A Munganga Promoção Cultural

A MUNGANGA PROMOÇÃO CULTURAL: O Brejo é Isso!

quarta-feira, 12 de maio de 2021

VOVÓ RITINHA



Minha avó paterna veio ao mundo numa noite clara de lua cheia, ano difícil de seca e depois de um parto sofrido. Não tinha parentes importantes nem sobrenome que contasse a história de sua linhagem. Assim, foi batizada como Rita Moça de Jesus. Cresceu e se acostumou ao árido sertão da Paraíba, onde aprendeu com seu pai os mistérios de orações milagrosas e o segredo das plantas medicinais. Quando emigrou para o Ceará, na década de 1960, trouxe consigo seu ofício de bênçãos e sabedoria com as ervas milagrosas.

Em Brejo Santo, especialmente no bairro São Francisco, não havia criança que não tivesse se submetido às suas rezas contra mau olhado, mijada de aranha e toda outra “coisa botada” por gente ruim. Gente adulta também procurava vovó para que se desse fim aos males causados pela inveja e maldade alheia.

Vovó vivia em uma humildade franciscana, nunca tivera um luxo sequer na vida. Sua riqueza era um pequeno quintal, sombreado por uma goiabeira de frutos doces, ao redor de onde verdejavam touceiras de capim santo, mastruz, malvas santas e do reino, erva cidreira, babosa, pimenteiras, arruda e um pé de pinhão roxo. Deste, ela retirava alguns galhos com os quais iniciava seu ritual contra as debilidades da alma. A cozinha cheirava a macela, boldo, canela, cravo e tantas outras meizinhas, que nunca lhe faltavam.

Vovó era alva, de olhos bem verdes (ou seriam azuis? Nunca soube ao certo. Eles mudavam como o céu). Com esse fenótipo, era uma incomum sertaneja. Conservava os cabelos ajeitados em coque, fixado com um pente. Um dia me surpreendi com ela a penteá-los, completamente brancos, abaixo da cintura. Nunca vi cabelos tão longos e bonitos. Cuidava para que nenhum fio caísse e rolasse pelo terreiro, onde bem-te-vis gostavam de ciscar. Alimentava a superstição de que se aquelas aves carregassem algum fio e levassem-no a construir ninhos, seus pensamentos ficariam confusos e ela poderia enlouquecer.

Cresci recebendo suas rezas. Eu e toda uma infinidade de gente da região, que também a tomava por avó, madrinha de coração, madrinha de fogueira. Concentrava-me naqueles seus transes: ela, de olhos semicerrados, balbuciava palavras mágicas em orações que falavam de anjos; arcanjos; da Virgem Maria, na beira do Rio Jordão, com um livro de ouro na mão; noutras, exortava São Bento, São Jorge, São Benedito e um exército de almas vaqueiras... Eram orações fortes que, ao final, deixavam vovó cansada e os galhos de pinhão completamente murchos, sinais de que eu estava impregnado de coisas ruins; mas depois, liberto.

Contava uns oito ou nove anos, quando, certo dia, amanheci febril, sem coragem, com gânglios inchados na região direita das virilhas. Minha mãe fechou o diagnóstico: eram ínguas.

- Vá lá em madrinha Ritinha pra ela rezar.
Fui para a casa de vovó, recebi sua bênção e contei meu problema. Vovó, como uma espécie de médica, foi até o fogão à lenha e tratou de pegar uma peixeira que lá descansava.
- Chegue aqui, meu fi, pro terreiro. Vou cortar as danadas dessas ínguas.
Eu arregalei os olhos. Não supus que vovó estivesse de brincadeira, porque não era do seu feitio.
- Oxe, vovó, e a senhora vai arrancar de faca?
Seu rosto desenhou um sorriso discreto, ao que ela me tranquilizou, em seguida:
- Vou cortar de faca, meu neto, mas não vou derramar uma gota de seu sangue. Não se preocupe. Qual o lado das ínguas?
Indiquei que eram do lado direito. Vovó se acocorou no chão, tomou o meu pé direito e descalço, circundando-o com a ponta da faca, a fim de desenhá-lo na terra batida. Pediu-me que retirasse o pé e passou a fazer cortes no desenho, enquanto proferia baixinho uma ladainha secreta. Estava curado. Depois tomávamos café com bolacha de sete-capas e conversávamos. Pedi por várias vezes que vovó me ensinasse algumas daquelas orações. Gostaria de ser detentor também daqueles miraculosos poderes. Ela ria-se:
- Meu fi, não queira aprender não. Você não vai ter sossego. A gente não pode se negar a quem vem pedir uma reza. Mas chega uma hora que a gente cansa.
- Mas eu quero aprender mesmo assim, vovó.
- Um dia eu ensino…

Uma doença pulmonar veio fragilizar ainda mais a sua saúde. Em determinada altura de sua vida, parou de rezar em quem lhe procurasse. Após sofrer meses, entre idas e vindas ao hospital, ela finalmente se encantou, em maio de 1997.

Antes de morrer, vovó pediu que se cumprisse sua última vontade: não a sepultassem em um caixão. Era da terra e queria ser da terra após cumprir sua missão. Seu desejo foi cumprido. Em chão limpo, do pó ao pó, vovó afirmava naquele gesto que da vida nada levamos além de quem fomos.

Às vezes, quando menos espero, encontro vovó Ritinha em sonhos. Neles, ela continua a me tirar quebrantos, a me fortalecer e me curar. Esta semana, senti seu perfume pelo corredor de casa. Há certos dias em que sinto sua presença. Não tenho dúvidas de que continua a me proteger.

Ela partiu sem me ensinar todos os seus encantos, mas me deixou como legado uma única poderosa oração, com a qual me armo todos os dias antes de sair de casa. Sinto uma vigorosa saudade de seu carinho e de sua simplicidade.

Hérlon Fernandes Gomes

quinta-feira, 22 de abril de 2021

TÚNEL DO TEMPO - OS HÁBEIS

Sabe o que vai tocar hoje no Brejo Santo União Clube? Os Hábeis, o melhor da jovem guarda e do iê-iê-iê. Eles não são Renato e seus Blue Caps, mas são Incríveis!

A banda marcou sucesso. Segundo me disse Paulo Gondim, num café virtual, os garotos iniciaram os ensaios na casa velha da Nascença, perto do engenho; chegou a vê-los ensaiar e assistiu a uma apresentação, no Cine Paroquial. Eles também fizeram a trilha sonora da Rua do Juá, pois lá também se reuniam em ensaios, conforme me confessou Bôsco Monteiro.

O primeiro da fila, dos que estão em pé, é Geraldim de Porteiras; o segundo é Zé de Helena; o terceiro é Xavier; o quarto é Chagas de Barbalha; sentados estão Geraldo Alvino e Luizinho, seu irmão.

Falta na fotografia Juvenal, que não era Roberto Carlos, mas era papo-firme!

Alguns já partiram.

A memória musical entrega saudade a quem construiu recordações afetivas na história e na alma de muita gente.

Agradeço também aos meus pais, Sebastião e Tôta, meus oráculos do passado brejo-santense, que se lembram comigo de coisas que não vi.



domingo, 21 de março de 2021

O GINÁSIO PADRE ABATH

Professor Júlio Macêdo Costa, ao centro,
entre as professoras Marizinha e Neuzelide Pinheiro.
Turma de 1957.

Brejo Santo teve e tem grandes titãs no meio educacional, que deixaram um legado imensurável ao povo, porque suas sementes frutificaram ao longo das décadas, logrando ao Brejo essa vaidade de poder ver seus filhos formados, bem educados, letrados.

No ano de 1957, foi implantado o Ginásio Padre Abath, onde hoje funciona polo da Universidade Federal do Cariri. Fundado pelo  Professor Júlio Macêdo  Costa, padre Tibúrcio Alves Grangeiro e Valmir Alves, o empreendimento trouxe muito orgulho para nossa gente e foi pilar de toda uma geração. Nas palavras de Paulo Gondim, ex-aluno, "o Ginásio Padre Abath ficou na história de Brejo Santo, com seus desfiles nas datas festivas, cujos alunos se orgulhavam de vestir o uniforme cáqui, para os homens, e as mulheres com saias azuis, com duas listras horizontais e blusa branca. O mesmo uniforme foi levado para o Ginásio Estadual Balbina Viana Arrais. O tempo passou e o Professor Macedo não está mais entre nós, mas com certeza, será sempre lembrado por sua iniciativa revolucionária na educação de Brejo Santo."

O Ginásio Padre Abath formou alunos e também professores, que multiplicavam o conhecimento.

O professor Macêdo era rigoroso na disciplina e lecionava principalmente matérias de linguagem ou humanas. Naquela época, a língua estrangeira adotada era o francês, da qual o professor era um exímio mestre.  Curioso lembrar que o saudoso mestre era seminarista, mas largou a vocação porque se apaixonou por uma de suas alunas, Iêda, que também era sobrinha. Viveram uma linda história de amor, com o sonho realizado de conhecerem Paris.

O Ginásio Padre Abath foi embrião da Escola de 1º e 2º Graus Balbina Viana Arrais, onde o professor seguiu com longa e brilhante carreira como diretor. Na administração pública, ocupou cargos de secretário de educação e cultura na década de 90. Deixou um livro de memórias, intitulado Missão Cumprida.

A praça da Universidade Federal do Cariri, campus Brejo, leva seu nome, assim como o Núcleo de Arte e Educação.

Na fotografia, daquele início, vê-se o inesquecível professor Macêdo, ladeado da elegante professora Neuzelide Pinheiro e da professora Marizinha. Peço ajuda para legendar a foto e reconhecer os demais. Com a ajuda de minha mãe e de vocês, caros leitores, identificamos alguns, como Marineusa Santana, Erivaldo Santana, Bernadete, Iêda, Marli Feijó, meu tio Lucena Fernandes. Peço ajuda da comunidade para completarmos a legenda.

Hérlon Fernandes Gomes


sábado, 6 de março de 2021

MARIA ALACOQUE E A RUA DA BEATA

Tenho para mim que a Rua da Beata levava este nome, porque era lá que morava Maria Alacoque, a beata mais temida da criançada.

Morena grande, óculos grossos, cabelo bem arrumado, saião comprido, banhada de muito perfume de alfazema, era ela uma das responsáveis pela catequese da criançada, com estrita ordem e sem piedade para utilizar a dolorida palmatória. Muitos que se lembram dela ainda sentem arrepios na espinha, porque aluno de Maria Alacoque precisava saber uma grande lista de orações, histórias bíblicas e rezar bonito o ato de contrição… Quem se desse mal no dia do argumento, ou se desviasse de sua atenção, sentiria o couro da mão esquentar!

Era Maria Alacoque a responsável por realizar a lapinha, no Natal, pintando e arrumando a criançada para festejar o nascimento do menino Jesus. Eram caboclinhos, anjos, o sol, a lua, pastores, encarnados nesses personagens fantásticos. Era um lindo espetáculo teatral, simples, com palhas de coco, muito papel crepom, música e fogos de artifício.

Na igreja, sua voz no coro era a mais estridente e a meninada mangava escondido daquele seu jeito exagerado de cantar. Era uma vingança pueril pelos tormentos sofridos na palmatória da ranzinza, mas ordeira catequista.

Hérlon Fernandes Gomes


FOTOGRAFIA: PADRE LUIZ ANTÔNIO DOS SANTOS, VIGÁRIO COOPERADOR DE BREJO SANTO (1949-1951). AO LADO DO PÁROCO, VÊ-SE MARIA ALACOQUE, DE MÃOS POSTAS. QUEM SABERIA IDENTIFICAR AS DEMAIS?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A CHEGADA DE CHICO CHICOTE AO SEMINÁRIO

O Major Francisco Chicote, respeitado pela comunidade inteira por sua patente, sua moral, seu fino trato e concórdia, desgostava daquela aversão do filho caçula às letras, aos estudos; temia aquele espírito indomável em sempre querer impor as próprias vontades a tudo. É bem verdade que o rapazinho não era preguiçoso. Realmente nascera para tratar da brutalidade da terra, dos bichos, desses negócios. Encaminhara o menino ao Seminário por insistência de Donina, apegada à crença de que a fé nos ensinamentos cristãos abrandassem aquele temperamento inconsequente. Anos antes, encaminhara Quinco, um dos filhos, que de lá retornou com refinamento de educação, até arranhando o francês.

Até determinado ponto da estrada, já se podia divisar de longe, pequenino, no alto de um morro, uma imponente construção toda murada, parecendo até um castelo das histórias de Camongi, ouvidas tantas noites em Brejo dos Santos pelo menino.

- Ali está o Seminário, meu filho. Sua casa, a partir de hoje, por um bom tempo!

O pai aconselhava-o, ressaltando a necessidade de evoluir nos estudos e melhorar a disciplina, com o pensamento em Deus. Isso faria dele um grande homem.

O menino, já um rapazinho de quatorze anos, insistia que não queria ser padre. Poderia ficar no Brejo e retomar as aulas com o professor Krebs; prometia também ir à missa mais vezes, como sonhava a mãe. O velho major respondeu àquelas promessas somente com um olhar sisudo, demonstrando que não se tratava de negociação, mas de imposição.

Alunos da Quarta Fase. 1893. Chico Chicote é um desses alunos. Não conseguimos identificá-lo. Acreditamos que seja o único registro fotográfico existente, retirado do Álbum do Seminário do Crato. 1893. Dentre seus colegas, temos o ilustre Irineu Pinheiro.

Seminário São José - Crato, onde Chico Chicote estudou, em 1893, até ser expulso, depois de entrar em luta corporal, com um colega, armado de um canivete.


De perto, o Seminário São José parecia ter a grandiosidade de uma das pirâmides do Egito, pensou Chiquinho, que um dia se admirara ao descobrir as gigantes de Gizé, nas gravuras de um livro amarelado de História Geral, do professor particular.

O primeiro portão abria um corredor ladeado por dois imensos canteiros separados por pequenos muros intercalados, onde finalmente, uma segunda e suntuosa entrada de três portas e três altas janelas, guardaria um mundo de solidão, amizade e violência. Muitos anos mais tarde, na cela de uma cadeia, ele lembraria que estivera mais preso e mais vulnerável naquele “ambiente de santidade”, do que pelas grades de um crime.

O ambiente interno, pesado de silêncios, funcionava como um relógio de parede, cheio de atividades sem graça e rotineiras. O tempo era uma eternidade de demora. Sentia-se como um pássaro na gaiola. Precisava de licença para tudo, até para conversar – aliás, cochichar.

Fingia que rezava, que cantava, que sabia acompanhar o latim. Um dia fora descoberto e denunciado por Horácio, um seminarista bajulador do professor Aristarco, o terror do Seminário. Foram suas primeiras, longas e dolorosas palmadas.

... Continua

Hérlon Fernandes Gomes - Paiol de Pólvora (romance histórico inédito)

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

CORONEL NÉ ROSENDO DAS PORTEIRAS

Manoel Rosendo Tavares,
o conhecido Cel. Né Rosendo.
Foto: acervo de Napoleão Tavares Neves.


    Quem visita a zona rural de Porteiras, no Cariri cearense, ao chegar a terra encantada do Saco, atual Distrito da comuna, se depara com um paredão de 900 metros de altura e um semicírculo de cerca de 20 quilômetros de comprimento, oito bocas d’água e uma imensidão verde, resistente às mais duras secas.
    A região foi batizada pela própria Chapada do Araripe, que a envolve como em um saco - visto de cima, é como se tivessem comido pela Chapada em uma dentada, formando um “U”.
 
Foto de satélite da Chapada do Araripe, destacando a região do distrito do Saco.
Observa-se o formato da letra "U" ou uma ferradura.
Fonte: Google Earth.

Panorama atual da região do distrito do Saco, em Porteiras.





    Através das memórias escritas por Dr. Napoleão Tavares Neves, neto materno do coronel Né Rosendo (Manoel Tavares Rosendo), proprietário do sítio Saquinho, trazemos relatos surpreendentes sobre as passagens de Lampião e seu bando pela região, a tentativa frustrada de assalto ao casarão do Coronel, por Horácio Novais e o esconderijo para fugir do ataque às Guaribas.
    Em 1926, quando Lampião passou em demanda de Juazeiro pela pequenina vila de Porteiras, foi até a fazenda do Cel. Né Rosendo, ciceroneado pelo intendente e seu vizinho de terras, Franklin Tavares Pinheiro (Cel. Franco Pinheiro), querendo oito animais emprestados, para melhor se apresentar perante o padre Cícero. Naquela ocasião, o Rei do Cangaço disse que devolveria os animais, deixando os seus no cercado da fazenda para descansarem. O Cel. Né Rosendo então mandou seu filho, Rosendo Miranda Tavares, de oito anos de idade, ir juntar os animais que foram trocados pelos de Lampião.
    O garoto, com medo dos cangaceiros escolherem os cavalos de estimação da fazenda, escondeu-os debaixo de uma grande moita de unha de gato e trouxe os burros de cambito do engenho de rapadura que, mesmo assim, eram muito mais vistosos do que os animais magros e cansados dos cangaceiros.

Engenho da fazenda do Cel. Né Rosendo.
    Após a famosa passagem de Lampião e seus quase cinquenta homens por Juazeiro, Lampião deixou os animais para serem devolvidos, em São José do Belmonte, conforme relata João Benito, filho do Cel. Né Rosendo e atual morador do casarão, no sítio Saquinho.
    Outro episódio relacionando o Cel. Né Rosendo e o cangaço, foi a tentativa de assalto à sua fazenda por Horácio Novais.
    Sempre que vinha ao Cariri, o que acontecia com frequência nos anos de 1926 a 1928, o bando de Lampião era engrossado por Horácio Novais ou Horácio Grande, por ser muito alto, que vivia escondido na fazenda Agrestim, arredores de Porteiras, por ter crimes na sua terra natal, Floresta, em Pernambuco. Vale salientar que Horácio Novais chegou a ocupar o cargo de delegado na vila de Porteiras. O mesmo ainda incendiou a fazenda Canoa, também em Porteiras, propriedade do Cel. Franco Pinheiro.
    Certa vez, por volta de 1926, Horácio Novais requisitou quatro cabras a Lampião e cercou, certamente para roubar, a casa grande do sítio Saco, do abastado Cel. Né Rosendo, de Porteiras. Homem pacifista e pacificador. Né Rosendo estava em casa somente com seu filho, Francisco Miranda Tavares, de uns quinze anos e sua cozinheira, Antônia Lúcia.
    Era alta madrugada e o coronel Né Rosendo sentiu que a sua aprazível mansão, de calçadas altas, imponente, no meio do bananal, estava cercada. Ele tinha em casa apenas dois rifles velhos que, ao serem manobrados, faziam um tremendo ruído. Né Rosendo usou uma estratégia que deu certo e saiu ileso do episódio. Manobrava um rifle na porta da frente e Antônia Lúcia o outro na porta da cozinha, de tal maneira que, quem tivesse fora da casa, pensaria estar a mesma guarnecida por homens armados.
    Horácio soltou as vacas de leite no curral no pomar, para atrair o proprietário, em vão! Soltou os bois mansos do engenho no canavial, também em vão! Quando o sol começou a clarear, Horácio Novais e seus homens foram embora, sendo vistos na passagem pela vila de Porteiras.
    Fica uma lição: nem sempre quem vence é a coragem, mas a inteligência prática das pessoas. Esta, sim, é quem decide tudo na vida!

Dr. Napoleão Tavares Neves entre o primo Elói de Sá Sampaio e o tio-irmão
Rosendo Miranda Tavares, o garoto que juntou os animais emprestados a Lampião.
Foto: acervo de Napoleão Tavares Neves.

    Na manhã de 1° de fevereiro de 1927, o coronel Né Rosendo, ouviu tiros na direção do nascente do seu sítio Saquinho, bem na raiz da Chapada do Araripe, distante uns quatro quilômetros de Guaribas, terras do Cel. Chico Chicote (Francisco Pereira de Lucena).
    Pensando em tratar-se de choque armado entre Lampião, esperado no Cariri, e as forças volantes, que andavam no seu encalço, Né Rosendo refugiou-se com a família na gruta do sopé da serra do sítio, chamada Casa de Pedra. Ali ficou aguardando os acontecimentos, pois ninguém sabia quem era pior: se Lampião ou se a polícia do Ten. José Gonçalves Bezerra. E os dois juntos, nem se fala!
    Pois bem, o sol subiu e desceu na tarde e o tiroteio prosseguiu! O que seria aquilo? Mandou um positivo descer à casa do sítio para averiguar e lá soube do que acontecia: a tropa do Ten. José Bezerra cercava a casa de Guaribas, do Cel. Chico Chicote, que resistira bravamente 31 horas tiros, até que na tarde do dia dois de fevereiro, sem munição e ferido, foi trucidado pelas forças do governo.

Por Bruno Yacub Sampaio Cabral

Aspecto atual do Casarão do Cel. Né Rosendo, sítio Saquinho, distrito do Saco, Porteiras-CE.




Os pesquisadores Hérlon Fernandes e Bruno Yacub
ao lado do filho do Cel. Né Rosendo, o senhor João Benito,
atual morador do Casarão.

Fonte bibliográfica:
-Entrevista com o Sr. João Benito Caldas Tavares, filho do Cel. Né Rosendo, em 09 de dezembro de 2020.
- NEVES, Napoleão Tavares; Cariri – Cangaço, Coiteiros e Adjacentes, Crônicas Cangaceiras; Editora Thesaurus; Brasília – DF, 2009.
- O médico que conta histórias - disponível em < https://caririrevista.com.br/o-medico-que-conta-historias/ > Acesso em 15 de dezembro de 2020.
- SANTOS, Cícero Joaquim dos; Passado Alumiado: Representações históricas de Porteiras; IMOPEC; Fortaleza – CE; 2011.

sábado, 5 de dezembro de 2020

CONFLITO ENTRE O BREJO E AS PORTEIRAS EM 1915 - TERCEIRA PARTE


Serra do Araripe, Porteiras - CE.
Foto: Raony Pinheiro.

As notícias do conflito armado entre o Brejo e as Porteiras chegariam até o distante território do Acre, conforme Rodolfo Teófilo escreveu no jornal "O Município", em 10 de outubro de 1915:

Ceará - O incêndio de Porteiras

 

(...) A zona do Cariri pode-se considerar um Estado dentro do Estado. Agora mesmo a vila de Porteiras, situada no extremo sul, teve sorte quase iguala de a Aurora.


O coronel Raimundo Cardoso, chefe político do tempo de Acioly, político militante hoje, Intendente municipal, por razões particulares, viu suas propriedades incendiadas e saqueadas!

 

Chegava para Cardoso à justiça fatal, ou um dia depois do outro, a falada espada de dois gumes. Ele havia colaborado no código sertanejo, em que não há força do direito, porém o direito da força.

 

As questões eram decididas não pelos tribunais, porém, pelo bacamarte.

 

Quem mais fuzis tivesse mais razão teria.

 

Os bandidos não se limitaram a incendiar e a saquear as propriedades do inimigo. Atacados da loucura da destruição, do roubo, espalharam-se pela vila e nem as repartições públicas, estaduais e federais, foram respeitadas.

 

O comércio foi saqueado e as casas de famílias foram roubadas!

 

A agência do correio foi atacada e incendiado o arquivo. As coletorias tiveram igual sorte, queimaram todos os papéis. A Câmara Municipal foi a última repartição que foi atacada. Minutos depois, era o seu arquivo, com todos os livros e documentos, presa em chamas!

 

Nada mais havendo a incendiar, profanaram a Matriz. Entraram e, sem o menor respeito, não achando alfaias de valor para roubar, queimaram o missal!

 

O fato da profanação da Igreja é bastante para avaliar a casta de tal gente (...)"

 

Da tribuna do Congresso Nacional, o Deputado Federal pelo Ceará, Manuel Moreira Rocha, na Sessão de 21 de junho de 1915, apresenta um telegrama recebido pelo ex-deputado da bancada do Ceará, Thomaz Cavalcanti e enviado em 18 de junho, pelo Presidente do Estado, Benjamim Barroso:

 

"Fortaleza, 18 (oficial). Acabo de receber informação oficial de que os atacantes da vila de Porteiras saquearam-na, incendiando todas as propriedades do coronel Raimundo Cardoso. Saquearam também o comércio e casas particulares, roubaram animais, incendiaram todo o arquivo da agência dos Correios, da Coletoria, da Câmara Municipal e o Missal da Igreja.

 

Espancaram pobres moradores indefesos.

 

Esses cangaceiros, em grande número, após os crimes praticados, entrincheiraram-se na fazenda Brejo das Guaribas. Correm boatos de que se preparam esses criminosos para atacar e saquear a cidade de Jardim.

 

O comércio de toda a zona do Cariri está muito alarmado com as ameaças desse bando tão perigoso. Acredito que as providencias por mim indicadas ao Governo Federal de ter para na cidade de Crato, provisoriamente, uma unidade do Exército serão medida de prudência eficaz para evitar, enquanto estão em começo, lutas sangrentas, semelhantes as do Contestado. Devo cientificar-vos que estou informado de que são inspiradores desse movimento inimigos políticos do Governo Estadual.

 

Essa prática de banditismo, saque, incêndio e assassinato que nos governos passados eram tolerados, que geraram o banditismo ali, com prejuízo das garantias constitucionais, constantemente reclamadas, não deve continuar. A polícia está armada apenas com duzentas carabinas Mauser, com pouca munição e quatrocentos rifles. Bandidos dispõem de armas tomadas à polícia na última revolução.

 

De novo, peço providencias ao Governo, lembrando as vantagens da parada de força do Exército no Crato.

 

Benjamim Barroso, Presidente do Estado."

 

Ainda no jornal "O Paiz", agora na edição do dia 23 de junho de 1915:

 

"Política no Ceará

 

Sobre os últimos sucessos ocorridos na vila de Porteiras, o senador Francisco Sá recebeu os seguintes telegramas:

 

"Fortaleza, 20. Desminta informações interferência Juazeiro questão chefes situacionistas de Porteiras e Brejo dos Santos, localidades distantes 15 léguas entre si.

 

Povo de Juazeiro, conforme tenho solicitado, suplica Governo Federal trabalhos, a fim de poder atravessar fase calamitosa seca.

 

Situacionistas criaram dificuldades, procurando sair delas com exploração meu nome, apesar estar aqui há dois meses. Eis verdade - Floro Bartolomeu."

 

"Fortaleza. 21 - Incêndio Porteiras coisa fantástica, briga entre só entre Raimundo Cardoso, Intendente governista, e sobrinhos, motivos privados. Benjamim Barroso e Thomaz Cavalcanti, tudo aproveitando intuito induzirem Presidente República aprovar seus desmandos, figuram conflagração. Benjamim Barroso enviou tropas, munições interior, procurando envolver influências Juazeiro, que, como muitas outras localidades sertão flageladas seca, está quase despovoado. Aliás, mesmas influências são indiferentes essa luta família - João Brígido."

 

O Governador do Estado, Benjamim Liberato Barroso, eleito em 1914, após a Sedição de Juazeiro, tendo como vice o padre Cícero Romão Batista; compreendia que a vida normal dos povoados caririenses repousava na paz armada, que havia ali rivalidades sangrentas entre localidades, que naquela região campeavam a ignorância, o fetichismo religioso e o político e a falta de justiça e que a responsabilidade de um cidadão estava na ordem direta do número de cangaceiros a seu serviço.


Não há dúvidas de que o Cel. Benjamim fora envolvido por informações falsas, uma vez que a deposição, à bala, de Raimundo Cardoso resultara de antiga rivalidade entre os habitantes de Brejo dos Santos e Porteiras, motivada pela criação da Freguesia (Paróquia) no ex-Brejo da Barbosa e agravada progressivamente por conflitos políticos locais e que terminou num autentico movimento de massa contra aquele potentado chefe sertanejo.

 

Após esses acontecimentos, o Governo Estadual organizou uma expedição militar com o fim de dar combate sem trégua ao banditismo, para cujo comando foi escolhido o coronel Ernesto Ramos de Medeiros, seu amigo, filho de Icó, conhecedor da hinterlândia e comandante da 2ª Companhia do Batalhão de Infantaria do Estado, conforme mostra a publicação “Mensagem Dirigida à Assembleia Legislativa do Ceará”, em 1° de julho de 1916, pelo governador coronel Benjamin Liberato Barroso: 

 

EXPEDIÇÃO MILITAR 

 

“Vem de longe em Porteiras uma desavença entre pessoas de famílias entrelaçadas por parentesco, luta que já havia tocado a atos de grandes selvagerias, desde a morte até incêndio de propriedades. Cumpria aos prejudicados buscarem nos meios legais o desafogo para os seus prejuízos. Entretanto, assim não aconteceu por não entenderem os contendores que pertenciam às famílias dos Cardosos e Lucenas, estes últimos vulgarmente conhecidos como Chicotes, residentes ambas em Porteiras e Brejo dos Santos. 

 

Tive informações que se armavam. 

 

De parte a parte me telegrafam, pedindo garantias, dizendo-se ameaçados pelos seus desafetos em vida e propriedade. 

 

Determinei a ida de dois destacamentos de dez praças, sob comando de oficiais, uma para Porteiras, outro para Brejo dos Santos, com ordem expressa de defender os que fossem atacados. Desta sorte julguei poder evitar o choque. Informado posteriormente pelos comandantes dos destacamentos que os Chicotes dispunham de mais de 300 homens armados, muitos dos quais foram fornecimentos por chefes de outros Municípios e ameaçavam os Cardosos, mandei reforçar a defesa destes. Apesar disso, aqueles fizeram o ataque premeditado, sendo repelido o destacamento de proteção. 

 

Este fato, rodeado de circunstancias interessantes, constantes dos telegramas trocados, determinou a interdição militar, comandada pelo tenente-coronel Ernesto Ramos de Medeiros, comandante do 2° Corpo de Polícia. Sua ação prudente, bem orientada e enérgica, foi coroada do maior êxito. Depois de restabelecida ordem legal com a reposição das autoridades e processados os principais autores do movimento, exerceu o tenente-coronel Medeiros, de acordo com instruções recebidas, sua autoridade por todo o Cariri, capturando os criminosos que infestam e que eram, em regra, os executores desses e outros desatinos. Foram recolhidos às prisões, mas de 200 criminosos. Desde então, graças á eficácia de uma ação tão inteligente dirigida, sem preocupação de ordem partidária, mas visando simplesmente o bem publico, o Cariri está inteiramente pacificado. Este modo de proceder estendeu-se por todos os pontos em que era preciso estripar o banditismo.” 

 

Ao saber de tal resolução, que fora procedida de enérgicas ações policiais contra grupos de cangaceiros na zona norte do estado, padre Cícero entrou em pânico. Assim, vendo a barba do vizinho arder, valeu-se do senador Pinheiro Machado, explicando o caso de Porteiras e pedindo que intercedesse “perante poderes competentes a fim de evitar tão terríveis planos perseguições políticas movidas Governo este infeliz Estado”. E como não julgasse bastante este apelo, na mesma data (23 de junho) recorreu ao presidente Venceslau Braz, através de longo telegrama, alegando que Juazeiro permanecia em “absoluta paz”, e protestando “contra afirmação Governo Estado acusando população laboriosa este Município de perturbadora ordem”. Eis o telegrama:

 

"Exmo. Presidente da República. Fui informado Presidente do estado pediu V. Ex.ª. força federal estacionar nesta cidade, alegando perturbações ordem esta zona fomentadas pelo Juazeiro. Este município e vizinhos permanecem absoluta paz. Em Porteiras, vila distante cerca 15 léguas, houve luta armada entre Prefeito Municipal e família Chicote, ambos situacionistas. Desavenças exclusivamente locais originaram conflito, aliás, já terminado pela deposição daquele prefeito, sem que para isso houvesse intervenção nenhum elemento contrário ao Governo do Estado, nem se seguindo outras consequências que viessem afetar municípios vizinhos. Perante V. Ex.ª. protesto contra afirmação Governo do Estado acusando população laboriosa este município de perturbadora da ordem. Apelando para o espírito esclarecido e patriótico de V. Ex.ª., confio não consentirá que se levem a efeito planos perseguições contra habitantes esta zona já associada por tremenda crise climatérica. Afetuosas saudações. Padre Cícero Romão Batista, 1° Vice-Presidente do Estado."

 

Depois desse telegrama, irmão gêmeo daqueles disparos alarmistas que antecederam a “revolução”, padre Cícero telegrafou em 27 de junho ao Presidente do Estado, sem aludir, porém, ao que mais o inquietava, ou seja, a possível presença de tropa federal em Crato, que ele, para maior efeito, assoalhava que seria em Juazeiro:

 

"Exmo. coronel Benjamim Barroso, Presidente do Estado. Fortaleza. Ciente informações dadas V. Ex.ª. ter Juazeiro interferido deposição chefe Raimundo Cardoso por questões ordem particular e ter V. Ex.ª. transmitido Rio tão descabidas informações, cumpre-me protestar contra semelhante ato, ponderando que tenho real compreensão minhas responsabilidades e meus atos não permitem tal conceito. Acho solução caso Porteiras pelo retardamento providências oportunas merece segura reflexão a fim não ficar Cariri material e politicamente em piores condições do que se acha. Permita dizer devido maior conhecimento tenho homens e coisas nosso caro Estado que governo. V. Ex.ª. está sendo vítima arriscada orientação política interior. São ponderações de patrício e amigo que só deseja paz e ordem. Povo de Juazeiro, bem como o do sertão, necessita unicamente auxílio definitivo e urgente para não morrer de fome, e não de lutas. Neste sentido já telegrafei poderes República."

 

Por este telegrama e pela anterior efeméride se vê prologarem-se no Governo de Benjamim os métodos violentos de deposições de chefes políticos e intendentes, tão ao sabor da política matuta, desde o começo do século passado.

 

Na ocasião em que o coronel Medeiros aceitava o convite, no Palácio, estava presente o Sr. Antônio Botelho Filho, que ouvia do Governador as seguintes palavras dirigidas aquele militar: “– Você vai ao Cariri e a outras cidades do sertão. Não poupe bandido. Execute-os sumariamente”. 

 

Os expedicionários, cerca de 500 praças, seguiam de trem até Iguatu e daí iam uns a pé e outros a cavalo. Depois de três meses, acantonando em Brejo dos Santos, numa demonstração quase ingênua de força, realizava o coronel Medeiros a pacificação do Cariri. Percorria toda a zona sul do Ceará. Efetuava a prisão de mais de 200 criminosos. Dispersava inúmeros grupos de desordeiros. Apreendia enorme quantidade de armamento. Manoel Celião, delegado do Brejo, foi levado à cadeia e processado. Todos aqueles que tomaram parte no ataque a Porteiras encontraram na fuga o único meio de salvação do cárcere. Restabelecia o princípio da autoridade.

 

Após a verdadeira batida realizada pela força da polícia cearense, aliadas ao Cel. Raimundo Cardoso e em perseguição a cangaceiros que andavam de brida solta na região, houve uma debandada geral de facínoras que fugiam em todas as direções como cobras com medo de chifre queimado.

 

Alguns foram presos, outros conseguiram evadir-se indo refugiar-se em outros estados. Entre os fugitivos estavam Róseo Morais e Jacaré, irmão do cangaceiro Moreno. De carreira iniciada em Brejo dos Santos, os dois bandidos foram parar em Piranhas, Alagoas, onde ficaram sob custódia do Cel. José Gomes Rodrigues, protetor de cangaceiros e chefe político local.


Róseo Morais e Jacaré, com a mão no queixo.
Disponível em < https://www.historiadealagoas.com.br/eu-nao-matei-delmiro-gouveia.html?fbclid=IwAR3lQjl3xo6_SZTBeG1b7e5ubHFiD37nFFp8UtqoHR4jFCatT48GkAj7mUw >
Acesso em: 04 de dezmbro de 2020.


Chefes políticos viam-se obrigados a indicar o esconderijo de bandidos. Assim é que José Inácio, do Barro, ensinava aos expedicionários como poderiam ser presos Ferrugem e Chá Preto, perigosos cangaceiros, que caiam mortos sob as balas punitivas.


Não havia contemplação. A inflexibilidade do Presidente do Estado tornava-se proverbial. Conversava pouco com os oficiais que, destacados, seguiam com destino ao sertão.

 

O tenente Peregrino Montenegro, nomeado delegado especial em Campos Sales, apresentava-se a Benjamim, que lhe recomendava: “Soube que é homem disposto. Liquide todo criminoso nato”. O tenente Peregrino cumpria as ordens à risca. Eliminava os cangaceiros Bimbão, Caxeado, Mané Chiquim e Pedro Paulo.

 

Durante o Governo Benjamim Barroso, nenhum chefe político sertanejo se vangloriava de contar com seu apoio para perseguir o adversário ou fazer periclitar a segurança individual. Até o todo poderoso padre Cícero, então 1° Vice-Presidente do Estado, não contava com os favores e as honras do enérgico Governador.

 

Em 1916, ano em que passava o governo ao Dr. João Tomé de Sabóia e Silva, em mensagem, afirmava Benjamim Barroso que a praga do banditismo havia sido eliminada do Estado e que este estava completamente pacificado.

 

Inegavelmente, o banditismo foi varrido dos sertões. Entretanto, não desapareceu de todo. Aliás, esse método de combater o cangaceirismo era coisa velha; vinha dos tempos de Martiniano de Alencar e Silveira da Mota. É que, tratando-se duma consequência, persistiam as causas.

 

O cabo Galdino, da força expedicionária, violeiro e poeta repentista, cantou nos seguintes versos pessimistas os principais núcleos populacionais daquela zona: 

 

“Brejo é uma ticaca, 

Milagres, curral de fome; 

Porteiras, pau de desgraças, 

No Macapá não tem homem, 

No Jardim só corre lobisomem.” 

 

Sem o disparo dum tiro, o coronel Raimundo Cardoso dos Santos foi reposto no cargo de Intendente de Porteiras. 

 

O Cariri foi pacificado. 

 

O tenente coronel Raimundo Cardoso dos Santos, “O Poderoso Pajé da vila de Porteiras”, assim noticiado pelo jornal “A Noite”, do Rio de Janeiro, faleceu as 19h00min, do dia 11 de outubro de 1917, no Sítio Crioulos, em Barbalha. Era uma quinta-feira.

 

Em Brejo dos Santos, Joaquim Gomes da Silva Basílio, filho do chefe político e ex-Intendente, coronel Basílio Gomes e por ele indicado para assumir o cargo entre 1914 e 1916. Quinzô Basílio, como era conhecido, empenhou-se pessoalmente na contemporização dos ânimos acirrados entre as populações de Brejo dos Santos e Porteiras.

 

Ainda em meados de 1934, Franklin Tavares Pinheiro, conhecido como Cel. Franco Pinheiro, assumiria a Interventoria da vila de Brejo dos Santos, visando ao apaziguamento das famílias porteirenses e brejo-santenses. Ele também já havia sido Intendente de Porteiras em tempos anteriores.


Por Bruno Yacub Sampaio Cabral


O Brejo é Isso!


Esse texto é dedicado ao querido povo de Porteiras, Ceará.

 

Agradecimentos

 

Paróquia Sagrado Coração de Jesus, Brejo Santo – CE; Associação Retratores da Memória de Porteiras (REMOP); ao meu pai, Raimundo Tarcísio Cabral; Hérlon Fernandes Gomes, Ronaldo Lucena Miranda, Djalma Inácio de Lucena, Fernando da Maia Nóbrega, Antônio Marrocos Anselmo Júnior, José Francisco Gomes de Lima, José Roberto Júnior e a página Cariri das Antigas, Raony Pinheiro, padre Francisco Roserlândio de Souza, Cícero Joaquim dos Santos, Maria do Socorro Cardoso Xavier, Edilberto de Freitas Correia Saraiva, Heitor Nicodemos de Lucena, Valmir Alves de Lucena, Chico de Sinésio e o Bar Caldeira do Inferno, Luís Bento de Sousa, Sousa Neto; Ivanildo Silveira, Ângelo Osmiro Barreto e o Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará (GECC); Manoel Severo e o Seminário Cariri Cangaço; Geraldo Antônio de Souza Júnior e o canal do youtube, Cangaçologia.


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