoimentos:
- Francisco Leite de Lucena; em 08 de dezembro de 2019;
- Maria Auriluce Arrais Bezerra; em 09 de dezembro de 2019.