A Munganga Promoção Cultural

A MUNGANGA PROMOÇÃO CULTURAL: O Brejo é Isso!

domingo, 29 de maio de 2022

COROAÇÃO DE NOSSA SENHORA EM BREJO SANTO - POR MARINEUSA SANTANA


Coroação de Nossa Senhora no interior da Matriz do Sagrado Coração de Jesus,
em 31 de maio em 1949.
Ministrada pelo Padre Pedro Inácio Ribeiro.

    O povo brejo-santense é muito devoto de Nossa Senhora. É uma tradição de muitos anos a realização da festa da Coroação da mesma, no dia 31 de maio. Não se sabe ao certo a data da primeira festa da Coroação de Nossa Senhora na nossa cidade.
    Na década de 1930, o Padre Pedro Inácio Ribeiro celebrava esta festa da Coroação de Nossa Senhora, com muito carinho, com a colaboração da Irmandade das Filhas de Maria Imaculada (associadas moças) e das mães cristãs (casadas). Durante o mês de maio, mês dedicado a Nossa Senhora, sua imagem visitava as casas das famílias, especialmente das que pagavam promessas por graças alcançadas. Toda noite era celebrada a novena e a missa na Matriz do Sagrado Coração de Jesus; e em seguida a imagem de Nossa Senhora era conduzida à casa da família segundo a agenda. Ali era rezado o terço, à noite, quando da sua chegada, por todos os devotos que a acompanhava em procissão. No dia seguinte a família anfitriã rezava o terço, ao meio dia, em companhia da vizinhança. Á noite a imagem era reconduzida de volta à Matriz pela família, vizinhos e devotos. Este ritual era reproduzido todas as noites durante todo o mês de maio. No final do mês eram realizadas duas coroações: uma pelas Filhas de Maria e Mães cristãs, numa data combinada, e a outra no dia 31 pela comunidade paroquial, de modo geral.
    Caracterizados de personagens, como por exemplo: o dia e a noite; os astros (o sol, a lua e as estrelas); as virtudes (fé, esperança e caridade); as santas (Bernadete e Rosa) e os anjos, estavam lá no altar bem ornamentado, os artistas que prestariam seus louvores à mãe do Salvador.
    A decoração do altar a cada ano era mais bonita e a cerimônia da coroação deixava a todos encantados pela beleza. Era lindo o altar cheinho de anjos com suas camisolas, coroas e asas nas cores: branca, azul e rosa; parecia o céu na terra.
    Como era emocionante a oferta das rosas , do coração e da coroa ao som do coro das vozes infantis. Mais emocionante ainda era o ponto alto da celebração, a coroação propriamente dita. Um anjo, com voz quase divina, cantava o hino de louvor a Maria, à medida que ia descendo a coroa. Colocada a coroa sobre a cabeça da imagem de Nossa Senhora das Graças todos aplaudiam com os corações inflamados de amor, entre os estrondos e as lágrimas dos fogos de artifício feitos por seu Antônio Generosa.
    Muitas foram as crianças e jovens que tiveram o privilégio de coroar a nossa mãe do céu aqui na terra, na nossa paróquia do Sagrado Coração de Jesus. Entre elas, por exemplo: Noêmia Araújo, Maria Simplício, Filomena Alves, Sandra Rocha e Rosângela Santana (minha filha);e tantas outras.
    Uma vez a coroação foi realizada no altar mor do Sagrado Coração de Jesus. Outro ano o altar foi erigido sob o coro da igreja , ficando a imagem de Nossa Senhora e o anjo que a coroou acima do mesmo. Algumas vezes o altar foi montado na porta principal da Matriz. Certa vez durante a coroação choveu, e os anjos foram retirados as pressas para dentro da igreja pelos familiares; enquanto desmontavam o altar sem que os ornamentos fossem danificados. (Lá estava eu, Marineusa, entre os anjinhos das asas molhadas).
    De outra feita um anjo teve uma das suas asinhas queimada pelas chamas das velas do castiçal (ele se encontrava bem atrás de mim e só depois de muitos anos quando já era adulta, descobri que o anjo da asa queimada, era minha então amiga, Maria Cabral).
   O vigário cooperador Dermival de Anchieta Gondim deu continuidade a celebração por muitos anos, como era costume da paróquia, sem nada modificar. Com o passar do tempo a responsabilidade pela coroação de Nossa Senhora foi passada para as escolas. A cada ano uma delas se encarregava da realização do evento que ocorria como sempre no dia 31 de maio .
    Alguns anos pós a construção da Igreja de São Francisco as famílias daquele bairro tiveram a ideia de Nossa senhora visitar as famílias como no bairro da Matriz, e passaram a realizar uma coroação também lá .Por muito tempo ele esteve sob a responsabilidade de Dona Terezinha de Zé Pecuária e Dona Inês Carlota.
    A população aumentou muito e para evitar que algumas famílias ficassem tristes por não ter a oportunidade de acolher a Imagem de Maria em sua casa, pois são apenas 30 vistas ao mês, foi tomada a decisão de serem feitas as visitas às ruas. Assim as famílias, em mutirão, ornamentavam um altar campal e todas se sentiam visitadas pela mãe de Jesus.
    Maria Santíssima é coroada também nas escolas e nas comunidades rurais.
   Diante das dificuldades, dentre elas a financeira, o vigário resolveu pedir à Secretaria da Ação Social para assumir a responsabilidade para com a Coroação de Nossa Senhora. E desde o ano de 1999 a coroação vem sendo feita pela comunidade sob a responsabilidade da Secretaria Municipal da Ação Social, hoje denominada de Secretaria Municipal de Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos.
    A coroação de Nossa Senhora na Matriz de São Francisco de Assis, atualmente é organizada pela Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Eventos.
    Nos últimos anos tem sido escolhido um tema mariano para encenação, como por exemplo: as aparições de Maria, A meditação do terço, O ofício Mariano... E no ano de 2006, quando a paróquia do Sagrado Coração de Jesus comemorou o jubileu de ouro da ordenação sacerdotal do Monsenhor Dermival de Anchieta Gondim, e também jubileu de ouro de permanência dele entre seus paroquianos, “A ação de Maria em sua vida” foi o tema da Coroação, homenageando a Maria da Imaculada Conceição através da vida do seu afilhado de batismo.
    O Monsenhor Dermival de Anchieta Gondim nasceu aos 08 de dezembro, dia da Imaculada Conceição, foi ordenado sacerdote também no dia 08 de dezembro e é um grande devoto daquela que é sua madrinha. Foi encenada a vida do Monsenhor Dermival mostrando a ação de Nossa Senhora em sua vida: no batismo, no chamado à vocação sacerdotal, na sua vida de seminarista , na sua ordenação, exatamente em 08 de dezembro, nas suas visitas aos santuários marianos do mundo inteiro, onde jovens estiveram caracterizadas dos ícones de Maria de acordo com os locais das suas aparições. Foi uma verdadeira apoteose. Além dos paroquianos, estiveram presentes, as irmãs sacramentinas, seus familiares e seu mestre de disciplina Monsenhor José Honor.
    Maria Santíssima foi sempre muito venerada por nosso povo. O amor dedicado a ela manteve os paroquianos do Sagrado Coração de Jesus de Brejo Santo fiéis a religião católica, mesmo quando não eram evangelizados, não faziam a leitura e a meditação da Palavra de Deus, por não ser permitido ao povo uso da Bíblia.
    A Nossa Senhora nossos louvores por ter sempre cuidado da nossa paróquia com tanto amor e carinho, intercedendo ao seu Filho que mandassem sacerdotes íntegros para guiar este rebanho brejo-santense.
    Todas as famílias se reuniam para coroarem Nossa Senhora, como Rainha do céu e da terra. Num altar erigido, geralmente na lateral da Igreja; entre esta e a casa paroquial, Maria era homenageada por crianças e adolescentes que durante todo o mês haviam ensaiado os cânticos da homenagem.

Aspectos da Coroação de Nossa Senhora na Matriz do Sagrado Coração de Jesus, na década de 1980.



Bibliografia

SANTANA, Marineusa; Reminiscências; Brejo Santo; 2001.
SANTANA, Marineusa; Coroação de nossa senhora; https://www.recantodasletras.com.br/contos/501041; acesso em 29.05.2021.

domingo, 10 de abril de 2022

OS CARETAS DA SEMANA SANTA E A MALHAÇÃO DE JUDAS

Lá pela altura dos meus oito anos, que me recorde, a Semana Santa aparecia como uma época de respeito, carregada de medo e mistério. Era a época em que a Igreja refletia e orava sobre o Cristo crucificado.

Havia duas coisas que me metiam muito medo nesse tempo: contava-se a lenda que, na Missa do Galo, o padre procuraria na Bíblia Sagrada um pingo do sangue de Jesus Cristo e, caso não encontrasse o precioso pingo, seria o fim do mundo! Isso me deixava apavorado; mas o que me matava mesmo de medo era a tropa de Caretas soltos nas ruas, pedindo jejuns nas portas das casas, nas bodegas, na feira, nos sítios, arrastando seus chocalhos, com suas máscaras pavorosas de papelão, de couro ou de remendos de pano. Alguns, com ares de líderes, tinham chifres como adornos, chicotes mais ameaçadores – era como se o inferno tivesse baixado na Terra.

O tormento durava do Domingo de Ramos ao Sábado de Aleluia. A meninada vivia com o coração acelerado ao som do primeiro chocalho. Era chororô e gritaria. Uns partiam para debaixo da cama – eu corria a me esconder dentro do móvel da máquina de costura da minha mãe. Ali eu duvidava que Careta me encontrasse!

É uma tradição muito antiga, trazida pelos portugueses e espanhóis, desde o descobrimento do Brasil; mas sua origem pode estar associada a um culto pagão mais distante no tempo, que festeja o início da primavera.

Vovó me contava que os caretas eram os ‘cãos’ que levavam Judas para o Inferno, no Sábado de Aleluia. E me dizia que tudo começou porque Judas Iscariotes teve inveja de Jesus e traiu-o com um beijo dado em sua face. O gesto foi a senha dada aos soldados do Império Romano,  entregando Nosso Senhor para iniciar o triste calvário da crucificação. Como paga pela traição, Judas recebeu trinta moedas de ouro. Consumada a trairagem, arrependeu-se, quis restituir o dinheiro, mas não conseguiu. Cheio de remorsos, enforcou-se numa corda. Os Caretas apareciam para atormentar Judas por tamanha desfeita: a traição contra o Filho de Deus. 

Na minha cabeça, as portas do inferno estavam abertas e os ‘cãos’ estavam soltos para levar Judas de corpo e alma.

Fui crescendo e perdendo a fobia pelos bichos feios. Já me divertia com eles. Gostava de ouvi-los, com sua voz gutural, chamando todo mundo de “padim” e de “madinha”, pedindo dinheiro, fruta, arroz, cachaça...

Descobri que os caretas juntavam tudo o que arrecadavam numa espécie de sítio: um quadrado, demarcado com palmas de coco e uma linha no chão batido de terra. Ao centro, estava amarrado o Judas, um mal-amanhado boneco de pano, recheado de palha de milho, dependurado enforcado com uma corda, às vezes com os bolsos exibindo notas de dinheiro para fora.

O Sábado de Aleluia mais movimentado à que assisti aconteceu em Porteiras, nas cercanias do sítio Cancelas, meu reduto materno. Foi lá onde vi os Caretas mais valentes, mais assustadores, mais violentos e seu “sítio” mais rico. Uma multidão se aglomerava ao redor da demarcação. Muitos homens e rapazes corajosos invadiam o sítio, tentando despistar os horripilantes vigias e se livrar de suas chicotadas. Alguns vestiam até três calças, varias camisas para aguentar as cipoadas e entravam no sítio para tentar a sorte de arrebatar valiosa prenda: uma nota alta, uma garrafa de conhaque, um jerimum maduro... Alguns se feriam graves, não se importavam de exibir os vergões de chicotes na pele. A multidão vibrava cada vez que alguém alcançava um prêmio; mangava quando alguém se lascava na pêia.

Por fim, Judas era surrado e queimado pelos Caretas, cumprindo sua sentença de ir arder nas profundezas do Inferno. 

Algumas comunidades dão nomes aos seus Judas, geralmente políticos que caem na antipatia de sua gente ou perversos criminosos, por exemplo.

Hérlon Fernandes Gomes

10 de Abril de 2022.

terça-feira, 22 de março de 2022

BODAS DE OURO DOS MEUS PAIS

 


A história de amor dos meus pais, Sebastião e Tôta, começou em 1968, na festa de coroação de Nossa Senhora da Conceição, no município de Porteiras, Ceará. Foi ali onde foram apresentados e começaram o namoro. Ela, dezoito anos, uma morena de cabelos longos e olhos de cigana; ele, vinte e dois anos, galego dos olhos verdes.

Já haviam se visto em outras ocasiões, pela praça de Brejo Santo, no Cine Alvorada, no comércio – os olhares já se cruzavam cúmplices. Era ela uma estudante normalista; ele, um jovem barbeiro profissional, emigrado da Paraíba, chegado a Brejo Santo há cerca de dois anos, onde encontrou prosperidade para suas mãos habilidosas.

O namoro ia bem, sob a vigília constante de Zé Milagres e D. Hosana, pais da moça, e a censura de Levina, avó da apaixonada. Levina era cismada com o rapaz. Gabava-se dos próprios olhos azuis e implicava com os olhos verdes de Sebastião: dizia que olhos verdes indicavam falsidade. Tôta achava engraçada essa implicância da avó, até que, certo dia, o seu mundo desabou. Um amiga veio lhe trazer uma decepcionante notícia: tinha ouvido, em um programa romântico da Rádio Educadora do Crato, um recado enviado pela “noiva” de Sebastião, residente no Barro, cobrando sua presença. Ele era noivo de outra! Foi o mesmo que a morte! Seus sonhos, sua paixão, seus sentimentos desabaram. Chorou, lastimou-se, adoeceu de tristeza e ainda teve de ouvir o discurso de Levina: - Bem que eu lhe disse, fia! Esse povo dos zói verdes não se pode confiar! E cantarolava uma velha canção que, segundo ela, confirmava sua teoria:

“Era o meu lindo jangadeiro

De olhos da cor verde do mar

Também como ele traiçoeiro

Mentiu-me tanto o seu olhar!”

Tôta demorou para aliviar aquela profunda tristeza. Não quis mais vê-lo, não deu espaço para suas justificações. Cortava caminho para não encontrá-lo; evitava estar onde ele pudesse aparecer. Mas Sebastião era insistente. Mandava recados, marcava encontros, queria se explicar, recebendo a indiferença como resposta. Oferecia-lhe músicas pela rádio: “Essa vai para Tôta, em Brejo Santo, O Mérito do Perdão, de Roberto Silva. Quem oferece é Sebastião Gomes: o eterno apaixonado.” E a música era um pedido de desculpas:

“Quem se humilha e quer perdão

Merece ser atendido.

Eu errei, meu coração,

Hoje estou arrependido!

Se você me perdoar,

Prometo nunca mais errar!”

Tirou um dia inteiro para pastorá-la e, quando ela subia para o ginásio, no seu traje costumeiro de normalista, atalhou-a e suplicou para que lhe ouvisse. Havia terminado o noivado, na verdade, já estava em processo de término há muito tempo. Mostrou-lhe a carta do fim, os bilhetes, as fotografias devolvidas e até a aliança! Implorou pelo seu perdão. Era única mulher da sua vida!

Um coração apaixonado sempre perdoa, rendido pelas esperanças de felicidade. E foi assim que voltaram o namoro. Ele só teve de enfrentar as rabissacas de Levina e o olhar não muito lisonjeiro de Sêo Zé Milagres. O namoro se arrastava já por quatro anos e o pai não via muito futuro naquela união:

- Ele vai lhe enrolar igual fez com a prima! Ele não tem intenções de casar. Não quero cabra alisando banco aqui em casa. – E ordenou que a filha terminasse aquele namoro sem futuro. Deu-lhe um ultimato.

Tôta se viu novamente entre a cruz e a espada. O que fazer? Estavam apaixonados. Ano a ano faziam promessas de casar, mas a situação financeira do rapaz era difícil, pois era arrimo de família – recentemente havia trazido os pais para morar em Brejo Santo, com os demais irmãos... Só tinha um jeito de resolver aquela pendenga: e se eles fugissem?

- Fugir? Ela perguntou, apavorada.

- Sim, fugir! Se a gente fugir, Sêo Zé Milagres vai ter que nos aceitar, porque assim a gente casa!

A ideia da fuga passou a alimentá-la, paralelamente a um grande medo. Para viver seu grande amor era preciso ter de desagradar ao pai, irresoluto sobre a necessidade de pôr um fim à união dos dois. Ensaiou inúmeras vezes a fuga, mas faltava-lhe coragem, até que o pai marcou no calendário:

- Até o fim da semana eu quero esse namoro terminado, ou você vai se ver comigo!

Certa noite, pediu ao pai para ir até o Café de D. Edésia, lanchar o último doce, em companhia do namorado. Naquele dia resolveria, o pai não se preocupasse. Sêo Zé concordou com aquela última saída, mas estivesse de volta antes das oito.

Saíram com a roupa do corpo, fretaram um carro, na Praça, e fugiram para a cidade do Barro, onde moravam uns parentes de Sebastião.

Sêo Zé Milagres, às oito em ponto já estava num pé e noutro, olhos atentos no rumo da praça. Pegou uma corda! “Quando ela chegar, ela me paga!” Deu nove, deu dez... Coçava a cabeça e as orelhas impacientemente! Saiu a procurá-la por todos os cantos. Nada. Foi Dora, a empregada gaga, quem sugeriu o destino:

- Ma-ma-madinha Hosana, eu-eu-eu acho que o ga-ga-ga-lego bu-bu-chudo carregou nossa To-totinha!

Sêo Zé Milagres ficou fumando numa telha de ódio, ao concluir que Dora tinha razão! Arrenegou o nome da filha. Proibiu que dissessem o nome dela dentro de casa. Uma tristeza grande consumiu a casa. No outro dia, Sebastião voltou a trabalhar na barbearia e anunciou para quem quisesse ouvir que havia carregado a filha do velho Zé Milagres. Mandou um tio com a missão diplomática de acalmar a fera e contar que Tôta estava em casa de família, passava bem, não se preocupassem. Sêo Zé não quis acordo. Para ele, a filha estava morta; fosse do Barro para mais longe, que ele não lhe reconhecia nem a abençoava mais.

Mas a raiva não durou uma semana. Sentiu falta daquela filha amorosa, que na vida só tinha lhe dado gosto. Não aguentava ver o cachorro Cherry, triste, ganindo, chamando pela dona; nem a ladainha de Hosana, pedindo que amolecesse aquele coração. Rendeu-se, mandou buscar a filha para fazer o casamento.

Era o dia 23 de Março de 1972, há 50 anos atrás. Foi o padre Dermival de Anchieta Gondim quem celebrou o enlace matrimonial. Ao longo desse tempo todo, dia após dia, Zé Milagres foi descobrindo no genro um grande amigo; ninou os netos que vieram – quatro ao todo: Hércules, Helaine, Heloísa e Hérlon e amou com ternura a filha até seus últimos instantes de vida. Com Levina aconteceu o mesmo, fazendo-a vencer, por fim, o preconceito contra aqueles que têm olhos verdes.

Sebastião e Tôta estavam muito certos acerca do que sentiam, serviram com coragem ao amor que os nutria e acreditaram no destino daquele sentimento, contra tudo, contra todos. Construíram uma família, na humildade e simplicidade. Na estrada, encontraram dificuldades, mas também, preciosas vitórias.

A história de amor dos meus pais lembra-me as palavras sagradas da carta de Paulo aos Coríntios: Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor - estes três, mas o maior destes é o amor, porque o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

Hérlon Fernandes Gomes

Porto Velho, 22 de Março de 2022

sábado, 29 de janeiro de 2022

LAMPIÃO, CANGAÇO E NORDESTE – AGLAE LIMA DE OLIVEIRA – O FESTEJADO LIVRO E SUA HISTÓRIA COM SR. ANTÔNIO DA PIÇARRA – 2ª PARTE

Wilton me conta que nasceu em 22/06/1965, em Brejo Santo-CE, filho de Maria Ivanilda Teixeira e Silva e Wilton Santana e Silva. A ideia primeira de seu nome era se chamar igualmente ao avô, Antônio Teixeira Leite, acrescido de Neto, por vontade de seu pai, Wilton Santana, grande amigo do sogro. Mas em 12 de Janeiro de 1965, antes do nascimento da criança, o jovem pai sucumbe em um acidente de trânsito. Com o nascimento do menino, seu Antônio recusa a homenagem:

- Vai se chamar como o pai, Wilton Santana Filho. É seu primogênito e único filho.

A referência de pai foi o avô, já que do pai biológico só lhe restaram lembranças contadas. Na altura dos seus 70 anos, Sêo Antônio se viu e se sentiu na doçura da paternidade novamente, um pai com benefícios de avô. Ele se apegou tanto ao menino, que até adoecia quando se apartavam.

Entre Brejo Santo e a Fazenda Piçarra, de Porteiras, a criança cresceu na curiosidade por descobrir as histórias daquele avô e pai, como canta um bom trovador paraibano. Causos antigos, de longos tempos do cangaço, seduziam o menino. Histórias de amizade, de traições, de tiroteio, bang-bangs mais interessantes que os faroestes de John Wayne, assistidos no Cine Alvorada. Seu avô era seu herói, sertanejo samurai, com seu gibão de couro, era um cavaleiro armado, vaqueiro de coragem, intrépido na caatinga, nas pegas de bois. A velhice não atingira sua alma. O avô era famoso, dava entrevistas a escritores que vinham de longe comprovar e anotar suas memórias: Nertan Macêdo, professor Antônio Amaury, Hilário Lucetti, José Peixoto Jr., Napoleão Tavares Neves...

Wilton se levanta, em determinado momento da conversa, e entra em casa; volta com duas fotografias em preto e branco.

- Estas fotos são de quando a escritora Aglae esteve por aqui. Era uma pessoa extremamente simpática, carismática demais, inteligente ao extremo. Era uma pessoa extremamente interessante. Eu era pequeno, mas eu a admirava.

Foto tirada em final de expediente. Setembro/1970.Velho engenho da Fazenda Piçarra.
Identifica-se, de óculos escuros, Ivanilda (mãe de Wilton), Aglae,
Sr. Antônio e o menino Wilton, em primeiro plano.


Na Fazenda Piçarra, corriam os tempos da moagem, um quente setembro. Aglae quis conhecer o cotidiano, os hábitos do lugar, transportando o passado para o presente, ressuscitando nomes, confirmando fatos da época lampiônica. Ela e o avô pareciam velhos conhecidos, porque dominavam tanto das mesmas histórias! Sêo Antônio se admirava do quanto aquela professora sabia de tudo, parecia até ter vivido naqueles tempos. E como era simpática! Aglae sentia ter descoberto  grande relíquia.

Aquele senhor estava ligado a três emblemáticas figuras desses anos findos da década de 20, tinha muitas amizades, transitava de Padre Cícero a Lampião. Era muito amigo do coronel Chico Chicote, que não se dava com o Rei do Cangaço. Metido com essas personalidades, além de tantas outras interessantes, Sr. Antônio viveu histórias incríveis de se contar, confirmadas na rica bibliografia deixada sobre o cangaço.

Olharam a bagaceira, sentiram o cheiro de mel de cana fervendo. Ao fim de quase uma semana, Aglae havia feito muitas anotações. Seu livro estava quase pronto. Aquela visita à Piçarra foi tão engrandecedora, que a escritora levou Sr. Antônio para o Recife, a participar de entrevistas e de eventos. Em um deles, Sr. Antônio chegou a reencontrar os ex-cangaceiros Candeeiro e Barreira, além de conhecer a filha de Lampião, Expedita Ferreira.

Lampião, Cangaço e Nordeste foi um sucesso de vendas e de crítica. A 1ª edição, lançada em 1970, com 5 mil exemplares, esgotou em duas semanas. Mais duas edições saíram posteriormente, dentro de um ano. É um livro que influenciou muitos pesquisadores e escritores, a exemplo de Ângelo Osmiro e Manoel Severo. Eles me confidenciaram que foi o responsável por apaixoná-los pelo fenômeno social do cangaço.

Foi um sucesso editorial, levando Aglae a percorrer todo o Brasil, em conferências por universidades, onde foi homenageada com diversos certificados de honra ao mérito, por magníficos reitores.

Aglae Lima de Oliveira faleceu de câncer na cidade de Recife, em 04 de junho de 1984, aos cinquenta e nove anos. Sua obra continua inspiradora. Lampião, Cangaço e Nordeste não foi mais reeditada. É livro raro, caro, verdadeiro ouro nos sebos. Merece uma reedição.

A última escritora a visitar Sr. Antônio foi a respeitada professora Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, autora de A Derradeira Gesta. Ele viveu longos 99 anos de idade, falecendo em 31/08/1994. 

Estamos sentados no velho banco, dos tempos dos cangaceiros, eu, Bruno Yacub e Wilton. Velho banco testemunha de todas essas histórias, onde se sentaram Lampião e tantos apaixonados pesquisadores.

Wilton (22 anos) e o avô Antônio (92 anos).


Aglae e Sr. Antônio da Piçarra se foram, mas obra e memória permanecem vivas, aprimoradas por outras pesquisas. Wilton é a perpetuação das memórias deixadas pelo avô; é um exímio conhecedor do assunto, mente enriquecida pelas obras que leu ao longo de décadas. Wilton é um tesouro vivo e a Piçarra representa, até hoje, espécie de oráculo das obscuras histórias do cangaço.

Hérlon Fernandes Gomes

Agradecimentos especiais a Bruno Yacub, que me acompanha e me inspira nessas incursões. Para Wilton Santana e sua mãe, D. Ivanilda, pelo carinho e amizade de família. Aos meus avós maternos, José Milagres da Silva e Hosana Fernandes de Moura, compadres em batismo de Sr. Antônio. Vovó, aos 103 anos, em seus delírios ao passado, ainda recorda o velho compadre, como se vivo fosse. Para meu pai, Sebastião Gomes da Silva, barbeiro de Sr. Antônio até o último momento de vida.

Bruno Yacub, Wilton Santana e eu. Piçarra. Dezembro de 2021.

Leia também: LAMPIÃO, CANGAÇO E NORDESTE – AGLAE LIMA DE OLIVEIRA – O FESTEJADO LIVRO E SUA HISTÓRIA COM SR. ANTÔNIO DA PIÇARRA – 1ª PARTE

sábado, 22 de janeiro de 2022

LAMPIÃO, CANGAÇO E NORDESTE – AGLAE LIMA DE OLIVEIRA – O FESTEJADO LIVRO E SUA HISTÓRIA COM SR. ANTÔNIO DA PIÇARRA – 1ª PARTE

Em 1970, uma mulher se tornou a sensação do momento, entrando pela TV nos lares brasileiros, no famoso programa Show Sem Limite, de J. Silvestre, respeitado apresentador da TV Tupi. O programa era desses da pergunta milionária. A professora Aglae, de Cabrobó-PE, foi sabatinada na atração, respondendo a tudo sobre um difícil e interessante assunto: LAMPIÃO. Os programas se avolumavam, a audiência era grande e a professorinha aproximava-se da resposta premiada.

- Absolutamente certa a resposta, dona Aglae! – bradava o apresentador.

Com J. Silvestre - Fotografia: Revista O Cruzeiro - 11/08/1970.

Ela foi uma apaixonada pela história do cangaço, rendendo a publicação de impressionante livro a respeito, intitulado Lampião, Cangaço e Nordeste. Dedicou uma vida a pesquisar, visitando lugares, consultando sobreviventes do período. Nertan Macedo, que honrou as orelhas do livro; e Rachel de Queiroz, que o prefaciou, assim escreveram sobre autora e obra:

“Sem contar jamais com verbas e recursos oficiais, Aglae não fez pesquisa livresca, buscando nas fontes consagradas o que entre nós foi dito e escrito sobre os cangaceiros. Ela própria, nascida e vivida no sertão, conviveu, durante duas décadas, não apenas com a paisagem que emoldurou o Capitão do Cangaço, mas com os cabras sobreviventes da terrível aventura, que lhe ditaram memórias e reminiscências inesquecíveis sobre a vida comunitária do grupo bandoleiro, fatos, hábitos, higiene, sexo, maneiras de encarar as coisas, os homens e os animais. [o livro] é uma fonte de consulta obrigatória a quantos queiram conhecer o cangaço nômade na intimidade.” (Nertan Macêdo)

“Hoje ninguém poderá pretender discutir cangaço e cangaceiros - especialmente quando se tratar daquele que foi chamado o Rei do Cangaço, Lampião -, sem se curvar ante a professora Aglae Lima de Oliveira, autoridade máxima no assunto. (...) Aglae domina o assunto, conhece-o profundamente, vive a história de Virgulino, interpreta-a, recorda-a quase como uma testemunha - , o que de certa forma o foi. Pois se a moça não viu, porque nem era nascida então, ou era pequena demais para entender o que assistia, soube depois recolher no testemunho direto dos contemporâneos, na visita aos cenários do drama (que ocupou lugar tão dilatado no tempo e no espaço do Nordeste), no interrogatório paciente e minucioso dos sobreviventes da grande tragédia sertaneja, a sua verdade mais autêntica.” (Rachel de Queiroz)

Sr. Antônio Teixeira Leite, o famoso Antônio da Piçarra e a escritora Aglae, na Fazenda Piçarra - 1970

Sobre Lampião, resumiu Aglae à revista O Cruzeiro, de 11/08/1970: "Na minha concepção, foi um fenômeno sociológico e psicológico. Um gênio militar perdido nas caatingas. Grande capacidade de liderança. Amava e odiava, alimentava e assaltava, era herói e covarde. Foi profundamente nacionalista. Sua vida foi a luta de um homem contra o destino. Lampião era astuto e calculista e não se pode dizer que era totalmente ruim. É que seu lado mau tem sido muito explorado. Ele não cansava de repetir as quatro coisas que mais gostava: gado gordo, cavalo de passada boa, mulher e arma de fogo."

A distante Piçarra, no Cariri, localizada no município de Porteiras-CE, foi um dos pontos para onde convergiu a escritora, em busca de conversar com Sr. Antônio, 75 anos de idade,  memória viva de sua complicada relação com Lampião: de coiteiro a delator, premido pelas questões legalistas. De fato, a Piçarra foi palco de importantíssimas diligências cangaceiras. Foi lá, por exemplo, onde aconteceu, em 1928, uma das mais penosas baixas no bando do Rei do Cangaço, a morte de Sabino Gomes, o lugar-tenente de Lampião.

Vilson é a criança em primeiro plano, com o avô, primo e tio.

Fui me encontrar com Wilton Santana (Vilson), filho-neto de Sr. Antônio, que me contou a bonita história de afeto entre ele e o seu velho invisível - o seu velho indivisível avôhai; e como foram as visitas de Aglae em busca de todos os detalhes sobre o cangaço. À época, Vilson era uma tenra e curiosa criança, que cresceu apaixonado pelas histórias do perigoso sertão. Ele me contou os detalhes desses encontros.

... Continua

Hérlon Fernandes Gomes

Leia também: LAMPIÃO, CANGAÇO E NORDESTE – AGLAE LIMA DE OLIVEIRA – O FESTEJADO LIVRO E SUA HISTÓRIA COM SR. ANTÔNIO DA PIÇARRA – 2ª PARTE

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

O MUNGUNZÁ DO CARIRI


Da culinária da minha terra, o mungunzá salgado, mais conhecido ali pela região do sul do Ceará, para dentro da Paraíba e em algumas cidades circunvizinhas do Pernambuco, é a receita mais carregada da memória afetiva da minha família. Conhece-se muito o mungunzá doce do baiano, ou canjica baiana, do qual também sou fã. Viajando pelo Brasil, acabei constatando que fora daquela minha região, pouca gente parece conhecer o mungunzá como feito no Cariri. A palavra é de origem africana, do quimbundo mu'kunza, e significa milho cozido.

Naquele grande raio de sertão, milho e feijão foram, desde os primórdios, plantações básicas desses sertanejos e garantiam-lhes a nutrição mais costumeira. As carnes salgadas eram a forma de proteína mais adequada para armazenamento e conservação duradoura. Na despensa, o caririense guardava uma costelinha de porco salgada, mocotós, uns pedaços de toucinho...

O mungunzá salgado é uma mistura de todos esses ingredientes em um grande cozido. Há receitas mais modestas, nascidas na escassez das secas, quando o bucho e as tripas não se desperdiçavam e substituíam os cortes mais nobres. Eu, particularmente, aprecio o “mungunzá do inverno” e o “mungunzá da seca”. Os caririenses, viciados no abundante pequi da Chapada do Araripe, acrescentam, a uma ou a outra receita, uns caroços do generoso fruto. É uma receita calórica, necessário composto a quem pegava no pesado, trabalhando duro na lavoura.

O preparo de um mungunzá é um ritual. Não é uma receita simples. O sertanejo nem sempre dispôs das práticas panelas de pressão. Minha avó paraibana contava que era preciso deixar o milho e o feijão de molho, por horas. Em panelas de barro separadas cozinhavam-se os grãos. O fogão à lenha varava a madrugada fervendo, fritando, misturando os sabores. Ao feijão, acrescentavam-se as carnes temperadas com pimenta do reino e cominho. Um cheiro de fartura inundava a casa inteira. Por fim, o milho e o cozido do feijão juntam-se numa panela maior, onde se aferventa a receita completa, finalizada com coentro fresco picado. Incontáveis pratos fumegantes na hora do almoço! Cheiro e gosto da minha gênese, chaves de pertencimento.

Reflito que o mungunzá é para o caririense o mesmo que representa a feijoada para o baiano. Pelo Cariri, é coisa fácil de se comer. Nos cafés antigos, nos velhos mercados, é possível tirar a ressaca de manhãzinha comendo um apetitoso mungunzá. No São João, é sucesso nas barracas de comidas. É receita de ouro da nossa gente, sinônimo de fartura, banquete para a fome, cozinha de tradição.

O Brejo é Isso!

Hérlon Fernandes Gomes

Foto: Google Imagens

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

ANÁLISE DA ENTREVISTA QUE LAMPIÃO CONCEDEU EM BREJO SANTO, EM 1926 NO CONTEXTO DO QUE NOTICIAVA A IMPRENSA DA ÉPOCA. COLUNA PRESTES. UMA NOTÍCIA FALSA PÕE A VILA DE BREJO EM ALERTA. LAMPIÃO VAI A JUAZEIRO SE ALISTAR AO GOVERNO PARA LUTAR CONTRA O CAVALEIRO DA ESPERANÇA.

A Serra do Poço está localizada no município de Brejo Santo,
na região de fronteira entre o Cariri cearense e o Pajeú pernambucano. 
Registro feito a partir da Barragem dos Porcos.
Foto: Acervo dA Munganga.

O jornal Gazeta de Juazeiro colheu impressionante reportagem a respeito de Lampião e seu grupo, ao passar por Brejo Santo, na direção do Pajeú.

Publicada também pelo Jornal do Recife, em 25 de fevereiro de 1926, a matéria fornece interessantes informações sobre Lampião e o seu bando. O célebre bandoleiro andava fardado de Coronel, depois de realizar malfeitos na região, matando, roubando e lançando o terror por toda a parte.

Nessa época, levas de romeiros pediam a proteção do padre Cícero e se obstinavam em permanecer em Juazeiro, único ponto onde se julgam a salvo do banditismo.

Francisco Saraiva Xavier, mas conhecido como Chiquinho,
foi proprietário da fazenda Poço e vizinho do major Firmino Inácio 
e Dona Sinhá, no sítio Cachoeirinha,
localizados às margens do Riacho dos Porcos.
Foto: acervo de Maria do Socorro Cardoso Xavier.

Estava o senhor Francisco Saraiva Xavier no seu sítio Poço, na vila de Brejo dos Santos (atual Brejo Santo – CE), quando apareceu ali Lampião e um numeroso grupo de bandidos pedindo-lhes pousada. Vinham todos a cavalo e estavam armados até os dentes.  Chiquinho Xavier, como era conhecido, não pôde deixar de dar pousada aos estranhos hóspedes, que se mostraram desde logo sem cerimônias, tomando conta da casa.

O fazendeiro aproveitou o ensejo para realizar uma entrevista ao Rei do Cangaço.

Contou o parnamirinense, radicado em Brejo Santo, casado com Eulália Sampaio Cardoso Martins Xavier,  que o grupo de facínoras era composto de Lampião, Dé Araújo e Sabino, formando um grupo de 45 homens. Vinham de Aurora, tendo penetrado a Paraíba e, após as mais terríveis depredações, retornavam ao Ceará para, em seguida, internarem-se nos sertões do Pajeú pernambucano.

O anfitrião pediu que Lampião se apresentasse, tendo dito:

- Eu sou o coronel Lampião, o homem mais valente do Brasil.

Em seguida, apresentou os principais componentes do seu grupo.

- Aqui o meu estado maior... major Horácio Novais, meu secretário..., capitão fulano..., tenente sicrano.

O repórter descreveu que todos estavam fardados como verdadeiros militares, cada um apresentando as divisas dos seus imaginários postos. A segunda pergunta questionava a Lampião quais os objetivos com a tropa naquele lugar:

- Ando recrutando gente para a guerra... – respondeu Virgulino Ferreira.

Chiquinho Xavier não compreendeu bem a resposta e Lampião se pôs a conversar desembaraçadamente, expondo todos os seus planos com desassombro.

- Por ora somos 32 homens, 32 que você está vendo e mais 20 que mandei a uma diligência (incendiar as propriedades de um fazendeiro na Paraíba). Vim ao Ceará somente recrutar gente para a guerra. Pretendo agora no Pajeú completar uma força de 200 homens para atacar uma cidade importante no Pernambuco, a fim de aumentar o número de homens a mil.

E dizendo isto, mostrou uma porção de rifles e munição que levava de sobressalência, para distribuir com os novos recrutas. As condições do engajamento eram as seguintes: Lampião daria um rifle com munição, fardamento e 1000$000 (cem mil réis) em dinheiro ao recruta e este então fizesse pela vida daí por diante.

- E para que o Coronel quer tanta gente? Indagou Chiquinho Xavier, curioso.

- Não lhe disse que era para a guerra? Tornou Lampião. Quero juntar mil homens para declarar guerra oficial aos estados da Paraíba e Pernambuco. Hei de fazer uma guerra tão violenta a estes Estados que o meu nome ficará na história.

- E não tem medo do Governo Federal? Lampião riu ironicamente e continuou:

- Nós não sabemos o que é medo. O meu plano é resistir como um leão até o Governo nos conceder anistia.

Francisco Xavier estava de queixo caído. Todavia, Lampião prosseguiu:

- Agora vou lutar a descoberto. Estou aborrecido de caminhar por veredas. Só andarei agora pelas estradas e faço questão de me encontrar com os “macacos” do Governo.

A matéria ressaltava a vaidade de Lampião, devido à celebridade que o seu nome havia ganhado nos jornais e citava outras matérias contemporâneas, em que se descrevia um homem de atitudes contraditórias às selvagerias também alardeadas. Por exemplo, sobre as horríveis depredações da Paraíba, nos sítios Cipó e Catingueira, ele foi citado, no jornal O Rebate, de Cajazeiras como um chefe de bando generoso e moderado.

Outra matéria contava que, no Ceará,  Lampião teria dado 500$000 (quinhentos mil réis) para o conserto de uma capela, e mais 100$000 (cem mil réis) de esmola a uma velhinha e obrigou um dos cabras a restituir 60$000 (sessenta mil réis) que roubara de um pobre lavrador.

Trajado como um Coronel do exército, no Poço, em Brejo Santo, usava meias de seda, camisa palha de seda, lenço também de seda ao pescoço, passado num anel de brilhante, relógios, pulseira nos dois punhos, bornal, cartucheira ataviados com moedas de ouro, chapéu de abas largas, ao modo dos bandidos de cinema.

Nos pousos, o bandoleiro chefe costumava tocar uma harmônica e outros jogavam moedas de ouro no chão. O major Horácio Novais era quem lia as últimas notícias dos jornais para o coronel Lampião, que o ouvia atentamente, interrompendo-o aqui e ali para fazer os seus comentários sempre galhofeiros.

Lampião demonstrava gosto por ver seu nome em letras de forma e se interessava especialmente pelas notícias relativas aos revolucionários da Coluna Miguel Costa-Prestes, aos quais devotava um verdadeiro culto de admiração:

- Só não gostei do nome dessa tal Coluna Peste, mas se esses peste é contra o Governo, tô com eles.

UMA FAKE NEWS ANTIGA ASSUSTOU BREJO DOS SANTOS

Grupo de brejo-santenses formado para proteger a vila de Brejo dos Santos
de um possível ataque de Lampião, em janeiro de 1926.
1 - Zé Chicote, 2 - Antônio Cornélio, 3 - Mestre Olívio, 4 - Pedro Celião,
5 - Elias Bastos, 6 - Zé Celião, 7 - Antônio Simplício, 8 - Basílio Neto,
9 - Antônio Matias, 10 - João Gomes.
Foto: Acervo Seculte Brejo Santo.

No início de janeiro de 1926, espalhou-se pela vila de Brejo dos Santos uma notícia, que alvoroçou o povo brejo-santense, que correu para se armar. Saia gente de todo canto avisando e pedindo para que as pessoas se prevenissem contra o possível ataque do famigerado bandido. Outras pegaram em armas e se juntaram em grupos com o intuito de enfrentar a horda que se dizia aproximar para grande arruaça. Vários homens, de fato, se reuniram, em busca de um plano que amenizasse os possíveis estragos na cidade.

O coronel Manoel Leite de Moura, que era conhecidamente manso, logo se avexou, procurando defesa. Conforme nos contou o neto do dito coronel, Francisco Leite Quental e o co-autor Antônio Klévisson Viana Lima, no livro - Lampião e Outras Histórias Curiosas do Cangaço: “na agonia e no desespero da tão decantada invasão, correu e agarrou o seu rifle cruzeta e colocou a cartucheira na cintura. Quando voltou todo equipado, chamou logo a atenção dos presentes, pelo inusitado da vestimenta. Guardando certa pose, desfilava um tanto orgulhoso e altaneiro pela casa, quando se ouve um barulhozinho: “top... top... top...” O nêgo Zé Felix, seu amigo e compadre, por sinal muito valente, depois de observá-lo atentamente, disse: - “Coroné, o sinhô colocou a cartucheira foi de cabeça pra baixo e as balas estão todas despencando!” Ninguém aguentou e todos caíram na gargalhada, enquanto o Coronel repetia desapontado: - “Ô que seiscentos diabo! Eu não dou pra isso, definitivamente eu não dou pra isso...”

Coronel Manoel Leite de Moura
 e sua esposa, Antônia Leite Tavares.
Foto: acervo dA Munganga.

Chalé do Cel. Manoel Leite de Moura, na vila de Brejo dos Santos. Década de 1940.
Foto: acervo dA Munganga.

Como dito no subtítulo, foi apenas uma fake news. O bando de Lampião não passou pelo centro da Vila de Brejo dos Santos, do Poço, onde concluiu a entrevista, seguiu para o Pajeú.

Notícias outras noticiavam que Lampião nutria "simpatia' pelos revoltosos da Coluna Prestes, a respeito dos quais acompanhava as notícias por meio da imprensa. Sua admiração pelo "Cavaleiro da Esperança" aparentemente seria tanta que planejava formar um batalhão para se unir aos rebeldes tenentistas, com quem faria uma "guerra oficial" aos estados de Pernambuco e da Paraíba. Os revoltosos, em teoria, estariam tentando aliciar o "rei" dos cangaceiros, de acordo com Flores da Cunha, em carta ao "coronel "Ângelo Gomes Lima, mais conhecido por Ângelo da Gia.

Especulações de que oficiais da Coluna teriam recomendado que Prestes convidasse o bandoleiro a se unir aos revoltosos, mas que ele teria se recusado; e de que um primo de Lampião, na Paraíba, teria se oferecido ao "Cavaleiro da Esperança" para convidar Virgulino a se unir à sua Coluna, o que também foi rejeitado. Até mesmo um cangaceiro, José Alves da Cunha, o Ventania, teria sido capturado pelos soldados de Prestes e incorporado à Coluna, durante a passagem dos "revoltosos" pela região. E que o próprio Lampião chegou a afirmar que havia aprendido muito com os revolucionários.

Conforme dito, foram somente especulações, pois não há nenhum indício, seja da parte de Lampião, seja de entrevistas ou documentos de Prestes ou dos oficiais tenentistas, de que o mais famoso comunista brasileiro tivesse manifestado entusiasmo em se unir aos cangaceiros. Pelo contrário, como se sabe, o "capitão" Virgulino Ferreira se aliaria ao Governo por um breve período para lutar contra Prestes e seus soldados, quando vai receber a patente de Capitão do Batalhão Patriótico, em 06/03/1926, em Juazeiro do Norte-CE, chamando-se de legalista por onde passasse.

Registros da passagem de Lampião em Juazeiro do Norte, em março de 1926, feitas por Lauro Cabral de Oliveira Leite e Pedro Maia.

Ao Lampião "patriota" de 1926, atuando agregado ao Batalhão
Patriótico, não ficava bem o uso de chapéu de couro de aba
arrebitada, símbolo máximo do cangaço. Melhor o de feltro.
Foto de Pedro Maia.
Texto: Frederico Pernambucano de Mello.
Tendo recebido a patente de capitão honorário das forças legais,
despira o chapéu de couro, símbolo máximo do cangaço.
Máquina pronta, luz ideal, Lampião segura delicadamente o fotógrafo
 pelo braço e lhe sussurra ao ouvido: "Tu vai tirar meu retrato só daqui
pra cima (e fez um gesto significativo querendo dizer: só o busto!)
"
 e continuou: "Mas cuidado para não pegar meu olho cego, viu?"
 Porém Pedro, como bom profissional que era, sombreou o lado
direito do rosto do cangaceiro e fez um belo perfil,
 representando a melhor foto de Lampião, conhecida mundialmente. 
Foto: Pedro Maia.

Ainda no Juazeiro, Lampião (de chapéu de couro) e 
Antônio Ferreira (irmão de Lampião), vulgo Esperança portam
mosquetões mauser 1895, com pesadas cartucheiras de
 duas camadas à cintura (cerca de cem cartuchos)
e broches do Padre Cícero no peitoral.
Foto de Lauro Cabral de Oliveira Leite.
Texto de Frederico Pernambucano de Mello.

Grupo de Lampião em visita ao Juazeiro em março de 1926. Da esquerda, de pé,
o chefe e o seu irmão mais velho, Esperança, armas em riste. Dos 21 bandoleiros,
 15 portavam rifles Winchester, e 6, fuzis ou mosquetões Mauser. Sabino recusou-se
 ostensivamente a posar, retirando-se com os seus 16 homens.
Foto de Pedro Maia.
Texto de Frederico Pernambucano de Mello.

Grupo completo, vendo-se a primeira fila de joelho no chão; a segunda de pé e a terceira
em cima de um banco. Lampião e Antônio Ferreira aparecem no lado esquerdo da fotografia.
Foto de Pedro Maia.

Foto da família Ferreira na visita de Lampião ao Juazeiro, tirada pelo fotografo
 Lauro Cabral de Oliveira Leite. Da esquerda para a direita: Domingos Paulo,
 um desconhecido, Sebastião Paulo, Ezequiel, João Ferreira, um desconhecido,
Francisco Paulo, Virgínio e José Dandão. Sentados: Antônio Ferreira, Angélica,
 Joana (mulher de João Ferreira), Mocinha, Anália e Virgulino.
 

PS: Francisco Saraiva Xavier, mais conhecido por Chiquinho, nasceu em Leopoldina, hoje Parnamirim – PE, em 1896 e é filho de Pedro Xavier de Souza e Josefa Leocádia de Castro Saraiva. Casou-se em 10.12.1917 com Eulália Sampaio Martins Cardoso, mais conhecida por Lolosa, nascida 04.04.1892, no sítio Crioulos, em Barbalha – CE, sendo filha de João Martins Cardoso de Oliveira e Maria Glória Sampaio Cardoso. Chiquinho e Lolosa tiveram os seguintes filhos: Audízio Martins Xavier, Olavo Martins Xavier, Alberto Martins Xavier, Adalberto Martins Xavier, Agemir Marins Xavier, Agamenon Martins Xavier, Aldo Martins Xavier, Adair Martins Xavier, Marlene Xavier do Amaral e Maria Sampaio Xavier Mariano.

O Brejo é Isso!

Por Bruno Yacub Sampaio Cabral.

Agradecimento especial aos amigos Hérlon Fernandes Gomes e Ângelo Osmiro Barreto.

PANORAMA ATUAL DA FAZENDA POÇO, ANTERIORMENTE PERTENCENTE A FRANCISCO SARAIVA XAVIER.




Referência bibliográfica:

- BONFIM, Luiz Ruben F. de A; Lampeão antes de ser Capitão; Paulo Afonso; Editora Oxente; 2ª Edição; 2020;

- CABRAL, Bruno Yacub Sampaio. Análise da entrevista que lampião concedeu em brejo santo, em 1926 no contexto do que noticiava a imprensa da época: coluna prestes. uma notícia falsa põe a vila de brejo em alerta. lampião vai a juazeiro se alistar ao governo para lutar contra o cavaleiro da esperança. Brejo Santo, 2021. Disponível em: < https://amunganga.blogspot.com/2021/12/analise-da-entrevista-que-lampiao.html >. Acesso em: 27 dez. 2021;

- CHANDLER, Billy James; Lampião: o rei dos cangaceiros; São Paulo; Paz e Terra; 1981;

- IRMÃO, José Bezerra Lima; Lampião: a raposa das caatingas; 4ª edição; Salvador; JM Gráfica & Editora Ltda; 2018;

- PERICÁS, Luiz Bernardo; Os Cangaceiros: ensaio de interpretação histórica; São Paulo; Boitempo; 2010;

- QUENTAL, Francisco Leite; e Lima, Antônio Klévisson Viana; Lampião e Outras Histórias Curiosas do Cangaço; Brejo Santo; 2005;

- MACIEL; Frederico Bezerra; Lampião: seu tempo e seu reinado; Petrópolis; Vozes; v. III; 1986;

- MELLO, Frederico Pernambucano de; Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil; São Paulo; A Girafa; 2011;

- MELLO, Frederico Pernambucano de; Benjamim Abrahão: entre anjos e cangaceiros; São Paulo; Escrituras Editora; 2012;

- MELLO, Frederico Pernambucano de; Apagando Lampião: vida e morte do rei do cangaço; São Paulo; Global; 2018;

- NETO, Lira; Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão; São Paulo; Companhia das Letras; 2009;

- SANTOS, Robério (organizador); Álbum do Cangaço 2; 2018;

- XAVIER, Maria do Socorro Cardoso; Cardoso: troncos e galhos de um clã caririense; João Pessoa. Sal da Terra Editora; 2006;

- XAVIER, Maria do Socorro Cardoso; A saga de um clã Xavier; João Pessoa; Sal da Terra Editora; 2012;

- WALKER, Daniel; Padre Cícero, Lampião e coronéis: análise de vida política de Padre Cícero através de dois eventos: outorga da patente de Capitão a Lampião e o Pacto dos Coronéis; Fortaleza; Expressão Gráfica e Editora; 2017;

- WALKER, Daniel; Lampião e sua falsa patente de Capitão; Rio de Janeiro; Katzen Editora; 2019;

- Jornal O Combate (SP); edição de 13 de janeiro de 1926;

- Jornal A Província (PE); edição de 26 de janeiro de 1926;

- Jornal do Recife (PE); edição de 25 de fevereiro de 1926.