A Munganga Promoção Cultural

A MUNGANGA PROMOÇÃO CULTURAL: O Brejo é Isso!

sábado, 4 de abril de 2020

UM CIVILIZADOR NO CARIRI - PARTE I




Para lembrarmos dos 80 anos de falecimento do primeiro chefe político e o gestor municipal de maior duração na história de Brejo Santo, A Munganga Promoção Cultural disponibiliza para os leitores, o texto "Um Civilizador no Cariri", de autoria do Padre Antônio Gomes de Araújo e publicado na revista A Província; Ano 3; N° 3; em 7 de julho de 1955; Crato - Ceará; págs. 127 a 146. O texto será dividido em três partes.

CORONEL BASÍLIO GOMES DA SILVA

80 ANOS DE FALECIMENTO


08.04.1940
08.04.2020


UM CIVILIZADOR NO CARIRI 

PARTE UM


(À memória de Victor José Modesto cofundador da cidade pernambucana de Araripina)

Por Padre Antônio Gomes de Araújo

…a vida conspícua de um varão sintetiza tudo quanto há de mais grandioso e edificante, através da história da humanidade. Mário Linhares (In Rev. da Academia Cearense de Letras, fls. 31 – 1954). 

Cel. Basílio, que por muitos anos ocupou ali (em Brejo dos Santos) o mesmo cargo (de prefeito municipal) na quadra mais terrível por que tem passado o sul do Estado nas suas frequentes mutações políticas, imprimindo tão honesta, pacífica e segura orientação, que conquistou para aquela localidade o título de “Seio de Abraão”. O Araripe, 11-10-1919 (Crato, Ceará), de José Alves de Figueiredo, jornalista e poeta. 

O venerando coronel Basílio Gomes da Silva, foi uma das figuras de mais relevo, de mais larga projeção, de atuação mais acentuada, na vida pública desta região, mormente em seus períodos mais agitados. Brejo dos Santos isolava-se em meio às tormentas que batiam de todos os lados, como um oásis de paz, de bem estar e segurança, graças à ação prudente e pacifica de seu ilustre chefe que era, com justiça, tido naquela cidade como o patriarca da terra. Padre Leopoldo Fernandes, "Basílio Gomes da Silva", pgs. 1 e 2, Tip. Mainha, Crato-Ceará, 1940. 

O CENÁRIO 


O brejo, em cuja orla ergue-se a atual cidade cearense de Brejo Santo, sede do município caririense de idêntico nome, foi, em seus primórdios e ao longo de muitos anos, o coração da fazenda "Brejo", e, ao que parece, o núcleo social, primeiro, daquela comuna, á qual deu o seu nome, depois acrescido de "Santos" apelativo de antigos donos da fazenda "Nascença”, limítrofe de sua congênere, mencionada. 

Embora uma tradição de 240 anos, oral e escrita, atribua á viúva baiana, Maria Barbosa, o título de pioneira do senhorio das citadas fazendas, recebidas em datas de sesmaria; apesar de o alagoano, tenente coronel Antônio Mendes Lobato e Lira, haver conseguido em 28.01.1714, terras na região, no "'Brejo da Barbosa", não obstante estes fatos ponderáveis, em verdade o véu de certa obscuridade envolve, ainda, os cinquenta primeiros anos da vida histórica das mesmas fazendas, células matrizes da cidade brejo-santense. 

É historicamente certo, entretanto, que, em 1769, a fazenda “Brejo” era propriedade do casal baiano-caririense, aí, domiciliado, Francisco Pereira Lima - Teodora Maria da Conceição, sendo, ela, filha legítima dos baianos, alferes Gonçalo Coelho de Sampaio e s. m. Lourença Barbosa de Melo, troncos, neste Cariri, dos Sampaio, dos Coelho, e dos Correia, de Barbalha e Jardim, e ascendentes dos descendentes de Basílio Gomes da Silva, de Brejo Santo, entre os quais sou numerado. 

Falecidos em datas diferentes, Francisco Pereira Lima e Teodora Maria da Conceição legaram a fazenda "Brejo", inteiriça, a seus filhos, cuja descendência a vendeu, retalhadamente, no curso de todo o século passado, acontecendo que uma parte coube ao alvo deste trabalho, Basílio Gomes da Silva, pelo casamento contraído, 1869, com Maria da Conceição de Jesus, trineta daquele casal patriarcal. 

Configurando dentro na região nordestina em que surgiu e medrou uma civilização curraleira, e projeção dela no Cariri - o território atual do município de Brejo Santo constituiu-se numa vasta paisagem pastoril de extensas fazendas de gado vacum, durante os séculos 18 e 19, restringindo-se, a agricultura, ao consumo local. 

Na sexta década do último século, referido, resumiam a aristocracia local, entre outros: os Pereira Lima, ramos do citado Francisco Pereira Lima; os Pereira de Lucena e os Alves de Moura, originários da Paraíba; os Martins, procedentes de Portugal na pessoa de seu tronco, Bartolomeu Martins de Morais; os Cardoso, de Barbalha, Ceará; os Sá Batinga, vindos de Cabrobó, Pernambuco; os Gomes da Silva, alguns portando o sobrenome – Bezerra - mas todos pertencentes ao mesmo clã parental, fundado pelo português Manuel Gomes da Silva, emigrados do município pernambucano de Águas Belas. 

Nos poucos, pouquíssimos latifúndios pastoris, que cobriam a região, agitava-se uma população rarefeita, constituída de assalariados, meieiros e rendeiros, gente humilde, mas heroica. 

Nenhuma instrução havia, nem aglomerado humano ou urbano. O centro religioso e civil estava em Jardim, de cujo município e paróquia dependia esse rincão caririense. 

O brejo do sitio "Brejo" destinava-se, logicamente para o centro urbano, religioso e político da terra, consideradas suas aguadas perenes, as quais ofereciam pouso obrigatório, ponto de cruzamento, que era, e é, das estradas que, do sertão pernambucano e de Jardim, conduziam às zonas dos rios Salgado e Jaguaribe, e S. João do Rio do Peixe na Paraíba. A Transnordestina incide sobre a 1ª estrada. 

Pelo curso do ano de 1858, na área da atual cidade de Brejo Santo, recortavam-se os perfis de duas casas apenas, o prédio - logradouro dum curral de gado bovino, de propriedade do coronel Aristides Cardoso dos Santos, e a vivenda de Antonio José de Sousa e sua esposa Senhorinha Pereira Lima, bisneta do aludido patriarca do sítio "Brejo", Francisco Pereira Lima. Antonio e Senhorinha casariam sua filha, Maria da Conceição de Jesus, com Basílio Gomes da Silva, conforme já escrevi. 

NO SÍTIO "BREJO"


Nesse cenário e naquele ano, Basílio Gomes da Silva, aos 12 de idade - nascera, 14 de julho de 1846, na vila pernambucana de Águas Belas, surgiu na companhia de seus pais, os pernambucanos José Francisco da Silva, de Buíque, Ana Gomes da Silva, também de Águas Belas, Ana foi filha do casal luso-baiano, Manuel Gomes da Silva - Cândida da Rocha Pita, filha, por sua vez, de outro casal luso-baiano, capitão-mor João da Rocha Pita - Cândida da Rocha Pita, senhores na segunda metade do século 18, de extenso latifúndio pastoril em Baixa-Verde, atualmente Triunfo, no Estado de Pernambuco.

Ana Gomes da Silva, mãe de Basílio Gomes, faleceu em 08.06.1859, como mostra o Livro de Registro de Óbitos da paróquia de Missão Velha, 1851 - 1859, fls. 171 verso. Ana Gomes da Silva está sepultada na Matriz de Milagres - CE.


Acompanharam Basílio Gomes, seus irmãos, dos quais era o benjamim: Antônio Gomes da Silva Bastos, Lourenço Gomes da Silva, Luzia Gomes da Silva, Víctor José Modesto e Inácio Gomes da Silva. Exclusão feita dos dois últimos, tendo, Inácio, voltado a Águas Belas, onde fundou numerosa descendência, e Victor, se retirado para Pernambuco, e, no sítio São Gonçalo de Sanhem, lançado uma das raízes sociais da atual Araripina, exclusão feita, dos dois últimos, repito, Basílio Gomes, e os outros imigrados, seus irmãos, fixaram-se definitivamente á margem do brejo da fazenda “Brejo”, sob a direção do pai. 

A Basílio Gomes e irmãos, logo se vieram juntar, vindos igualmente de Águas Belas, donde eram naturais, alguns primos, filhos de sua tia materna, Joana Maria Gomes Cavalcante, casada com o pernambucano Inácio Gonçalves Bezerra, o “Inacinho”, que acompanhou os filhos, todos adultos. Foram eles: João Gomes da Silva, bisavô meu e do deputado José Napoleão de Araújo; Manuel Inácio Bezerra; Joaquim Gomes da Silva Torres; Carlota Maria Gomes; Félix Inácio Bezerra e Antonio Inácio Bezerra. Deixaram em, Pernambuco quatro irmãos casados. Alguns de seus descendentes vieram, em seguida, estabelecer-se, por igual, no então Brejo dos Santos. Designo, nominalmente, os quatro: Cândida Gomes Silva, c. c. João de Barros Cavalcante; Maria Francisca Gomes da Silva, c. c. o alferes José Pereira Nunes, avós do farmacêutico pioneiro de Brejo Santo, João Anselmo e Silva, pai do tenente Otacílio Anselmo; Luzia Inácio Bezerra, c. c. em primeiras núpcias com Antônio Nunes Barreto; Ponciana Maria Bezerra, que foi casada e deixou prole. 

Basílio Gomes, seus irmãos e primos constituíram famílias numerosas em Brejo Santo, de que são co-construtores respeitáveis, 

Dessa maneira, os descendentes de Manuel Gomes da Silva e Cândida da Rocha Pita, em breve se converteriam num poderoso clã parental na nova terra que adotaram por pátria, clã sempre reforçado pela inclusão de novas famílias através de uniões matrimoniais. Por exemplo: com os Lucena, os Alves de Moura, os Araújo Lima e os Leite Rabelo. 

O clã de consanguíneos e afins, assim estruturado no campo social, assumiria o caráter de incontrastável força política local, se surgisse uma têmpera de chefe que lhe imprimisse unidade sólida e direção segura. 

Basílio Gomes da Silva seria o chefe social e político desse clã, posição que lhe conquistou, com justiça, o título de Patriarca de Brejo dos Santos, na expressão do padre Leopoldo Fernandes. 

INICIAÇÃO POLÍTICA 


Como já foi escrito, Basílio Gomes matrimoniou-se no ano de 1869 com a jovem Maria da Conceição de Jesus, filha, neta, bisneta, tataraneta respectivamente de Antônio José de Sousa, Antônio Pereira Lima, tenente João José Moreira Guimarães, Francisco Pereira Lima e alferes Gonçalo Coelho de Sampaio. Maria da Conceição, ou dona Conceição, como era conhecida, seria a companheira ideal de Basílio Gomes, até 1919, quando faleceu, depois de lhe dar 11 filhos dos quais formaram-se por seu turno, troncos de famílias numerosas.


Aos 26 anos, Basílio Gomes assume o que talvez seja seu primeiro cargo publico:Suplente de Subdelegado no distrito de Brejo dos Santos, em 01.09.1872.
Fonte: Jornal A Constituição, Anno X, n° 156, de 01.09.1872, pág. 1.

Basílio Gomes da Silva foi nomeado 3° Juiz de Paz 
do distrito de Brejo dos Santos,para o período de 1873 - 1876.
Fonte: Almanak da Província do Ceará; pág. 280; 1873
Basílio Gomes da Silva foi nomeado para Juiz de Paz no distrito de Brejo dos Santos em 06.10.1882. 
Fonte: Jornal A Constituição; Anno XX; n° 88, de 06.10.1882; pág. 2.
Basílio Gomes da Silva foi Subdelegado do distrito de Brejo dos Santos,nomeado em 12 de novembro de 1885.
Fonte: Jornal O Cearense, Anno XL; n° 231, de 12.11.1885, pág. 2.

Já, então, Basílio Gomes começava a impor-se ao meio pela circunspecção, a palavra sóbria, o juízo exato, a mentalidade aberta, o empreendimento e realização largos, a energia temperada, o ímpeto progressista, a iniciativa fecunda, a inflexibilidade de caráter, o faro da realidade, a perspicácia, a maleabilidade no trato com os homens, o poder catalizador, a bondade nata, a decisão ponderada, o poder de direção, a aversão à violência e o apego intransigente ás soluções pacíficas. 

Em 1864, os principais da terra constituíram-no seu representante junto aos políticos de Jardim, e estes, a ele, seu cabo eleitoral, no sítio “Brejo”. 

Nessa ocasião, ele inscreveu-se no Partido Conservador, fato decisivo em sua vida de homem público, pois, desde então, foi o chefe político de Brejo Santo até 1920, 16 anos á frente do poder executivo municipal. 

TEMPLO E POVOAÇÃO 


Basílio Gomes da Silva criou o complexo da grandeza de seu rincão adotivo. Afora o sentimento religioso, que ele possuía, profundo, a experiência lhe falava da influência social dos templos na gênese das povoações. Por motivo religioso e político, conseguiu, á frente de um grupo de amigos, do então vigário de Jardim, padre Joaquim de Sá Barreto, parente de sua esposa, a presença do padre Ibiapina na fazenda Brejo, quando esse Apóstolo do Nordeste missionava em Porteiras e Goianinha (Jamacaru). 

No curso das pregações Ibiapina traçou os limites e lançou a pedra fundamental dum templo dedicado ao Coração de Jesus, templo em torno do qual se formaria a futura cidade. 

Basílio Gomes inspirou atividades e estimulou esforços, dirigidos no sentido da construção da modesta capela, fadada a converter-se em ampla matriz, cujo patrimônio foi oferecido por Francisco Alves de Moura, que Basílio Gomes fizera sogro de seu irmão, o citado Lourenço Gomes. E foi além. Criou a mentalidade da construção de residências em derredor do templo, mentalidade urbanista. Orientou alinhamentos. Diante de seu dinamismo e olhos progressistas, começou a surgir o casario. Era a povoação. 

O DISTRITO 


Basílio Gomes, por si e pelos do Brejo dos Santos, agiu sobre os políticos de Jardim com o fim de obter, para terra, os foros de distrito. Satisfeita a pretensão, no mesmo ano ele assumiu a chefia politica da nova circunscrição municipal cabendo, as funções policiais, a um seu irmão o mencionado Víctor José Modesto. 

A FREGUESIA 


Basílio Gomes cooperou indireta e superiormente para a criação da freguesia de Brejo Santo. 

No primeiro semestre daquele ano de 1875, d. Antonio Luiz dos Santos, primeiro bispo desta província, encontrava-se nesta cidade de Crato, empenhado na construção do prédio do seminário, que hoje branqueja a cavaleiro de nossa urbe, como um marco, quase secular, de superior civilização no Cariri. Basílio Gomes lançou a ideia da criação da paróquia, entre os brejo-santenses qualificados, e encabeçou o apelo escrito, que, neste sentido, e com a aprovação previa do vigário de Jardim, foi dirigido ao ilustre Antíste por intermédio do referido pároco, que se fez patrono dos peticionários. Entre outros, assinaram o documento: coronel Francisco Alves de Moura, Francisco de Sá Batinga, capitão Francisco Pereira de Lucena, João Gomes da Silva, Joaquim Gomes da Silva Torres, Antonio Gomes da Silva Bastos, Manuel Inácio Bezerra e Antônio Silião Bispo. 

Resultado positivo, pois a Lei Provincial número 1708, de 25 de julho do ano de 1876, criou a freguesia e lhe traçou os limites, destacando-a das paróquias de Milagres e Jardim. E, dela, tomou posse, seu primeiro vigário, 02.09.1877, o padre Francisco Lopes Abath, de ilustre família cratense e tio materno do honrado Teopisto Abath, residente nesta cidade. 

O vigário era pobre. A freguesia, pobre também, começava a sofrer os terríveis efeitos da que seca, que se prolongaria até 1879, acompanhada de incursões dos grupos dos bandidos dos Quirinos, dos Calangros e outros, frequentes na nova paróquia, cuja escrita acusou, no ano de 1878, 126 batizados e 16 casamentos. 

Em 1884, escrevia o pároco padre Abath que aquela seca e os bandidos haviam despovoado bastante a freguesia, reduzindo o povoado de Porteiras a oito habitantes. 

Durante os três anos secos, e o seguinte, 1880, Basílio Gomes organizou e dirigiu um bloco de pessoas generosas que mantiveram economicamente o vigário, ou melhor, auxiliaram-no. 

Cinco anos depois da mencionada crise, o padre Belarmino Gomes de Sousa, achou-se em Brejo dos Santos, secretariando d. Joaquim José Vieira, sucessor do dito d. Luiz Antônio dos Santos, e, em quem, aquela paróquia contemplava. Pela vez primeira, um príncipe da Igreja, o qual permaneceu ali, dois dias, de 29 a 30 de julho de 1884. O secretário escreveu: "Chegamos nesta paróquia na manhã de 29 de julho. Aí encontramos uma população pobre, mas prendada dos melhores predicados, convicta e animada para as nobres conquistas do trabalho, de que vive na confiança de seus perseverantes esforços. Não obstante batida pelos bandos de sicários que no triênio da seca devastaram aquele e outros lugares, do que encontramos vestígios, a população de Brejo é bastante valorosa e resignada na história que conta de seus infortúnios. 

A casa que nos deram, em falta de outra, para hospedagem, foi a que serviu de trincheira de um dos grupos facinorosos, que sustentaram um tiroteio com outro grupo; não menos insolente, que disputava a posse do lugar”. 

VILA 


Monarquista, Basílio Gomes dirigia, em Brejo Santo, a secção distrital do Partido Conservador, em nome dos chefes municipais de Jardim, como se disse. Como distintivo partidário, conservava a barba, que lhe era breve, uso com que transitou. Sem mais esse simbolismo, para o regime republicano, a manteve até a sepultura. 

O trânsito para a nova ordem instaurada no País em 15 de novembro de 1889 fê-lo, Basílio Gomes, sobretudo ao influxo da nítida compreensão do fato consumado, e tocado de acentuado civismo e olhos postos na grandeza de sua gleba. Mas, surpreendida a oportunidade, não aderiu sem explorá-la superiormente em beneficio de seu distrito, exigindo em compensação, a sua elevação à categoria Vila. Já, então, Brejo Santo era parte do município de Porteiras, há pouco tempo, criado. 

A aspiração e esforços do chefe político brejo-santense concretizaram-se nos termos do decreto número 49 de 26 de agosto de 1890, de autoria do Governador do Estado coronel Luiz Antônio Ferraz, que, nessa data e por esse decreto, criou a Vila de Brejo dos Santos.


Notícia do falecimento do irmão de Basílio Gomes, Victor José Modesto, em 08.09.1895.
Fonte: Jornal Diário de Pernambuco, Anno LXXI, n° 221, de 27.09.1895, pág. 2.
Notícia do falecimento do irmão de Basílio Gomes, Antônio da Silva Bastos, em 13.01.1897.
Fonte: Jornal A República; Anno VI; n° 9; de 13.01.1897, pág. 1.


O Brejo é Isso!

Continua.

Leia também:

BASÍLIO GOMES DA SILVA: UM CIVILIZADOR NO CARIRI - PARTE DOIS

BASÍLIO GOMES DA SILVA: UM CIVILIZADOR NO CARIRI - PARTE TRÊS (FINAL)



Extraído do texto "Um Civilizador do Cariri"; do Padre Antônio Gomes de Araújo; publicado na revista A Província; Ano 3; N° 3; em 7 de julho de 1955; Crato - Ceará; págs. 127 a 146.



Leia na íntegra, o livreto intitulado de "Homenagem à memória do coronel Basílio Gomes da Silva, o honrado chefe de Brejo Santo", escrito pelo Padre Leopoldo Fernandes Pinheiro, em julho de 1940.

Homenagem à Memória do Coronel Basílio Gomes da Silva O honrado chefe de Brejo Santo

quarta-feira, 25 de março de 2020

RAIMUNDO CARDOSO DOS SANTOS - O PODEROSO PAJÉ DA VILA DE PORTEIRAS


Panorama da administração pública da vila de Porteiras
 para o ano de 1908.

 
ALMANAK ADMINISTRATIVO, MERCANTIL E
INDUSTRIAL DA CORTE E PROVINCIA
DO RIO DE JANEIRO, setor de Notabilidades, anos de 1908.
Recolhido no site memoria.bn.br,
da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.


    Segundo Joaquim dos Santos, ao confrontar as narrativas orais com registros escritos de época, percebeu em sua publicação "Cruz da Rufina - História e Tradição Oral", que as narrativas condizem com a caracterização de Raimundo Cardoso dos Santos como um coronel que exacerbava seu poder.

    Para o autor, Raimundo Cardoso dos Santos foi um abastado senhor de engenho do Cariri cearense, residente na região serrana do município de Porteiras, no sopé na Chapada do Araripe. Vale ressaltar que a sua família, de origem portuguesa, é considerada contribuinte da formação da sociedade caririense, atuando como povoadores da região, nos séculos XVIII e XIX, obtendo assim prerrogativas sociais, inicialmente no tocante à posse de latifúndios. Naquele contexto, influenciou na formação da hierarquia social do Cariri. Seus descendentes, coronéis de prestígio social, ingressaram na política como Intendentes municipais e Tenentes da Guarda Nacional, como é o caso do próprio Raimundo Cardoso.

    Filho do português Antônio Cardoso, que constituiu uma família possuidora de poder politico e econômico no Cariri, Raimundo Cardoso foi citado no Livro de Nomeação dos Intendentes do Ceará como Intendente da Guarda Nacional em 26 de maio de 1896. Foi reeleito em 1902, governando o município de Porteiras até 1904, quando o termo "Intendente", que representava o administrador público, foi substituído por "Prefeito". No mesmo ano, foi eleito Prefeito de Porteiras, administrando o município sucessivamente até 1915, quando foi deposto por líderes políticos das localidades vizinhas de Brejo dos Santos e Milagres. Pouco tempo depois, através da intercessão de lideranças políticas do Cariri, retornou ao poder.

    O padre Antônio Gomes de Araújo nos apresenta mais informações acerca de Raimundo Cardoso em seu artigo O Magnífico Reitor da Universidade do Ceará: O Tenente-Coronel da Guarda Nacional, Raimundo Cardoso dos Santos era filho do casal Antônio Cardoso dos Santos, mais conhecido como Antonino, e Maria Xavier Bezerra, filha do grande proprietário rural caririense, o coronel Francisco Xavier de Sousa, tronco da família Xavier desta zona e de Salgueiro, em Pernambuco. 

    “De Antonino e sua referida mulher descendem: Coronel Raimundo Cardoso dos Santos, ex-intendente e chefe político de Porteiras, deposto em 1915 pelos Lucenas, de Brejo Santo, associados ao célebre José Inácio do Barro, mas reposto pelo presidente do Estado, Benjamim Barroso; Aristarco Cardoso, ex-prefeito da dita comuna; o já citado juiz Antônio Cardoso dos Santos; Francisco Xavier Saraiva, ex-deputado estadual; o mencionado Joaquim Cardoso dos Santos, Quinco Cardoso; Antônio Xavier Saraiva, médico; José Cardoso de Alencar, bacharel e talentoso advogado, e seus irmãos, Mozart e Odálio, aquele, médico, e este, bacharel.” (ARAÚJO, 1959, p. 14).

    Entretanto, Maria do Socorro Cardoso Xavier, em sua publicação "Cardoso - Troncos e Galhos de um Clã Caririense", afirma que Raimundo Cardoso dos Santos era irmão do coronel José Cardoso dos Santos (Zuza Cardoso), coronel Aristides Cardoso dos Santos e Antônio Cardoso dos Santos “I”. 

    O coronel Raimundo Cardoso tinha fama de ser violento e truculento. O mesmo fez época na vila de Porteiras e suas cercanias. Viveu no limiar entre a Monarquia e República. Conhecido pelas suas proezas e valentia, abusou de poder e crueldade. Viveu na época do apogeu do coronelismo. Mandavam os homens que detinham poder político-econômico e social sobre os demais membros da comunidade. Era o mandonismo político. Este foi uma sequela da República Velha no Brasil. 

    Chefe autoritário da citada vila de Porteiras, na gestão do Conselheiro Antônio Pinto Nogueira Acioly, se aliou politicamente ao padre Cícero Romão Batista, que na época já detinha influência política e religiosa no Cariri. Foi convidado para participar do Pacto dos Coronéis em Juazeiro do Norte, em 04 de outubro de 1911, mas não esteve presente, sendo representado pelo próprio Sacerdote. Caído com o Governo Acioly em 1912, Raimundo Cardoso tomou parte na Sedição de Juazeiro, chefiada por Padre Cícero e Floro Bartolomeu, bafejados por Pinheiro Machado, caudilho da política federal de Hermes da Fonseca. Vitoriosa a sedição, ao qual depôs o presidente do estado Franco Rabelo, Raimundo Cardoso retomou a direção dos destinos de Porteiras, em abril de 1914.

    Com isso, após a sua deposição do cargo de Intendente em Porteiras, o próprio Padre Cícero intercedeu por ele junto ao governo estadual de Benjamim Barroso, ao qual era Vice-Governador.

    Diz-se que a toponímia da cidade de Porteiras, se origina do fato de que nos tempos do mandonismo do coronel Raimundo Cardoso, só entrava na vila com sua autorização. Na realidade, havia uma última porteira de acesso, que separava a zona canavieira da área pastoril. 

    Também segundo a tradição oral, o coronel Raimundo Cardoso mandava aplicar supositório de pimenta nos seus desafetos. Mandava capar os seus inimigos e o capador, o cangaceiro Cobra Preta, dizia as suas vitimas: “Vai ter nada não! Eu tenho mão boa!” O coronel Raimundo Cardoso era homem de muitos capangas e costumava ir em auxilio de coronéis, seus amigos e parceiros de arbitrariedades, levando sequazes. 

    É típico, nesse tocante, um depoimento do coronel Raimundo Cardoso dos Santos, em conversa com o Dr. Alípio Baltar, Juiz de Direito de Jardim, e com o Dr. Paulo Pedro de Moura Montenegro, Promotor de Justiça da mesma Comarca, dizia. “- Quando cheguei a Porteiras, havia mais de cem mulheres da vida. Cabras faziam desordens. Resolvi estabelecer a ordem. Passei a fazer o policiamento com os meus cabras. Algum tempo depois, um dos meus homens de confiança comunicou-me que os cabras do coronel fulano provocavam brigas em todas as feiras. Disse-lhe que mantivesse a ordem. Numa das feiras seguintes, estava em casa, quando me avisaram que havia barulho. Não saí, pois, se o fizesse, os meus cabras só agiriam com ordem minha. Preferi que agissem livremente. Na verdade, um cabra do coronel fulano estava alterando a ordem. Um dos meus cabras atirou e o cabra do coronel fulano caiu morto. Agora, meu cabra vai ser julgado. Uma coisa, porém, eu lhes digo, Dr. Juiz e Dr. Promotor, todo cabra que chegar aqui com desordem fica estirado no chão com uma bala.” (MONTENEGRO, 2011, p. 343).

    Possivelmente teve dois filhos. Joaquim Cardoso, mais conhecido como Jacu, teve participação no conflito deflagrado entre os chefes políticos de Porteiras e Brejo dos Santos, em 1915. E uma filha chamada de Dona Pinto. Este nome foi devido ao casamento com o coronel Antônio Pinto de Sá Barreto, ex-deputado estadual e ex-intendente da cidade de Barbalha e que fazia oposição ao Governo do Estado, Nogueira Acioly. Era o ano de 1906 e Antônio Pinto fundara o jornal “O Lutador”, jornal eminentemente político e ficou ligado indelevelmente à política de Jardim por haver acolhido em suas páginas o bravo manifesto político do coronel Napoleão Franco da Cruz Neves, conhecido como coronel Franco de Jardim, este rompido com o governo Acioly. 

    A Dona Pinto além de muito valente, saíra ao pai: era cruel e arbitrária. Saiu da sua cabeça o bárbaro assassinato do alferes Ernesto, que tanto traumatizou Barbalha no passado. O inditoso alferes Ernesto chegou a esconder-se debaixo da saia rodada da sua mulher que, ao ser empurrada pelos cabras de Dona Pinto, descobriu Ernesto que foi ali mesmo trucidado. 

    Como o ser humano não é só alimária, o coronel Raimundo Cardoso dos Santos defendia mulheres ofendidas e desonradas. O homem que desonrasse uma moça e este não reparasse o mal que cometeu, casando-se com a moça ofendida, ele obrigava a casar ou capava o ofensor. Já era conhecido, quando isto ocorria nas redondezas, era chamado a resolver a questão moral. Na verdade, o caso aconteceu com uma neta sua, conforme está descrito no jornal sobralense "A Ordem", edição de 24 de maio de 1917:

    "FORTALEZA, 23 - O individuo Carlito, espanhol, artista patinador do "American Circus", que trabalhou nesta cidade, conseguiu, com habilidade, cativar as atenções de uma filha do falecido deputado estadual, coronel Antônio Pinto de Sá Barreto, chegando a raptá-la da casa paterna. Com a intervenção da polícia efetuou-se o referido casamento.

    Carlito resolveu explorar torpemente a honra de sua esposa, causando este fato a mais viva e justa revolta por parte da família da moça.

    Chamado à Porteiras, neste Estado, por aquela família, para lá seguiu o referido indivíduo conduzindo a sua inditosa vítima.

    Notícias daquela localidade relatam que o Sr. Raimundo Cardoso, avô da esposa de Carlito, depois de ouvir as declarações de sua neta, mandara castrar a macete o aventureiro Carlito, que se acha no Crato, gravemente enfermo."

    Segundo a tradição oral, o coronel Raimundo Cardoso se engraçou por uma jovem que veio trabalhar em uma de suas fazendas, em Porteiras. Vinda de Barbalha, a jovem era bem educada, de cor branca e de cabelos longos. Ela se chamava Rufina. 

    A relação entre Raimundo Cardoso e Rufina logo se tornou um assunto presente nas vozes do povo, que a chamavam de "mulher do mundo". Posteriormente, a esposa do Coronel, não sendo identificada, tomou conhecimento do romance. Com ciúmes e raiva da situação em que se encontrava, por ser uma senhora rica, de família tradicional e possuidora de prestígio frente à sociedade de então, resolveu por fim ao caso amoroso que a envergonhava, mandando assassinar a rival. 

    O coronel Raimundo Cardoso, temendo a ira da esposa e sabendo que sua amante estava grávida, programou sua transferência para outra fazenda sua e ordenou, a um de seus cabras, que a levasse sem que sua esposa tomasse conhecimento. Contudo, ela ficou sabendo do plano de seu marido e ofereceu, ao mesmo cabra que havia recebido as ordens do patrão, certa quantia em dinheiro para que matasse Rufina sem deixar vestígios do crime e, em seguida, desaparecesse daquelas terras. 

    “Ela [Rufina] era uma mulher de vida livre, de um senhor de engenho aqui no pé-da-serra. E a mulher do engenheiro, que o marido dela tava amando a ela... Então, ela [Rufina] tava até grávida dele. Aí ele soube que a mulher ia peitar um cabra pra matar ela. Ele foi, fez uma carga de queijo, de tudo quanto era coisa num burro pra tirar ela pra fora, mas deixa que a mulher peitou o caba pra no caminho matar ela. Num teve jeito, por que o caba já foi mandado do patrão.(...) O patrão mandou deixar ela, mas a mulher disse: - Tu vai deixar, e no caminho tu mata ela, aí vai embora. Aí dobrou o valor do dinheiro e ele matou ela e abriu no mundo.(...) E depois desse desastre ele desapareceu, porque o patrão mandava matar [ele] também.”  (SANTOS, 2011, p. 60).

    Pois bem, indispondo-se com a população dirigente de Brejo dos Santos, ela o depôs, violentamente, pelas armas em 1915, o que ocasionou a intervenção do Governo do Estado, então provisoriamente nas mãos do coronel Benjamim Barroso, que mandou a Brejo dos Santos uma expedição de 500 homens, numa demonstração quase ingenua de força, sob o comando do coronel Ernesto Medeiros.

    O cangaceiro Raimundo Maximiano de Morais, vulgo Mundinho, nascido em Brejo dos Santos, ao ser preso em 1928, foi entrevistado pelo repórter do jornal "O Ceará" e a ele fez a seguinte afirmação: 

    “Pouco depois dessa façanha (referindo-se ao ataque dos colegiados a Porteiras, no início de junho de 1915), quando se encontrava no sitio Guaribas, de propriedade de Chico Chicote, tomou, por duas vezes, parte na defesa daquela propriedade, atacada por forças do governo.” 

    O cabo Galdino, da força expedicionária, violeiro e poeta repentista, cantou nos seguintes versos pessimistas os principais núcleos populacionais daquela zona: 

“Brejo é uma ticaca, 
Milagres, curral de fome; 
Porteiras, pau de desgraças, 
No Macapá não tem homem, 
No Jardim só corre lobisomem.” 

    Sem o disparo dum tiro, o coronel Raimundo Cardoso dos Santos foi reposto no cargo de Intendente de Porteiras. 

    O Cariri foi pacificado. 

    O tenente coronel Raimundo Cardoso dos Santos, “O Poderoso Pajé da vila de Porteiras”, assim noticiado pelo jornal “A Noite”, do Rio de Janeiro, faleceu as 19h00min, do dia 11 de outubro de 1917, no Sítio Crioulos, em Barbalha. Era uma quinta-feira.

    P.S.: A criação do Distrito de Paz de Porteiras data de 09 de agosto de 1858, no termo da vila de Jardim. Sua emancipação política e elevação à categoria de Vila, ocorreu em 17 de agosto de 1889. Sendo desmembrada de Jardim, foi suprimida em agosto de 1920. Foi restaurada pela Lei n° 2002, de 16 de outubro de 1922, sob a denominação de Conceição do Cariri. Foi suprimido novamente por Decreto de 20 de maio 1931 e em divisão administrativa de 1933, figurava como distrito pertencente ao município de Brejo dos Santos. Anos depois, por decreto estadual de 1938, voltou a se chamar Porteiras, e o município de Brejo dos Santos passou a se chamar Brejo Santo.

   Porteiras foi elevada à categoria de município com distrito único em 22 de novembro de 1951, quando foi finalmente desmembrada de Brejo Santo. A divisão territorial, constituída apenas do distrito-sede, permaneceu até 2005, quando foi criado o distrito de Barreiros.


Este texto é dedicado ao Povo de Porteiras, Ceará.


    Por Bruno Yacub Sampaio Cabral 

    Para saber mais sobre a deposição do coronel Raimundo Cardoso dos Santos e o conflito entre Brejo Santo e Porteiras:






Fonte bibliográfica 

- ALMANAK ADMINISTRATIVO, MERCANTIL E INDUSTRIAL DA CORTE E PROVINCIA DO RIO DE JANEIRO, setor de Notabilidades, anos de 1908. Recolhido no site memoria.bn.br, da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro;
- ARAÚJO, Padre Antônio Gomes de; O Magnífico Reitor da Universidade do Ceará; em revista Itaytera, Ano V; N° V; Crato – CE; 1959; 
- ARAÚJO, Padre Antônio Gomes de; Povoamento do Cariri; Obras do Padre Antônio Gomes de Araújo, Vol. 2; Faculdade de Filosofia do Crato; 1973; 
- CABRAL, Bruno Yacub Sampaio; Subsídios para a História de Brejo Santo, Vida e Morte do cangaceiro Raimundo Maximiano de Morais, vulgo Mundinho; em Itaytera; N° 48; Crato – CE; 2019; 
- MACÊDO, Joaryvar; O Império do Bacamarte: uma abordagem sobre o coronelismo no cariri cearense; 3ª Edição; Universidade Federal do Ceará, Casa de José de Alencar, Programa Editorial; Fortaleza – CE; 1998; 
- MONTENEGRO, Abelardo Fernando e Sá, Gildácio Almeida (Organizador); Fanáticos e Cangaceiros; Expressão Gráfica Editora; Fortaleza – CE; 2011; 
- PINHEIRO, Irineu; Efemérides do Cariri; Fortaleza; Imprensa Universitária; 1963;
- SANTOS, Cícero Joaquim dos; No Entremeio dos Mundos: tessituras da morte da rufina na tradição oral; Dissertação (Mestrado), Universidade Estadual do Ceará, Departamento de História; Fortaleza – CE; 2009; 
- SANTOS, Cícero Joaquim dos; Passado Alumiado: representações históricas de porteiras; IMOPEC; Fortaleza – CE; 2011; 
- SANTOS, Cícero Joaquim dos; Cruz da Rufina: história e tradição oral; Curitiba; ; CRV; 2021;
- WALKER, Daniel; Padre Cícero, Lampião e Coronéis: análise da vida política de padre cícero através de dois eventos: outorga da patente de capitão a lampião e o pacto dos coronéis; Expressão Gráfica e Editora; Fortaleza – CE; 2017;
- XAVIER, Maria do Socorro Cardoso; Cardoso: troncos e galhos de um clã caririense; Sal da Terra Editora, João Pessoa – PB; 2009; 
- Jornal “A Noite” (RJ); Anno VII; N° 2.092; 12.10.1917; pág. 04; Recolhido no site memoria.bn.br, da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro;
- Jornal "A Ordem" (CE); Anno 1; N° 38; 24.05.1917; pág. 01; Recolhido no site memoria.bn.br, da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

sexta-feira, 20 de março de 2020

CORONEL SIMPLÍCIO PEREIRA DA SILVA - UM DOS PROPRIETÁRIOS DA NASCENÇA


"A fazenda Nascença pertenceu aos Santos até 1850, data em que foi adquirida pelo coronel Simplício Pereira da Silva, célebre mandatário do Pajeú. Depois de Simplício, a Nascença passou, respectivamente, às mãos de João Alves Biró, Manuel Inácio Medeiros, Antônio Leite Rabelo da Cunha, Raimundo Tavares de Souza, Basílio Gomes da Silva e José Jacinto de Araújo." (Otacílio Anselmo e Silva).



Casarão da fazenda Nascença.


Simplício Pereira da Silva, o "Peinha de Mão", nascido no ano de 1784, consta ter falecido na fazenda Baixa Grande, freguesia de Jardim, Ceará, aos 10 de janeiro de 1859, com 75 anos de idade. Capitão, depois Tenente Coronel da Guarda Nacional, promovido em 19 de novembro de 1842, quando prendeu os implicados na Revolta do Exú, denominada de Pré-Praieira, foi proprietário das fazendas Olha D'água da Boa Vista e Cachoeira, residia em Belmonte (atual São José do Belmonte) e seus interesses políticos abrangiam as vilas de Barbalha e Santo Antônio na Barra de Jardim, também comarca de Crato. Foi um grande líder da família Pereira do Pajeú, destemido e inquieto.

Por sua pequena estatura era alcunhado por Peinha de Mão. Cel. Simplício participou de muitas aventuras e a literatura diz que gostava de matar índios. Entre batizados e pagãos, matou até perder a conta. Peinha de Mão lutou com um bando de cabras do Pajeú contra o Coronel de milícias, Joaquim Pinto Madeira, o homem da "Coluna, do Trono e do Altar". O coronel Simplício foi um dos principais combatentes dos fanáticos da Pedra do Reino, ocorrido em Belmonte, Pernambuco, em 1838. Neste fato triste e cruel, Simplício Pereira perdeu dois irmãos: Alexandre Pereira da Silva e Cipriano Pereira da Silva.

Dizem que Simplício Pereira, guiado por um índio traiçoeiro, assassinou na Serra Negra, município pernambucano de Floresta, o chefe do Partido Liberal em Pajeú de Flores, o Cel. Francisco Barbosa Nogueira Paz.

O coronel Simplício casou duas vezes, primeiro com Ana Joaquina do Amor Divino (Dona Ana Nunes), falecida na fazenda Baixa Grande, em Jardim, aos 12 de junho de 1878, com origens na Casa da Torre, filha de Aniceto Nunes da Silva e de Antônia Lourenço Aragão. O segundo casamento foi com Cândida Firmino dos Santos, realizado no pátio da Fazenda Nascença, no arraial de Brejo dos Santos, freguesia de Jardim, adquirida em 1850. Sua permanência lá durou ao menos até 1858, quando foi batizada sua filha Maria Pereira dos Santos, fruto do segundo casamento, nascida em 02 de dezembro de 1858 e batizada no Sítio Brejo pelo padre Joaquim de Sá Barreto, vigário da vila de Barra do Jardim (atual Jardim - CE).

As histórias sobre Simplício Pereira, em seu tempo, são infinitas. O apelido de Peinha de Mão ocorria por ser um homem pequeno, porém o que lhe faltava em altura, sobrava em coragem e ousadia. "Conta-se que certa vez Simplício foi aprisionado por sete ou oito índios e um deles o levava nas costas amarrado. Por ser ele pequeno como a peia que se colocava nas patas dianteira dos cavalos no sertão, conseguiu soltar-se com uma faca que trazia escondida e cravou o índio, saindo em desembalada correria para a casa da fazenda, ali assediado de flechas, entrincheirou-se e matou os índios que o levavam preso".



CORONEL SIMPLÍCIO PEREIRA E O ALDEAMENTO DE JARDIM 



O texto abaixo tem como base as informações obtidas por Irineu Nogueira Pinheiro para o livro Efemérides do Cariri, de 1963. 

Mais de um século depois do descobrimento do Cariri pelo homem branco, continuava ali a luta entre o aborígene e os descendentes dos primitivos povoadores. 

Na primeira metade do século XIX, em Jardim, viviam Xocós e Huamães, remanescentes de suas tribos, a alimentar-se de caça e, também, já que esta não era bastante, de carne de gado alheio que encontravam no mato. Daí questões entre eles e os fazendeiros, que os assassinavam quando podiam, sem piedade. 

No Ceará, ou melhor, no Brasil sempre mataram índios como se fossem bichos do mato. 

Costumavam vender os indígenas jardinenses mel e cera de abelha, cujo dinheiro mal dava para comprarem fumo que muito apreciavam. 

Pretendeu o governo aldea-los, mas ele próprio reconhecia que a terra sem lagos e rios perenes não garantia pescarias constantes, e em virtude de verões prolongados e secas periódicas, não proporcionava caça suficiente às necessidades dos aldeados. 

Era impraticável o projeto, mas teimaram em realiza-lo. No caso de Jardim, ao erro do aldeamento juntaram outro imperdoável, qual o de encarregarem da execução da empresa o coronel Simplício Pereira da Silva, potentado de más entranhas, inimigo fidagal dos indígenas que ele matava como as feras em toda a parte em que os encontrava, usando para este fim da traição e de todos os meios, quaisquer que eles fossem. 

Por intermédio do major Manoel José de Sousa, do Coité, conseguiu Simplício entender-se com os indígenas e seu cacique. 

Não querendo este submeter-se ao aldeamento proposto, agarrou, de repente, o coronel Simplício, no meio da conversa, o couro do ventre do chefe índio, torceu-o com força entre o polegar e o índice de sua mão direita, dizendo-lhe num tom de imenso despeito e rancor: 

- E por que não te queres aldear, capitão velhaco? 

Em fúria, gritou o cacique ao coronel, apertando-lhe, violentamente, em revide, o couro da barriga: 

- Por que tu, também, és um capitão velhaco. 

Mas enfim, por ameaças ou por persuasão, ou o que é mais provável, por ambas as coisas, aldearam, após algum tempo, os indígenas jardinenses. 

Em 1845, uma grande seca atingiu a Província do Ceará. No ano seguinte, por falta de recursos, permitiram que os indígenas deixassem sua aldeia e fossem viver no mato, onde quisessem, à maneira de seus antepassados. 

Mantinha-se vigilante o ódio de Simplício Pereira. Passados poucos anos, um certo Félix, vaqueiro de uns dos sobrinhos e tutelados do coronel, matou a tiro de bacamarte ao mísero Cacique dos Xocós. 

Para caracterizar, mais uma vez, a prepotência e crueldade de Simplício Pereira, narraremos o seguinte episódio. 

Certo dia, numa de suas propriedades, em sua casa de morada almoçavam juntos, patriarcalmente, o coronel Simplício e alguns agregados seus. De primeiro, comiam, regra geral, à mesma mesa amos e moradores, a manejarem colheres e não facas e garfos, a rasgarem a carne assada com as mãos, a roerem ossos de galinha ou de criação, segurando-os com os dedos da mão direita, até tirar-lhes todas as fibras, a dentes. 

Sucedeu que, no meio do almoço do coronel, sacudiu fora, pela janela, um dos que estavam à mesa o osso que ele já descanara, de todo. Fê-lo, porém, o osso bater no coronel Simplício sentado à sua frente. 

Frio medo coou na alma do pobre homem que, logo, suspendeu a comida e se desfez em mil desculpas. Tremeram os que assistiram à cena e lhe previram o desfecho. 

Foi dura e inapelável a resposta do potentado: “Coma para depois morrer.” 

Mas qual a causa do ódio implacável de Simplício Pereira contra os indígenas de Jardim? 

Pelo ano de 1838, um tal João Antônio começou a pregar que, em Pedra Bonita ou Pedra do Reino, em dois rochedos ali erguidos, encantava-se o reino de El-Rei Dom Sebastião, de Portugal, falecido, havia séculos, em Alcacer Quibir, na África. 

Temerosos das consequências que lhes poderia proporcionar o fanatismo de Pedra Bonita ou Pedra do Reino, levados, talvez, também, por sentimentos de violência que lhes eram inatos, resolveram cinco irmãos da família Pereira, muito numerosa em Pernambuco, intervir o reduto dos fanáticos, prende-los ou mata-los. 

Na luta à mão armada, morreram dois dos irmãos. Juraram os três restantes vingar as vítimas em todas as circunstancias que lhes fossem propícias. 

Para cumprimento desse terrível voto foi que Simplício Pereira matou indígenas em Jardim, como se fosse caça do mato.



O Brejo é Isso!

por Bruno Yacub Sampaio Cabral


Fonte Bibliográfica

- NEVES, Venício Feitosa; O Patriarca, Crispim Pereira de Araújo "Ioiô Maroto"; Editora e Gráfica Real; Cajazeiras - PB; 2016;
- OLIVEIRA, Tomas Paoliello Pacheco de; Revitalização étnica e dinâmica territorial, Alternativas contemporâneas à crise da economia sertaneja; Contra Capa Livraria Ltda; Rio de Janeiro - RJ; 2012;
- SILVA, Otacílio Anselmo e, Esboço Histórico do Município de Brejo Santo, em revista Itaytera N° 2, Instituto Cultural do Cariri, Crato - CE, 1956;
- CABRAL, Bruno Yacub Sampaio; Dos Santos do Brejo ao Brejo dos Santos; Revista O Brejo; Ano 1; N° 1; 2019; Brejo Santo - CE;
- PINHEIRO, Irineu Nogueira; Efemérides do Cariri; Imprensa Universitária do Ceará; 1963;

sábado, 7 de março de 2020

O CAFÉ DE DONA DOFINA



Há lugares e pessoas que de alguma forma permanecerão muito vivos dentro de nós, mesmo que os anos passem e tentem embotar nossas lembranças. O Café de Dona Dofina ficava ali na Rua Intendente Lourenço Gomes, onde hoje é o Bar de Mororó, entre a Santa Teresinha e minha rua. Cresci ali, a partir dos braços de minha mãe, que me levava nas suas idas e vindas, para tomar um café descompromissado ou desfrutar de todos os banquetes de deleites que aquele lugar oferecia.

Era um cheiro sempre quente de bolos no forno, tachos fumegantes de doces que saía da cozinha, atravessava a sala, dançando pelas mesas, atravessando portas e janelas e tomando a rua.O lugar era a própria casa da senhora, já viúva e desde há muito empreendedora naquele mercado doméstico que povoava os gostos de toda uma gente, provavelmente já antes de 1950. Ajudada principalmente por Francisca, sua fiel escudeira, na execução dos temperos e ingredientes, caldeirões e colheres de pau, Dona Dofina executava sua alquimia do sabor, conquistando uma vasta e fiel clientela.

- Dona Dofina, me dê um pão com doce de leite e banana.

- Dona Dofina, eu quero uma cajuína gelada e um pão doce!

- Dona Dofina, a senhora já tem doce de mamão verde com coco?

- Dona Dofina, quero aquele torresmo que só a senhora sabe fazer?

- Dona Dofina, por acaso a senhora tem um bolo de puba e de bom-bocado?

- Dona Dofina, me conte o segredo desses seus bifes apimentados? Não me diga que é só a banha de porco e pimenta do reino...

- Dona Dofina, é verdade que a senhora usa pedra ume pra cortar o leite?

E estava ela ali, sorridente, mãos quentes, cabelos brancos e longos arrumados num coque, vestido folgado com bolsos fartos, para passar um troco, solícita, com sua mente bem viva. Sem egoísmo, não escondia seus segredos culinários - embora fosse difícil acertar o ponto de seus gostos, porque todas as suas medidas eram feitas no olho.

A velhice não lhe roubara a vivacidade, a alegria no rosto e o carinho com que recebia cada um. As crianças das redondezas estavam sempre a querer agradar a eleita avó de todos, levando-lhe rosas, bulgaris e outras flores certamente roubadas em algum jardim desvigiado, para lhe enfeitarem os santos; ou pimentas, de algum quintal conhecido, para compor seus molhos. Flores ou pimentas eram sempre recompensadas com uma guloseima. Quando a meninada era grande, sedenta feito formiga, ela nos afagava com um cheiro, afinal, a pobre não podia padecer daquele prejuízo.

O café já não existe mais. Dona Dofina nos deixou há tantos anos que nem sei mais. Alguns sabores daquela época nunca se repetirão do mesmo jeito. Vez por outra, quando minha mãe refaz uma receita de doce, de bolo, que leva um desses preciosos segredos por ela compartilhados, a gente volta a revisitá-la, guiados pelos sabores inesquecíveis e por doces saudades.

Porto Velho-RO, 07 de março de 2020.



Hérlon Fernandes Gomes

sábado, 29 de fevereiro de 2020

1939: O CANGACEIRO MORENO EM BREJO SANTO


A RUA DO JUÁ

E A CONSTRUÇÃO DO PRIMEIRO CAMPO DE AVIAÇÃO NA CIDADE



Durvinha e Moreno, 1936.
Imagem do filme de Benjamim Abrahão/ Imovision.


Por volta de 1939, fugindo de Tacaratu, em Pernambuco, os cangaceiros Moreno (Antônio Inácio da Silva), sua companheira Durvinha (Durvalina Gomes de Sá) e o cabra João Garrincha, depois de uma estafante caminhada, chegaram a Brejo Santo, onde esperaram o anoitecer para poderem se aproximar da casa do pai de Moreno, localizada na Rua do Juá (Rua Tiburtino Inácio), o trecho, na altura do Clube das Mães, temendo uma emboscada. Com o escurecer, Moreno se dirigiu a casa do progenitor e bateu na porta. De dentro da residência soou uma indagada voz:

- Quem é que está batendo na porta?

- É Antônio, pai!

O velho Manoel Inácio da Silva abriu a porta, se abraçou com o filho, o abençoando. Depois de conversarem por alguns minutos, os cangaceiros se dirigiram para outro local onde foram procurar uma dormida, longe dos casebres, na solidão da mata, na segurança do cobertor negro espalhado pela noite fria.

Um dos amigos de Moreno, um rapaz chamado Francisco, morador da famosa Rua da Lama, pediu pra acompanhar Moreno. O cangaceiro armou o rapaz, com um mosquetão e o jovem sumiu antes do amanhecer, levando a arma.

No período de tempo em que Moreno permaneceu em Brejo Santo, cometeu uma série de atrocidades, destacando-se a mais infanda, aquela em que um homem e uma mulher, moradores do Sítio “Imbuzeiro”, acusados de delação, foram, em represália, seviciados com requintes de perversidade. A mulher tivera a ponta da língua cortada com punhal, enquanto o homem fora castrado.

Enquanto isso, o então Interventor Municipal, José Matias Sampaio, recebera comunicado do Governo Estadual, o interventor Menezes Pimentel, orientando-o a construir um campo de aviação para receber o Chefe de Polícia e Segurança Publica.

Autoridades e curiosos foram assistir a chegada
do primeiro do avião em Brejo Santo.
Entre eles, o menino Edmar Alves de Lucena e seu pai,
Heráclito Alves de Moura (de terno escuro, logo atrás).
Foto: acervo de Edmar Alves de Lucena.

O “aeroporto” fora construído no Sítio Capoeiro, região entre os Sítios Pau D’arco e Malhada do Boi. Para a terraplanagem daquele “aeroporto” foram contratados centenas de trabalhadores, tarefa executada em tempo recorde, tendo sido toda custeada pelos cofres municipais.

O Secretário de Polícia e Segurança Publica o capitão Cordeiro Neto viria supervisionar os trabalhos do Comandante da tropa dos duzentos soldados, que para cá vieram para capturar o cangaceiro Moreno.

Notícia do jornal Diário de Notícias (RJ),
de 30 de junho de 1939.

O comandante Cel. Antônio de Oliveira, conhecido por Antônio das Coans, contava com a atuação policial competente do subtenente Alfredo Dias que, por sua vez, tinha para executar tarefas, no sentido do aprisionamento de Moreno, e de sua total confiança, os sargentos Germano e Arnou.

O sargento Arnou consegue chegar ao Sr. Pedro Antônio, portador de uma carta de Moreno a um fazendeiro, em cuja carta solicitava ajuda financeira, mas jamais aqueles soldados, sargentos, tenente, comandante conseguiriam prender Moreno, que conseguiu fugir para outras terras.

Toda perseguição a Moreno se dava apenas na zona leste da cidade, hoje o Bairro São Francisco, naturalmente, por aquela parte da cidade residir os pais e tios de Moreno.

Pois bem, o delegado da cidade soube rápido da chegada dos cangaceiros e enviou alguns soldados para a captura de Moreno. Os combatentes cercaram a casa de Manoel Inácio. Um dos guarnecedores se aproximou e foi dar uma volta nos arredores da residência, na intenção de ver se encontrava com Moreno. Ofuscado pela escuridão, outro soldado que fazia o cerco, viu na hora em que uma figura armada se aproximou da frente da casa e imaginando ser Moreno, disparou o mosquetão. O homem caiu. Atordoado pelo barulho do tiro, Manoel Inácio acordou, acendeu a lamparina e saiu gritando:

- Mataram meu filho! Mataram meu filho!

No meio da confusão, pela claridade difusa da lamparina, Manoel Inácio constatou que o morto não era seu filho. O soldado que havia realizado o disparo correu para averiguar a presa abatida e tamanha surpresa, chorou a tragédia onde tombara um dos amigos de farda e por esse crime, na ânsia de tornar-se herói, teria que prestar contas como afoito e bisonho, ofuscado pela noite, sendo traído por seus reflexos de guerrilheiro.

O policial morto pelo “fogo amigo” tratava-se do soldado Oliveira e este namorava Geralda Simplício, Professora da cidade.

Ao amanhecer, Moreno se dirigiu a cidade, encontrando no caminho, com um colega que havia estudado com ele. O amigo relatou o que tinha acontecido na noite anterior, pedindo para que ele não seguisse na direção da casa do pai, pois corria o risco de ser morto ou preso e, ainda, por seu pai já ter saído da cidade, temendo represálias por parte da polícia. Moreno então agradeceu a informação e ganhou as caatingas, retornando “pras Alagoas”.







Dedicamos esse artigo aos filhos e demais descendentes de Moreno e Durvinha, em especial a querida amiga Nely Maria da Conceição (Lili) e aos parentes em Brejo Santo.

O Brejo é Isso!

Bruno Yacub Sampaio Cabral

Referência Bibliográfica

- LIMA, João de Sousa; Moreno e Durvinha, Sangue, amor e fuga no cangaço; Editora Fonte Viva; Paulo Afonso – BA; 2007;
MACÊDO, Lenira; Juarez: Questão de honra, coragem e missão; Expressão Gráfica Editora; Brejo Santo – CE; 2009;
- ARAÚJO, Francisco Alves; Veredas do chão nativo; Brejo Santo – CE; 2003;
- SILVA, Otacílio Anselmo; Esboço Histórico do Município de Brejo Santo; em Itaytera, N° 2; Crato – CE; 1956;
- Jornal Diário de Notícias; Anno X; N° 5114; Rio de Janeiro (RJ), 30 de junho de 1939; pág. 2.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

QUEIMADA DO MEIO: A HISTÓRIA DO POVOADO DE SÃO SEBASTIÃO EM BREJO SANTO-CE

    A história da formação da povoação de São Sebastião, em Brejo Santo - Ceará é contada através da sabedoria popular, passada entre as gerações e esta tradição oral ainda hoje é presente.

Antigas veredas da Queimada do Meio,
Vila São Sebastião,
Brejo Santo - CE.

Povoado de São Sebastião. Fonte: Google Earth.
    
    Na primeira metade do século XIX, a colonização das margens do Riacho dos Porcos, desde sua nascente, em Jardim, até o encontro com o Rio Salgado, em Quimami, já tinha iniciado, tanto pelo "Sertão de Fora" (pela colonização baiana), como pelo "Sertão de Dentro" (pela colonização pernambucana).
    No território onde hoje se encontra o município de Brejo Santo, existiam currais de gado cavalar e vacum, tanto na região do Poço e Canabravinha, como também na região próxima ao sopé da Chapada do Araripe, chamada de Nascença. Foi por conta das estradas de acesso aos Cariris Novos que passavam pelo pátio da Nascença, a razão pelo início da ocupação urbana naquela área.
    Pois bem, devido ao flagelo da calamitosa seca que assolou o nordeste brasileiro entre 1877 e 1879, Inácio Pereira da Silva e sua prole deixaram a vila de Sousa, na província da Paraíba e foram para a vila de Santo Antônio de Jardim (hoje Jardim-CE), de onde por conta de conflitos políticos, foram embora para o sítio Baixio do Couro (hoje Penaforte-CE) e posteriormente pediu guarida ao coronel Domingos Leite Furtado, este chefe político da vila de Milagres, acolhendo Inácio Pereira e sua família em uma de suas propriedades, localizada no sítio Ludovico, às margens do Riacho Tamanduá, hoje região de fronteira entre os municípios de Brejo Santo e Milagres.
    Foi devido à orientação do próprio Cel. Domingos Furtado, que Inácio Pereira comprou uma parte de terra localizada aproximadamente a uma légua do distrito de Brejo dos Santos, existindo no centro da propriedade uma grande clareira, local onde era comum a prática de queimadas de Angicos (Anadenanthera colubina) para a retirada de uma das matérias-primas para confecção de sabão, o local era conhecido como a Queimada do Meio, próximo ao Riacho Porteiras.

Antiga ponte sobre o Riacho Porteiras.
    
    Na Queimada do Meio, a família se instalou e começou a labuta na propriedade com criações e cultivo da terra. Chegaram a construir um açude, que hoje serve como atrativo de recreação e lazer para a comunidade. Inácio era devoto de Santo de Antônio e sempre fazia questão de comemorar sua devoção, participando de novenários e os festejos eram sempre animados com banda cabaçal. Na Vila São Sebastião, a tradição da cultura popular ainda se encontra viva e pujante, através da banda cabaçal Mestre Elias Rosinha, com mais de sessenta anos de atuação.

Banda Cabaçal Mestre Elias Rosinha.
Foto: Seculte Brejo Santo. 

    Inácio Pereira da Silva foi assassinado numa Semana Santa, por lavradores que estavam trabalhando em sua roça, na Queimada do Meio, no ano de 1877. Após o final de mais um dia árduo na lavoura, tentando tirar da terra seca, dura e judiada pela mais devastadora seca da história do Brasil, alimentos para abastecer sua família, Inácio precisou voltar a plantação e quando lá chegou, deparou com os mesmos trabalhadores colhendo, sem seu consentimento, as poucas vagens de feijão brotadas no meio daquela sequidão. Inácio então tentou dar voz de prisão aos saqueadores, porém, estes partiram para atacar Inácio, matando-o. Neste ínterim, os filhos de Inácio ao perceberem que já tinha passado o horário do pai estar em casa, vão a sua procura e o encontram morto no meio da roça, junto aos assassinos: eram dois homens e uma mulher. Como vingança, os filhos de Inácio matam os dois homens no mesmo local e escalpelam a mulher, que também participou da morte do pai. Tanto Inácio, quanto os seus assassinos foram enterrados na mesma roça, local do fatídico fim do patriarca povoador da Vila São Sebastião.
    Em 1977, em memória do centenário da morte de Inácio Pereira da Silva, seus descendentes decidem construir um cruzeiro no mesmo local de sua morte e descanso final.









   Foram seus filhos: José Inácio da Silva, Joaquim Inácio da Silva, Antônio Inácio da Silva, João Inácio da Silva, Francisco Inácio da Silva, Manoel Inácio da Silva, Francelina Inácio da Silva, Josefa Inácio da Silva, Francisca Inácio da Silva, Antônia Inácio da Silva e Maria Inácio da Silva.

    Com o passar dos anos, em 1927 houve um grande surto de doença misteriosa, que vinha dizimando a comunidade. Os filhos e netos de Inácio Pereira apavorados, fizeram seus rogos: "Se aquela epidemia fosse embora, a família pagaria a promessa instalando um quarto de oração, em agradecimento a São Sebastião".
    A epidemia cessou e a comunidade começou a chamar de milagre, se mobilizando para o pagamento da promessa. O Vigário da Paróquia Sagrado Coração de Jesus na época, era o padre Raimundo Nonato Pita. Este, além de aprovar a ideia, convenceu a comunidade a construir uma capela no mesmo local da antiga casa de Inácio Pereira, sendo São Sebastião seu patrono, com sua primeira missa realizada em 20 de janeiro de 1930 pelo padre Pedro Inácio Ribeiro.

Aspecto da antiga capela de São Sebastião.

Aspecto das tradicionais festas do padroeiro, no povoado de São Sebastião.
    
    A partir da religiosidade do povo do lugar, ao passar dos anos, foi mudando a denominação de sítio Queimada do Meio para sítio São Sebastião.
    Já é hábito que, quando citamos o povoado de São Sebastião, chamamos de “Vila de São Sebastião”, erroneamente. Legalmente, o "São Sebastião" ainda possui a denominação de “Sítio” ou “Povoado”, pois até o momento, nunca houve projeto de lei que o elevasse a categoria de Vila.
    Assim se formou a comunidade de São Sebastião, em Brejo Santo-CE.

O Brejo é Isso!

Por Bruno Yacub Sampaio Cabral





Aspecto atual da comunidade São Sebastião, Brejo Santo - CE.













Registros dos 90 anos da Festa de São Sebastião, janeiro de 2020. 
Acervo Francélio Cardoso.






Referências:

- Vila São Sebastião, Seu Povo e Sua História; Jovens Felizes em Cristo (J.F.C.); Brejo Santo, Ceará; 2007;
- Entrevista com Pedro José Lino (Pedro Juca), bisneto de Inácio Pereira da Silva, em janeiro de 2023.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

O IMPORTANTE PAPEL DAS MULHERES NO FOGO DAS GUARIBAS


FOGO DAS GUARIBAS – 93 ANOS

01.02.1927 – 01.02.2020


No Fogo das Guaribas só havia duas mulheres dentro da casa grande do Tenente-Quartel-Mestre da Guarda Nacional, o coronel Francisco Pereira de Lucena, Chico Chicote: Dona Geracina Gomes da Silva, esposa, e Josefa Inácio de Lucena (Zefinha), sua filha. Nenhuma serviçal da casa estava na hora; aquelas duas tiveram importante papel no decorrer do tiroteio que durou 31 horas.

Geracina Gomes da Silva, esposa de Chico Chicote.
Fonte: Acervo família Lucena.

Josefa Inácio de Lucena, filha de Chico Chicote.
Fonte: Acervo família Lucena.
Chico Chicote atirava com vários rifles e fuzis a seu dispor: dona Geracina e a filha foram encarregadas de os municiarem. Chico Chicote só atirava! E de tanto atirar, os armamentos ficaram com os canos incandescentes. As duas mulheres foram também encarregadas da refrigeração dos armamentos em latas de água, ali postas para isto, possibilitando a Chico Chicote, seu filho Vicente Inácio de Lucena (Vicente Chicote) e os cabras Mané Caipora e Sebastião Cancão, atirarem continuamente, como se fossem muitos defensores. Elas foram poupadas da morte, e presenciaram a bárbara morte do chefe da família.

Não houve tempo de se alimentarem. Somente a luta tenaz e a resistência heroica estavam na agenda daquele pequeno grupo de quatro homens e duas mulheres, sustentando um fogo desigual contra policiais de três Estados. Nunca se viu coisa igual antes! Guaribas jamais será repetida, porque Chico Chicote morreu!

Por Bruno Yacub Sampaio Cabral

O Brejo é Isso!



Fonte bibliográfica:

- NEVES, Napoleão Tavares; Cariri – Cangaço, Coiteiros e Adjacências, Crônicas Cangaceiras; pág. 62; Editora Thesaurus; Brasília – DF, 2009;

- Diário Oficial dos Estados Unidos do Brazil; Ano XXXVII – 10° da República – N° 309; 15 de novembro de 1898; pág. 3872.