A Munganga Promoção Cultural

A MUNGANGA PROMOÇÃO CULTURAL: O Brejo é Isso!

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

CONFLITO ENTRE O BREJO E AS PORTEIRAS EM 1915 - PRIMEIRA PARTE

    “Mais ou menos em 1915, outro fato repercutiu em todo o Estado, e se passava no Brejo dos Santos. Raimundo Cardoso dos Santos era chefe supremo de Porteiras, então vila. Por isso, ou por aquilo, os chefes de Brejo entenderam de desbancar o homem da Intendência. Hoje, Porteiras pertence a Brejo Santo, mas, naqueles tempos, a rivalidade era grossa.


    O certo é que, certa manhã, Porteiras amanheceu cercada por mais de trezentos homens, bem armados e dispostos para o que desse e viesse. Os atacantes deram os primeiros disparos, no que foram respondidos pelos homens do coronel Raimundo Cardoso dos Santos, tipo do sertanejo que não teme careta.


    O barulhão durou horas. Foi os diabos e, no final das contas, a cidade sitiada, entregou-se com armas e bagagens. Mas a coisa não ficou nisto. Passados dias, chega a Brejo dos Santos um verdadeiro batalhão mandado pelo governo para reintegrar, no posto, o coronel Cardoso. A azáfama foi terrível. Vai, não vai... Finalmente, a coisa serenou e, o homem reassumiu...” (UCHOA, 1954).


    Naquele tempo, Porteiras ainda integrava o território de Jardim, ao qual pertencia, mas logo, no dia 17 de agosto de 1889, veio o diploma provincial de número 2.169 que erigiu o lugarejo em vila, cuja instalação ocorreu nesse mesmo ano, no dia 15 de dezembro e tendo o Cel. Raimundo Cardoso dos Santos, o seu primeiro Intendente e Chefe Político. Estava desmembrado de Jardim a vila de Porteiras, constando como distrito de paz, integrante do seu território, o povoado de Brejo dos Santos.

Fonte:  Almanaque Laemmert; 1897.

    Foi também desse início da década anterior a criação da freguesia de Brejo dos Santos, através da Lei Provincial n° 1.708, de 25 de julho de 1876, sancionada pelo Presidente da Província do Ceará, Francisco de Farias Lemos.

    Com a construção da Capela já iniciada em 1868, através de visita missionária realizada por padre Ibiapina, os moradores do povoado de Brejo dos Santos lançaram a ideia de criação da Freguesia, com aprovação prévia do Vigário da vila de Jardim, padre Joaquim de Sá Barreto, no primeiro semestre de 1875. O referido Pároco, que se fez patrono dos solicitantes, se dirigiu com o apelo por escrito ao Dom Luís Antônio dos Santos, Marquês de Monte Pascoal e primeiro Bispo da Província do Ceará, que se encontrava na cidade de Crato, empenhado na construção do Seminário Diocesano São José.

    Pois bem, o resultado saiu positivo, com a Lei Provincial n° 1.708, de 25 de julho de 1876, sancionada pelo Presidente da Província do Ceará, Francisco de Farias Lemos, criando assim a Freguesia de Brejo dos Santos e lhe traçando os limites territoriais, separando-a das vilas de Jardim e Milagres e inserindo em seu território, o povoado de Porteiras.

    Tal decisão provocou a insatisfação dos habitantes de Porteiras que, alegando ser o tamanho da população e da economia maior do que aquele de Brejo dos Santos, em 1880, iniciaram uma campanha, requerendo da autoridade eclesiástica a transferência da freguesia para Porteiras. Não tendo sido aceita a solicitação, começou a rivalidade entre as duas comunas que levou até o movimento armado, a qual aumentou no primeiro semestre de 1915.

    Jornal Província do Ceará, 1880 – Ineditoriais:

    “Sr. Redator – Peço-lhe que dê publicidade a representação e documento infra que os habitantes desta povoação dirigem á assembleia pedindo que seja transferida para a povoação a sede da freguesia. 

    É notória a conveniência dessa medida, visto que o Brejo dos Santos, sede atual, é um arraial de acanhadas proporções e quase desabitado, enquanto Porteiras é mui populosa, não pela grande concorrência de suas feiras, como pelo número dos seus habitantes. 

    Espera-se, pois que os poderes competentes atendam a tão justa reclamação. 

    O próprio Vigário da Freguesia reconhece a superioridade desta povoação e a necessidade urgente de semelhante medida. 

    Porteiras, 03 de agosto de 1880. 

    Segue representação: 

    Ilmo. E Exmo. Srs. Membros da Assembleia Provincial do Ceará. 

    Os abaixo assinados, proprietários, moradores no distrito de Porteiras, freguesia do Brejo dos Santos, termo e comarca de Jardim, província do Ceará, vem submissos e respeitosamente, requerer a VV. Exs. A transferência da sede desta freguesia para o distrito de Porteiras, onde existe, apesar dos rigores da isoladora seca, porque se acaba de passar, uma crescida população, grande animação no comércio e, em tudo mais, proporções superiores ao Brejo dos Santos. Este distrito, em sua maioria é composto por proprietários abastados, que melhormente podem concorrer para esplendor de sua Igreja ao passo que, o Brejo dos Santos se acha no presente, inteiramente desabitado, principalmente porque o restante do povo que ali existe, acha-se em extrema pobreza, a ponto de não poder absolutamente concorrer para argumento da respectiva Igreja. 

    Os abaixo-assinados confiam que, em vista das razões que acabam de expor, dignar-se-ão V.Exas. concederem-lhes a transferência da sede da referida freguesia do Brejo dos Santos para esta povoação, criando-se assim, uma lei que o autorize, e deste modo, fazendo V.Exas. indefectível justiça aos suplicantes. 

    E. R. M. 

    Seguem diversas assinaturas. 

    Ilmo. Revmo. Sr. Vigário da Freguesia do Brejo dos Santos. 

    Os habitantes do distrito de Porteiras a bem de seu direito, precisam que V. Revma. se digne atestar em fé de Pároco qual o distrito de população mais crescida, e que oferece maiores vantagens e que tem proporções para ser freguesia, se é do Brejo dos Santos, se o de Porteiras, tudo em termos que façam fé. 

    E. R. M. 

    Atesto que a população de Porteiras é superior a do Brejo, por achar-se em sua maior parte disseminada pela aba da serra, sendo que a do Brejo vive em quase sua totalidade na povoação. 

    Atesto mais que o distrito de Porteiras é mais rico que a do Brejo. 

    Brejo dos Santos, 12 de junho de 1880. 

    A pretensão em apreço foi indeferida com base no parecer do então Bispo Diocesano, em notável documento transladado nas memórias do primeiro vigário da nova freguesia, o padre Francisco Lopes Abath: 

    Em no anno de 1880 tentaram os habitantes de Porteiras transferir a sede da freguesia para aquella povoação, porém a Assembleia Legislativa Provincial deixou desfavorável esta petição, em virtude da informação do Exmo. Rvdo. Bispo Diocesano que vai abaixo transcripta. 

    Residência Episcopal do Ceará, 25 de agosto de 1880. Exmo. Sr. Conselheiro André Augusto Fleris. Em ofício de 19 do corrente, solicita V. Excia. o meu parecer sobre a petição dos habitantes de Porteiras, da Freguesia de Brejo dos Santos, dirigida à Assembleia Legislativa Provincial, em que pedem a transferência da sede da dita Freguesia da povoação de Brejo dos Santos, onde se acha, para a de Porteiras. Alegam eles ser o distrito de Porteiras mais populoso e, em sua maioria, de proprietários abastados, ao passo que os habitantes de Brejo acham-se em extrema pobreza, sem poderem concorrer com o aumento da respectiva Igreja. 

    Ao que tenho a honra de responder que o meu parecer é que a sede da dita Freguesia continue a ser na povoação de Brejo dos Santos, como foi designada com a criação da Freguesia. Porque, se os habitantes de Porteiras dizem que o seu distrito tem mais população, o mesmo Pároco atesta que assim é, mas que acha-se ela disseminada pelas abas da serra, ao passo que a de Brejo dos Santos está aglomerada junto à Matriz, formando o povoado do mesmo nome. 

    Quanto ao dizerem que os de Brejo se acham em extrema pobreza, acho ser mais uma razão para se não mudar a sede para Porteiras, cujos habitantes abastados e ricos, como são segundo eles mesmos dizem, estão mais no caso de procurar os socorros espirituais no Brejo dos Santos do que estes que moram em Brejo, que, estando em extrema pobreza, ficarão privados de socorros espirituais, e sem meio de os procurarem, caso seja mudada de sede. 

    Luis, Bispo do Ceará. 

    Brejo dos Santos, 10 de julho de 1880. 

    Está conforme o original 

    Vigário Padre João Casimiro Viana 

    Brejo dos Santos, 1° de julho de 1903. 

    Foi, portanto, em consequência desse conflito bairrista que, em Brejo dos Santos, a rixa política tomou aspecto de movimento de massa.

    Continua.

    Por Bruno Yacub Sampaio Cabral

    O Brejo é Isso!

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A Fonte bibliográfica será apresentada na terceira parte do artigo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

BENONI ANSELMO DE ARAÚJO - O CINE ALVORADA E A MAGIA DA SÉTIMA ARTE EM BREJO SANTO

Encontrei esta fotografia do Cine Brasil, em Porto Velho, que em muito lembra o Cine Alvorada. Foram cinemas contemporâneos. Créditos de colorização da foto de Luís Claro.

Era uma manhã de 1987. Eu devia ter uns seis anos. Como um ritual de domingo, saía da minha casa, logo depois do café, para tomar banho de piscina, no Brejo Santo União Clube. Encontraria meu pai, que acordava muito mais cedo e lá já estava, para nadar com a piscina sem ninguém, pois em breve a meninada a tomaria como um enxame. Na quadra que antecedia o clube, como parte desse ritual, eu me demorava por alguns minutos, parado em frente do prédio abandonado do Cine Alvorada. Chamava-me atenção sua pintura carcomida pelo tempo, seu escombros, sua decadência, em si. Eu sentia pena. A imagem daquele prédio abandonado me prendia misteriosamente. Anos atrás, o teto do cinema desabou, sentenciando a morte daquele lugar, palco de tanta alegria. Através de uma grade empoeirada, pegava-me a inspecioná-lo, na minha curiosidade de menino, até onde a vista alcançasse. Havia um cartaz de King Kong, manchado pela umidade e carcomido pelo tempo; telhas de aranha e cadeiras de madeira quebradas se espalhavam entre poeira e desvãos.

A história do Cine Alvorada está diretamente ligada a Benoni Anselmo de Araújo, o primogênito do casal João Emídio de Araújo e Maria Anselmo de Araújo, nascido na Vila de Brejo dos Santos, em 1923.

Desde muito cedo, notabilizou-se pelo seu amor aos estudos, especialmente pela língua portuguesa e literatura. Conforme declarou seu irmão, Geraldo William de Araújo, Benoni "despertou para a ideologia socialista após ler Os subterrâneos da Liberdade, de Jorge Amado , convertendo-se num assíduo devorador da literatura socialista de Marx, Engels, Antonio Gramsci, Lênin e congêneres." Foi de sua iniciativa, com a amiga Lenira Macedo, a realização de uma campanha para fundação da primeira biblioteca de Brejo Santo, que levava o nome da professora Balbina Viana Arrais.

Viajou pelo Brasil e era apaixonado por cinema. Aquilo era um sonho! Na pacata Brejo Santo, esteve ligado à história cinematográfica dos primeiros cinemas, de curta duração. O advento do Cine Alvorada representou o mais ousado pacto da sociedade civil, naqueles idos dos anos 1960, organizada principalmente por comerciantes fortes e encabeçada por Benoni, que viam naquele projeto moderno, uma grande benfeitoria em prol do lazer e da cultura da gente.

Benoni Anselmo, à esquerda, com amigos, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Provavelmente nos anos 40.

O ano de 1967 foi glorioso para aquele cinema, porque Benoni e o prefeito Emílio Salviano foram até Fortaleza e conseguiram a importante missão de incluir o longínquo Cine Alvorada no circuito nacional de distribuição de filmes. O distante interior brejo-santense estava agora interligado à contemporaneidade, não ficando à mercê das sobras surradas de filmes, destinadas como migalhas aos interioranos e isolados cinemas do Brasil.

Construído nos padrões da Metro Goldwyn Meyer, com fachada em relevo, o imponente lugar era o mais festejado ponto de encontro da sociedade.

As pesadas latas de filme viajavam os cerca de quinhentos quilômetros em uma linha de ônibus, chegavam em sacos de estopa, amarrados e etiquetados. 

Este cinema (Cine Rio Negro) guarda algumas semelhanças com o Cine Alvorada

Quando tocava Theme from a summer place no sistema de megafones espalhados pelo comércio, sabia-se que um filme seria anunciado, na inconfundível voz de Zezinho Moreira. Os ouvidos se preparavam atentos: 

- Hoje à noite, o Cine Alvorada exibe o clássico Casablanca, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. 

Ir ao cinema era uma festa. Arrumava-se e perfumava-se, porque ver um filme tinha status de festa. Antes, já de ingressos comprados, os espectadores aguardavam nas imediações do cinema ou na praça principal, logo à esquina,  onde se esperava o primeiro toque da sirene, ouvido em toda a cidade, anunciando a proximidade da sessão. 

Devidamente sentados naquela “nave espacial”, cada passageiro daquele voo de 204 cadeiras contava ansiosos minutos, para que as cortinas de veludo vermelho se abrissem e as luzes se apagassem. Depois, batidas de um gongo reverberavam. Da sala de projeção, Roque abria a luz do projetor, comandando a mágica viagem. Piloto competente, orgulhava-se de ter sido treinado no majestoso Cine São Luiz, de Fortaleza. Se uma fita quebrava, estava ele a postos para corrigir, no tempo mais breve, aquela turbulência, antes que os espectadores se entediassem. Esses pedaços de fita seriam disputados mais tarde pela meninada mais sortuda, que os guardaria como tesouro caro.

Clássicos, épicos, dramas, faroestes espaguetes, títulos italianos e filmes nacionais da Cinelândia e da pornochanchada davam a tônica do quanto o Cine Alvorada era eclético; mas também, sem dúvida pelo conhecimento aprofundado de Benoni, muitos filmes do hoje chamado gênero “cult” marcaram aquela vasta lista, como por exemplo "O Discreto Charme da Burguesia" (Le Charme Discret de la Bourgeoisie, FRA/1972) de Luis Buñuel e "Os Meninos" (Quien Puede Matar a un Niño?, ESP/1976) de Narciso Ibáñez Serrador. 

Vítima de processo de desprestígio, causado pelo advento da televisão, que pouco a pouco foi se popularizando, o Cine Alvorada entrou em decadência no final dos anos 70, até que, carcomido pelos cupins, seu teto veio abaixo, entre os primeiros anos da década de 80. Do lugar, nem fotografias restaram. 

Em 1995, Benoni nos deixou, após se submeter a uma cirurgia na cabeça. A sociedade brejo-santense sentiu com pesar a morte do seu grande intelectual, respeitado cidadão. É importante lembrar que ele ocupara cargo de vereador, assim como exerceu importantes funções públicas, como tesoureiro e secretário de educação e cultura do município. 

Socorro Araújo e o saudoso crítico de cinema Rubens Ewald Filho.

Em 2000, Socorro Araújo, sobrinha de Benoni e Roque, recordando memórias do cinema de sua infância e adolescência - onde, inclusive, trabalhou na bilheteria - publicou Tão Longe de Rosenheim, uma série de ensaios poéticos sobre filmes de sua vida. Na sua apresentação, ela relembra: “Ainda trago uma recordação muito vívida daquela época: um cartaz de um filme, ‘Caminhando sob a chuva de Primavera’, exposto no pequeno escritório do Cine Alvorada. Aquela imensa fotografia de Ingrid Bergman e Anthony Quinn andando sob uma chuva fina transportava-me para um mundo de fantasias. Aquele cartaz desbotado era meu troféu e meu sonho. Tudo o que me cercava tinha o encanto e o brilho dos filmes de Hollywood. Foi um tempo de noites encantadoras (…) Recordo-me, agora, de Cine Paradiso. Igual a Totó, o garotinho do filme de Giuseppe Tornatore, também tive um Alfredo em minha vida. Meu tio Benoni despertou em mim a verdadeira paixão pelo cinema. Pouco antes de falecer, ele me disse que estava 'voltando a ser menino'. Queria rever os filmes de sua infância e me pediu para conseguir cópias de '13 Rua Madeleine', 'À Noite Sonhamos' e 'Dois Contra uma Cidade Inteira'. Tio Benoni morreu sem conseguir assistir novamente aos filmes de sua juventude. Outro dia, sonhei com ele, de braços dados com Fred Astaire, cantando Cheek to Cheek. Mas foi apenas um sonho. Acho que ele queria me dizer que estava em boa companhia." 

Em 2014, a sala de cinema do Núcleo de Arte e Cultura de Brejo Santo foi batizada com o nome de Benoni Anselmo. 

Neste ano de 2020, Roque, pioneiro piloto da mágica nave dos sonhos felizes, também nos deixou, vítima da COVID-19. 

Roque Anselmo de Araújo

Brejo Santo não teve mais um cinema permanente, porém o Cine Alvorada permanece vivo, porque suas histórias são eternas, pintadas com a tinta da saudade, seladas pelo verniz da poesia. 


Hérlon Fernandes Gomes, 05 de Novembro de 2020 - Porto Velho, Rondônia.


Em memória de Benoni e Roque Anselmo, com preito de gratidão. A família Anselmo de Araújo esteve sempre engajada com tudo o que se dissesse respeito à Sétima Arte no município de Brejo Santo.

Para Geraldo Willian, irmão mais novo de Benoni e Roque, num mar de saudades.

Aos meus pais, Sebastião e Tôta, que sempre me encheram de curiosidades com histórias do Cine Alvorada.

Para Socorro Araújo e Elisabete Martins, que mesmo à distância dividiram comigo maravilhosas lembranças vividas.


domingo, 25 de outubro de 2020

CORONEL SIMPLÍCIO PEREIRA DA SILVA E O MASSACRE DOS INDÍGENAS DA CANABRAVA

A alvorada entre as Serras da Canabrava,
à esquerda, e a do Poço, à direita.
Foto: Gui Vieira/ Plancus Photography.

    Este texto tem como base os relatos contados por Helvécio Neves Feitosa e Venício Feitosa Neves, em A Raposa do Pajeú, págs. 102 a 106, lançado em 2018.

    Cariri é a denominação da principal família de línguas indígenas do sertão do Nordeste do Brasil, estando hoje extinta. Algumas vezes caímos no erro ao afirmar que somente existem familiares de tais nativos na região, mas isto não é correto, pois viviam aqui tribos Gê, Tupi, Fulniõ, Taraririú, Caraíba, Quixeréu, Cariú, Cariuané, Calabaça, Icozinho e outras mais. Na maioria das vezes esses grupos entravam em conflitos entre si. Historicamente, os grupos indígenas da região aparecem denominados de modo genérico como Tapuias, podendo ser vinculados ao tronco linguístico Macro-Jê. Não podemos esquecer que estes indígenas eram nômades, estando situados nos melhores sítios, nos lugares mais férteis, e ficavam até o momento em que era favorável para sua sobrevivência. 

    Segundo Thomaz Pompeu Sobrinho, os povos originários conhecidos por Cariris, chegaram ao sul do Ceará entre os séculos IX e X, pois diversas tribos dessa nação habitavam uma vasta área entre a margem esquerda do Rio São Francisco e as vertentes das serras do Araripe e da Ibiapaba, esses últimos, lugares de abundância de caça, de pesca e de frutos, além de incontáveis nascentes que proporcionavam água farta. Esses indígenas, como alguns outros povos que primitivamente habitavam a região sul do Ceará, embora se registre serem relativamente hostis, não puderam impor a sua supremacia diante do homem branco usando os óbvios meios de que esse dispunha para enfrentá-los. 

    Apesar do sistema de colonização aplicado no sul do Ceará seguir o padrão utilizado no restante do País, algumas variantes aqui implementadas foram decisivas para que hoje não disponhamos de muita informação sobre esse povo. É que, diferentemente, do que se praticou noutros lugares, aqui, a missão catequética dos capuchinos não dispensava o mesmo rigor de registro que os jesuítas exerciam com perícia. De qualquer forma, a colonização da cruz e da espada adotada pelos portugueses não contemplava a convivência da cultura dos indígenas com a que trouxeram os conquistadores. De fato, todo o esforço despendido visava tão somente apossar-se da terra e ter à sua disposição mão de obra farta e barata. Daí a insatisfação dos indígenas que viram ser extirpados de si todos os seus valores culturais, suas crenças e a própria terra em que viviam desde tempos imemoriais.

    Não diferente de outros autores do século XIX e XX, que se referem aos indígenas somente na “gênese” das sociedades, o momento em que os colonos invadem a região e subjugam os nativos, esses se tornando aldeados, e assim sumindo das páginas da história oficial, ignorando-os, como se eles existissem somente no passado.

    Do outro lado, as dos conquistadores, destacamos o personagem, o Capitão (e depois Tenente-Coronel da Guarda Nacional) Simplício Pereira da Silva, figura lendária no sertão pernambucano. O capitão Simplício, também conhecido entre os desafetos pela alcunha de “Peinha de Mão” (uma referência à sua baixa estatura), participou de todas as lutas importantes da época em que viveu (primeira metade do século XIX), na Ribeira do Pajeú de Flores e no Cariri cearense. Foi o Senhor absoluto de “famosas legendas guerreiras e árbitro da elegância beliciosa de seu tempo”.

    Não há registro de nenhuma rebelião, de nenhuma luta famosa em sua época, da qual o capitão Simplício Pereira não tenha tomado parte, a começar pelas brigas em sua fazenda Cachoeira, com os índios Mináus, Xocós ou Cariris.

    Além do enfrentamento com os indígenas, em lutas de aldeamento e de ocupação de terras, Simplício Pereira entrou firme na política rude de seu tempo. Comandou um bando de cabras do Pajeú, contra o coronel de milícias Joaquim Pinto Madeira, caudilho caririense, protagonista da famosa “Guerra de Pinto Madeira”, conhecido como o homem da Coluna e do Altar, que sonhou, um dia, restaurar D. Pedro I ao trono. Em sua atividade guerreira, o capitão Simplício teve papel decisivo no desencantamento dos fanáticos sebastianistas da Pedra do Reino, em 1838, movimento messiânico. Dez anos depois, voltou a colocar suas invictas táticas guerreiras nas localidades pernambucanas de Flores e na Serra Negra, no combate a Francisco Barbosa Nogueira Paz e seus seguidores, conflito vinculado aos desdobramentos políticos, para o Pajeú de Flores, da Rebelião Praieira, que estava acontecendo em Recife.

    Pois bem, a Serra da Canabrava, hoje se divide entre os distritos do Poço, em Brejo Santo, e da Palestina, em Mauriti, Ceará. Aquelas terras pertenciam ao Comandante Superior da Guarda Nacional da Província do Ceará, Pedro Martins de Oliveira Rocha, neto do capitão Bartolomeu Martins de Morais, pioneiro na ocupação europeia na Ribeira do Riacho dos Porcos. Assim como o avô, Pedro Martins foi poderoso daquelas plagas, possuidor de muitas terras e avantajados haveres. No sertão do Brasil arcaico, era aferida a riqueza do fazendeiro pelo número de cabeças de gado contadas nos rebanhos nos limites da fazenda. 

    PANORAMA ATUAL DA SERRA DA CANABRAVINHA





    Havia na Canabrava, um verdadeiro refúgio para os povos originários restantes e remanescentes de mais de século de perseguição de inúmeros sertanistas, dentre eles, o Cel. Simplício.

    No ano de 1833, uma horda de indígenas fugidos, perambulando pelas estradas, roubava de assalto aos transeuntes, invadindo lares e incendiando os pastos – a preciosa forragem para os animais de uso comum e diário – provocando o pavor no ânimo daquela gente, que vivia naqueles rincões ermos, totalmente desprevenidos de defesa.

    Praticantes do canibalismo, trucidavam os vaqueiros quando da lide costumeira de sol a sol, não poupando caçadores de uruçús, preás e mocós, pobres e inermes, que lutavam pela preservação da vida. Estes indígenas agrilhoavam os infelizes vaqueiros e caçadores em cipós de absoluta consistência, verdadeiras cordas de resistência, dos pés a cabeça, fazendo-os aprisionados em estado de absoluta imobilidade. Após o aprisionamento selvagem, colocavam-nos em jiraus ou muquéns e ateavam fogo sob o corpo das vítimas, que eram consumidas em chamas vorazes e aterradoras, em macabro festival antropofágico. A seguir, saciados de vingança, transformaram o crânio das vítimas em taças de liberações estonteantes, preparadas previamente. 

    “Crescia vertiginosamente, dia a dia, o número de suplicantes, alastrando-se, sertão afora, as notícias repugnantes do reduto de índios sedentos de sangue e fautores de tanta desumanidade e desonra.” COSTA, F.A. Pereira da. Anais pernambucanos. 1795-1817. Recife: Arquivo Público estadual, v.7, 1987.

    A numerosa família Pereira, sendo atingida por aqueles danos, tendo a aldeia aprisionado vaqueiros, causando-lhes morte imediata, organizou uma bandeira composta de homens escolhidos para rechaçar o núcleo sinistro, causador de tantas mortes.

    O grupo bem municiado dirigiu-se com as precauções necessárias contra tocaias em caminhos inacessíveis, para o local de homizio da aldeia sedenta de sangue. O assédio foi completo.

    O ódio dos parentes das vítimas estava sequioso por vingança; “o despeito chegara ao último lance da tolerância: era necessário, indispensável, agir; impunha-se aquele extermínio”.

    Ao grupo dos Pereiras, num apelo à coesão humana e à sobrevivência, veio se unir uma turba de homens armados, para investir contra o habitat dos indígenas, pactuados com o demônio, como era voz corrente.

    “Travou-se luta formidanda e encarniçada”, afirmou Abelardo Parreira, em Sertanejos e Cangaceiros, 1934.

    Os indígenas foram sitiados por todos os lados, e sem o recurso supremo da fuga, exaustos da resistência que opuseram improficuamente, desiguais em armas, foram derrotados, sendo imediatamente trucidados, não escapando as próprias indígenas.

    Os audaciosos invasores, engalfinhados na luta corporal, embora com armas desiguais, não saíram imunes de perdas e ferimentos. Numa das investidas à arma de calibre contra os caboclos-brabos, o fazendeiro Manoel Gomes Pereira foi alvejado por uma flecha, sendo imediatamente retirado do local numa tipóia, para longe do teatro dos acontecimentos. Restabeleceu-se completamente depois. 

    As crianças e menores, filhos dos indígenas, seriam poupados: havia uma espécie de convenio tácito entre os sertanejos a este respeito. Os caboclinhos ou indígenas novos, vendo o cerco em que se achavam envolvidos e ouvindo o estertor dos mortos, não dispondo de meios de defesa dos seus, começaram a morder os inimigos e a imprecar desesperada e ferozmente, gritando de modo tão insólito que, por sua vez, foram rechaçados e aprisionados depois de resistência demorada e febril.

    Os pequenos indígenas, de nenhum modo se acomodaram à prisão, procurando, mesmo na condição de prisioneiros, molestar com pauladas e pedradas os inimigos. Estes, por mais que envidassem esforços para contê-los, já estavam exaustos, meio reduzidos à inação e desiludidos de amainar a fúria selvagem. Resolveram, então, não os poupar à carnificina.

    O Brejo é Isso!

    Por Bruno Yacub Sampaio Cabral

    Leia também: 



    REFERÊNCIAS:

    FEITOSA, Helvécio Neves; e NEVES, Venício Feitosa; A Raposa do Pajeú; Expressão Gráfica e Editora; Fortaleza; 2018.

    FILHO, J. de Figueiredo; História do Cariri; Volume 1; Coleção Estudos e Pesquisas; Faculdade de Filosofia do Crato; 1966.

    LORENA, Luiz; Serra Talhada 250 anos de História e 150 anos de Emancipação Política; 2ª edição; Desafio Arte e Gráfica; Serra Talhada; 2019.

    MACÊDO, Heitor Feitosa; Sertões do Nordeste I Inhamuns e Cariris Novos; A Província Edições; Crato; 2015.

    BATISTA, Célio Augusto Alves, e GUIMARÃES, Halley; Breve História dos Municípios do Cariri Cearense: Fatos e Dados; Inesp; Fortaleza; 2020. 

    JÚNIOR, Ferreira; A macheza na sociedade sertaneja serra-talhadense: Origem, elementos constituintes e justificadores; Anais Eletrônicos do VI Colóquio De História - Issn 2176-9060.

    SÁ, Giovanni Alves Duarte de; Compreendendo a construção de um ethos de poder familiar: o caso da oligarquia Pereira no interior de Pernambuco; Revista NEP - Núcleo de Estudos Paranaenses, Curitiba, v. 5, n. 2, dez. 2019 Dossiê Oligarquias do Nordeste no Brasil ISSN: 2447-5548.

    ALEXANDRE, Caio Victor Semião; História do Cariri: um olhar sobre os indígenas da região, na obra de J. de Figueiredo Filho; Especialização em História do Brasil; Universidade Regional do Cariri; Crato; 2018.

    LIMA, Francisco Augusto de Araújo; Siará Grande- Uma Província Portuguesa no Nordeste Oriental do Brasil; volume II página 652. - volume I pagina 313-Volume I, pagina 387 - volume IV pagina 1925-volume IV pagina 2111; Editora Premius; Fortaleza; 2001.

    PARREIRA, Abelardo; Sertanejos e Cangaceiros; Editora Paulista; São Paulo; 1934.

    COSTA, F.A. Pereira da. Anais pernambucanos. 1795-1817. Recife: Arquivo Público estadual, v.7, 1987.

    https://amunganga.blogspot.com/2020/03/coronel-simplicio-pereira-da-silva-um.html - acessado em 24.10.2020, às 18h10min.

    https://familiapereira.net.br/a-raposa-do-pajeu/ - acessado em 19.10.2020, às 19h48min.

    http://araujo.eti.br/descend.asp?numPessoa=4341&dir=genxdir/ - acessado em 19.10.2020, às 18h54min.

    http://mauritiemdestaque.blogspot.com/2015/04/pe-da-serra-da-canabrava-no-distrito-de.html - acessado em 24.10.2020, às 16h32min.

sábado, 12 de setembro de 2020

CORONEL DOMINGOS LEITE FURTADO


Cel. Domingos Leite Furtado
Coronel Domingos Leite Furtado.
    
      Segundo informações de Francisco Augusto de Araújo Lima em seu livro - Famílias Cearenses Um - Domingos Leite Furtado é filho de João Furtado Leite (Janjote) e Francisca das Chagas do Nascimento. Sucedeu a seu pai, como patriarca da família que lhe rendia cega obediência. Nasceu no ano de 1842, no Sítio Coité, atualmente distrito de Mauriti, residindo posteriormente em Taboca, próximo de Milagres, no sítio Olho D’água e por fim, em Nazaré, ao qual seu corpo está sepultado junto à sua esposa na capelinha de Nossa Senhora dos Remédios, padroeira de sua devoção.

    O coronel Domingos Leite Furtado, foi pertencente ao malfadado grupo do coronelismo sul cearense, a época da política dos governadores, irradiando seu prestígio nos Estados vizinhos. Foram seus aliados os coronéis: José Belém de Figueiredo, chefe do Crato; Antônio Joaquim de Santana, de Missão Velha; Joca de Macêdo, de Barbalha; coronel Rocha, de Jardim; Benedito Queiroga, de Pombal e; Zuza Lacerda e Antônio Brabo, ambos de Piancó.

    Fez grande fortuna e dominou  a vila de Milagres enquanto viveu. Implantou um verdadeiro regime de terror, que durou 30 anos, apoiado em parte, em uma parcela da sua parentela. Faleceu de gripe espanhola, no dia 27 de outubro de 1918, no sítio Nazaré.

TERMOS DE ÓBITO DE DOMINGOS LEITE FURTADO

Jornal do Recife (PE); 17.11.1918.
 
    Primeiro Termo de Óbito:
    “Aos vinte e sete de outubro de 1918, faleceu na Freguesia de Milagres, Bispado do Crato, Domingos Leite Furtado, com setenta e seis anos, casado que foi com Praxedes Furtado de Lacerda. Seu cadáver envolto em hábito preto foi solenemente encomendado por mim. Para constar mandei lavrar este termo que assino. O vigário Plácido Alves de Oliveira.”

    Segundo Termo de Óbito:
    “Aos vinte e sete de outubro de 1918, no sítio Nazaré faleceu de gripe pulmonar, às quatro horas da manhã, Domingos Leite Furtado, com setenta e seis anos de idade, casado que foi com Praxedes Furtado de Maria de Lacerda. Seu cadáver envolto em hábito preto, depois de solenemente encomendado por mim, foi sepultado na Capela do referido Sítio. Para constar, mandei fazer este assento que assino. O vigário Plácido Alves de Oliveira."

Dona Praxedes Furtado Lacerda.
Fonte: Memória Milagrense

   O coronel Domingos Leite casou-se com Praxedes Furtado Lacerda ou Praxedes Maria Furtado de Lacerda, esta nascida em 20 de abril de 1848, em Mauriti, filha de Pedro Furtado Leite (Pepedro), e sua segunda esposa, Maria Cavalcante de Lacerda. Eles não tiveram filhos, mas adotaram um sobrinho de Dona Praxedes, chamado Pedro Furtado de Lacerda (Pedro Velinho). Pedro foi casado com Antônia de Jesus Conceição Cunha, nascida em Milagres e filha de Manoel de Jesus da Conceição Cunha. Domingos e Praxedes residiam no sítio Nazaré “comprado” a João Leite de Morais, que se retirou obrigado com os três netos, filhos da sua única filha, Argina Juscelina Leite de Morais, viúva, para a Quixabinha, hoje no município de Mauriti.

    O professor Carlos César Pereira de Sousa nos informa em seu trabalho - Milagres: Nossa Terra Cariri - que na década de 1880, Domingos Leite Furtado já era o patriarca da família, e sua carreira política na vida de Milagres estava muito bem encaminhada.  Foi nomeado Delegado da Vila, com o apoio do juiz Joaquim do Couto Cartaxo, até pouco tempo inimigo; e Manoel Jesus da Conceição Cunha, que agora estava por baixo, na política da província do Ceará.

\Jornal Libertador (CE) - 28 de janeiro de 1886.

Capela de Nossa Senhora dos Remédios, no sítio Nazaré, Milagres - CE.
Foto: Roberto Júnior/ Cariri das Antigas.

CONFLITO ENTRE O CEL. DOMINGOS LEITE FURTADO E O CAP. ANTÔNIO LEITE RABELO DA CUNHA

    Ainda citando Carlos Sousa, em - Milagres: Nossa Terra Cariri - o autor nos conta que, para conquistar decisivamente o controle político e econômico sobre Milagres, foi de grande importância o embate político que o coronel Domingos Leite Furtado obteve com o capitão Antônio Leite Rabelo da Cunha entre 1887 e 1889 e do qual saiu vitorioso.

    Antônio Leite Rabelo da Cunha foi casado três vezes, constituindo uma prole de trinta filhos. Foi seminarista, tendo abandonado o seminário dez meses antes da sua ordenação, em virtude do falecimento do seu pai. Após o abandono do seminário, foi convidado para exercer a reitoria do seminário São José, em Crato. Além de suas fazendas localizadas em Rosário, Olho D’água, em Missão Velha; e Mundés, em Barbalha, adquiriu três propriedades em Brejo Santo: Pitombeira, Garanhuns e Horto, onde se estendia até o Agreste.

    O capitão Antônio Leite pertencia ao partido liberal, do grupo dos Paulas. Sua fazenda localizada no distrito de Podimirim e era conhecida como fazenda Rosário, próspera e produtora de rapadura, aguardente e melaço, essa propriedade despertava a cobiça de outros senhores de terra do vale dos Cariris Novos. O capitão Antônio Leite tinha assim inimigos poderosos e um deles, era o próprio primo, Domingos Leite Furtado.

    O Pároco da vila de Milagres, padre Manoel Rodrigues de Lima, também não nutria simpatias pelo capitão Antônio Leite, que não perdia ocasião de lhe mover campanha difamatória, mesmo no púlpito da Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Milagres.

    Os ânimos políticos em Milagres se acirraram ainda mais após as polêmicas eleitorais de 1885, e depois com a questão da permanência do trabalho escravizado no Município, mesmo após as leis abolicionistas aprovadas, entre 1882 e 1883 no Ceará.

    O juiz Antônio Joaquim do Couto Cartaxo, pressionado pelo Governo Provincial e pela população negra livre e escravizada do vale, se obrigava a executar o cumprimento das Leis Provinciais e gerais em fins de 1886. Anunciou ao Presidente da Província do Ceará, Miguel Calmon du Pin e Almeida, que em 1887, já não haveria mais nenhum escravizado no Município.

    Parece que para garantir o cumprimento da sua palavra, o Juiz ordenou ao então Delegado de Milagres, Domingos Leite Furtado, que desse uma batida na fazenda do capitão Antônio Leite Rabelo da Cunha em busca de escravos, isso ocorreu em 1887.

    O capitão Antônio Leite escreveu para o jornal O Libertador, denunciando as arbitrariedades do Juiz e do Delegado de Milagres. Na correspondência que o jornal publicou, o fazendeiro Antônio Leite insultava o delegado Domingos Furtado, o Juiz e outros aliados destes. Imediatamente Joaquim do Couto Cartaxo, Domingos Leite Furtado e outros se voltaram contra Antônio Leite Rabelo da Cunha e seus aliados. O jornal Constituição, datado em 27.04.1888, publicou uma carta de Domingos Leite Furtado, também insultando o Capitão Antônio Leite:

    “Ao publico.

    Não pretendia voltar mais a imprensa; mas sendo d’uma hora por outra, caluniado por uma quadrilha de magarefes de carne humana, (embora acobertados com o luctuoso manto da hypocrisia) conhecidos nesta terra por Cunhas Rabellos ou Crueiras, julguei conveniente voltar mais uma vez a ella, para esmagar como já o tenho feito, a essas víboras da reputação alheia, visto que fui provocado no “Libertador” n° 3 de janeiro deste anno por um dos – setes sábios da Grécia, o Sr. Capitão Antônio Leite Rabello da Cunha - a luz dos milagrenses, - num acervo de inverdades e insultos, próprios de si, atirados a minha pessoa e a diversos cavalheiros distinctos deste termo, somente porque, há tempo, nos pozemos a salvo de suas perfídias.

    É preciso se ter muita falta de pudor para dizer como disse o Sr. Capitão Leite que fora protector dos escravizados neste município, quando, fôra ele, seu “milagroso” irmão Manoel Crueira, collector e mais membros de sua família, os únicos que venderam escravos neste município, (os poucos que possuíam) para não morrerem a fome na crise de 77! Provoco o Sr. Capitão Leite para que prove o contrário disso.

    Quem melhor fora protector dos escravos, quem muitas das vezes desagarrava os de suas mulheres e filhos para vender ou quem os comprava a contos de réis e á mais, para não os ver sahir de sua terra natal?

    Em sua estiradeira em forma de artigo disse o Sr. Capitão Leite que nós intentamos perde-lo ao menos politicamente. Que desparate!!

    Qual fora a influencia politica que já tivera tal criatura, a não ser a que eu e minha família, incautos, dava-lhe?

    Pretendia, é certo, mostrar bem patente a influência politica de tal criatura, e disto com muita antecedência o preveni não só cabalmente como pela imprensa de minha província, porém assim não sucedeu, por se ter o capitão agarrado com bom santo.

    Disse ainda o capitão em seu aranzel que em minha casa se tinha reunido um grupo de sessenta a setenta homens, notificados á minha ordem e do ilustre Sr. Dr. Cartaxo com o fim de ataca-lo em sua fazenda Rosário, e que isto havia sido presenciado pelo Revd. Vigário desta freguezia. Nunca vi mentir-se tanto! Primeiramente mentiu dizendo que possuía fazenda chamada Rosário, porque não a possue, e se a possue é de porcos e ainda não é conhecida dos habitantes, já não digo do termo, mas de toda a comarca; e em segundo lugar mentiu porque afirmou que eu e o bacharel Cartaxo havíamos mandado notificar gente servindo-nos dos cargos que ocupamos, para ataca-lo nessa imaginaria fazenda, visto como provo o contrario, com atestado do próprio vigário a quem o mesmo capitão referiu-se.

    Concluio o tal capitão responsabilizando-nos não só por sua vida como por qualquer destruição que venha a sofrer em sua fazenda Rosario.

    Desde já garanto ao Sr. Capitão que por minha parte aceito a tal responsabilidade, visto como, relativamente a sua vida, diz o rifão antigo “que vaso ruim não se quebra”; e tanto é assim que o cholera morbus quando andou por estes sertões respeitou-o.

    E quanto a destruição de sua fazenda Rosario e de outra qualquer, por não conhecer a fazenda do pertencedo tal senhor.

    Concluido, peço aos ilustres três Srs. Redactores da “Constituição” que façam publicar com este atestado do digno vigário desta freguezia, que a este acompanha, como também a resposta que dei em data de 23 de Maio do anno passado ao Sr. Dr. Chefe de polícia, por acusações que me fez o collector provincial deste município Manoel Leite Rabello da Cunha ao Exmo. Sr. presidente da província, com todos os documentos que o acompanhara, visto como fui de novo acusado por um irmão do dito collector em sentido idêntico.

    Pode, Sr. Redactor da “Constituição”, dar publicidade a estas linhas pelas quaes se responsabiliza o abaixo assignado.

    Milagres, 13 de abril de 1888.

    Domingos Leite Furtado.

    Illm. Rvdm Sr. Vigario da freguezia de Milagres – Domingos Leite Furtado, actual delegado de policia deste termo de Milagres, precisa para seu documento que V. Rvdmª digne se de atestar ao pé desta, em fé de seu cargo, se lhe constou em algum tempo, que o suplicante servindo-se do cargo que ocupa, mandaria notificar gente ou mesmo tomara parte em qualquer reunião com o fim de atacar a povoação de Rosario, á busca de escravos.

    Assim, pois, pede a V. Rvdmª que se digne de atestar na forma requerida.

    E. R. Mcê.

    Milagres, 8 de abril de 1888

    Domingos Leite Furtado.

    Attesto em fé de meu cargo que durante o tempo de três anos que rejo ou parochio esta Freguezia, não me consta que o suplicante em tempo algum abusasse do cargo que ocupa, mandando notificar pessoas, nem também tomado parte alguma em qualquer reunião com o fim de atacar a povoação do Rosario á busca de escravos. Milagres, 8 de abril de 1888. – O Vigario Manoel Rodrigues Lima.

    Estava reconhecida a firma pelo tabelião publico.”

    A questão foi acirrada, tendo o Cel. Domingos Leite pleiteado o assassinato do Cap. Antônio Leite. Por ironia do destino, como os assemelhavam-se fisicamente, os sicários confundiram-lhe num dia de feira na vila de Milagres, atirando em seu mandante, baleando-o em uma das pernas. Este fato foi noticiado no Jornal Constituição – Ano XXVII, Num. 175, pág. 1, de 17.11.1888:

Jornal Constituição (CE);
de 17.11.1889.

    “É grave

    Os colegas do Libertador e Cearense noticiam factos tristíssimos ocorridos em varias localidades do Cariry, sobretudo em Milagres, onde se diz que fora assassinado o nosso amigo Manoel Maranhão e gravemente feridos, correndo risco de vida, o nosso prestimoso e distinctissimo amigo capitão Domingos Leite Furtado e seu sobrinho Manoel Nasario, além de muitas outras pessoas.

    Nenhuma comunicação recebemos ainda acerca de tão desgraçada occurrencia; mas sendo certo que trata-se de um facto gravíssimo, excusado nos parece pedirmos ao Exm. Sr. coronel Moraes Jartim providencias para prompta e severa punição dos criminosos; porque temos como certo que S. Exc., ainda neste ponto, se relevará digno dos seus créditos.

    Quando tivermos comunicações directas, q’certamente não demorarão, nos ocuparemos ainda de tão lamentáveis acontecimentos.”

    Sendo sabedor do ocorrido, o Cel. Manoel Inácio Bezerra, genro do Cap. Antônio Leite, interviu na questão como apaziguador e convencendo-o a vir residir no Distrito de Brejo dos Santos, fundando ali o clã da família Leite.

Casarão do Cap. Antônio Leite Rabelo da Cunha, em Brejo Santo. 
Demolido em abril de 2017. 

ASSALTO À NAZARÉ

    Após a morte do coronel Domingos Leite, no ano de 1918, o seu braço armado, o major José Inácio de Sousa, fazendeiro abastado do sítio Barro, conhecido como Zé Inácio do Barro, passou a assediar a família do falecido, reclamando que o Cel. Domingos Leite devia certa quantia a ele, por serviços prestados, o que produziu inimizades entre a família Furtado e Zé Inácio do Barro.

Major José Inácio do Barro.
Foto: acervo de Sousa Neto.

Umas das casas do major Zé Inácio, no seu sítio Barro.

   Com isso, o major Zé Inácio patrocinou o assalto ao sítio Nazaré, em Milagres, propriedade de dona Praxedes, viúva do ex-chefe político e ex-intendente de Milagres, coronel Domingos Leite , que por volta das sete horas da manhã do dia 20 de janeiro de 1919, foi invadida pelo grupo formado por Sinhô Pereira, Mundinho, Gavião, Rouxinol, Baliza, Criança, Raimundo Patrício, Antônio Bandeira, Antônio Carneiro e Luiz Padre, que roubaram todo dinheiro e joias. Na ocasião, dona Praxedes foi socorrida pelo coronel Augusto Leite de Araújo Lima, seu esquecido parente. Dona Praxedes faleceu em 04 de setembro de 1930, estando sepultada junto ao marido, na Capela do mesmo sítio Nazaré.

Casarão do Cel. Domingos Leite Furtado, no sítio Nazaré, Milagres - CE.


Casarão do Cel. Basílio Gomes, na fazenda Nascença, vila de Brejo dos Santos.

    Após ser denunciado como mandante do assalto, Zé Inácio, não esconde o feito, mas diz que aquele dinheiro era dele, por anos de serviços prestados ao Cel. Domingos Leite, e ainda o chamou de ladrão. Estando assim aberta a questão entre as famílias, principalmente na figura do Padre José Furtado de Lacerda, ou simplesmente, o Padre Lacerda, pároco do arraial de Coité, pertencente ao distrito de Buriti Grande, atual Mauriti. Mas antes de partirem para o Fogo do Coité, os sicários de Senhor do Barro ainda assaltaram o Casarão da Nascença, do pacífico coronel Basílio Gomes da Silva, na vila de Brejo dos Santos, ainda em janeiro de 1919.

Casarão do Cel. Domingos no sítio Nazaré, Milagres - CE.

Capela de Nossa Senhora dos Remédios
Sítio Nazaré, Milagres - CE

Interior da Capela de Nossa Senhora dos Remédios.

Lápide do Cel. Domingos e Dona Praxedes,
localizada no interior da Capela em Nazaré.
   
A LENDA DO POÇO DO DINHEIRO DO CEL. DOMINGOS FURTADO

    Reza a lenda que o Cel. Domingos Leite enterrava seu dinheiro nesta depressão natural, onde corre um riacho intermitente, na mesma região do Sítio Nazaré, por receio de ataques e saques de inimigos, que não eram poucos. Após a morte do Cel. Domingos Leite, Dona Praxedes teria continuado a enterrar as botijas.

    "Certo dia, quando ela foi enterrar dinheiro, um grande buraco se abriu e ela caiu dentro. Depois desse dia, ninguém nunca mais ouviu falar dela". Esse local ficou conhecido como o Poço do Dinheiro.

    "O lugar é muito preservado, sendo considerado por muitos um santuário da natureza, cercado de mistérios. Alguns moradores contam as estórias, conhecidos como "causos", no qual em uma dessas lendas, dizem "...Quem for à meia noite ao Poço do Dinheiro, encontrará com a aparição de Dona Praxedes." Conforme informou o professor Jonas Fernandes ao site O Kariri, com o artigo intitulado: Arqueologia de Milagres (parte 6): Sítio Nazaré, em 13 de outubro de 2013.

Poço do Dinheiro do Cel. Domingos, Sítio Nazaré, Milagres - CE.


Por Bruno Yacub Sampaio Cabral.


Fontes Bibliográficas:

- LIMA, Francisco Augusto de Araújo; Famílias Cearenses Um; Fortaleza; Editora Premius; 2001;
- LIMA, Francisco Augusto de Araújo; Siará Grande: uma província portuguesa no nordeste oriental o Brasil; Fortaleza; Expressão Gráfica e Editora; v.III; 2016;
- SOUSA, Carlos César Pereira de; Milagres: nossa terra cariri; Fortaleza; Expressão Gráfica e Editora; 2021;
- MARANHÃO, Leite; Contribuição ao estudo genealógico das principais Famílias de Milagres (Família do Coité); Revista do Instituto do Ceará; Ano LXIV; 1950;
- LACERDA; José Sampaio; História da Família do Coité (Mauriti - Ceará) e outros assuntos; Da Anta Casa Editora; Brasília; 2004;
- NETO, Sousa; José Inácio do Barro e o Cangaço; Barro – CE; 2011;
- LUCETTI, Hilário e LUCENA, Magérbio; Lampião e o e estado maior do cangaço; Craturismo; 1995;
- CAVALCANTE, Francisco Mirancleide Basílio; Trajetória de um líder; Brejo Santo – CE; 2004;
- https://www.familiascearenses.com.br/index.php/2-uncategorised/135-memoria-real-e-afetiva-de-mauriti-segunda-parte - acessado em 08 de setembro de 2020;
- https://www.okariri.com/cariri/arqueologia-em-milagres-parte-6-sitio-nazare/  - acessado em 02 de setembro de 2020;
- http://www.blogdomateussilva.com.br/2017/04/casa-historica-e-derrubada-em-brejo.html  - acessado em 10 de setembro de 2020;
- http://cariricangaco.blogspot.com/2017/12/o-fogo-do-coite-porgeziel-moura.html  - acessado em 03 de setembro de 2020;
- https://amunganga.blogspot.com/2019/08/subsidios-para-historia-de-brejo-santo.html  - acessado em 06 de setembro de 2020;
- Jornal Constituição (CE) – Ano XXV,; Num. 50; págs. 2 e 3; de 27.04.1888;
- Jornal Constituição (CE) – Ano XXVII; Num. 175, pág. 1; de 17.11.1888;
- Jornal do Recife (PE) - Ano LXI,; Num. 137; pág. 3; de 17.11.1918.